Rio Saí Mirim: Um traçado sobre o manancial que abastece o município

A Revista Giropop acompanhou todo o trajeto da área rural do Rio Saí Mirim, manancial para captação de água de Itapoá, que percorre 42,8 km do município. Através desta experiência, abordamos temas como a conservação e proteção da água, desenvolvimento correto dos recursos hídricos e medidas para resolver problemas relacionados à poluição.
Nesta aventura, fomos acompanhados por Enio Dambrós. Criado em lavoura, ele foi técnico de agrícola da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) durante quatro anos. Há sete anos Enio também participou do projeto de uma exposição fotográfica itinerante do Rio Saí Mirim, e realizou parte do percurso do rio de barco, durante uma semana, na companhia de dois profissionais. Pela colaboração nesta matéria, nossos agradecimentos a este grande conhecedor da área rural de Itapoá.

saimirim1-22
Enio Dambrós, nosso guia turístico pela área rural do Rio Saí Mirim.

Há quem diga que Itapoá se assemelha a uma ilha, cercada por água de todos os lados, já que está inserida entre ecossistemas extremamente frágeis: o marítimo e o fluvial. A rede hidrográfica de Itapoá é formada por importantes rios, também a nível regional, como o Rio Saí Mirim, localizado no extremo norte do município, que abriga expressiva biodiversidade e oferece atrativos naturais de beleza incomum, além de ser o manancial para captação de água para o abastecimento da população.
A bacia hidrográfica deste rio é considerada de maior influência e presença no município por possuir diversos corpos d’águas, curvas e vertentes que irrigam Itapoá.
De acordo com o relatório “Incursão ao Rio Saí Mirim”, proposto pelas entidades ambientalistas ADEA, Associação de Proteção da Reserva do Mangue de Itapoá (APREMAI), Fundação Pró-Itapoá e Vida Preservada, o Rio Saí Mirim e a respectiva bacia hidrográfica abrange uma área de contribuição hídrica de 177,10 km² e perímetro de 77,26 km, nos municípios catarinenses de São Francisco do Sul, Garuva e Itapoá. Outra característica da bacia, conforme o Plano Municipal Integrado de Saneamento Básico (PMISB) do município, fornecido pela Prefeitura Municipal de Itapoá, é que mais de 70% de sua área está localizada na zona rural do município.
Começamos nosso roteiro nas nascentes do Rio Saí Mirim, na sua maioria, situadas nos limites de São Francisco do Sul, ao lado direito do topo mais alto da estrada que leva a Vila da Glória, pelo asfalto da SC 416. Lá de cima, é possível avistar parte do mar de São Francisco do Sul (localizado a, aproximadamente, 4 km de distância do local), e morros por todos os lados.
Acompanhando o fluxo do rio, descemos um pouco e encontramos o primeiro ponto turístico que se beneficia de uma vertente do Rio Saí Mirim: a cachoeira da Serrinha.

Partindo da sua nascente, a cachoeira da Serrinha é o primeiro
ponto turístico que se beneficia de uma vertente do rio.

Mais a frente, na comunidade Cristo-Rei, há também a Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (CASAN) do município. Enio explica que, através de travessia subaquática pela Baía da Babitonga, a empresa recalca parte da água do rio para São Francisco do Sul. No local, é possível observar uma pequena barragem com filtro utilizada pela CASAN para retirar as impurezas da água. Partindo dali, fica difícil avistar o rio pela estrada, mas, por trás das árvores, todos os canais de água vão se encontrando para dar forma ao Rio Saí Mirim.

A CASAN, através de travessia subaquática pela Baía da Babitonga,
recalca parte da água do rio para São Francisco do Sul.

No caminho, é possível observar diversas espécies de Guarapuvu, árvores frondosas, utilizadas antigamente na fabricação de canoas – hoje, muito raras e protegidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (IBAMA).

saimirim12-15

Já na comunidade do Saí Mirim, boa parte das terras se trata de mata preservada, onde moradores e produtores obtiveram o seu cantinho para residir e produzir alimentos.
Próximos e localizados na Estrada Geral do Saí Mirim, podemos observar outros pontos turísticos, como a Cachoeira do Casarão, cuja água, segundo moradores locais, vem do Rio do Meio, um afluente (rio ou curso de águas menores que desaguam em rios principais) do Rio Saí Mirim, e espaços para pesque-pague, como o Pesque-pague Ledoux e a Chácara Jacaré. De acordo com Enio, os locais de pesque-pague não se beneficiam diretamente do Rio Saí Mirim, mas de suas vertentes exclusivas.

Pelo caminho, é possível avistar diversas plantações de banana, arroz, palmito, aipim, além de áreas de reflorestamento.

À esquerda, a Cachoeira do Casarão. Já à direita, o
Pesque-pague Ledoux (acima) e a Chácara Jacaré (abaixo).

