Quem é?

Evaldo Speck: Memória que vale ouro

Grande parte da história do Saí Mirim foi vivenciada por ele, nasceu e durante toda a vida morou na comunidade. É o patriarca da família mais tradicional na região e neto de um dos primeiros colonizadores do Saí Mirim. De forma bem genérica podemos definir assim a vida de Evaldo Speck.

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Evaldo Speck guarda com carinho as lembranças do time Cruzeiro.

Augusta Gern

Com uma valiosa memória e muita simpatia a conversa interrompeu o descanso depois do almoço e nos fez viajar por uma remota Itapoá. Tudo começou em 1914 quando seus avós, Germano e Ana Speck deixaram o município de Pedras Grandes, no sul do estado, e chegaram a Itapoá, mais precisamente no Saí Mirim. Conforme Evaldo, os avós souberam de uma colonização na região e vieram atrás de trabalho. Assim, ali seu pai nasceu, cresceu e conheceu sua mãe. E em 1932, exatamente 82 anos atrás, Evaldo nasceu.

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Casa dos avós de Evaldo, feita de madeira, argilha e palha.

Sua vida sempre foi na roça, já trabalhou com arroz, banana, pinus, eucalipto e há alguns anos tem uma serraria, que oferece madeira para quase todos os materiais de construção do município.

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Serrareria da família.

Até chegar o crescimento e o desenvolvimento, teve uma vida com bastantes dificuldades. “Para comprar qualquer coisa tínhamos que ir caminhando até a Vila da Glória e a remo atravessávamos a Baía até São Francisco do Sul”, conta. Durante a Segunda Guerra Mundial lembra que todos ficaram um bom tempo sem conseguir comprar querosene e sal: “tínhamos que nos virar”. Neste tempo estrada era luxo, eram apenas picadas.
Este relato se assemelha muito ao casal Loli e Laura Gerker, do Braço do Norte. Esperado ou não, o entrelaçamento de famílias não é recente, sua falecida esposa, Brandina Fernandes Speck era do Braço do Norte, irmã de Laura. Assim, é difícil que as histórias não se repitam, não se unam e não formem uma grande família. Evaldo também passou por São Francisco do Sul, Garuva até Itapoá efetivamente se emancipar.

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Um ponto muito curioso de sua vida e de toda a comunidade foi o surgimento do time Cruzeiro. Fundado em 1955, Evaldo foi diretor por 30 anos. Fotos antigas revelam as diferentes gerações que nele jogaram, tanto masculina como feminina. Em sua casa um quarto é reservado para os troféus, que não são poucos. Desde o primeiro título municipal até os torneios menores, fica difícil sugerir quantas dezenas de troféus preenchem o cômodo. Além das fotos e títulos, um armário também guarda de forma muito organizada quase todas as camisetas do time. “Algumas se perderam com o tempo, mas a maioria está aí”, afirma.
Evaldo conta que em 1955 já existiam torneios municipais, mas as coisas eram bem diferentes: quando iam jogar no balneário Itapema do Norte, por exemplo, não dava para ir e voltar no mesmo dia. “A gente ia caminhando até o Pontal e depois pela praia seguíamos até Itapema do Norte”, lembra. Apesar de não ter participado em campo nos campeonatos, sempre que podia treinava junto com os titulares do time. O futebol sempre foi uma paixão. E esta paixão é seguida pela comunidade até hoje: apesar do time não existir mais há anos, todos os domingos e às vezes durante a semana moradores do Saí Mirim se reúnem para “bater uma bolinha”.
Outro marco importante foi a participação na abertura da estrada em 1957. Junto com Dórico Paese, Evaldo trabalhou no meio do mato para tornar aquele sonho uma realidade. “Dórico trabalhava mesmo com pá e não era fácil acompanha-lo”, conta.

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Suas lembranças afirmam que sempre esteve envolvido nas negociações e projetos para melhorar a cidade. Na época da luta para emancipação do município, Evaldo também esteve presente na capital do estado e acompanhou as discussões políticas. Hoje lamenta escolhas, para ele mal feitas: “Por que colocaram o nome dessa estrada para uma pessoa que rejeitou o município no momento de sua criação? Enquanto isso Dórico Paese, que lutou por Itapoá, não tem nem sequer o nome de uma rua”, fala. Datas e nome de pessoas envolvidas são muito bem lembradas, como se o ocorrido fosse ontem.
Além disso, Evaldo também recorda muito bem antigas paisagens do Saí Mirim. A casa de seus avós, por exemplo, além de estar registrada em uma foto original, permanece em detalhes na sua memória: “era uma casa de madeira, argila e palha, naquela época não havia tijolos por aqui”. A Escola Municipal Alberto Speck existe há muito tempo, desde o tempo em que Itapoá pertencia a São Francisco do Sul: “antigamente era chamada de Prainha do Saí”. Também são muito antigos o Posto de Saúde da Família e a igreja, ponto de encontro para muitos eventos da comunidade. “Antes a igreja era de madeira e tinha duas torres, mas como o vento acabou derrubando as torres, construíram uma nova igreja no local que se encontra atualmente”, recorda sua filha mais nova, Silmara Speck dos Santos, que também nasceu e mora na localidade.
Assim, entre filhos, netos e muitas lembranças, Evaldo aproveita a vida no Saí Mirim. Para ele, a localidade é um bom lugar para se viver, por isso mesmo completa seus 82 anos no mesmo local, seguindo a tradição da família Speck. Conforme Silmara, para setembro, quando se completam os 100 anos dos Speck no Saí Mirim, estão programando uma bela festa para celebração. É tradição que vale mesmo bastante comemoração.

Matéria publicada na Revista Giropop – Edição 16 – Maio/2014

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