Debaixo da farda de um policial militar

Os policiais, antes mesmo de serem profissionais, também são seres humanos, pessoas comuns. É preciso lembrar que eles têm necessidades, desejos e defeitos. Assim como todas as outras pessoas, os policiais têm medo, se sentem ameaçados e, mais do que isso: Eles também têm uma família.

Por um mundo humanizado e com mais amor, no mês dos namorados, entrevistamos dois policiais militares de Itapoá e suas esposas. Os casais contam suas histórias de amor e falam sobre a força e união da família dentro e fora de casa. Para as esposas, uma vez que se casa com um policial militar, todos na casa também acabam assumindo um compromisso com a polícia.

Guardados pelas mãos de Deus

3Casal Rafaela Mendes e Jeferson Luís de Araújo Silva.

No município de Apucarana – PR, Jeferson Luís de Araújo Silva vivia o sonho de ser um policial militar. Na infância, participou de um projeto social chamado Guarda Mirim, o que despertou seu interesse pela área. Após o projeto, fez proezas para servir o Exército Brasileiro, e cumpriu o dever com felicidade.
Em 2004, conheceu Rafaela Mendes e começaram a namorar. Ele era cabo do exército e ela estudante. “Desde que nos conhecemos, ele sempre comentou do sonho de se tornar policial”, ela conta. Quando ele deixou o Exército, em 2007, os dois se casaram. Oito meses depois, Jeferson prestou Concurso Público para a Polícia Militar e foi aprovado.
Em busca de qualidade de vida, no ano deem 2008, o casal deixou o município de Apucarana e se mudou para Balneário Camboriú – SC, onde Jeferson se apaixonou ainda mais pela carreira de policial militar. Para a esposa, o receio por conta da profissão foi algo inevitável, mas o orgulho foi ainda maior. “Sempre senti muito orgulho dele. Acompanhei este sonho desde o início e estive presente quando se tornou realidade. Fiquei feliz, pois ele também estava feliz e realizado profissionalmente.”, fala Rafaela.
Depois de três anos residindo e trabalhando em Balneário Camboriú, ele pediu transferência para Itapoá e, em um mês, o casal se mudou. No município, Jeferson, que já havia realizado o sonho de se tornar policial militar, pôde realizar o sonho de ser pai. “Depois do nascimento do meu filho, algumas situações se tornaram ainda mais difíceis e passaram a exigir muito mais. Hoje, é impossível atender a uma ocorrência envolvendo criança e não imaginar o meu filho”, diz.
Embora muitas pessoas desconheçam, quando uma pessoa escolhe a Polícia Militar, toda a família tem mudanças na rotina. Por motivos de precaução e segurança, o casal e o filho evitam irem a lugares muito tumultuados, onde não estejam com outros amigos policiais. “Infelizmente, nós, policiais, somos alvos dentro e fora do serviço. Precisamos garantir a integridade de nossa família, especialmente em uma cidade pequena como a nossa, onde a maioria das pessoas se conhece”, explica Jeferson.

4Apaixonados por música, Rafaela e Jeferson
se divertem cantando e tocando.