Pelo caminho, conhecemos Paulo Martimiano Dias, 67 anos, nascido e criado na comunidade do Saí Mirim, e secretário de finanças do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Itapoá. Sua casa fica localizada próxima ao rio Água Branca, outro afluente do Rio Saí Mirim. Em sua casa há também um açude construído por ele, abastecido com água de uma vertente, conduzida por 1470 metros de mangueiras que captam a água por detrás do morro. No açude, Paulo cria jundiás, carpas, tilápias e outros peixes para consumo próprio.

“Hoje, quase ninguém da área rural aproveita a água do rio, com exceção, talvez, dos pescadores. Também percebo que o volume de água está menor que era em minha infância”, fala o morador da comunidade do Saí Mirim, “em compensação, podemos beber a água do rio de qualquer ponto, pois sua qualidade permanece a mesma”.

saimirim17-25
Paulo Martimiano Dias, nascido e criado na comunidade do Saí Mirim,
nos levou até o Rio do Meio, outro afluente do Rio Saí Mirim.

Através de um caminho por trás de sua casa, Paulo nos levou a um trecho do Rio Saí Mirim, onde desagua o Rio do Meio, ou seja, onde se encontram todos os afluentes da Cachoeira do Casarão. No caminho, nos contou uma de suas lembranças relacionadas ao rio: “Antigamente, ia de carroça até a ponte antiga (localizada no asfalto da SC 416), levava mercadorias para colocar nas canoas, e navegava até a foz do Rio Saí Mirim para chegar lá e trocar as mercadorias por peixes” – hábito comum dos produtores na época.

Rio do Meio, outro afluente do Rio Saí Mirim e a ponte velha (localizada no asfalto da SC 416), onde moradores deixavam as carroças para partirem de canoa até a foz do rio.

Após as comunidades de Cristo-Rei, em São Francisco do Sul, e Saí Mirim, em Itapoá, chegamos à comunidade do Braço do Norte, também em Itapoá. Lá, visitamos Laura Fernandes Gerker e Luis Francisco Gerker, o Loli – uma das primeiras famílias de moradores da comunidade. Sua casa fica localizada a aproximadamente 12 km da nascente do Rio Saí Mirim, e bem em frente a um afluente do rio, que, segundo ele, é chamado de Rio Lamim.
Aos 79 anos de idade, Loli, que foi nascido e criado na vila do Braço do Norte, conta que foi lá que viu seus dez filhos crescerem e mostrou aos seus netos a alegria de se viver junto à natureza. Na casa de Loli e Laura, a água límpida vem diretamente de uma vertente do rio e tem sabor muito agradável. O casal explica que, próximo a sua casa, cruzam três rios afluentes do Rio Saí Mirim: “o Rio Batuvi, mais acima, o Rio Lamim, bem atrás de nossa casa, e o Rio Braço do Norte, mais abaixo”.
De acordo com Enio, é na comunidade do Braço do Norte, em Itapoá, que se encontram a maior parte cultivo de arroz, as chamadas arrozeiras. Presentes em boa parte do percurso, elas são abastecidas com águas de nascentes do Rio Saí Mirim. “As arrozeiras armazenam, reutilizam a água e despejam-na para dentro o rio. Como a água desce lentamente, ela não desperdiça nutrientes da água. Além disso, o arroz necessita de água e sol, elementos que temos em abundância, e é um alimento de baixo custo e sustentável, que pode ser produzido apenas usufruindo da natureza”, fala Enio.

Na casa de Laura Fernandes Gerker e Luis Francisco Gerker (o Loli), a água, diretamente de uma vertente do rio, tem sabor muito agradável.

Apesar de o trecho do Rio Saí Mirim ser o mais longo do percurso, é o trecho do Rio Braço do Norte que possui maior volume de água, pois apresenta maior área de captação, ou seja, é o que mais beneficia e fornece água para o município de Itapoá.
O Rio Braço do Norte é um divisor de águas, pois separa duas vertentes do Rio Saí Mirim: o Braço do Norte, pertencente ao município de Itapoá, e o Bom Futuro, pertencente ao município de Garuva. “Porém, essa divisa chega a ser quase imaginária, pois as duas regiões são muito próximas e semelhantes”, diz Enio.
Logo atrás dessa divisa, ele nos conta que há belos morros e uma mata fechada com fauna relativamente preservada, com a presença de animais silvestres, como bugios, onças parda, catetos (porcos do mato), quatis, iraras, lontras, tatus, jaós, jacus, arapongas e outras tantas espécies.

Na comunidade do Bom Futuro, Alcides Vieira é um dos produtores de arroz de Garuva, plantando cerca de 80 hectares. Ele conta que, somado às produções de outros moradores, as águas de, aproximadamente, 220 hectares de plantações de arroz fazem parte da bacia hidrográfica do Rio Saí Mirim. Próximo ao asfalto da SC 416 já é possível avistar a imensidão de arrozeiras dos produtores de Garuva e o sistema de passagem da água pela mesma, que desagua no Rio Saí Mirim.

saimirim24-35
Ao fundo, uma das plantações de arroz que
fazem parte da bacia hidrográfica do rio.

