Apaixonados por animais

Onde o amor e a disposição sobram

O que para muitos é visto como loucura, para ela é amor. Aos 78 anos de idade Elvira Maria Schaldach dá uma aula de disposição em Itapoá: cuida da mãe de 97 anos que sofre de alzheimer, de um grande jardim com plantas das mais variadas espécies e de 31 cachorros. Sim, são mais de três dezenas de cães em uma só casa, todos bem tratados.

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Dona Elvira com sua mãe e dois de seus 31 ‘netos’.

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Dona Elvira divide o seu com os animais, a mãe e o seu jardim.

Augusta Gern

Ao chegar ao portão o alarme é certeiro: uma variedade de ritmos e tons de latidos recepcionam todas as pessoas. Pelo chão não é visto sujeira e, na mão de Elvira, o pacote de bolacha retrata o mimo para seus queridos netos, como chama seus cães: “Tenho que comprar outra bolacha porque alguns não gostam muito dessa”. Ao fundo do terreno canis abrigam a maioria dos cães, mas nove deles tem entrada livre na casa: dormem pela sala e até nos quartos.
Conforme Elvira, todos os cães são vacinados, castrados e tem acompanhamento veterinário. Sem doações, ela gasta cerca de 200 kgs de ração por mês. Todos foram adotados: alguns vieram de Curitiba, onde também cuidava de cães, outros foram acolhidos em Itapoá. “Uma vez já deixaram três filhotes em frente a minha casa e tive que cuidar”, conta.
Porém, Elvira lamenta não ter mais espaço hoje: “não posso mais adotar, porque o espaço e os recursos não permitem”. Desde que chegou a Itapoá, há quatro anos (veio pela saúde de sua mãe), doou apenas um cachorro. “Só vou doar para alguém que eu confio muito, pois não quero vê-los presos em correntes”, afirma.
E com tantos moradores, não há como a casa não ficar movimentada. Muita correria e brincadeira fazem o tempo dos caninos passarem. Segundo Elvira, todos os cães a respeitam e não são de latir muito. “Até hoje nenhum vizinho reclamou e quando eles começam eu já peço para eles pararem”, conta. Recentemente o departamento de vigilância sanitária a visitou, mas não recebeu nenhuma notificação ou reclamação.
Assim, mesmo com sérios problemas de coluna, Elvira segue uma rotina de extrema dedicação: limpar os canis todos os dias, dar comida e carinho aos cães e cuidar de todos os passos de sua mãe, que há seis anos não consegue fazer nenhuma atividade sozinha. Uma rotina que começou alguns anos atrás, já em outras cidades.
Como sempre gostou de cachorros, a sua dedicação começou em Joinville (SC) quando seu filho trazia pequenos cães machucados para casa. Depois, em Curitiba, optou por morar em uma chácara e lá realizou o seu sonho: cuidava de 80 cachorros abandonados, doentes ou feridos. Com apoio de clínicas veterinárias e amigos, conseguiu salvar a vida de muitos animais e até fez campanhas de doação. Então, quando veio para Itapoá, a rotina não poderia ser diferente.
Com tanta experiência, aprende muitos cuidados: “hoje eu só não faço operação neles, o resto cuido de tudo”. E o amor é tanto que um álbum de fotos registra momentos marcantes dos cães e em um caderno anota o nome de todos para não se esquecer. “Eles precisam de amor e nós precisamos do carinho deles”, afirma.
Além dos cães, da mãe e do jardim, Elvira conta que também está sempre à disposição para ajudar os amigos. Como possui carro, sempre se dispõe a levar quem precisa ao médico ou até ao mercado. “São coisas que não nos custam nada e um dia também podemos precisar”, fala.
Com tantas atividades, é difícil encontrar um tempinho livre. Quando conta o seu passatempo, uma surpresa: como Elvira não foi à escola quando criança e adora histórias, dedica seu pouco tempo livre a reescrever todas as histórias contadas pela revista. Em um caderninho, ela prova que copiou muitas matérias e se orgulha ao perceber como a caligrafia tem melhorado a cada edição.

Matéria publicada na Revista Giropop Edição 19 – Julho 2014