Itapoá ganhará um espaço de referência em Estudos de Florestas Costeiras

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Àqueles que ainda imaginam que Itapoá se resume às suas praias, vem aí, mais uma boa notícia para ressaltar o potencial socioambiental do município: o Centro de Referência em Estudos de Florestas Costeiras. O projeto, que já está em sua fase final de execução, foi desenvolvido pela Associação de Defesa e Educação Ambiental (ADEA) e busca valorizar e estimular a pesquisa científica e a educação ambiental na região.

Esta iniciativa faz parte do projeto “Implantação do Plano de Manejo: estruturação e desenvolvimento da Reserva Particular de Patrimônio Natural, RPPN Fazenda Palmital -Reserva Volta Velha”, contemplado pelo MPF (Ministério Público Federal) no edital sobre a indenização depositada pela empresa Norsul – em virtude do naufrágio de uma barcaça na Baía da Babitonga, em São Francisco do Sul-SC, em 2008. Vale ressaltar que este é um dos nove projetos aprovados para a região.Esta iniciativa faz parte do projeto “Implantação do Plano de Manejo: estruturação e desenvolvimento da Reserva Particular de Patrimônio Natural, RPPN Fazenda Palmital -Reserva Volta Velha”, contemplado pelo MPF (Ministério Público Federal) no edital sobre a indenização depositada pela empresa Norsul – em virtude do naufrágio de uma barcaça na Baía da Babitonga, em São Francisco do Sul-SC, em 2008. Vale ressaltar que este é um dos nove projetos aprovados para a região.

O Centro de Referência em Estudos de Florestas Costeiras faz parte da implantação do Plano de Manejo da RPPN Fazenda Palmital – Reserva Volta, que foi aprovado em 2012 pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio. “Entre as ideias propostas para utilizar o recurso, os idealizadores julgaram o Centro a mais eficaz para o momento, uma vez que abrange diferentes aspectos para a implantação do Plano”, explica o administrador Werney Serafini, da ADEA.

A estrutura está sendo construída na área de uso da RPPN Fazenda Palmital – Reserva Volta Velha, em local permitido para implantação de infraestrutura de acordo com o zoneamento definido no Plano de Manejo. Em meio à Mata Atlântica, o Centro fica a 2.700m da atual sede da Fazenda Santa Clara, que juntamente com a RPPN Fazenda Palmital, compõe a conhecida Reserva Volta Velha.

3-15Em frente ao Centro, o administrador Werney Serafini e o empresário e biólogo Lúcio Machado, parte da equipe técnica da ADEA encarregada pelo projeto.

Projetando o espaço

Os responsáveis pela execução do projeto do Centro de Referência em Estudos de Florestas Costeiras foram o arquiteto Carlos Henrique Nóbrega, autor do projeto arquitetônico, e o engenheiro João Gabriel Gonzatto Araldi, responsável técnico pela execução da obra e pelos projetos estrutural, hidráulico, elétrico e de prevenção de incêndios.

Apesar de ter direcionado sua vida profissional para a área de urbanismo e meio ambiente, o arquiteto Carlos Henrique fala que gosta muito de projetar, especialmente fazendo uso da madeira. “O Centro foi projetado nos mínimos detalhes e as especificações deste projeto foram bem desafiantes. A obra deveria ser de baixo custo, em função das limitações orçamentárias do projeto; tinha de ser considerada toda a questão logística na metodologia construtiva, afinal, durante a construção, a área ainda não estaria dotada de energia elétrica e o acesso era precário; os materiais deveriam ser de qualidade, para evitar futuros problemas de manutenção; além disso, a obra deveria utilizar materiais com procedência ambiental, contemplar as questões de acessibilidade, utilizar a ventilação cruzada e técnicas de conforto térmico sem a utilização de ar condicionado, e prever um sistema de tratamento de esgoto eficiente sem a necessidade de energia elétrica”, explica Carlos Henrique. Além de todas estas especificações, o projeto do Centro ainda deveria ficar harmonioso e transmitir o conceito de natureza.

Pensando nisso, foram projetados, ao todo, 443m², que englobam secretaria, laboratório, auditório, refeitório, cozinha, dispensa, banheiros e dormitórios. “Este foi um trabalho que fiz com muito prazer. Sou suspeito para falar, mas acredito que atingimos nosso objetivo”, conclui o arquiteto Carlos Henrique, “sempre comento que os fatores mais importantes no sucesso desta obra foram o planejamento, os cuidados em desenvolver todos os projetos complementares e a sorte em contar com uma equipe de profissionais comprometidos com o projeto e muito eficientes”.

6-11A Jibata, principal meio de transporte para chegar até a obra.

