História: Memórias de uma antiga Itapoá

No mês das mulheres, contamos a história de três mulheres fortes e vividas: as irmãs Elisa dos Santos Silva (83 anos), Pureza dos Santos Silva (75 anos) e Maria Porfírio da Costa (68 anos), mais conhecida como dona Lica.
Nascidas e criadas no município de Itapoá (SC), mais precisamente na Barra do Saí, sua família foi uma das pioneiras da região – o que, é claro, nos rendeu boas histórias e muitas memórias.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

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Da esquerda para a direita, as irmãs Maria Porfírio da Costa (a dona Lica), Elisa dos Santos Silva
e Pureza dos Santos Silva. No colo, o retrato de seus pais Justina e Alexandre.

Tudo começou pelos falecidos Justina Alexandrina da Conceição e Alexandre Porfírio dos Santos, nascidos e criados em uma casa à beira da mata, na colônia do Saí-Guaçu, em Itapoá – o que indica que sua família ajudou a povoar o local. Não se sabe ao certo o ano em que isso aconteceu, pois, naquele tempo, as datas dos registros não tinham precisão.
Na comunidade, Justina e Alexandre tiveram seus seis primeiros filhos: Emanuel (que faleceu logo em seu nascimento), Inácio (falecido há três anos), as gêmeas Ana e Maria (falecidas com sete meses de vida), Luzia (que vive em Guaratuba, aos 85 anos de idade) e Elisa (uma de nossas entrevistadas). Certo dia, em busca de novos ares, a família deixou a colônia e, em uma canoa, desceu o rio Saí-Guaçu abaixo, para viver na Barra do Saí.

Do lado de cá
Chegando ao destino final, precisavam de um lugar para viver. Dona Elisa explica como acontecia antigamente: “Para morar em um lugar já habitado, era preciso pedir permissão à pessoa mais velha que ali vivia. Na época, o mais antigo era Pedro Franco. Ele, então, permitiu que nosso pai demarcasse um terreno e construísse uma casinha para nossa família”.
Já na Barra do Saí, Justina e Alexandre tiveram mais quatro filhos: Antônia (que faleceu com um ano de vida), Luiza (falecida há 21 anos), Pureza e Maria (as duas últimas, também entrevistadas).
Naquele tempo, da Barra do Saí até a Figueira do Pontal, a maioria das famílias vivia de duas atividades: a roça e a pesca. As crianças, por sua vez, pouco desfrutavam da infância, pois ajudavam seus pais desde muito cedo, seja socando o arroz no pilão, cozinhando para a família, cuidando dos irmãos mais novos ou plantando e colhendo alimentos na roça.
Estudo também era sinônimo de luxo. Dona Elisa, a mais velha, estudou durante três meses em uma escola de Coroados, em Guaratuba (PR) – o acesso era feito a pé, pela praia, e de canoa, pelo rio. Já as irmãs Pureza e Lica receberam estudo de professoras que chegavam a Itapoá e lecionavam nas casas das famílias.

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Dona Elisa foi a primeira costureira da Barra do Saí e até hoje orgulha-se ao mostrar uma de suas máquinas de costura.