Nos passeios em família, são tomadas algumas medidas de segurança. Quando vão a um restaurante, por exemplo, automaticamente, Rafaela e o filho já sabem qual cadeira deixar reservada para Jeferson. Apesar de ter a escala de serviço, ele afirma que a função de um policial vai muito além do horário cumprido: “Mesmo nos dias de folga, é impossível assistir a alguma situação e simplesmente ignorar”.
Também é preciso estar atento e selecionar as amizades. “As pessoas acham que os policiais se utilizam da farda para obter benefícios, mas são elas quem se aproximam achando que terão benefícios com um amigo fardado”, fala a esposa Rafaela. Jeferson acredita as amizades se constroem no âmbito militar e com pessoas que verdadeiramente tiveram afinidade, não por algum interesse.
Em seus oito anos de Polícia Militar, ele conta que já passou por inúmeras situações em ocorrências. Com o passar do tempo, além do trabalho nas ruas, o aprendizado também foi dentro de casa: aprendeu a filtrar as informações, para que a energia do ambiente familiar não fique pesada. A esposa também passou a interpretar seus sinais: “Quando ele chega do serviço, sua expressão diz se está enraivecido ou frustrado. Ele passa um tempo quieto, no seu canto. Depois, quando se sente à vontade, conversamos sobre o que aconteceu”. Para o profissional, o pior sentimento é a frustração, quando sente que poderia ter feito algo a mais ou agido de outra maneira em um determinado momento.
Muito se espera e é exigido desta profissão. Em sua opinião, Jeferson diz que eles recebem muito pouco – não financeiramente, mas reconhecimento. “Alguns dizem que policial ganha pouco dinheiro, mas qual é o valor de uma vida ou de um risco que se corre? Não existe valor bom ou ruim para isso. Precisamos mesmo é de melhores condições de trabalho e reconhecimento”, relata.
Diante de comentários negativos relacionados ao trabalho da Polícia Militar, Rafaela vai à defesa do esposo e de seus colegas de trabalho. “Vejo meu marido ir trabalhar todos os dias, disposto a encarar qualquer tipo de situação. Quando ele volta, eu lavo a sua farda, muitas vezes manchada de sangue. Por isso, fico revoltada toda vez que escuto ou leio comentários dizendo que a polícia não trabalha. Dói muito.”, afirma ela, que reza todos os dias por Jeferson.
Porém, apesar dos riscos e dificuldades, o policial militar é apaixonado pelo que faz. “Nossa profissão é muito característica e única. Somente quem vive ou convive com um policial tem noção da responsabilidade carregada.”, diz Jeferson. Longe da farda e da sirene da viatura, além de curtir a família, ele gosta de passar horas em seu estúdio, que criou dentro de casa, na companhia de instrumentos e notas musicais. Jeferson também joga futebol, participa da associação dos músicos de Itapoá, de um grupo de amigos apaixonados por moto e canta na igreja com a esposa.
Hoje, o casal aguarda a vinda do segundo filho, prevista para o mês de julho. O primeiro filho tem três anos de idade e já compreende as necessidades da profissão escolhida pelo pai. “Desde criança, fomos inserindo na cabecinha dele que o pai não tem hora para voltar do trabalho e que lida com situações muito perigosas.”, conta a mãe. O pequeno tem um boneco militar, que diz ser o pai. Em suas brincadeiras, ele é representado como um herói, que ajuda as pessoas e combate o mal.
Dentro de casa, o casal faz uso de alguns códigos para se comunicar e, quando o assunto é mais sério, Rafaela o chama de Araújo Silva, seu nome de guerra. Segundo eles, quando alguém casa com um policial militar, está assumindo um compromisso com a polícia. O juramento “com o risco da própria vida” não é feito apenas pelo PM. Em cada nova operação, a família se sente unida, correndo riscos e com o medo de perder o “herói” das brincadeiras. “Mas acreditamos que somos guardados pelas mãos de Deus”, afirmam.
Jeferson diz que, se hoje está na Polícia Militar e ama sua profissão, o mérito é de Rafaela, que lhe apoia, incentiva e é o seu braço direito. Todos os dias, quando vai trabalhar, beija o filho, a esposa e sua barriga. Ele evita sair de casa brigado: “Como posso oferecer o meu melhor para a família dos outros se não ofereci o meu melhor à minha família?”. Para ele, melhor do que um dia de trabalho com ocorrências de sucesso, é saber que tem uma “corporação” em sua casa, rezando e esperando por ele.