Mãos à obra
No comando da construção, estão os irmãos construtores João Francisco Klodzinski e Luiz Antônio Klodzinski. Iniciada em novembro de 2015, durante a construção ocorreram fortes períodos de chuva, além disso, os profissionais realizaram todo o trabalho sem energia elétrica, apenas com um pequeno gerador. Eles utilizavam uma Jibata para chegar até a obra, mas o percurso também poderia ser feito de canoa pelo rio ou a pé. “Desde o início sabíamos o desafio dessa construção, mas conhecíamos muito bem o território, pois há muitos anos vivemos na região da Reserva Volta Velha, além disso, tivemos apoio de toda a equipe da ADEA”, contam. Com os irmãos, os filhos Gabriel Alexandre Dias Klodzinski (filho de João Francisco) e Pedro Francisco da Veiga Klodzinski (filho de Luiz Antônio) formaram a equipe de trabalho.

Além dos quatro profissionais, há o acompanhamento permanente da equipe técnica da ADEA encarregada pelo projeto: o biólogo e presidente da ADEA Celso Darci Seger, a graduanda em biologia Carolina Guedes, o administrador Werney Serafini, o guia de turismo Yawaritsawa Trumai Waurá e o empresário e biólogo Lúcio Machado. As paredes erguidas são resultado do trabalho em equipe. O material é de primeira, desde as ferragens até a madeira. A matéria-prima utilizada foi madeira de pinus auto clavado. Além da própria estrutura do Centro, os construtores contam que as sobras de madeira foram reutilizadas para a construção de móveis, como camas, mesas, bancos, armários e prateleiras. Hoje, com parte dos recursos disponibilizados ao projeto, o caminho que dá acesso à obra recebeu revestimento em pedras e bica corrida, o que possibilita o transito de qualquer veículo. Ao ver que tudo está dando certo e vem sendo construído por suas mãos, os irmãos Klodzinski se dizem orgulhos e satisfeitos. Para João Francisco, é importante ressaltar o cuidado empregado em toda a construção: “o material utilizado é vistoriado pela ADEA e o constante acompanhamento da equipe técnica contribuiu para que tudo ficasse assim, tão bonito”.

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No comando da construção, estão os irmãos construtores João Francisco Klodzinski e Luiz Antônio Klodzinski, e seus filhos Gabriel Alexandre Dias Klodzinski (filho de João Francisco) e Pedro Francisco da Veiga Klodzinski (filho de Luiz Antônio).

Programas de Educação Ambiental
O Centro de Referência em Estudos de Florestas Costeiras tem como objetivo criar uma base para executar atividades relacionadas à educação ambiental no ensino formal e não formal. Um dos principais feitos com a chegada do Centro é a reativação do programa CEAL (Centro de Educação ao Ar Livre), executado pela ADEA em parceria com a instituição de psicopedagogia Síntese nos anos de 2006 a 2009, que atendeu mais de 1.300 crianças das escolas públicas de Itapoá. Em uma experiência de três dias e duas noites oferecida a alunos do ensino fundamental, nas instalações do Centro, os estudantes vivenciarão uma imersão na natureza, aprendendo sobre plantas e animais que habitam na área, entre outras descobertas.

Outro projeto que será implantado no espaço é o Viveiro Florestal Educador, uma estrutura que está sendo construída ao lado do Centro. Este programa, com o nome Itapoá Sempre Verde, visa o desenvolvimento de atividades de educação ambiental comunitária em Itapoá e representa uma das ações compensatórias da ampliação do Porto Itapoá. No viveiro, serão produzidas mudas florestais nativas para a recuperação da conservação ambiental e, em seguida, doadas para a comunidade. Neste projeto, o público-alvo serão alunos dos 7º e 8º anos da rede municipal de Itapoá e moradores das comunidades do Pontal, Figueira e Jaguaruna.

Já nas outras atividades,  o público-alvo destas e de outras atividades serão crianças e jovens – com prioridade para alunos de Itapoá e, também, dos municípios de entorno, como Garuva-SC, São Francisco do Sul-SC, Guaratuba-PR e Joinville-SC – que passarão a utilizar este espaço como apoio nas vivências de campo e trabalho pedagógico das escolas públicas e privadas. Segundo Werney Serafini, quanto ao público escolar de Itapoá, serão disponibilizados três eventos por ano (preferencialmente para alunos do sétimo ano) sem despesa com a utilização do Centro e a estimativa é de atendimento anual entre 700 a 800 pessoas. De acordo com Werney, “para oficializar esta contrapartida, o município de Itapoá deverá oferecer apoio em relação à alimentação, transporte e recursos para a remuneração da equipe”.

Já na área de pesquisa científica, o Centro servirá de base para pesquisadores e alunos de universidades, instituições públicas e organizações não governamentais da região. “A proposta é a de disseminar conhecimentos sobre o meio físico e biótico do local e oferecer cursos de capacitação em florestas costeiras”, explica Werney.