Costumes
Dentre as lembranças das brincadeiras de criança, as irmãs gostavam de pular corda, aparar peteca e brincar de roda. “Também brincávamos de esconder bolo. A brincadeira era assim: segurando uma varinha, uma criança pedia aos colegas que procurassem ingredientes na natureza, como folhas de laranja ou de mamona, para fazer um bolo de brincadeira. A criança que chegasse atrasada ganhava uma varada. Depois, escondíamos o bolo debaixo da terra e todos tinham que procurar”.
Católica, a família rezava na rua, em um campal, onde havia uma cruz, e os filhos tinham o costume de pedir bênção aos mais velhos. “Quando uma criança aprontava, apanhava com vara de cipó. Mas, comigo, isso aconteceu uma só vez, pois amava e respeitava muito o papai e a mamãe (modo carinhoso que as irmãs referem-se até hoje aos seus pais)”, conta dona Lica. As benzedeiras também eram parte da crença popular. “Cobreiro, quebrante, vermes ou dor de barriga, não havia nada que uma benzedeira, um chá de erva ou um homeopata não curassem”, complementa dona Lica.
As irmãs mais novas aprenderam a confeccionar cestos e balaios de cipó. Também, pescavam no rio e pegavam caranguejo e marisco no manguezal. “Antigamente, os peixes existiam em abundância em nossos rios”, contam. Diferente das irmãs, o passatempo favorito de Elisa era costurar e fazer crochê, atividades que aprendeu apenas observando suas vizinhas. “Aprendi a fazer crochê aos cinco anos e, aos dez, costurei meu primeiro vestido”, conta Elisa, que fazia roupa para as irmãs e as vizinhas, com anarruga, faile, itamina e fustão – tecidos populares da época.
Em um tempo onde não existia massa de pão, a comida tradicional da família dos Santos Silva era arroz, toucinho de porco, gengibre e carne de passarinho. “Felizmente, nossas mesas eram fartas de comida, principalmente antes de ir para a roça”, lembra dona Pureza. Desde a juventude, os pratos favoritos das três irmãs são mocotó com rabada, caldo de peixe e feijoada com carne cozida.

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A simpática dona Pureza cuidando
de suas plantas, na Barra do Saí.

Histórias
Na boca do povo estavam lendas como O Homem da Mão Peluda, que se escondia na mata e pegava as crianças que andassem sozinhas à noite, e o Boitatá, uma grande cobra que lançava fogo. Certa noite, Elisa, que se considera a mais “marvada” (como costumam dizer) entre as irmãs, estava caminhando pela praia e, com um facho que soltava faíscas, assustou o povoado: “Eu dava voltas e voltas no escuro, com o facho faiscando. Todo mundo saiu correndo, achando que era o Boitatá. No dia seguinte, só se falava disso, e eu fingi que não sabia de nada. Hoje, só conto essa história porque aquela gente já se foi”.
Ela também recorda uma noite em que seguiu sua mãe pela beira da praia, para ver um barco que havia encalhado: “Pelo caminho, desviei de pontos vermelhos muito brilhantes, que acreditava serem brasas do cachimbo da mamãe. Mais tarde, conversando com ela, descobri que seu cachimbo não estava aceso e desconfiamos de que eram diamantes”. Naquela época, muito se falava sobre pratas, ouros e pedras preciosas que existiam próximas aos sambaquis – mas nunca alguém, de fato, as achou.
Assim como cada volta do Rio Saí Mirim, as donas Pureza, Lica e Elisa contam que, a cada 1000 metros, as praias de Itapoá recebiam nomes específicos, que foram agrupados com o tempo. Começando pela Barra do Saí, eram eles: Abreu, Crispim, Arrancado, Roxo, Camboão, Mendanha, Ilha do Meio, Ariel, Lagoinha, Lorato, Itapoá, Morretes, Barra do Rio, Ana Rosa, Ponta do Pontal, Pontal, Piçarras e Figueira. Diferente do que muitos imaginam, a praia da antiga Itapoá era quase inacessível. “Antigamente, a praia era cercada por mata fechada. Era a coisa mais linda, mas também era muito perigoso. Hoje, morando no mesmo lugar em que cresci, percebo que a praia parecia muito mais distante, graças às árvores e plantas que existiam para chegar até lá”, lembra dona Lica.
Tradicionais eram as festas e fogueiras para Santo Antônio, São Pedro e São João. Dona Elisa lembra os bailes caipiras, de Carnaval e de Páscoa: “eram muito mais divertidos, pois hoje em dia não é dança, é pulo”. Segundo as irmãs, ao bater todo o arroz (procedimento para retirar o grão do cacho), o alimento era sacado e o salão ficava livre para o baile, que acontecia até o amanhecer. Assim como sua mãe, dona Pureza adorava dançar. Fandango, Tonta, Chamarrita, Passeado, Xote, Vaneira, Manzuca e Meia Arcanja eram as modas musicais da época. “Quando chegava a Tonta, as moças sabiam que a Chamarrita vinha logo em seguida. Por isso, havia um versinho que dizia: ‘quando chega a Tonta, Chamarrita na ponta’”, recorda dona Lica, que tem memória boa para os versos de antigamente.