Da área rural para a cidade

Por fim, deixando as localidades do Braço do Norte e do Bom Futuro, atravessamos o asfalto da SC 416 para chegarmos à outra comunidade: o 1º de Julho, em Itapoá, popular pelo Pesque-solte 1º de Julho e pelo Centro de Tradições Gaúchas, o CTG.

À direita da porteira do CTG, ao final da Estrada Geral da Serrinha da comunidade rural 1º de Julho, está localizada a Estação de Tratamento de Água (ETA) da Itapoá Saneamento. Trata-se do segundo ponto (ETA 2) de captação que bombeia água bruta para o tratamento – o primeiro ponto (ETA 1) fica localizado ao final da Rua 650, no Balneário Brasília, e o terceiro ponto (ETA 3) fica localizado ao final da Rua 1000, no Balneário Jardim da Barra. Todos os três pontos estão localizados na extensão do Rio Saí Mirim.

Em uma das Estações de Tratamento de Água (ETA) da Itapoá Saneamento, conhecemos o processo de captação d’água bruta para o tratamento.

Elimar Althaus Monte Raso, operador da ETA 2, nos explica que a empresa capta água no Rio Saí Mirim e trabalha 24 horas por dia para manter a qualidade da água, que é distribuída para toda a população itapoaense. Lá, a água do rio é filtrada e tratada para ser enviada às casas do município, com o pH (potencial hidrogeniônico) de 6,5 a 7 – considerado neutro. A poucos passos da ETA 2, chegamos até o trecho onde o Rio Saí Mirim e o Rio Braço do Norte se encontram; também é lá que estão a bomba e a barragem para que a Itapoá Saneamento envie água para toda a cidade.
Para Andressa Ritter Vaz, assessora de comunicação da Itapoá Saneamento, a empresa compreende que o Rio Saí Mirim é de fundamental importância para o município de Itapoá, uma vez que é deste manancial que se retira a água in natura que é tratada nas ETA’s, para se tornar potável e própria para o consumo humano e ser distribuída para a população local. Além disso, Andressa explica que os pontos de captação de água são monitorados regularmente e realizadas análises da qualidade da água do rio periodicamente, a fim de garantir a eficácia do processo de tratamento da água, garantindo assim a distribuição de água potável com qualidade, quantidade e continuidade.

“O plano da Itapoá Saneamento é consolidar o pleno abastecimento de água para o município, com a finalização da implementação do novo sistema produtor de água, projetado já prevendo o crescimento populacional e, principalmente, o aumento de consumo nas temporadas de verão”, fala a assessora de comunicação da empresa.
Como parte do projeto do sistema produtor, a Itapoá Saneamento está em fase de elaboração de um projeto para nova captação de água bruta, que partirá do Rio Saí Mirim e terá um espaço destinado para ações socioambientais. Também está em andamento o projeto para implantação do esgotamento sanitário, que prevê a universalização da coleta, afastamento e tratamento de todo esgoto gerado pela população do município.
“A Itapoá Saneamento vem trabalhando intensamente para resolver o problema de falta de água no município durante a temporada. Um grande passo foi dado neste verão, onde foi reduzido significativamente as ocorrências de falta de água com a implantação do novo sistema produtor, mesmo em regime de operação emergencial”, explica Andressa, “ainda há muito o que se fazer, mas com dedicação da equipe técnica e investimentos isso será possível”. Para contribuir com o trabalho da Itapoá Saneamento, os moradores podem fazer a sua parte ajudando na preservação do manancial e seu entorno, não jogando lixo e não poluindo o rio.
Chegando ao destino final da área rural do município, concluímos que o Rio Saí Mirim, se tratando de sua localidade rural, ainda não sofreu grandes impactos ambientais, tem sua flora e fauna preservada e beneficia quase que exclusivamente a população urbana de Itapoá, oferecendo a ela água tratada. Apesar de tamanho benefício, muitos acreditam que esta região possa ser ainda mais explorada e preservada.

“Precisamos pensar em proteger o macro, não o micro. Um bom exemplo é o de que precisamos proteger a onça, nosso maior predador selvagem, pois, para que ela sobreviva, teremos de proteger a mata como um todo, incluindo outras espécies e, consequentemente, protegeremos o Rio Saí Mirim”, diz Enio.

Para ele, o nosso guia turístico desta pauta, o Rio Saí Mirim é uma bênção e a natureza é perfeita, mas nós, seres humanos, devemos realizar ações contínuas, monitoramentos e programas ambientais para mantê-los preservados e conservados.
Ademais, Enio também acredita que essa região possua grande potencial para turismo ecológico, como trilhas, a fim de educar e integrar a população itapoaense e visitantes dentro da história do próprio município. E finaliza: “educação ambiental não são palavras, mas atitudes”.

Ana Beatriz Machado
Matéria publicada na Revista Giropop Edição 51

Anúncios