A importância do Centro


Para Werney Serafini, o Centro de Referência em Estudos de Florestas Costeiras inaugura uma nova fase no município. Ele salienta: “Não é novidade que pesquisadores, estudantes, professores e observadores de aves do mundo todo vêm a Itapoá para explorar o potencial socioambiental do município. Amigos e visitantes afirmaram que um Centro com este conceito e este porte é muito raro no Brasil e na América Latina. Entendido isso, o município de Itapoá tende a ganhar muito”.

De acordo com o arquiteto Carlos Henrique Nóbrega, esta estrutura trará possibilidades infinitas: educação ambiental, turismo ecológico, acantonamentos, eventos, pesquisas, estudos, treinamentos, etc. – que movimentarão o ecoturismo de Itapoá durante o ano todo e beneficiarão toda a região.Segundo o empresário Lúcio Machado, que, junto de sua família, administra a Reserva Volta Velha, além dos inúmeros benefícios para a questão educacional, científica e ecoturismo, o espaço buscará reativar a tradição histórica de pesquisas na Reserva, estimulando convênios com universidades brasileiras e estrangeiras, intensificando a produção acadêmica sobre a fauna e flora da região, promovendo programas de educação ambiental, entre outros. “Desde sua criação, em 1992, a Reserva não é uma unidade de conservação isolada, mas integrada, recebendo grupos e estudiosos do mundo todo. Com a chegada do Centro, acredito que todas estas atividades ambientais, frutos de anos de trabalho, sejam ainda mais organizadas e intensificadas, já que os pesquisadores terão, agora, estruturas voltadas às suas necessidades”, explica. Sobre os programas voltados aos alunos da rede pública do município, Lúcio afirma: “Normalmente, o ensino da educação ambiental é feito de maneira superficial. Já usufruindo deste espaço, as crianças estarão imersas à natureza, aprendendo através de vivências e descobertas. Nosso objetivo é que todos os alunos do município passem pelos programas ambientais oferecidos no Centro, pois acreditamos que as crianças têm um poder gigantesco e que, através delas, serão impactadas as famílias e toda a comunidade”. Para o futuro, a equipe planeja desenvolver outros projetos no Centro, como, por exemplo, estabelecer um dia da semana para que as escolas do município utilizem a estrutura de forma livre e voluntária, seja para aulas, estudos, experiências, reuniões, conselhos, entre outros.

Para Yawaritsawa Trumai Waurá, um dos responsáveis pelo atendimento na Reserva Volta Velha e integrante da equipe técnica da ADEA encarregada pelo projeto, a expectativa é grande: “Espero poder contribuir com a experiência de vida que tive morando em meio à floresta, convivendo e dividindo a vida como ela é no seu ciclo natural. Conhecer do meio ambiente em que vivemos nos ajuda a entender e respeitar todos os seres vivos, cada qual com sua diferença”.

A equipe da ADEA e a instituição gestora da RPPN Fazenda Palmital preveem a conclusão das obras do Centro de Referência em Estudos de Florestas Costeiras para julho deste ano. Entendido a importância deste espaço para o município, os envolvidos convidam toda a população itapoaense para conhecer e se envolver no projeto. Pois, como finaliza Werney: “nós, seres humanos, preservamos e cuidamos daquilo que conhecemos e vivenciamos”.

Saiba mais sobre a ADEA

Fundada em 1974, na cidade de Curitiba-PR, por renomados ambientalistas, cientistas, pesquisadores e professores, a ADEA teve papel preponderante na articulação da sociedade civil e governamental para inúmeros projetos ambientais no estado do Paraná, e serviu de referencial para a constituição de diversas associações ambientalistas em todo o Brasil.
A partir da década de 90, a ADEA passou a coordenar os trabalhos de gerenciamento, fiscalização e organização de pesquisas sobre a Floresta Atlântica das Planícies Costeiras na Reserva Volta Velha, em Itapoá. Em 2005, foi eleita uma nova diretoria e definida uma base territorial para a sua atuação, priorizando a região do bioma da Mata Atlântica compreendida entre a Baía de Guaratuba-PR e a Baía da Babitonga, em Santa Catarina, e seus respectivos entornos.
Além da execução do projeto na RPPN Fazenda Palmital, a ADEA também marca presença em outros projetos ambientais da região, como o Babitonga Ativa, por exemplo, executado pela Universidade da Região de Joinville (Univille) e também contemplado pelo edital de indenização da empresa Norsul, que visa elaborar um plano de governabilidade ecossistêmico e colaborativo para a região da Baía da Babitonga.

Ana Beatriz Machado

Foto aérea: Rubens Vandresen
Imagens matéria: Edson Ferreira da Veiga, Zig Koch.
Matéria publicada na Revista Giropop – Edição 53 – Junho/2017

 

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