Itapoá segundo os Manoéis

No “Quem É?” conhecemos a história de duas personalidades marcantes e antigas do município: Manoel Caldeira, também conhecido por Seu Maneco, e Manoel Perez da Silva, também conhecido por Manoel Quati. Amigos de longa data, o primeiro foi criado na região da Barra do Saí, enquanto o segundo foi criado próximo ao morro da comunidade do Saí Mirim. Além do primeiro nome, os Manoéis desta pauta têm em comum o amor por Itapoá e suas histórias de vida, que se confundem com a história do município.

O primeiro Manoel, o Caldeira

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‘‘Nós amanhecemos no rio e anoitecemos no rio’’, fala seu Maneco.

Também conhecido por Seu Maneco ou Seu Caldeira, Manoel Caldeira, natural de Itapoá, mora na Barra do Saí, tem 84 anos e uma porção de histórias. Ele não sabe ao certo se a origem de sua família é portuguesa ou espanhola, mas conta que seus avós chegaram ao Brasil de navio. Seu pai, Aristides Caldeira, nasceu e cresceu em Guaratuba e, aos 25 anos, passou a residir em Itapoá, onde conheceu sua mãe, Maria Clara, na comunidade do Saí Guaçu, do outro lado do rio. Eles se apaixonaram e, então, Aristides trouxe Maria para morar na comunidade do Saí Mirim, em Itapoá. Juntos, tiveram quatro filhos: duas mulheres e dois homens; Manoel foi um deles.
Ele é do tempo em que não havia quase nada em Itapoá. “O rio era a estrada. Para irmos às cidades vizinhas, só de canoa”, recorda. Grande conhecedor do município, Seu Maneco diz que já ouviu muitas pessoas afirmando que sabem tudo sobre Itapoá e, quando isso acontece, ele lhes desafia: “Você sabe onde fica a Volta da Figueirinha ou do Bananá, no Rio Saí Mirim? Se não sabe, não conhece tudo”.
De acordo com Seu Maneco, antigamente, cada volta do Rio Saí Mirim possuía um nome específico, batizado por moradores locais. Para nos explicar melhor, desenhou as curvas do rio no chão de sua casa. Partindo da sua foz, na Barra do Saí, recordou cada nome, são eles: Ostra, Tetequera, Ostrinha, Poço Novo, Marca, Poço de Baixo do 2000 (que leva esse nome porque, no local, foram pescadas 2000 tainhas), Poço de Cima do 2000, Volta do Jaruvá, Volta Comprida do Bugio, Poço do Bugio, Piçarrão, Volta Comprida do Piçarrão, Volta do Quati, Poço da Figueirinha de Baixo, Poço da Figueirinha de Cima, Volta Comprida da Figueirinha, Poço Redondo, Volta do Poço da Coroa, Volta da Pistola, Poço do Crispim, Volta da Goiaba, Poço do Piri, Volta do Arrancado de Baixo, Volta do Arrancado de Cima, Volta da Timbuva, Volta do Piçarrão (localizada na ponte de cimento da estrada Cornelsen), Volta do Bananá, Volta Comprida do Bananá e Passa-macaco. A partir desse ponto, Seu Maneco não se recorda dos nomes das voltas do rio e diz que quem o sabe é seu amigo, o Manoel Perez.
Assim como cada volta do Rio Saí Mirim, ele diz que, a cada 1000 metros, as praias de Itapoá têm nomes específicos, não encontrados. Começando na Barra do Saí, são eles: Abreu, Crispim, Arrancado, Roxo, Camboão, Mendanha, Ilha do Meio, Ariel, Lagoinha, Lorato, Itapoá, Morretes, Barra do Rio, Ana Rosa, Ponta do Pontal, Pontal, Piçarras e Figueira.