Relação de força e  cumplicidade

7O casal Cristiane Hemckemaier e Cristiano Rodrigo Hemckemaier

Natural de Três Barras – SC, Cristiano Rodrigo Hemckemaier estudou em um colégio agrícola e desejava traçar seu futuro para na área da agropecuária. Até que, certo dia, seus tios lhe incentivaram a prestar o Concurso Público da Polícia Militar. “De início, estranhei a ideia, pois nunca havia me imaginado como policial. Mas, depois, aceitei a sugestão e fui aprovado.”, recorda. Durante nove meses, ele aprendeu técnicas, táticas, leis e passou por testes físicos. Assim, mesmo contra a vontade de seu pai, nasceu um policial militar.
Sua primeira experiência de trabalho foi em 1999, no município de Mafra – SC. Novo na profissão, ele estava trabalhando como reforço em uma viatura, até que soube de uma loja que havia sido furtada. Foi na ocorrência que ele conheceu Cristiane Hemckemaier, que trabalhava como vendedora na loja em questão. O ladrão foi detido, e o policial e a vítima voltaram a se ver na delegacia e no fórum.
Uma semana após o ocorrido, Cristiano foi à inauguração de um bar, quando Cristiane passou por ele. “Eu a chamei pelo nome, mas ela não me reconheceu de imediato. Então eu insisti: ‘Cristiane, só porque estou sem farda você não me reconhece?’”, recorda. Naquele momento, eles perceberam que tinham muito em comum: Além dos nomes, os dois estavam vestindo roupa preta, calçando sapatos parecidos, bebendo a mesma marca de uísque, fumando a mesma marca de cigarro e curtindo o mesmo estilo musical, o rock and roll. Desse dia em diante, começaram a namorar.
No ano seguinte, o policial militar foi transferido para a cidade de Joinville – SC, e a namorada permaneceu em Mafra. Foi nesta época, que tomou gosto pela profissão: – “Passei a ter muito serviço e a assumir o volante da viatura. Então, entendi a profissão e vi que era exatamente o que eu queria”. O namoro à distância durou dois anos, até que eles se casaram, em 2002.
Com o desejo de uma cerimônia fora do comum, casaram em um parque aquático. Apaixonados por rock, a música de entrada do noivo foi de Ozzy Osbourne, e da noiva foi de Smash Pumpkins. Casados, os dois moraram em Joinville até o falecimento do pai de Cristiano, quando voltaram para Três Barras. Como o trabalho permaneceu na cidade joinvilense, passou dois anos viajando 180km diariamente. Essa fase foi, para ele, a época mais desgastante.
Depois, com o pedido de transferência para Itapoá, se mudaram para o litoral em 2009, quando o pelotão precisava de mais policiais efetivos. Na época, o casal já tinha um filho pequeno e todos o acompanharam para a beira da praia.
Hoje, há 18 anos na Corporação Militar, o policial conta que já trabalhou em diferentes cidades e exerceu diferentes funções. Apesar do cansaço, ele lembra que gostava muito do Serviço de Inteligência (P2), onde lidava com ocorrências mais graves, como tiroteio, homicídio, tráfico, entre outros. Ao mesmo tempo, o trabalho na P2 foi quando sua família mais se preocupou. “O telefone tocava na madrugada e ele saía para as ocorrências. Eu mal dormia, pois não sabia se ele voltaria.”, conta a mulher. Para Cristiane, um episódio marcante foi quando o policial passou mais de dois dias fora de casa, pois estava fazendo campana dentro do mato, procurando criminosos. “Ele voltou sujo, molhado e com os pés brancos”, recorda.
Assim como seus colegas, diversas vezes Cristiano teve que abandonar datas comemorativas, festas de família ou o filho doente para ir trabalhar. Para ser esposa de um policial militar, o casal acredita que é preciso ter força e cumplicidade. “Muitas vezes ela se encontrou sozinha, em situações difíceis, cuidando do nosso filho e da casa, enquanto eu estava trabalhando”, conta. Assim, seu ofício também exige cuidados de segurança dentro da própria casa, de muro alto e com três cachorros guardiões. Já Cristiane, procura evitar pensamentos negativos enquanto o marido está fora. “Quando começamos a namorar, sentia muito medo e passava noites em claro. Com o tempo, me acostumei e deixei nas mãos de Deus”, fala.

5Uma das paixões e lazer do casal
Cristiane e Cristiano é o motociclismo.

