Estilo de Vida

Viajante a bordo: as dificuldades, lições e recompensas do trabalho em navio

“Sempre gostei de viajar, louco é quem não gosta”, diz Pedro Wielewicki, de 22 anos, morador de Itapoá-SC. Adepto à filosofia de que devemos fazer nossas vidas valer a pena, após se formar na faculdade, Pedro encontrou no trabalho em cruzeiro a resposta para todos os seus desejos: obter experiência profissional, ganhar dinheiro, aperfeiçoar o inglês e, principalmente, explorar novos lugares. Para ele, ingressar na vida a bordo mistura vivências, culturas, dificuldades e, claro, muitos aprendizados.

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Pedro Wielewick (à esquerda), de Itapoá, e seu amigo Jones Wolker (à direita) trabalhando na cozinha, a bordo do Costa Fascinosa.

Ana Beatriz Machado

Aos 12 anos Pedro já viajava sozinho para visitar seus tios, viajantes desse mundo afora, em Porto Alegre – RS. “Quando estava no Ensino Médio, costumava ouvir de meu pai que eu deveria dar uma chance para a vida a bordo, mas nunca parei para pensar seriamente no assunto”, recorda. Depois que se formou em Gastronomia, deixou Itapoá e foi buscar experiência em São Paulo, onde se concentram os melhores restaurantes do país e do mundo, e onde trabalhou, por quatro meses, em um restaurante japonês. Até que, certo dia, sua mãe compartilhou um link em uma de suas redes sociais dizendo que haviam sido disponibilizadas 500 vagas de emprego em navios, e escreveu a seguinte frase: “Se eu fosse você, arriscaria. Não custa tentar”. E assim ele o fez.

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Praça Plebiscito em Nápoles, na Itália.

Para ingressar no trabalho a bordo, Pedro narra o processo de etapas e gastos: “Primeiro, é preciso se cadastrar em uma ou mais agências responsáveis pelo recrutamento de tripulantes. Eu fiz todo o processo pela agência ISMBR, mas há outras agências muito boas, também. Fiz duas entrevistas em inglês por Skype e, em seguida, realizei um curso chamado STCW, que basicamente são os primeiros socorros para a vida no mar. Este curso dura cinco dias e custa entre R$900,00 e R$1300,00, dependendo do local. Há também os exames médicos que variam entre R$400,00 e R$600,00, mas a companhia de cruzeiro faz o reembolso desses exames. Fiz o novo passaporte brasileiro, com validade de dez anos, que custa cerca de R$250,00. Por fim, os custos com passagens aéreas e hotel que antecedem o embarque ficam por conta da companhia”.

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Marseille, na riviera francesa.

Três anos de curso em Gastronomia, um ano e meio de curso de inglês e alguns trabalhos na área era o que Pedro tinha quando fez o seu cadastro para trabalhar na cozinha de um navio. “Quando me selecionaram, fiquei bastante assustado. Eu nunca tinha estado sequer dentro de um navio e mal tinha experiência em cozinha. Não sabia o que esperar, se iria conseguir e se realmente valeria a pena” conta. No entanto, apesar de que saber inglês e ter experiência de trabalho contribui muito, Pedro afirma que não é o essencial. “Ter foco, objetividade, força física e mental é a chave para se trabalhar a bordo de navios de cruzeiro”, diz.

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Funchal, Ilha da Madeira, em Portugal.

De acordo com Pedro, variando de uma companhia para outra, os contratos para brasileiros em navios vão de seis a oito ou nove meses. Em seu primeiro contrato, ele trabalhou oito meses em três semanas como 3rd Cook (terceiro cozinheiro). Já os itinerários mudam de navio para navio, assim como os cruzeiros em si. Ele explica que no Brasil eles duram nove dias, mas há os que durem sete, onze ou até mesmo quase vinte dias, que são os cruzeiros de travessia (o cruzeiro que faz Buenos Aires, na Argentina, até Savona, na Itália, dura dezenove dias, por exemplo).

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Pedro e seus colegas de trabalho, na cozinha do navio.

