A história de um casal nada convencional

Ana Beatriz 

Neste mês dos namorados, contamos a história de Danieli Cristina Soares e Antonio Soares. Eles moram em Itapoá-SC, mas, antes de se estabilizarem no município, moraram em diferentes lugares, sempre recomeçando do zero e em busca de melhores condições de vida. Para instigar ainda mais esta história, depois das profissões pelas quais passaram, Danieli optou por ser policial e, Antonio, cabeleireiro –quebrando os tabus de gênero de ambas as profissões e fazendo deles um casal incomum, divertido e realizado.

A relação de Danieli e Antonio é de amizade, confiança e diversão.
Casados há quinze anos, eles têm muitas histórias para contar.

O começo de tudo
Essa história começa no município de Planalto-PR, onde Danieli e Antonio moravam e se viram pela primeira vez. Nos tempos de escola, Antonio desejava ficar com Danieli, mas ela tinha a pretensão de ser apenas sua amiga. “Ele era mais velho e levava um estilo de vida mais livre para a época, enquanto eu vinha de uma família tradicional”, ela conta. Certo dia aconteceu o primeiro beijo em frente a um pé de mamão. Tempos depois, eles começaram a namorar, até que, quando Danieli estava com 16 anos e Antonio com 19, ela engravidou.
“Foi um susto para todos nós, pois éramos muito jovens. Minha família quis que eu e Antonio nos casássemos, então, ele deixou a cidade para trabalhar e juntar dinheiro para, enfim, nos casarmos”, conta Danieli, que casou com Antonio no civil, quando ainda estava grávida. Para eles, os primeiros meses desde o nascimento do filho Fabiano Antonio Soares foram os mais difíceis, uma vez que Danieli amamentava o bebê durante o intervalo das aulas, no Ensino Médio.
Eles recordam que estavam jovens, com um filho pequeno, sem dinheiro e desempregados, em um município que oferecia poucas oportunidades. Com ajuda financeira, Danieli conseguiu se inscrever no vestibular para Educação Física e, para conseguir pagar a mensalidade da faculdade e concluir o curso, trabalhou em diversos lugares: dando aulas particulares, como estagiária em uma creche e na prefeitura de Planalto. “Eu me inscrevi para um curso de torneiro mecânico, mas a turma não abriu porque o número de vagas não foi preenchido. Conversando com um amigo, soube que sua esposa estava fazendo um curso de cabeleireiro, ele me indicou e decidi fazer, também”, conta Antonio, que realizou o curso e montou um salão de beleza para trabalhar durante o dia, enquanto trabalhava como frentista em um posto de combustível durante a noite, para contribuir com a renda da família. “Desde que nos casamos, a mãe de Antonio veio morar conosco e nos ajudou muito cuidando do Fabiano enquanto trabalhávamos”, conta Danieli.
Apesar de já estar formada e trabalhar na área de Educação Física, Danieli sonhava em ser policial e prestou o Concurso Público da Polícia Militar do Paraná, mas não obteve retorno. Em busca de melhores condições, ela deixou o município de Planalto para tentar a vida em Campo Novo do Parecis-MT, onde tinha alguns conhecidos. Em seguida, seu esposo, filho, sogra e até sua calopsita seguiram seus passos para tentar uma nova vida.

Novos ares
Quando chegou ao Mato Grosso, Danieli recebeu a notícia de que havia sido aprovada no Concurso Público da Polícia Militar do Paraná e perdeu o prazo para a apresentação. Felizmente, em sua nova cidade surgiram muitas oportunidades de emprego e ela trabalhou dando aulas de voleibol em um ginásio de esportes, dando aulas em uma fazenda para pessoas do Movimento Sem Terra (MST) e índios, e montou uma pequena academia na garagem de sua casa, que foi um sucesso. Já Antonio, trabalhou como responsável pelo setor de tintas em uma loja de materiais de construção e no salão de beleza mais conceituado da cidade, onde aperfeiçoou seus conhecimentos como cabeleireiro.
“Foram pouco mais de dois anos no Mato Grosso que serviram para o nosso amadurecimento, fortalecimento da relação e, principalmente, para aprendermos a nos desapegar e recomeçar do zero”, diz Antonio.
O novo lar foi Pontal do Paraná, em 2012, onde Danieli trabalhou ministrando cursos na área da educação por todo o núcleo de educação de Paranaguá e Antonio realizou um curso de vigilante e trabalhou na área. Em 2013, novamente desempregada, Danieli soube que precisavam de professores de Educação Física na rede municipal de Itapoá, foi até o município fazer uma entrevista e foi convidada a trabalhar no mesmo dia. “Itapoá não estava nos nossos planos, simplesmente aconteceu”, ela conta, “mas Deus sempre foi generoso conosco, colocando pessoas queridas que nos acolheram em cada lugar”.

Enfim, Itapoá
Enquanto moravam no município litorâneo do norte catarinense, Antonio permaneceu trabalhando como vigilante em Pontal do Paraná, e fazia viagens diárias a trabalho, até que conseguiu um emprego em uma empresa portuária de Itapoá. Já Danieli foi professora em duas escolas de Itapoá. “Adorava exercer esta profissão, mas não desisti do sonho de ser policial. Quando soube que havia sido aberto o edital de Concurso Público da Polícia Militar do Paraná e de Santa Catarina, decidi tentar novamente”, ela conta.
Aprovada, Danieli se mudou para Rio do Sul-SC para cumprir as etapas do curso de policial, no quartel, enquanto sua família permaneceu em Itapoá. “Foi um período difícil, pois estava sozinha, passando por testes de resistência e autocontrole, mas meu marido e meu filho sempre me deram forças”, diz Danieli. Em 2014, após o termino do curso de formação da PM, ela se mudou para Rio Negrinho-SC, onde teve sua primeira experiência de trabalho. Para acompanha-la, a família toda se mudou para lá, também. “Mas ainda queríamos voltar para Itapoá, pois gostamos muito do município e suas praias”, conta Danieli, que conseguiu, enfim, transferência para o município litorâneo.

