Seo Francisco: Memória e tradição que dão gosto de ouvir

Se falarmos das margens da Babitonga em Itapoá, mais precisamente do balneário Pontal, muitos são os personagens marcantes, a maioria pescadores. Nesta pauta o protagonista é Francisco Peres do Rosário, pessoa da terra, de família tradicional e memória espetacular.

Augusta Gern

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Francisco Neres do Rosário com seu filho Fabrício Neres do Rosário.

Aos 66 anos ele nasceu na região. Lembranças contam que sua família saiu do Paraná e chegou a Itapoá por volta de 1840, 1850. Pelo caminho alguns foram se instalando, alguns ficaram na Barra do Saí, outros no balneário Palmeiras, mas seus bisavós se instalaram no Pontal, próximo à Figueira.
“Na época existiam duas coisas: luz do sol e água da chuva”, brinca Francisco. Conforme ele, na época as casas eram de palha e pau a pique. Para as refeições havia apenas o que se plantava e pescava, e a única forma de conservação era o sal, daí então que surgiu a típica comida caiçara, o peixe cambira (defumado). Outra comida típica, servida como prato principal, era a moqueca de peixe enrolada na folha da bananeira.
Com o tempo as gerações foram surgindo, até que chegou a vez de Francisco e seus 11 irmãos. As comidas típicas continuaram e na casa, que era de madeira, existia um engenho de farinha, onde passou algumas horas da vida trabalhando para ajudar a mãe. Além disso, trabalhou por muitos anos com a pesca.
Para os estudos não existiam muitas opções. A boa memória recorda histórias da primeira escola da região, fundada em 1922, onde seus tios foram professores. Na época de Francisco todas as turmas estudavam em uma mesma sala de aula e assim cursou até a 4ª série. Desde os tempos de menino era muito bom para guardar datas e histórias, era o que o alegrava nas aulas. Quando se formou no primário, não existiam turmas adiantes, assim continuou indo para a escola, mesmo que escondido do inspetor de São Francisco do Sul que vinha para fiscalizar as salas. “Eu não tinha o que fazer e gostava de ir para a escola, aí quando o inspetor chegava eu saia correndo”, conta.
Passaram-se anos na pesca até que, quando surgiu o primeiro concurso da Prefeitura, fez e passou. Nessa mesma época Francisco recorda que existiu um movimento para inserir o supletivo no Pontal, e então se formou no ensino fundamental. Para cursar o ensino médio teve aulas no Continental, e aos 49 anos recebeu o diploma.
Em 2006 mais um salto em sua vida: iniciou o curso tecnólogo em desenvolvimento regional. O início foi um pouco difícil e até pensou em desistir, mas tornou-se ponto de referência. “Os colegas que pensavam em desistir falavam que não podiam, porque se eu com 50 anos e viajando todos os dias estava lá, eles também tinham que estar”, lembra. Mesmo assim, a turma que começou com 46 alunos, ao terceiro e último ano estava com apenas 28, e Francisco era um deles.
Além do esforço para terminar seus estudos, também sempre incentivou muito os seus quatro filhos. Francisco lembra que quando uma das filhas fazia faculdade em Joinville, o último ponto do ônibus universitário em Itapoá era o Cartório. Assim, às 22h saía de casa caminhando para chegar à meia noite no ponto de ônibus, depois, com a filha, voltava todo o percurso e dormia perto das 2 horas. “Foi uma luta minha, mas um querer deles”, afirma.
Para ele, os desafios estão sempre aí, mas é preciso seguir em frente. Assim, hoje se sente orgulhoso por toda a caminhada de sua vida: pescador, depois funcionário público e formado, além disso, quatro filhos formados e empregados.

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Francisco é professor de dança do Fandango e Chimarrita, aqui dançando com a dona Elisabeth

E fora a boa memória e exemplo de vida, Francisco também é muito ativo na comunidade: está sempre envolvido com as ações da ACOPOF – Associação Comunitária do Pontal e Figueira do Pontal, é o professor de dança do Fandango e Chimarrita, representa Itapoá nos Jogos da Terceira Idade e esbanja simpatia por onde passa. Não há quem não o conheça, não há quem não tenha escutado uma boa história de sua rica memória.

Quem é Francisco Peres do Rosário?
Para o seu filho Fabrício Neres do Rosário, “é uma pessoa folclórica e lendária da cidade. Um dos percursores de Itapoá e da Acopof, além de vir de uma família tradicional”.

Matéria publicada na Revista Giropop – Edição 18 – Março/2014

 

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