Por conta do cargo exercido, o casal também tem o hábito de estar atento em ambientes públicos, prezar pela segurança pessoal e selecionar as amizades. “Ser policial pode aproximar ou afastar as pessoas. Elas querem que nós estejamos perto sempre que precisarem, quando sofrerem qualquer tipo de agressão ou forem assaltadas, mas distante o bastante nos outros momentos”, conta o PM. Ele ainda diz que são indesejados por boa parte da população, pois, mesmo quando se está tudo tranquilo, a presença policial costuma incomodar.
“É preciso parar com a ideia de que onde tem polícia, tem algum problema”, diz a esposa. Este comportamento cultural costuma ser sedimentado pelos pais e responsáveis que colocam na cabeça das crianças que o policial é uma pessoa má, e fazem ameaças, dizendo que se a criança fizer o que não pode, ele vai pegá-la. “A atual filosofia da polícia é que a população seja sua parceira e atue junto aos policiais, e não sinta medo de nós”, explica Cristiano.
Assim, desde a paciência para lidar com uma criança ou uma pessoa alcoolizada, até o controle emocional para um assalto ou sequestro, os policiais militares devem estar preparados para qualquer tipo de situação.
“Somos cobrados constantemente pela corporação e pela comunidade, mas, o que muitos não compreendem, é que o Estado, de modo geral, também possui falhas. Nosso trabalho não é só levar criminosos. Depois disso, passamos horas a fio esperando que eles sejam entregues. Infelizmente, muitas vezes, os criminosos que acabamos de levar vão para casa antes de nós”, desabafa o PM.
Para esvaziar a mente, ele já passou por uma fase em que montava quebra-cabeças gigantes, e outra em que montava e desmontava sofás, como ajudante de um tio estofador. Hoje, para relaxar durante as folgas, além de aproveitar o tempo com a família, Cristiano gosta de jogar bilhar, cultivar as plantas da casa, cortar a grama e, principalmente, se reunir com o grupo de amigos motociclistas.
Para seu filho de dez anos de idade, Cristiano é um herói. Para a esposa, é um orgulho. “Todos os dias, meu marido está nas ruas arriscando a própria vida, expondo a nossa família à sua ausência. Assim como estes profissionais, nós, que somos a sua família, também desejamos mais valorização e respeito”, fala Cristiane. Para que a sociedade melhore, os policiais militares acreditam que é preciso desconstruir a imagem de uma polícia inimiga, truculenta, que bate e traz repressão, para uma polícia amiga, que protege, previne e defende. Eles lembram que debaixo da farda também existem seres humanos.

Medidas básicas de prevenção

2Os policiais militares Araújo Silva e Hemckemaier, de Itapoá.

Para garantir a segurança do cidadão itapoaense, os policiais militares Jeferson Luís de Araújo Silva e Cristiano Rodrigo Hemckemaier, alertam medidas básicas de prevenção que podem evitar oportunidades para a ação de criminosos, como:
– Atender a porta da residência somente após identificação prévia;
– Orientar familiares e empregados para que não comentem sobre os bens materiais da família;
– Cuidar com postagens nas redes sociais, que informem a rotina da família, o caminho do trabalho, endereço, telefone, etc.;
– Ao sair ou retornar da residência, observar as proximidades e, se constatar a presença de estranhos, chamar a polícia;
– Ao viajar, avisar os parentes ou vizinhos de confiança, para que esporadicamente verifiquem a residência;
– Estacionar o veículo somente em lugares movimentados e iluminados;
– Ao estacionar, parar em cruzamentos ou semáforos, especialmente à
noite, ficar alerta à aproximação de estranhos, mesmo que não lhe pareçam suspeitos;
– Não carregar objetos de valor, grandes quantias de dinheiro ou cartões de crédito, se não houver necessidade;
– Evitar caminhar por lugares sem iluminação e com pouco movimento;
– Se notar que está sendo seguido, procurar um estabelecimento movimentado e pedir ajuda;
– Prestar sempre atenção ao que acontece à sua volta. O uso de celulares ou fones de ouvido nas ruas pode causar distração e fazer com que não perceba a aproximação de marginais;
– Não levar objetos de valor para a praia e nunca deixar os seus pertences sozinhos;
– Ensinar a criança a pedir auxílio à polícia (pessoalmente ou por telefone) ou às pessoas conhecidas, quando perceber estranhos em atitudes suspeitas;
– Configurar o número da polícia (190) como o primeiro de sua lista de contatos no celular, para que seja de fácil acesso, se precisar acionar rapidamente;
– Em caso de assalto, não reagir. E tente, discretamente, gravar a fisionomia do assaltante para ajudar a polícia.
Vale lembrar que estas dicas não são únicas, mas devem compor uma cultura de prevenção. “A partir do momento em que toda a comunidade participa na solução dos problemas de segurança, as ações da polícia passam a ser complementares e não exclusivas”, afirma o policial Cristiano. Outro conselho, dado pelo policial Jeferson, é que a sociedade não se omita e denuncie. “Diante de uma situação suspeita, a população não deve se esconder ou sentir medo de se envolver. Hoje, diversas ferramentas aproximam a polícia e a sociedade, como as denúncias anônimas”. Os policiais militares de Itapoá estão dispostos para mais esclarecimentos e convidam a comunidade para conhecer o seu trabalho e contribuir na segurança no município, alcançando a paz e a tranquilidade que todos desejam.

Ana Beatriz Machado

Matéria publicada na Revista Giropop – Junho 2016 – Edição 41 

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