Saí Guaçu: A Itapoá do outro lado do rio

Augusta Gern

Um pedacinho de Itapoá perdido entre as duas cidades vizinhas. É assim que podemos definir a comunidade rural Saí Guaçu, mais conhecida como “do outro lado do rio”. Mesmo centenária e guardando uma bela fatia da história da cidade, esta comunidade é pouco conhecida pelos moradores do município itapoaense.

Para se chegar até lá é preciso atravessar as fronteiras da cidade: pegar a estrada Cornelsen, atravessar o Posto da Polícia Rodoviária Estadual e, sentido Guaratuba à Garuva, andar cerca de 4,5 kms pela rodovia SC 412. Do lado esquerdo da via, uma tímida e não sinalizada entrada indica para uma estrada de chão; são mais 2 kms até chegar ao destino.

A recepção logo mostra suas belezas naturais. Para entrar na comunidade é preciso atravessar o rio Saí Guaçu, que divide os estados catarinense e paranaese, as cidades de Itapoá e Guaratuba. Depois da ponte, são poucas as construções: a igreja centenária Sagrado Coração de Jesus, o galpão da igreja, o cemitério, uma casa e uma chácara aos fundos. Hoje apenas essas cinco construções preenchem o espaço que há alguns anos contava com 33 famílias moradoras.

Natural da comunidade, Izabel Maciel dos Santos, 76 anos, é a única que ainda permanece no local. Apesar de não morar mais no Saí Guaçu, é responsável pela igreja e passa a semana cuidando do espaço junto com o marido Vicente dos Santos, 77 anos. Conforme ela, a comunidade foi fundada por portugueses, que chegaram ao local há mais de 150 anos. “As famílias vieram todas juntas e desembarcaram no rio Palmital”, conta Izabel, neta de portugueses.

Ali sempre viveram da pesca e mandioca: “Tínhamos 16 engenhos de farinha aqui na comunidade”, afirma. Hoje, não há nem vestígio de construções. Da mesma forma não há vestígios de todas as casas lembradas por Izabel, apenas o cemitério registra todas as famílias que já passaram por ali. “Com o tempo as novas gerações foram escolhendo outros lugares para morar, com mais infraestrutura”, afirma. A energia elétrica, por exemplo, chegou ao local há apenas dois anos.

E com toda essa falta de estrutura, a comunidade ficou abandonada por 36 anos. Só ganhou vida novamente há 20 anos, quando Izabel e o marido resolveram cuidar do espaço em função da igreja. “Tudo que faço é por Deus e por esse paraíso, amo este lugar”, afirma Izabel.

O principal passo para dar vida à comunidade foi recomeçar a tradicional e centenária festa do padroeiro, realizada em todo o primeiro domingo de junho. Izabel conta que a festa já ultrapassa os 150 anos e só não aconteceu durante os 36 anos que a comunidade ficou abandonada, fora isso, é uma data sagrada e reúne centenas de pessoas. “Neste ano a festa estava muito cheia, muito bonita”, conta. Tainha recheada, galinha assada, churrasco e muita cuca foram o chamariz do evento.

A festa é a data onde mais reúne pessoas na comunidade, fora isso são alguns visitantes esporádicos ao cemitério ou alguns turistas que procuram o refúgio para encher o balde com peixes do rio Saí Guaçu. Conforme Izabel, a falta de interesse, recursos e conhecimento da região a fazem uma comunidade muito pacata, mas há muito para se encantar por lá, como ela chama de “seu paraíso”.

Matéria publicada na Revista Giropop – Edição 20

 

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