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Coronel Antunes: Um caminhão de grandes histórias

Com o caminhão limpa fossa ele percorre toda a cidade e presta serviços de limpa fossa, desentupimento, hidrojateamento e desintetização, mas quem o vê na rua nem imagina toda a sua história, que passa por grandes momentos históricos do país.

Augusta Gern

antunes

De Londrina, Lourival Bevenutti Antunes de Oliveira, mais conhecido como Coronel Antunes, escolheu Itapoá como novo lar em 2007. Aposentado na área militar desde 2005, ele e a mulher decidiram investir em turismo e acabaram comprando uma pousada na cidade. Primeiro vinham apenas na temporada para cuidar do negócio, que acabou não dando certo. Mas então a esposa foi chamada pelo concurso público na área de educação e o local de veraneio tornou-se o novo lar.
Como não estava trabalhando e não conseguia ficar parado, logo encontrou atividades na própria residência: construiu o muro, depois a garagem e até a cozinha comunitária da pousada. “Trabalhei a vida inteira, precisava fazer alguma coisa e não tinha mão de obra”, lembra. Quando acabaram os serviços da casa, até a rua arrumou, de pedra em pedra. Mas quando acabou o serviço se perguntou: e agora?
Por sugestão da filha e do genro, surgiu a ideia da empresa. O primeiro passo foi fazer um curso em Londrina e depois, se equipar. A Americana surgiu em 2009 e hoje já conta com atividades também em Garuva, Joinville e Guaratuba. Para ele, trabalhar com efluente séptico tem as suas vantagens, “às vezes é mais fácil do que lidar com pessoas”, brinca. Porém, a maior dificuldade é encontrar mão de obra comprometida e responsável.
Atualmente, todo o material recolhido em Itapoá é levado à Estação de Tratamento de Esgoto de Guaratuba, conforme legislação e autorização dos órgãos ambientais. E isso é levado muito a sério: “com o meio ambiente não se brinca, atendemos a todas as exigências ambientais”, garante.
Porém não apenas o seu compromisso com o trabalho é sério, mas toda a sua vida e história. Natural de Colombo (PR), Antunes é sobrinho de militar que participou da Guerra e o incentivou a iniciar a carreira. Do sítio saiu aos 12 anos e deixou uma infância rigorosa: nunca faltou nada, mas também só ganhava o necessário. Em 1956 foi para o colégio militar, em 1960 foi para a academia e, em 1964 saiu tenente da aeronáutica.
No mesmo ano que deixou a academia foi para a África, onde até 1968 foi comandante. Segundo ele, lá fotografava a área do Canal de Suez, era piloto de reconhecimento. Então voltou para o Brasil e ficou em Brasília, já era época do regime militar. E bem na ditadura, resolveu fazer medicina: “Nasci para ser útil a alguém e então escolhi as forças armadas e a medicina”, conta. Porém, esta escolha não deu muito certo. “Pelos alunos eu era visto como cagueta e pelos militares como informante”.
Um momento marcante dessa época foi quando, em uma noite, enquanto fazia ronda, um senhor o perguntou sobre a faculdade e as forças armadas, pedindo que optasse por apenas um. Como a carreira militar o sustentava, escolheu-a. Alguns dias depois foi chamado na Secretaria de Estado Maior, ocupada pelo então Coronel João Batista Figueiredo, que o fez assinar a transferência. Antunes conta que se indignou e foi surpreendido pela resposta: “Você passou por cima das hierarquias militares, falou com o presidente sem antes falar com a Secretaria”. Naquela noite, sem saber, havia conversado diretamente com o presidente da época, General Artur da Costa e Silva.
Assim, foi transferido para Londrina e, de capitão, promovido para major. Lá ficou até 2005 e se aposentou como coronel. Conforme ele, no ano passado ganhou o título de brigadeiro do ar, mas não pode assumir por não ter a credencial. Para consegui-la, precisa se apresentar para a presidente ou vice-presidente, o que se nega. Contra o atual governo e com críticas à democracia, prefere ficar como Coronel, como é conhecido.
E então, aos 72 anos e grandes histórias, o Coronel Antunes hoje leva uma vida tranquila na cidade que chama de paraíso. “Gosto tanto daqui que até quero ser enterrado na Jaca”, brinca.

Matéria publicada na Revista Giropop – Edição 18 – Junho/2014

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