O sopão da solidariedade

Criar 40 filhos adotivos, fazer sopa para dezenas de crianças carentes toda semana e viver a partir do lixo reciclado até parece história de novela, mas não é. Essa pessoa existe e seu nome é Tereza Aparecida Domingues, mais conhecida como Tereza do Sopão. Durante a semana ela trabalha catando lixo reciclado, cuida das duas únicas filhas adotivas que ainda estão em casa e separa os ingredientes para o famoso e tão esperado sopão de sábado: a refeição é feita em uma panela de 50 litros e serve em média 180 crianças.

Augusta Gern

sos1

sopao1
Dona Tereza Aparecida Domingues com o neto Eduardo e
as filhas adotivas Patrícia e Andressa.
sopao2
Casa de Dona Tereza, decorada com
objetos que achou no lixo.

Desde pequena Tereza gostava de cuidar de crianças e assim, observando a necessidade da comunidade que vivia em Curitiba, criou 40. “Antes não existia toda essa burocracia de juizado de menores, então criei, dei carinho, ensinei a estudar e alguns até tirei das drogas”, conta. Depois dos filhos de criação vieram os netos e até bisnetos, que também passaram por sua casa. Além da adoção, a catadora teve três filhos biológicos, mas uma faleceu com câncer. O resultado disso tudo é comprovado no Dia das Mães, segundo Tereza a casa vira uma grande festa. E toda essa família foi sustentada pelo lixo reciclado: além de vender para poder comprar os mantimentos, Tereza também decorou toda a sua casa com objetos encontrados no lixo.
Há 16 anos a catadora deixou a capital paranaense pela saúde de seu marido e, junto com seus filhos, escolheu Guaratuba como novo lar. O sopão começou no litoral: um dia Tereza encontrou vários quilos de frango congelado e resolveu fazer uma sopa, mas só na sua casa já eram mais dez bocas para alimentar. As crianças da vizinhança foram chegando e ao final 46 foram alimentadas em potinhos de margarina.
Na mesma época uma de suas netas de criação estava com câncer e, segundo ela, o médico encaminhou para sua casa, pois já não havia mais salvação: “então eu fiz uma promessa e, se ela se curasse, faria sopa para o resto de minha vida”. Dito e feito, enquanto sua neta hoje é mãe e vive com saúde, Tereza não deixa de fazer a famosa sopa.
Antes a sopa era feita com alimentos que pegava do mercado, que já não estavam mais para a venda, hoje todos os ingredientes vem de doação e o cardápio varia com o que tem, mas a verdura é indispensável: “A verdura não pode faltar, porque é o que nos traz saúde”. Para que todas as crianças tomem a sopa sem reclamar, Tereza tem até o cuidado de desmanchar a verdura, assim, segundo ela, ninguém tem desculpas para não ser saudável. Além da sopa, Tereza também promove eventos para a criançada como o Dia das Crianças, onde ganham bolo e cachorro quente, e Natal, onde o almoço é risoto, salada e refrigerante. A catadora também intermedia a doação de roupas: “A minha casa parece um trânsito, é gente que vem doar, é gente que vem pegar”.
Hoje, aos 57 anos de idade, seu desejo não é apenas continuar com a sopa, mas ir além: “meu sonho é ter uma casa de passagem para idosos carentes e poder levar sopa aos mais necessitados”. Tereza conta que já teve uma Kombi e gostaria de levar a sopa aos andarilhos da praça, mas a maresia acabou com o carro. “Algumas pessoas até escreveram para o quadro “Lata Velha”, mas até agora ninguém me procurou”, brinca.
E assim, com o desejo de ajudar cada vez mais, agradece a todos que apoiam com doações e afirma: “Você precisa fazer para poder ganhar”. Uma frase que parece com a sua vida: é simples, mas traz grandes ensinamentos, faz toda a diferença.

Os interessados em conhecer
o projeto ou fazer doações de
alimentos podem entrar em
contato pelo (41) 3442-2839.

Matéria publicada na Revista Giropop, Edição 19, Julho/2014

Anúncios