Pedro considera as primeiras semanas como as mais difíceis, especialmente para quem nunca trabalhou a bordo. “Diferente do que muitos imaginam, trabalhar em cruzeiro não é glamoroso, começando pela língua. Você pode ser o maior expert em inglês que, mesmo assim, vai encontrar dificuldade ao embarcar. Viver em um local que mistura trinta nacionalidades diferentes significa muitos sotaques a bordo, uns deles mais difíceis de compreender, como o inglês falado pelos indianos e jamaicanos”, explica Pedro. A escala de trabalho é outro desafio, pois não há nenhum dia de folga. A bordo se trabalha todos os dias do contrato, no mínimo, de onze a doze horas por dia. Tudo isso, fora o fato do fuso horário. “Toda semana, trabalhando na temporada brasileira, tínhamos que nos adequar ao horário argentino”, recorda Pedro, “então, se você é do tipo que reclama muito do horário de verão, vai gostar muito menos de avançar e voltar uma hora toda semana, pior ainda na travessia do Brasil para a Europa, na qual avançamos cinco vezes o relógio, dia sim, dia não”.

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A bordo, na temporada brasileira, ele conheceu a
Praia de Búzios, no Rio de Janeiro.

Mas, apesar do tempo para se adaptar ao ambiente, à língua e à rotina exaustiva, o viajante ressalta que há muitas vantagens ao trabalhar a bordo. A primeira delas é ter o salário “limpo”. Brasileiros, em sua maioria, recebem em dólar. Não há gastos para acomodação, alimentação ou uniforme de trabalho (inclusive, a lavagem desses uniformes fica por conta da companhia de cruzeiro). Já nas horas de folga, é possível descer do navio e conhecer os lugares pelos quais ele (o navio) passa. “Foi a bordo que conheci lugares que jamais imaginei que conheceria tão cedo, desde Montevidéu, no Uruguai, até a Ilha da Madeira, em Portugal, e Ibiza, na Espanha. Isso, sem mencionar as várias festas que acontecem a bordo, com pessoas de diversos lugares do mundo, com costumes, hábitos e culturas diferentes”, conta. Entre todos os lugares visitados até o momento, os favoritos de Pedro foram Buenos Aires, na Argentina, e Barcelona, na Espanha, “não ter criado expectativas ajudou muito, pois me surpreendi”, diz. Já no Brasil, a Ilha Grande e Búzios, no Rio de Janeiro, fizeram sua alegria.

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Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, Espanha,
um dos lugares explorados por Pedro.

Para Pedro, a grande lição de trabalhar a bordo é a humildade. Ele conta que, com a experiência, aprendeu coisas novas, conheceu lugares e pessoas em diferentes circunstâncias, e aprendeu a dar ainda mais valor às pessoas que o cercavam em terra e, também, em mar. “Dentro do navio tudo fica mais intenso pelo fato de estarmos trabalhando sob pressão, longe de casa e das pessoas que amamos”, fala, “por isso, não espere viajar para fora do país para ver o quanto são maravilhosas as belezas que possuímos a nossa volta, sejam elas as belezas naturais ou das pessoas”. Hoje, ele enxerga que nada foi em vão e que todo seu esforço e dedicação aos estudos valeram a pena: “Sou grato a minha família e a todos os professores que me ensinaram grande parte do meu saber”.

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O navio Costa Fascinosa, onde Pedro trabalhou.

A história de Pedro é baseada em sua experiência de um contrato como cozinheiro na Costa Crociere. Ele ressalta que, muito provavelmente, tripulantes de outras agências, companhias e nacionalidades possuem outra visão da vida a bordo. Para aqueles que têm a pretensão de se aventurar no trabalho em navio, Pedro deseja coragem e força. Ele também recomenda um grupo no Facebook chamado Crew Life, que reúne tripulantes, ex-tripulantes e futuros tripulantes – um bom começo para fazer amizades e tirar dúvidas. E aconselha: “A vida não é nada fácil, mas não é tão difícil quanto parece. Vejo que muitas pessoas não possuem fé nelas mesmas e na própria capacidade, por isso, acredite em você”.
Seja trabalhando a bordo ou em sua cidade, sempre que possível, Pedro explora novos lugares. Para o futuro, ele revela que não tem a pretensão de “fazer carreira” a bordo, mas deseja continuar a trabalhar em navios. Seu próximo objetivo é migrar para o Canadá. Para acompanhar suas aventuras, basta segui-lo no Facebook (Pedro Wielewicki) e Instagram (@w_pedro_w). “Torço para encontrar mais tripulantes de Itapoá e região nesse mundão afora, para que também vivam essa experiência única e tenham suas vidas mudadas”, conclui Pedro, de Itapoá para o mundo.

 

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