Férias: É hora de satisfazer, estimular e animar a criançada

É tempo de brincar, passear, visitar os familiares e amigos, fazer atividades diferentes para repor as energias e sair da rotina. É um período para acordar mais tarde, tomar um café da manhã mais demorado, ter horários menos rígidos para as refeições, ficar mais perto da família, curtir a preguiça e brincar à vontade. Mas, e os papais, mamães e demais responsáveis, o que devem fazer para satisfazer, estimular e animar a criançada com a chegada das férias escolares?
Para discutir este tema, conversamos com a mãe e professora Patrícia Machado Pereira, formada em Pedagogia e pós-graduada em Psicopedagogia Institucional e Clínica. Com mais de 25 anos de contribuição para a educação da rede escolar de Itapoá-SC, ela fala que, antes de tudo, as férias escolares devem ser vistas como um momento essencial para que as crianças e adolescentes descansem e, na volta às aulas, estejam preparadas para adquirir novos conhecimentos.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

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Com mais de 25 anos de contribuição para a educação de Itapoá, a professora Patrícia fala sobre férias, educação e estímulos para as crianças.

Normalmente, a rotina escolar das crianças e adolescentes é cansativa e exigente. “É chegada uma hora que o corpo e a mente cansam. Então, entra a necessidade do descanso e da brincadeira que as férias proporcionam”, fala Patrícia. O período de férias, além de ser um período de descanso ou diversão, é também um período benéfico para preparar a criança para novos conteúdos, deixando-a mais disposta para o aprendizado na volta às aulas, e contribuindo para seu amadurecimento.
Ela conta que alguns pais só sabem conversar com os filhos assuntos referentes à escola, inclusive, existem autores em psicologia, que consideram estas famílias como famílias ‘colegiocêntricas’, isto é, onde a criança/adolescente é tratada pelos pais, mais como aluno do que como filho, e toda a relação estabelecida com a criança/adolescente gira em torno da escola: “não quero negar a importância dos pais acompanharem as atividades escolares dos filhos, mas sim refletir que o conceito da palavra ‘filho’ extrapola e não coincide com o papel de aluno”.
“Filho passeia, se diverte, tem amigos, tem tarefas em casa (responsabilidades), pratica esportes ou outras atividades paralelas, enfim, não se reduz a um ser que frequenta a escola. A escola é um dos aspectos de sua vida e, aluno, é um dos papeis que desempenha na vida”, explica Patrícia.

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Francisco Machado Pereira Costa Oliveira e seu pai Francisco Eduardo Costa Oliveira,
o Baiano, na confecção de uma pipa, momentos antes de soltá-la na praia.

As férias, para ela, podem ser vistas como um momento em família, em que se conversa o que poderia e o que se gostaria de fazer. Pode ser atividades bem simples, como convidar os amigos de seu filho para irem a sua casa ou fazer um programa ao ar livre. A professora ainda diz que não é preciso inventar atividades a todo o momento – para ela, o mais importante é que os pais ofereçam espaço e segurança para que a criança crie o que tem vontade de fazer. Esta é, inclusive, uma forma de desenvolver a autonomia das crianças e adolescentes.
Combinar férias revezadas com amigos ou familiares que também têm filhos pode ser bacana para o entretenimento não parar. Mas, ficar em casa e também pode ser uma opção. “O tempo no computador e televisão deve ser negociado entre pais e filhos, pois eles irão aprender muito mais brincando. O ideal é que seu filho diversifique as atividades, que podem ser a leitura de um livro, um filme em família, um passeio na praia, uma caminhada, empinar pipa, jogar bola, deixar que ele seja seu ajudante em alguma receita culinária, visitar espaços públicos da cidade, pescar e tantas outras atividades. São singelos programas que podem ser feitos em família, pois, as crianças adoram e contribuem para o aprendizado e o bem-estar delas”, fala Patrícia.
Brincar, passear, viajar pode ser também uma forma gostosa de adquirir conhecimentos através do diálogo. Segundo a professora, conhecer a opinião da criança ou adolescente sobre diversos assuntos, desde música até política pode ser uma experiência interessante de troca de informações e de fortalecimento do respeito mútuo. Com ou sem dinheiro sobrando para um passeio ou uma viagem, Patrícia ressalta que as melhores férias para as crianças sempre são aquelas nas quais seus familiares se fazem presentes.
Se tratando de Itapoá, um lugar com tantas belezas naturais, ela aconselha que uma boa pedida para as férias escolares é fazer um passeio pela praia ou explorar pontos turísticos com seu filho, como o Farol, as Três Pedras ou a Reserva Volta Velha, atividades prazerosas que não exigem tanto tempo e dinheiro. “O importante, mesmo, é que esse contato seja prazeroso”, diz.
Para ela, o ideal é que os pais ouçam as crianças, para saber o que elas querem para este momento, e que tenham poder de negociação. “Às vezes, é preciso dizer ‘não’ ou ‘isso não vai dar’, mas é bom lembrar que, assim como nós, adultos, as crianças também precisam de liberdade para fugir da rotina”, conclui a professora Patrícia, “é o momento para poder ficar um dia de pijama, sem preocupações com horários e lições de casa. Deixar dormir, fazer aquilo que não dá para fazer quando não tem férias”.