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A mais nova das irmãs, Maria Porfírio da Costa, conhecida como dona Lica, em frente ao terreno onde cresceu e mora atualmente.

De geração em geração
Naquele tempo, um aperto de mão era sinônimo do início de um namoro. Como a maioria dos antigos, Elisa, Pureza e Lica também se casaram com o primeiro namorado e conheceram seus esposos (hoje, já falecidos) nos tradicionais bailinhos. Já o parto dos bebês era feito com as famosas parteiras. Dona Pureza recorda: “Quando a bolsa da gestante estourava, o marido ia de bicicleta buscar a parteira, que vinha na garupa. Somente no nascimento do bebê que descobríamos o seu sexo”. Para entender a árvore genealógica dessa grande família, é preciso citar um a um (quem sabe, nossos leitores não identifiquem alguns conhecidos?).
Elisa se casou quando tinha 15 anos de idade com Álvaro Emídio da Silva. Seu sogro, Euclides Emídio da Silva, foi um imigrante que chegou a Itapoá em 1922, sendo um dos primeiros homens a habitar a região da Barra do Saí – daí o nome da conhecida Escola Municipal Euclides Emídio da Silva. Juntos, Elisa e Álvaro tiveram seis filhos: Ezequiel Domingos da Silva, Eurides José da Silva (já falecido), Rosi Elisa da Silva (já falecida), Álvaro Luiz da Silva (também já falecido), Alexandre dos Santos Silva e Euclides Emídio da Silva Neto.
Já Pureza, se casou aos 16 anos com João Pedro da Silva. Tiveram oito filhos: Madalena da Silva, João Alexandre da Silva, José Afonso da Silva, Antonio Santos da Silva, Fernando da Silva, Rosa da Silva, Maria da Silva e Pedro Paulo da Silva (os três últimos já falecidos).
Por fim, Maria, a dona Lica, também se casou aos 16 anos de idade. Seu parceiro foi Alirie Félix da Costa, com quem teve seis filhos: os gêmeos Dulcenéia da Costa e Dirceu da Costa, Davi Porfírio da Costa, Doval da Costa, Dorival da Costa e Daniel da Costa.
Vale lembrar que as três irmãs se casaram na igrejinha da comunidade Saí-Guaçu e todos os vestidos de noiva foram confeccionados pela primeira costureira da Barra do Saí: dona Elisa.

Vida moderna
Além do pioneirismo na costura, dona Elisa também foi a primeira merendeira da antiga Escolinha da Barra e a primeira funcionária do Posto de Saúde da Barra, quando o município ainda pertencia a Garuva (SC). Pureza, por sua vez, trabalhou durante trinta anos como confeiteira, suprindo toda a comunidade com seus pães, doces e bolos. Já Maria, a Lica, trabalhou no antigo restaurante Cabana da Barra, em uma banca de camarão e como zeladora das casas de turistas – atividade que mantém até os dias atuais.
Se dedicássemos um dia inteiro para conhecer as histórias destas simpáticas senhoras, ainda assim, seria pouco. Mas, em uma tarde, tivemos o prazer de ouvir alguns de seus causos, saber mais sobre sua família e sobre a Itapoá de tempos remotos. É bom ressaltar que Pureza e Elisa são tias-avós e dona Lica é avó de quem vos escreve – o que deixou esta tarde de descobertas ainda mais especial.
Nos dias atuais, tudo mudou: dona Lica e dona Pureza têm aparelhos celulares, e dona Elisa liga a sua televisão para assistir à novela. Mas, mesmo com o avanço tecnológico, sentem saudade do passado: “As pessoas viviam com muito pouco e se sentiam muito mais completas e felizes. Tinham empatia umas pelas outras e os vizinhos eram como irmãos. Hoje, com tanta maldade, percebemos que o amor esfriou da face da terra, mas ainda é preciso ter fé, para que ele viva dentro de nós”.

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