Estilo de Vida

Natureza, rusticidade, família e memórias

Falar da casa de Ilva Poitevin de Aguiar é falar de sonhos e memórias. O lugar, chamado “Rancho Crioulo”, conta a história de Ilva e José Luiz Vizcaychipi de Aguiar, o Zeca, seu falecido esposo, que adorava dar vida a peças de engenho, tudo “à base da machadada”.
Hoje, com o crescimento do município de Itapoá, o terreno está cercado de empresas portuárias, containers e caminhões, mas, ainda assim, a localização é privilegiada pela imensidão verde da natureza e o canto dos pássaros – o que faz da casa de Ilva uma verdadeira “casa dos sonhos”.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

10082017-13

Em cada detalhe, as peças de engenho compõe a rusticidade do ambiente. Ilva e presa de farinha de mandioca, outra peça que carrega memórias.

Ilva, de Curitiba-PR, e José, de Itaqui-RS, se conheceram quando ela tinha 13 anos de idade e, ele, 16. Quatro anos depois, noivaram e, passados dois anos, se casaram. Já vivendo no município litorâneo do norte catarinense, moravam em uma casa próximo à praia, na região do Continental. “Mas o Zeca não gostava muito do mar. Como um bom gaúcho, ele adorava cavalos e seu desejo era morar num lugar onde pudesse estar junto dos animais”, recorda Ilva. Certo dia, ela o flagrou fazendo o desenho de uma casa, o que seriam os primeiros esboços do chamado Rancho Crioulo, projetado e tão sonhado por José.

Há cerca de quarenta anos, o casal comprou um terreno amplo, localizado na região da Jaca, em Itapoá e, lá, construiu o rancho. Apenas uma pequena parte da área verde foi desmatada, para que José criasse seus cavalos. No início de tudo, Ilva lembra que a casa era pequena e que chegaram a manter até oitenta cavalos. “Como era uma época tranquila, não precisávamos de portão, alarmes ou caseiros. Tínhamos apenas cercas, por causa dos animais”, diz.

10082017-14

Acima, quando a casa ficou coberta pelas plantas e, abaixo, os cavalos no rancho de antigamente.

Mas as peculiaridades do rancho vão muito além da área externa, passando pela decoração da casa. Segundo Ilva, é possível contar nos dedos de uma mão quantos móveis foram comprados, pois a maioria deles era criada por José “à base da machadada”. Ela recorda que, em suas andanças, ele costumava visitar engenhos de farinha e garimpar peças de madeira. Em seguida, projetava as ideias e, com a ajuda dos peões, executava bancos, janelas, mesas e afins. Em uma tela, Ilva, que é artista plástica, pintou um antigo engenho, localizado no Saí Mirim, e explica a história por trás da pintura: “Este engenho estava desativado e o Zeca comprou a maioria de suas peças. Ele e os peões tiveram de passar por um rio de pedras, enquanto os bois traziam as peças e, depois, as colocaram em um caminhão para, enfim, trazê-las para casa”.

10082017-01

Ilva Poitevin de Aguiar e uma de suas pinturas que conta a história de sua casa, o “Rancho Crioulo”.

Por todo o lugar, há criações de José: de uma árvore foi feito o sofá, de outra foram criados os bancos, de um tronco nasceu a mesa, e o mesmo aconteceu com a prensa de farinha de mandioca, a cabeceira da cama, a moldura do espelho do banheiro, o lustre, as fechaduras das portas e janelas, entre outros – tudo, criado manualmente com madeira de peças de engenho, de cerca de quarenta anos há atrás e que, hoje, permanece intacta. A casa também conta com algumas antiguidades, como o relógio da avó de Ilva e a radiola da mãe de José que, depois de cem anos, ainda funciona.

10082017-09

A casa do rancho foi criada, projetada e sonhada pelo falecido José Luiz Vizcaychipi de Aguiar.

Com o crescimento do município, parte do terreno da família foi vendida para o Porto Itapoá e a APM Terminals. Mas Ilva garante que, mesmo com avanços, como as ruas pavimentadas, o rancho ainda preserva suas principais características: a paz e o contato com a natureza. Hoje, no terreno, está a casa de Ilva, seu ateliê, garagem, área de lazer, a casa de um de seus filhos e, também, a casa do caseiro.

O lugar também serve de lar para onze cavalos, cachorros, gralhas, garças e pássaros, como tiê-sangue e sabiá. Ela também conta que, todo verão, as andorinhas migram para a lareira de sua casa, onde criam seus filhotes. “Neste inverno, que não fez tanto frio, elas ainda não foram embora. Todo final de tarde, fazem uma revoada e se revezam para fazer os ninhos. É muito bonito de se ver”, diz Ilva, que abdicou gentilmente de sua lareira para as andorinhas.

10082017-11

Todo verão, as andorinhas migram para
a lareira da casa, onde criam seus filhotes.

Juntos, ela e José tiveram três filhos e quatro netos que, hoje, dão continuidade aos bons momentos vividos no Rancho Crioulo. “Procuramos manter a tradição dos almoços em família. Meus netos amam os animais e acho importante que eles valorizem o contato com a natureza e preservem isso em sua essência”, fala Ilva. Com 76 anos de idade e muitas histórias para contar, ela está escrevendo dois livros: o primeiro, sobre sua trajetória artística, que será lançado em breve e, o segundo, sobre sua história com José e a construção da família, para servir de legado às futuras gerações. Para ela, o conceito de “casa dos sonhos” está ligado à rusticidade, ao cheiro do verde da natureza, às raízes e, é claro, à família.

Categorias:Estilo de Vida