Sua infância foi difícil. Com apenas 8 anos de idade, Manoel levava cinco crianças menores para estudar na Barra do Saí de Guaratuba, todos os dias, de canoa. “As outras crianças aprenderam uma coisinha ou outra, mas eu não aprendi nada, pois tinha que conduzir a canoa e ainda cuidar delas”, diz. Já aos 11 anos, seu pai, que era pescador e navegador, veio a falecer, e Manoel passou a ajudar no sustento da família, trabalhando na roça e na pesca. Ele conta que, antigamente, era no rio que os pequenos aprendiam as coisas da vida, como a se defender do perigo.
Certo dia, observou o cunhado construir uma canoa, e fez uma, também. “Batizamos minha primeira canoa de ‘só ela’, pois brincávamos que ela era ‘feia, que só ela’”, conta Seu Maneco, que, mais tarde, se tornou construtor de barcos, canoas e remos para pesca. Ele diz que já perdeu a conta de quantas canoas, barcos e remos construiu, e que tem trabalhos espalhados nos rios e mares de todo Brasil.
Conforme relato, a construção dessas embarcações era feita à mão e durava aproximadamente um mês, passando por várias etapas. As madeiras utilizadas eram guapuruvu, pela leveza e facilidade de entalhe, madeira guarataia, como, também, as madeiras guaruva, cauvi, imbiriçu, canela, que, segundo Manoel são madeiras da localidade. “A canoa e o barco de madeira já fizeram sua história, mas hoje em dia tudo é feito de fibra ou materiais muito mais resistentes”, diz.
Aos 84 anos, Seu Maneco é pai, avô, bisavô e tataravô. Ao longo de vida, casou-se três vezes e teve doze filhos, três deles já falecidos. Junto de sua atual esposa, Dulce Soares de Souza, reside na Barra do Saí, à beira do Rio Saí Mirim, ao lado de uma rampa de descida para o rio. Junto, o casal divide a rotina de pescar no rio. Diariamente, deixam mais de quarenta caixinhas de pesca pela água do rio e recolhem-nas para, depois, vender os peixes e camarões que foram fisgados. “Nós amanhecemos no rio e anoitecemos no rio”, fala Seu Maneco. De acordo com ele, ainda existem muitas espécies de peixes no Rio Saí Mirim, como tainha, escrivão, bagre, jundiá, traíra e robalo, no entanto, em menores proporções, já que, muito antigamente, ele costumava pescar cerca de cem tainhas todo dia.
Nas palavras de Manoel, sua atividade favorita atualmente é descansar, mas Dulce o desmente: “Ele, mesmo aos 84 anos, não para um minuto sequer. Está sempre pescando, tarrafeando, vendendo ou construindo uma coisa ou outra”. Sobre a lenda de uma grande cobra que vive no Rio Saí Mirim, a esposa de Manoel reza para que o marido nunca a encontre, pois é “corajoso feito um índio velho”, diz. Já Seu Maneco, afirma: “nunca tive medo dos bichos, só dos homens”.
Católico, ele também costuma assistir às missas na televisão e fazer promessas a seus santos. “Aqui em casa, até os passarinhos assistem à missa”, fala. Além do Rio Saí Mirim, a sua base de sustento, e da fé, o seu alicerce, o pescador gosta de criar pequenos versos. Para ele, nascer, crescer, fazer parte da história de Itapoá e viver à beira do Rio Saí Mirim é ter, todos os dias, inspiração.

