Amor também é doação

Algumas pessoas dão o exemplo apenas por viver: superar uma, duas ou até três grandes dificuldades sem desistir só podem fazer da pessoa uma grande vencedora.

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Edson com a filha Ana Paula e o neto, abaixo o filho Nataniel.

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Esse é o caso de Cristiane Reis, moradora do balneário Pontal na cidade de Itapoá. Conhecemos sua história na entrevista realizada com o esposo Edson Ricardo Reis em março, sobre o projeto Recicloterapia e a construção da miniatura de um navio, e tanta superação não poderia ficar de fora. Ao falar de doação, também falamos de amor: e é isso que ela tem por sua família.
A doação das pessoas pode acontecer de diferentes maneiras, com bem materiais, com trabalho ou, simplesmente, com amor. E é dessa forma que Cristiane se doa para sua família.
Tudo começou em São Bento, quando tinha apenas 16 anos de idade e resolveu adotar Ana Paula. Com quatro meses e sofrendo de lábio leporino e fenda palatina (lábio e céu da boca aberto), Ana Paula foi rejeitada pela família biológica e Cristiane, sem pensar duas vezes, pegou a criança no colo. Como conhecia a família e já a ajudava, Cristiane procurou a assistência social do Fórum e conseguiu a guarda provisória, ou melhor, seus pais conseguiram. Por ser menor de idade, toda a adoção foi feita em nome de seus pais, que a apoiaram em todas as decisões, e aos 21 anos Cristiane conseguiu passar a certidão de Ana Paula para o seu nome. “Eu só queria ver ela bem, segura e amada”, conta.
O momento mais difícil da adoção, segundo Cristiane, foi quando levaram Ana Paula pela primeira vez ao hospital: “O médico disse que ela não iria resistir, pois tinha vários probleminhas de saúde”. Para Cristiane, a angustia de poder perdê-la em tão pouco tempo a deixou desesperada, mas tudo ocorreu tão bem que hoje já se tornou avó. Aos 18 anos, Ana Paula já fez cinco cirurgias e agora só resta a plástica.
Para Cristiane, ter todo esse cuidado e amor de mãe tão cedo só tem uma explicação: sempre trabalhou voluntariamente no hospital ajudando os outros, sempre gostou de poder ajudar.
Com a filha já criada, Cristiane conheceu Edson e tiveram o pequeno Nataniel, hoje com 6 anos. Mesmo com plano de saúde e todos os cuidados, o parto foi complicado e Nataniel nasceu com algumas limitações. “Quando ele tinha quatro meses percebi que era diferente das outras crianças, não firmava o corpo e deixava a mão sempre fechada”, lembra Cristiane. Levou ao médico várias vezes, mas foi só aos seis meses que descobriu a paralisia cerebral do menino. Segundo ela, hoje ele tem algumas limitações na coordenação motora esquerda e na fala, mas nada comparado com o que o médico havia previsto.
Com mais essa batalha vencida, veio a terceira. Em 2010 Edson sofreu um acidente de trabalho e teve uma grave lesão na coluna. Sem poder trabalhar, veio a depressão. Cristiane conta que até deixou de trabalhar na época por medo que o marido fizesse uma loucura: “Ele estava muito depressivo e tinha crises fortes”, lembra. Deixou a atividade que tanto gostava, era técnica de odontologia, para se dedicar inteiramente a família: à filha que nasceu do coração, ao pequeno Natanael e suas limitações e ao esposo.
Hoje as coisas mudaram: como conhecemos no mês de março, Edson participou do projeto Recicloterapia do posto de saúde da comunidade, fez um navio com material reciclado e não teve mais crises de depressão.

“Depois que o meu trabalho foi divulgado já fiz uma exposição no Porto, algumas miniaturas e tem até algumas encomendas”, afirma Edson. Segundo Cristiane, mesmo com dor na coluna e nas mãos, as coisas estão bem melhores: “ele está encarando as coisas de frente”.

As coisas melhoraram tanto que o casal até resolveu casar. Sonhos futuros foram se concretizando e começou uma nova vida: casados, construindo a casa própria e criando os dois filhos, e até o neto, com muita alegria e vontade de seguir em frente. Com tantas batalhas, Cristiane afirma que não se arrepende de nada e faria tudo novamente.

“O que me revolta é ver que pessoas não insistem em lutar por aquilo que realmente querem, afinal, é preciso persistir”, fala.

Matéria publicada na Revista Giropop – edição 19 – julho 2014

 

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