Guará: O belo voo vermelho sobre as águas calmas

Com sua exuberante plumagem vermelha e considerada uma das aves brasileiras mais belas, o Guará marca presença nas Baías da Babitonga e de Guaratuba. Típico de manguezais, ele é um grande representante da diversidade de aves na região e tem grande importância à preservação, assim, tornou-se alvo de pesquisas e monitoramentos nas duas baías. Porém, este é um fato recente: o Guará ficou desaparecido durante décadas e há poucos anos foi avistado novamente.

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Foto de Alexandre Grose

Augusta Gern

Conforme o livro “Guará: ambiente, fauna e flora dos manguezais de Santos – Cubatão”, de Fábio Olmos e Robson Silva e Silva (2003), uma das primeiras referências às aves vermelhas ocorreu em 1556, com a clássica obra de Hans Staden. O Alemão que foi aprisionado por índios Tupinambás avistou a ave em uma pequena ilha situada ao norte de Guarujá (SP), que até hoje é conhecida como Ilha dos Guarás.

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Foto de Alexandre Grose

A partir de então outros relatos também descrevem hábitos da ave no país, mas só foram assinaladas nos estados do Paraná e Santa Catarina muito mais tarde, na década de 1820, quando a vinda da família imperial permitiu o acesso de expedições científicas.
Conforme Marcos Wasilewski, observador de aves de Guaratuba, havia uma boa população de guarás na Baía do município, porém foi alvo de caça: suas penas eram muito utilizadas para a confecção de roupas e chapéus da corte. Segundo ele, esta ação só diminuiu a partir de uma legislação que proibiu a caça de guarás, por volta de 1885. “Talvez esta foi a primeira legislação para a conservação da ave”, sugere.

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Foto de Zig Koch

Porém, mesmo com a legislação e por Guaratuba escolhê-lo como ave símbolo, durante muitos anos o guará ficou desaparecido na cidade. Marcos lembra que na comemoração ao Dia do Meio Ambiente em 2008 conseguiram emprestar um guará vivo do zoológico de Pomerode para as crianças conhecerem e, a partir de então, ele voltou a dar o ar de sua graça na cidade. “Foi neste mesmo ano que registramos o primeiro guará do estado do Paraná na Baía de Guaratuba”, lembra.

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Foto de Zig Koch

Com isso, a ave começou a ser monitorada por amantes da natureza e participantes do Instituto Guaju. A partir de conversas com pescadores e moradores das regiões mais retiradas da Baía, o grupo começou a encontra-la e fazer os registros.
No ano passado foram vistos mais de 300 guarás juntos e, em outro dia, cerca de 350 filhotes. “Podemos afirmar que a população da Baía de Guaratuba deve ultrapassar 600 guarás”, ressalta Marcos.
Segundo Clécio João Tkachechen, também observador de aves em Guaratuba, os guarás preferem habitar o fundo da Baía porque a água é menos salgada e assim, os crustáceos que se alimenta também. Porém, como são aves muito migratórias, ainda não encontraram nenhum de seus ninhos.

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Foto de Zig Koch

Da mesma forma a ave reapareceu na Baía da Babitonga. Conforme Alexandre Grose, biólogo e pesquisador da Univille, o estado catarinense ficou 150 anos sem registros das aves, que voltou apenas em 2011.
O pesquisador explica que a primeira presença foi identificada em Santos na década de 90, as aves então começaram a se reproduzir e descer para o sul do país. A expectativa agora é que ela continue se reproduzindo, crescendo e habitando mais regiões do estado.
O primeiro registro na Baía da Babitonga, em 2011, foi de 20 indivíduos. Neste ano, o número já chega a 250. Porém, segundo Alexandre, que monitora as aves há três anos, este ainda é um número pequeno, por isso é muito importante a preservação da ave e, principalmente de seu habitat, o mangue.

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Foto de Zig Koch

Na Babitonga os principais registros são na Lagoa de Saguaçu, no Canal do Linguado e no Palmital. Em Itapoá, ainda não houve registros. Além dessa região das Baías da Babitonga e de Guaratuba, há relatos da presença dos guarás também em regiões de São Paulo e da Bahia.
Além do Brasil, a ave também está presente em Trinidad e Tobago (onde é a ave nacional), na Colômbia, na Venezuela e nas Guianas.

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Foto de Zig Koch

Características do Guará
O guará (Eudocimus ruber) é uma ave da família Threskiornithidae, que lembra as garças. Mede entre 50 e 60 cm, possui bico fino, longo e levemente curvado para baixo. Sua plumagem é inconfundível: um colorido vermelho muito forte.
Esta coloração está muito ligada à sua alimentação, que prioriza os caranguejos. Conforme o livro de Olmos e Silva e Silva (2003), “o vermelho das penas dos guarás se deve a um pigmento chamado cataxantina, que é um derivado do caroteno. O caroteno é o responsável pela cor da cenoura e da casca dos caranguejos e camarões, evidenciada quando são cozidos”. Segundo o livro, os guarás são capazes de absorver o pigmento de suas presas e acumulá-lo em suas penas, tornando-as assim vermelhas.
Sua reprodução é feita em colônias. Os ninhos são feitos no alto das árvores à beira dos mangues e lamaçais litorâneos.

SAIBA MAIS
Confira mais informações sobre as aves no site http://www.wikiaves.com.br e no livro “Guará: ambiente, flora e fauna dos manguezais de Santos-Cubatão” de Fábio Olmos e Robson Silva e Silva.

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