 

O segundo Manoel, o Perez

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‘‘Ainda estou acostumado a me localizar pelos nomes antigos”, Manoel Perez.

Natural de Biguaçu-SC, quando moço, Pedro Perez da Silva passou a morar em Itapoá. No município, conheceu a itapoaense Maria Ana de Jesus. Juntos, tiveram quatro filhos: três mulheres e um homem – este último, Manoel Perez da Silva, também conhecido como Manoel Quati, protagonista deste texto.
Nascido no Saí Mirim, foi nesta comunidade que Manoel e seus irmãos cresceram. Seu pai era deficiente físico e fabricava redes, balaios e cestos para vender. Para ajudar a família, aos 10 anos de idade Manoel teve de começar a trabalhar na roça. “Tive uma vida muito difícil. Já passei fome e já trabalhei muito”, fala. Com exceção da irmã mais nova, os filhos de Pedro e Maria Ana, mesmo morando em frente a uma escola, não chegaram a estudar. “Eles nos mandavam trabalhar na roça, pois diziam que a escola não nos daria comida, mas o trabalho sim”, diz. De vida simples, Manoel recorda que era impossível saber a cor do tecido de suas roupas, pois quase sempre eram remendadas.
Quando criança, ganhou o apelido de Manoel Quati, pois costumava aprontar bastante e subir nas árvores para não apanhar da mãe. Ainda pequeno, ele andava pela mata do Saí Mirim cortando cipó branco para fabricar vassouras e vende-las. Para ajudar a família, também plantava aipim e arroz, roçava grama, fazia balaios e cortava palmito – atividades que aprendeu com o pai. Com uma canoa de madeira e um ônibus lata-velha, chegava até o centro de Itapoá, em Itapema do Norte, para vender os produtos em um armazém.
Entre suas lembranças mais marcantes sobre a antiga Itapoá estão a Primeira e Segunda Guerra Mundial. Na Primeira Guerra Mundial, Manoel era muito pequeno, mas recorda que seu avô foi morar no meio da mata do Saí Mirim para proteger os filhos até que a guerra terminasse. Já na Segunda Guerra, ele era moço e, quando deixava a comunidade do Saí Mirim para ir ao centro fazer compras, observava, no antigo Areião (região onde se encontra a Primeira Pedra), o acampamento de batalha de soldados que ficavam à espreita, vigiando os navios no mar. “Os soldados também se prontificaram para ensinar a ler e escrever àqueles que tivessem tempo e interesse”, conta, “muitos rapazes, na época, aprenderam com eles”.
Já na vida adulta, ele começou a pescar em alto-mar para vender em São Francisco do Sul. Para chegar a qualquer uma das cidades vizinhas, seja para vender produtos ou comprar remédios, Manoel narra que era preciso navegar durante um dia inteiro, com início na madrugada. Entre as idas e vindas pelo Rio Saí Mirim, Manoel Perez e Manoel Caldeira se conheceram e se tornaram amigos. Em seguida, casaram-se e perderam contato.
Pai de treze filhos, dois deles já falecidos, ele começou a cria-los no Saí Mirim, junto de sua primeira esposa. Mais tarde, Manoel trabalhou durante cinco anos na construção da estrada Cornelsen, abrindo a picada, e, quando o serviço foi concluído, passou a morar na região do Samambaial, onde vive na companhia de Reni Maria Faria, sua segunda esposa.
Assim como Manoel Caldeira, Manoel Perez também conhece cada volta do Rio Saí Mirim. Partindo da Volta do Passa-macaco (de onde Manoel Caldeira parou), ele segue listando os antigos nomes de cada região do rio: Volta do Poço do Cambiju, Volta do Quilombo de Baixo, Volta do Quilombo de Cima, Guarajuva, Volta do Piri, Reta da Boca do Braço do Norte, Volta do Ribeirão da Pedra, Canta Galo, Volta do Seu Fábio, Volta dos André, Volta dos Gonçalo, Volta do Gavina, Volta do Marcelo, Volta do Porto, até que se chega à ponte do Rio Saí Mirim.
Aos 81 anos de idade, Manoel afirma que desconhece a Itapoá dos dias atuais. “Dias atrás fui para o centro e quase me perdi, pois as localidades passaram a receber outros nomes e ainda estou acostumado a me localizar pelos nomes antigos”, fala. Apesar de tantas mudanças, Manoel diz que não sente saudade do passado. “A vida era, sim, mais tranquila, no entanto, era também mais sofrida”, conta. Ele, que sempre teve muita força de vontade para trabalhar, também gosta de ir a bailes, mas hoje, só deseja descansar.
Amigos de longa data, o tempo e a Itapoá atual afastaram os Manoéis desta história. Mas, o destino quis que a filha de Manoel Perez se casasse com o filho de Manoel Caldeira. E, neste mês de abril de 2017, a Revista Giropop promoveu este reencontro: de muitas histórias, lembranças e emoções, vividas por dois filhos desta terra tão querida chamada Itapoá.

Ana Beatriz Machado

Matéria publicada na Revista Giropop – Edição 51 – Abril/2017

 

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