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Antonio Soares é cabeleireiro, já Danieli Cristina Soares é policial. Nas fotos, Antonio em seu salão e Danieli com seus colegas de trabalho, Sargento Jair, Tenente Lima e Sub Tenente Hermínio no quartel.

Cravando raízes
De volta a Itapoá, Antonio montou um salão de beleza, que desde o primeiro mês superou as metas, enquanto Danieli se tornou, por alguns meses, a única mulher do quartel da Polícia Militar de Itapoá, trabalhando como P4 – profissional responsável pela logística e finanças, função que exerce até hoje. Quando ocorre algum problema desconhecido na mecânica da viatura, Danieli conta que recorre aos colegas de profissão ou telefona para Antonio: “ele vai me passando as instruções por telefone e, no fim das contas, dá tudo certo”. Mas, vez ou outra, ela trabalha nas ruas para substituir algum colega de profissão e conta: “uma das minhas maiores alegrias é ligar a sirene da viatura e ir para a operação”. Nas operações, a policial diz que se sente lisonjeada pela confiança que recebe dos colegas de profissão: “em uma operação no meio da mata, à procura de alguém que ofereça riscos, por exemplo, meus colegas não ficam com receio por eu ser mulher, muito pelo contrário, me tratam como os outros policiais. Já em outros casos, como ao abordar uma mulher, eles confiam em mim justamente pelo meu gênero, para que eu possa revistar a pessoa e tudo o mais. É uma parceria muito bacana”.
Já que Danieli fica responsável pela parte administrativa do quartel, dentro de sua casa, ela gosta de manter distância de assuntos mais burocráticos. “Então, eu fico responsável pelo controle de gastos, pagamentos, contas e afins. Até nas funções de casa nós nos completamos muito bem”, diz Antonio, que é o lado mais sereno do casal, enquanto Danieli é o lado mais agitado.
Nos churrascos entre os amigos policiais, ela conta que é uma situação divertida: “Sou a única mulher policial no grupo das esposas dos policiais, mas gostaria mesmo é de discutir assuntos relacionados ao trabalho como os homens estão fazendo, enquanto Antonio é o único esposo de uma policial no grupo dos policiais. É muito engraçado”.
Um casal onde a mulher é policial e o homem é cabeleireiro contraria todos os paradigmas impostos pela a sociedade. Apesar de cortar apenas o cabelo de homens, Antonio conta que nunca chegou a sofrer preconceito por ser cabeleireiro, com exceção de algumas brincadeiras dos amigos. Já a policial Danieli, já notou alguns olhares vindo de pessoas civis, mas, em contrapartida, também é admirada. “Algumas mulheres mais velhas já me pararam na rua para contar que sonhavam em ser policiais, mas que, em sua época, isso não era possível”, ela conta, “é muito legal ver que isso mudou e que, cada vez mais, as mulheres vêm ganhando espaço em uma instituição que é majoritariamente masculina”.
Para Danieli, as características de um bom policial são “amar o que se faz, pois, assim como na área da saúde, os policiais lidam com os problemas dos outros, e isso tem que ser feito por amor, e também se aperfeiçoar cada vez mais, pois isso leva a um comprometimento maior”. Já para as mulheres que sonham em ingressar na corporação, ela aconselha que sejam fortes e lutem por aquilo que desejam. “Como diversas profissões, o começo será difícil, ainda mais por ser mulher, mas a força de vontade deve ser maior que o medo. Se dedique, estude e tenha foco porque você é capaz”, fala. Nas palavras de Antonio, as características de um bom cabeleireiro são “tratar muito bem as pessoas, se especializar com cursos e afins, ser perfeccionista e profissional, praticar muito e, é claro, aprender a ser um pouco psicólogo, pois muitas vezes o que as pessoas precisam, além do corte de cabelo, é de alguém que as ouça”.
Desde que Danieli se tornou policial, toda a rotina da família mudou. “Hoje, temos o hábito de ficarmos atentos em ambientes públicos, prezamos pela segurança pessoal e selecionamos nossas amizades”, contam. Parte da compreensão do marido sobre a profissão da esposa eles creditam ao fato de Antonio já ter trabalhado como vigilante. “Além disso, nossa relação sempre foi de muita confiança, amizade e diálogo”, diz Antonio. O filho do casal também sempre foi compreensivo e se adaptou bem tanto às mudanças de cidades quanto à escolha de profissão dos pais.
Atualmente, Danieli, Antonio e Fabiano residem juntos. Nesta fase da vida, o casal se diz realizado no amor, na profissão e no lugar que escolheu para viver. Casados no civil há quinze anos, os dois ainda têm o sonho de fazer uma cerimônia de casamento na areia da praia de Itapoá, pois amam este lugar. Fora do salão de beleza e do quartel da polícia, Danieli e Antonio gostam de estar com o filho, os amigos, passear de moto ou ficar no sofá assistindo a televisão. Apesar de casar e ter um filho muito cedo, o casal afirma: “Nos divertimos juntos, somos grandes amigos e temos a sensação de que somos eternos namorados”.

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