Educação

Escola: tempo para todos

Augusta Gern

Para aprender não existe hora e isso algumas pessoas sabem e demonstram muito bem. Às 18h55 o sinal toca e todos os alunos entram na sala de aula. Ao abrir o caderno e prestar atenção nas lições não compartilham apenas conhecimento, mas muita experiência de vida, lembranças e superação. É assim a rotina de muitos alunos de Itapoá que, com mais de cinquenta anos resolveram voltar à sala de aula. Depois de algumas dificuldades e tempo, mostram diariamente como é bom e importante estudar.
Na Educação de Jovens e Adultos (EJA), oferecida pela rede municipal de ensino, é possível cursar todo o ensino fundamental com uma grade curricular diferenciada, onde cada semestre corresponde a um ano. Oferecida no período noturno na Escola Municipal Ayrton Senna, a EJA tem o objetivo de promover novas oportunidades para o aprendizado. Assim, jovens de 16 anos, que estão fora da idade série, dividem a sala de aula com pessoas até da melhor idade, formando turmas heterogêneas em idades, culturas e formas de ver o mundo.
Conforme a gestora da EJA, Sandra Maria Dani Benck, há uma procura muito grande e até listas de espera surgem nas matrículas. Muitos acabam desistindo no meio do caminho, mas ela percebe que eles se sentem valorizados em estarem lá. Além disso, é gratificante para a escola e para os alunos quando chega o momento da formatura e mais uma etapa foi concluída: ali os alunos chegam até o 9º ano.
Para dar continuidade aos estudos, o ensino médio é oferecido pela rede estadual de ensino através do Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA), na Escola de Educação Básica Nereu Ramos. Da mesma forma, no CEJA cada semestre também corresponde a um ano.
Conforme a secretária municipal de educação, Terezinha Fávaro da Silveira, é um orgulho para a educação ver adultos e pessoas mais velhas frequentarem as salas de aula. “O adulto tem a mesma capacidade de aprender, ou até melhor, pois tem maturidade, objetivos e aplica todos os ensinamentos às suas vivências”, afirma. “Esses alunos sabem tirar até o último gás do professor com as suas dúvidas e vontade de aprender”.
Para Sandra a diferença de trabalhar com adultos é muito grande. Também professora de ciências e matemática no ensino regular, Sandra admite que prefere trabalhar na EJA: “É um grupo muito diferente, tem histórias diferentes que recompensam todos os problemas”.
A professora de matemática, Amanda Fehrmann Gern, também se sente realizada ao trabalhar com adultos. Para ela, são com eles que o ensinar faz mais sentido, “pois a maioria dos alunos dá um grande valor a esse momento”. Ela conta que é preciso ensinar de uma maneira diferente, estar aberta para aprender todos os dias e buscar novas metodologias para adequar à realidade dos alunos.
Conforme a professora de geografia Jacquelini Zamboni Paese, que há 15 anos trabalha com a educação de jovens e adultos, como as turmas são muito heterogêneas, exigem habilidades diferentes dos professores: “Precisamos saber dar mais atenção aos mais velhos e conquistar os mais jovens”, explica. Mas nem sempre foi assim. Segundo Jacquelini, o perfil do ensino mudou muito ao longo dos anos. Antes a maioria eram alunos adultos, mas à medida que o município está crescendo e as escolas estão recebendo mais alunos todos os dias, os estudantes chegam mais cedo na EJA e as turmas estão cada vez mais heterogêneas. “Porém todos os alunos interagem e se ajudam, é muito interessante”, conta.

Orgulho

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Tereza Cristina Biss, 69 anos.

No começo a vergonha era grande: saia rápido de casa para que os vizinhos não a vissem, hoje é motivo de orgulho. Com 69 anos, Tereza Cristina Biss está prestes a se formar no 9º ano. Depois de muitas dificuldades foi incentivada pela filha professora a voltar a estudar e hoje passa o dia esperando a hora de ir para a escola: “agora eu sei o quanto é bom aprender”.
De Campo Largo, Tereza perdeu o pai com sete anos e a partir de então teve que trabalhar para ajudar em casa. Até os 14 anos trabalhou na roça, depois passou para uma fábrica de malas, onde se aposentou. “O tempo é tão corrido que não deu tempo para estudar antes”, lamenta.
Aos 20 anos casou e com o tempo vieram os três filhos, hoje formados. Com os filhos criados, sua mãe adoentou e virou sua dependente, “aí a vida ficou mais difícil”. Quando a mãe faleceu aos 95 anos de idade, mais uma surpresa: “20 dias depois que ela morreu eu descobri que tinha câncer e até perdi a vontade de viver”, lembra. Dona Tereza então passou por todos os procedimentos: quimioterapia, radioterapia e cirurgia. Então, quando estava curada da doença pensou: “já que não morri, vou estudar”, brinca.
Até então Tereza sabia escrever o nome e ler um pouco, “mas tudo fazia falta”. Hoje as coisas são bem diferentes: “é como se tivesse acendido uma luz muito forte”, conta. Para ela, o momento mais importante de toda essa caminhada foi quando uma de suas filhas a buscou na escola: “Ela me pegou na mão como se eu fosse uma criança, até então eu nunca tinha passado por isso”, lembra emocionada.
Com a formatura prevista no próximo mês, Tereza já irá se matricular no CEJA para cursar o ensino médio. “Agora eu quero estudar cada vez mais”, afirma. E aconselha: “Jovem, não deixe de estudar porque o futuro é de vocês”.

