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Pousada Monte Crista: Espaço de vivências e transformação

“Lá fora”, é assim que a comunidade residente na ecovila do Monte Crista, em Garuva-SC, se refere à cidade grande. Não é para menos: os rios, as trilhas, a cachoeira, as árvores, as flores e a montanha fazem qualquer um se sentir em um mundo à parte. Foi neste cenário que José Scussel fundou, em 1999, o Monte Crista – Espaço de Vivências, um ambiente com pousada, restaurante, centro de vivências, centro de terapias, centro de cerimônias, cursos e eventos anuais; tudo isso, no pé da montanha Monte Crista. José infelizmente, ele veio a falecer no mês de dezembro.

Ana Beatriz Machado

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Erika (ao centro) com dona Lidia (Tribo Guarani) e Teobaldo
filho mais velho de José Scussel. (In memorian), a esquerda.
Ao fundo colaboradores e visitantes da pousada Monte Crista.

 

Para dar continuidade ao seu desejo e ao seu trabalho, conversamos com a parceira de José, Erika Rosendo de Freitas Lima. Em nome de toda a equipe deste espaço, Erika fala sobre os eventos anuais organizados pelo Monte Crista, sobre os projetos futuros e o porquê de este não ser um terreno qualquer, mas um terreno de transformação.
Natural de Natal-RN, Erika é bailarina e rodou o mundo com suas apresentações. Há nove anos, por intermédio da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, em Joinville, onde foi bailarina e professora, o destino fez com que ela chegasse ao Monte Crista, em Garuva, para participar de uma vivência. Ela recorda que, de imediato, a paixão veio em dose dupla: pelo espaço e pelo Amado, como ela costumava chamar José carinhosamente. “Os últimos dois anos foram muito intensos, pois esvaziei minha mochila e decidi colocar nela o que mais interessava. Deixei de lado meu cotidiano artístico e escolhi me dedicar, junto do Amado, aos saberes da autossuficiência, sustentabilidade e harmonia com o meio ambiente, e viver o cotidiano no Monte Crista”, fala. Hoje, com a partida de José, ela acredita que esta intuição teve um propósito: se preparar para despertar o poder feminino frente a tantas responsabilidades.
Todo o ambiente Monte Crista surgiu de uma intenção muito simples: construir um lugar agradável para viver, receber pessoas e compartilhar ensinamentos. O espaço oferece um turismo de transformação humana que atraem visitantes e hóspedes de todo o Brasil. No Monte Crista, as ideologias são pautadas em ações sustentáveis, como semeadura, compostagem, horta, etc., e artísticas, como oficinas de mandalas, danças, teatros, artesanatos, entre outros. Na ecovila, além de Erika, residem dezessete pessoas, todos chamados de colaboradores. “Juntos, dividimos os afazeres e preservamos toda essa área rural, para continuar servindo a todos como um lugar de paz, tranquilo e de natureza abundante”, fala. Além do ambiente da pousada, o lugar oferece vivências, terapias, cerimônias, passeios, trilhas, workshops, eventos e encontros.

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Além do ambiente da pousada, o lugar oferece vivências, terapias, cerimônias, passeios, trilhas, workshops, eventos e encontros.