 

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Deixar a imaginação fluir nos desenhos, jogar futebol na areia da praia, assistir a um filme com pipoca e brincar são boas pedidas para entreter seu filho e seus amigos.

Todo talento deve ser estimulado
Descobrir aquilo que se faz bem costuma ser fruto de um longo processo de autoconhecimento. Para a professora Patrícia, todo mundo (inclusive, os adultos) abriga um notável potencial dentro de si, e é possível descobrir isso através das experimentações.
“A criança ou adolescente só descobrirá suas aptidões se for estimulada. Por exemplo, ela nunca saberá que tem talento para pintura se nunca teve contato com telas e pincéis, assim como acontecerá com a criança que tem talento para escrever, mas seus pais nunca a deram livros ou leram histórias com ela. Os talentos estão ali, mas precisam ser incentivados e valorizados pelos pais”, diz a professora.
Para exemplificar, Patrícia, que é mãe de Ana Beatriz Machado Pereira da Costa, de 22 anos, e Francisco Machado Pereira Costa Oliveira, de 10 anos, conta: “Quando minha filha era criança, notei que ela gostava muito de vestir suas bonecas, fazer desfiles com elas e desenhar mulheres com diferentes modelos e estampas de roupas. Comecei a sentar com ela para vê-la brincar e desenhar, e eu colava cada um de seus desenhos nas paredes de seu quarto, para que ela compreendesse que eram muito bonitos e especiais. Naquela época ainda não sabíamos, mas, ali, estava nascendo seu gosto por Design de Moda, curso no qual ela se formou anos mais tarde”, diz. “Também quando criança, minha filha Ana Beatriz aprendeu a ler com gibis da Turma da Mônica, ganhava livros de presente e, todos os dias, antes de dormir, líamos uma história juntas. Quando ela passou a concluir a leitura de seus próprios livros sozinha, eu costumava pedir para que ela contasse aquela história, de forma resumida, para mim. Hoje, ela gosta muito de ler e escrever e, inclusive, trabalha com isso”, fala Patrícia.

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Patrícia com os filhos Ana Beatriz e Francisco.

Já Francisco, filho da professora com seu esposo, o músico Francisco Eduardo Costa Oliveira, mais conhecido como Baiano, convive desde cedo com diversos instrumentos, como bongô, atabaque, pandeiro, berimbau, entre outros. “Apenas observando seu pai tocar e assistindo aos DVD’s de grandes artistas repetidas vezes, ele aprendeu a tocar percussão e iniciou seus primeiros acordes no violão. Como vimos que ele tinha habilidade, o matriculamos em uma aula de violão. Mas, se ele nunca tivesse contato com a música, por exemplo, não seria possível identificar estas suas habilidades”, diz Patrícia. Além disso, Francisco também participa do grupo de Capoeira Angola na Escola (da Associação Lenço de Seda) e da escolinha de surfe Primeiras Ondas – projetos gratuitos, disponibilizados às crianças de Itapoá.

 

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Francisco é filho de pai músico, convive desde cedo com diversos instrumentos e, hoje, domina muitos deles.

Para quem deseja estimular a criança gastando pouco ou quase nada, Patrícia conta que são possíveis criar instrumentos com latas preenchidas de areia ou pedras, ou fazer uso de panelas e outros utensílios domésticos. Utilizar caixas de papelão com canetinhas coloridas para estimular a imaginação, reaproveitar embalagens de produtos para criar um pequeno mercadinho e trabalhar alguns conceitos matemáticos, construir uma horta com materiais recicláveis para vivenciar experiências de planto, colheita e o contato com a natureza também são sugestões válidas.
Aproveite este período de férias, portanto, para conhecer e participar mais dos interesses e atividades do seu filho, se divertindo com ele, conhecendo suas novas facetas, e dando a ele a oportunidade de experimentar novas atividades, seja na arte, na música, na dança, na criação de novas histórias ou em algum esporte. Pois, como disse Pablo Picasso: “Todas as crianças nascem artistas. O desafio é que continuem a ser artistas depois que crescem”.

 

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