Determinação

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Nicodemo Pavaeiski, 58 anos.

Para senhor Nicodemo Pavaelski, 58 anos, o grande incentivo para começar os estudos foi a autoescola. O desejo para tirar a carteira de motorista o fez iniciar o curso teórico, mas quando chegou ao ditado percebeu que não iria dar conta.
Há 29 anos em Itapoá, até então Nicodemo só sabia escrever o seu próprio nome, e ainda errado. “Até hoje recebo ligações de bancos para saber o meu nome correto, porque trocava algumas letras”, conta.
Natural de Irati trabalhou na roça desde pequeno: “A minha família era grande e na época futebol, violão e escola eram coisas para preguiçosos, nós tínhamos que trabalhar”. Aos 18 anos foi para São Paulo em busca de trabalho, mas nunca permaneceu por muito tempo em uma empresa pela falta de estudo. Porém, nunca ficou parado.
Em Itapoá conheceu algumas pessoas confiaram em sua força de vontade e sempre o ajudaram muito. “Eu ia em bancos e resolvia alguns negócios para eles, então quando eles descobriram que eu não sabia ler, resolveram me ajudar”, lembra. A sua primeira professora então foi como uma grande amiga: mostrou algumas coisas e sempre o incentivou a começar a ir para a escola. “Hoje eu quero escrever uma carta para ela de agradecimento, tenho certeza que ela vai gostar de receber as minhas palavras”, fala.
Toda essa confiança e incentivo foram reforçados pelo desejo da carteira de motorista, e assim há seis anos Nicodemo resolveu entrar pela primeira vez em uma sala de aula. “Tudo que eu faço é com amor, sempre tento fazer o melhor possível”, afirma.
Há quatro meses sofreu um derrame e agora vive com algumas dificuldades motoras, porém continua com uma vontade e determinação para viver: “se eu reclamar da minha vida serei muito injusto”.
No próximo mês encerrará o ensino fundamental e, apesar de um pouco nervoso, já se sente apto para finalmente tirar a carteira de motorista. E ao perguntar sobre a maior mudança de sua vida com os estudos, a humildade emociona a resposta: “antes eu ia ao postinho de saúde e ficava lá sozinho o dia inteiro esperando a consulta. Depois que aprendi a ler descobri que eles colocavam uma placa na porta com o dia e horários de atendimento dos médicos”.

Crescimento

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João Batista Juvêncio, 50 anos.

Com estudo as coisas também mudaram na vida de João Batista Juvêncio, 50 anos. Natural de Londrina, também trabalhou na roça desde pequeno. “Estudei até o 4º ano, mas como os meus irmãos e vizinhos eram mais velhos e terminaram antes, não tinha mais como eu ir para a escola”, lembra. Assim, parou os estudos.
Itapoá surgiu em sua vida como a terra de oportunidades: “falaram que aqui tinha emprego e acabei vindo”. Segundo ele, na cidade todos sempre o receberam com braços abertos e logo encontrou um bom emprego.
A volta aos estudos surgiu como uma necessidade do próprio trabalho. Há alguns anos João trabalha no Porto Itapoá e foi promovido, mas para isso precisava ter estudos. O melhor de tudo é que a necessidade é prazerosa e abriu novos caminhos em sua vida: “O mundo se amplia de certa forma que é inexplicável. É como se você visse uma luz no escuro”, conta.
Para ele, escola traz um retorno imenso. Hoje cursando o 7º ano, já projeta fazer o ENEM e fazer um curso técnico de construção civil. O maior desafio dessa cansativa jornada é a saudade da família, pois vê pouco: “quando eu saio para trabalhar meus filhos ainda estão dormindo e, quando volto da escola, eles já foram dormir”. Porém, é um desafio que vale a pena: “com conhecimento a vida fica muito mais fácil”, afirma.

Força de vontade

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Andrelina Galvão, 54 anos.

Outro grande exemplo de superação é Andrelina Galvão dos Santos de Oliveira, 54 anos. Ela já encerrou o ensino fundamental na EJA e hoje está no primeiro ano do ensino médio regular. Sim, o desafio para ela é diferente: ao invés de cursar no CEJA, onde a grade curricular é diferenciada e um semestre corresponde a um ano, Andrelina prefere compartilhar conhecimento e vivências com os jovens de 15 anos do período noturno na Escola Nereu Ramos. “Escolhi fazer o regular porque eu acho que é mais difícil, e gosto de dificuldades”, afirma.
Assim, o passado, onde trabalhou na roça e não teve oportunidade de encerrar os estudos, hoje ganha um presente cheio de novos conhecimentos, amigos e muito estudo. Andrelina conta que estuda em casa todos os dias e busca não faltar na escola um dia sequer: “se você puder aproveitar o máximo é melhor, porque é muito importante”.
O melhor de tudo é que em seu futuro o estudo também ganha um destaque principal: a estudante pretende fazer faculdade e se aprimorar nas tecnologias. Hoje, em virtude de trabalhos escolares já está aprendendo a mexer no computador. “Tudo isso não é dificuldade, é uma nova experiência”, afirma.

Matéria publicada na Revista Giropop, Edição 17 , Maio 2014

 

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