Durante o ano, o Monte Crista – Espaço de Vivências organiza o Encontro de Carnaval e o Encontro de Ano Novo, que têm como lema “Construindo o Mundo que Queremos”. Estes eventos são baseados em quatro pilares: encontro, talento, serviço e transcendência.
Erika nos explica o que isso quer dizer: “Todas as instalações são simples, sem frigobar, internet, televisão e afins, para que as pessoas tenham uma aproximação natural com a natureza e com as outras pessoas que aqui se encontram. Por isso, o encontro é inevitável. Já o talento é oferecer o que temos de melhor dentro de nós. Amado costumava dizer que somos expressões únicas, individualizadas, dotadas de talentos e que jamais vai existir alguém como eu ou você. É um convite para colocarmos o nosso talento à disposição, o que já nos leva ao terceiro pilar, o serviço, lembrando que serviço é diferente de trabalho. No trabalho, seguimos uma série de obrigatoriedades, como horários, vestimentas, regras, etc. Já o serviço significa estar disponível para colaborar com algo. Por fim, a transcendência significa perceber como estamos diferentes de quando chegamos. É, depois de cada atividade, você se reconhecer de outra forma”.
No Encontro de Carnaval, os participantes são convidados a tirar suas máscaras. Neste ano, o evento vai de 24/02 a 01/03. Já o Encontro de Ano Novo acontece no mês de dezembro, de 27/12 a 03/01. “Nestes dois encontros, são sete dias de experiência no Monte Crista, sem tecnologia, carnes ou bebidas alcoólicas, criando a própria realidade, com consenso e autogestão”, explica Erika.

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A pousada fica ‘‘aos pés’’ da montanha Monte Crista.

Para ambos os eventos, de Carnaval e de Ano Novo, são disponibilizadas cem inscrições.
Para Erika, um dos momentos mais marcantes dessas datas é a tomada de decisões. “O coração dos encontros é a tomada de decisões em consenso. São cem pessoas se colocando à disposição para oferecer seus talentos, como contação de histórias, teatro, música, horta, aula de yoga, fogueira, meditação, dança circular, entre outros itens de uma lista enorme. A partir daí, nos perguntamos: ‘Como vai ser o nosso dia de amanhã? Vamos construir o mundo que queremos?’, e organizamos toda a programação”, conta. Além de todas as oficinas e atividades, a equipe do Monte Crista oferece passeios por determinados trechos do Rio Três Barras – chamados de Piscina do Abraço, Piscina do Encontro e Piscina da Alegria, pela cachoeira e uma opção um pouco mais desafiadora, que é subir a montanha. Desse modo, a programação dos encontros acontece de maneira flexível, com a participação de todos, e uma edição nunca se repete a outra, pois as pessoas e as propostas nunca serão as mesmas.

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A pousada oferece passeios por trechos do rio Três Barras.

Por fim, todo mês de maio, acontece um terceiro evento, que segue um princípio diferente e tem uma estrutura mais complexa do que os eventos anteriores. Três grupos são divididos em três fins de semana para acontecer os Ritos da Montanha, uma jornada pelos caminhos do Peabiru, subindo o Monte Crista. A cerimônia dura a noite toda e acontece o Rito de Realização. “O encontro de maio é o momento para fortalecer o conjunto de valores pessoais, despertar os talentos e potenciais individuais. Os Ritos da Montanha convidam as pessoas a olharem para aqueles projetos que estão engavetados e viverem seus sonhos”, fala Erika. Toda a celebração é realizada no cume da montanha, inclusive, a janta. Para este evento, são disponibilizadas 44 vagas – um número cabalístico, que representa todos os projetos voltados para o bem da humanidade.
Atualmente, Erika, Teobaldo (o filho mais velho de José) e os demais colaboradores do espaço de vivências estão se percebendo em como dar continuidade a este espaço tão místico e mágico.

“Amado, que sempre coordenou e liderou tudo isso, costumava dizer que todos aqui são como árvores: a comunidade, os amigos, os visitantes e os hóspedes. E, de um dia para o outro, tivemos que virar árvores mesmo, não ficando mais à sombra da árvore frondosa que era ele, mas distribuindo as sementes que estão nesse solo fértil, ou seja, partilhando todas estas funções e saberes”, diz.

Para ela, José hoje se encontra em todos os cantos do ambiente Monte Crista, pois se tornou parte do universo. Seu sonho, de construir um mundo melhor e transformador, será continuado por todos os seus amigos, parceiros e colaboradores. Nas palavras de Erika: “seguiremos crescendo como árvores”.

Entre em contato através do site www.montecrista.org
ou do email pousada@montecrista.org.br

Matéria publicada na Revista Giropop – Edição 49  – Fevereiro 2017