Superação no combate ao câncer de mama de mãe para filha

Joana Soares da Silva, artesã, e Cintia Juliana da Silva Colotoni, enfermeira, são mãe e filha, amigas, confidentes e parceiras para momentos bons e ruins. Em períodos diferentes, ambas conheceram, viveram e venceram a dolorosa batalha contra o câncer de mama. Seja no campo da arte ou da saúde, a experiência de vida fez com que Joana e Cintia se reconhecessem e conhecessem, também, o propósito de suas vidas.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

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Joana (mãe) e Cintia (filha): amor e cumplicidade para os
momentos felizes e turbulentos, como o câncer de mama.

 

     Joana sempre fora saudável, ativa e feliz com a vida que levava na cidade de Maringá-PR. Ela enquadrava-se em um grupo de risco, uma vez que seu pai havia tido câncer no estômago e sua irmã, na mama. Em consultas anuais, Joana já havia descoberto e tratado alguns nódulos benignos em seu seio. Certa vez, no ano de 2005, quando tinha 51 anos de idade, em um dos exames de rotina recebeu o diagnóstico positivo de câncer em sua mama esquerda. Felizmente, graças ao hábito de consultar-se, o tumor foi descoberto logo cedo e pôde dar início ao tratamento.

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         Mãe de seis filhos e esposa de Anísio Salvatini da Silva, Joana estava com câncer do tipo carcinoma inflamatório, um dos mais agressivos, característico por deixar a mama com aparência de casca de laranja. Ela recorda a sensação: “A descoberta foi um período difícil, mas nos meses seguintes continuei fazendo meu artesanato, me dedicando ao meu jardim, à minha família e procurando viver minha vida. Sempre fui muito agitada e muito apegada com Deus. Nunca gostei de deixar meus familiares preocupados e, mesmo que tivesse meus momentos de tristeza, sempre procurei tranquilizá-los. Porque se minha família estivesse bem, eu estaria bem”.

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Durante o tratamento, depois de passar por trinta e oito sessões de radioterapia, Joana ainda sentia sensação de ardência e estranheza na mama. “Sentia que tinha outro tumor na mesma mama (esquerda) e, quando voltei ao médico, descobri que estava certa! Imediatamente, ele marcou uma cirurgia de mastectomia radical, ou seja, para retirada de todo o seio”, recorda. Apesar do desejo de retirar o seio e reconstruir a mama logo em seguida, Joana teve de aguardar o momento oportuno. Em 2007, três anos depois do diagnóstico, ela pôde fazer a cirurgia de enxerto de pele, que consiste em um pedaço de pele retirado de uma área e transferida a outra (no caso, a mama).

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Joana e o amado, Anísio Salvatini da Silva, seu ponto de apoio, força e otimismo.

Bordando e curando

Desde sua juventude, Joana é aficionada pelas artes, como dança, fotografia e poema, e por trabalhos manuais, como costura, pintura, escultura, crochê, bijuterias, decoração, bonecas em tecido, entre outras técnicas. Além do esposo, Anísio, que deu-lhe muito apoio, força e otimismo na batalha contra o câncer de mama, Joana contou com outra grande ajuda: do artesanato.

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Para ocupar o tempo livre e esvaziar a mente de pensamentos negativos, costumava decorar as paredes de sua casa e, para obter renda extra, confeccionou bonecas com gravetos, tecidos e aviamentos. Mas foi no bordado que encontrou a terapia perfeita para os dias de dor.

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Trazendo alegria, os bordados de Joana formam elementos da natureza coloridos e vibrantes.

Autodidata, desde 2005, quando descobriu a doença, Joana passou a fazer belíssimos bordados em tecidos, com a finalidade de transformá-los em quadros. Seus temas são variados, como flores, paisagens, animais, temas da praia e passagens bíblicas. “Todos os dias, eu abria a Bíblia em uma página aleatória, lia uma passagem bíblica e meditava sobre ela. Essas passagens me inspiravam a criar um bordado e um poema”, lembra Joana que, em muitos momentos, trocou os medicamentos pela terapia do bordado e da palavra de Deus.

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Para um de seus dos bordados, que retrata uma mulher em lágrimas, Joana escreveu: ‘corpo sem perna, corpo sem braço, lágrimas de pérola’. Conforme a artesã, o poema fala sobre depressão, já que o depressivo tem o corpo, mas sente como se não o tivesse e, então, chora.

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“Por diversas vezes, estivemos preocupados com Joana, mas ela nos surpreendia, sempre cantando, dançando e bordando”, comenta Anísio. Seja nos melhores ou piores momentos de sua vida, Joana, a artesã que pinta e borda, teve seus sentimentos extravasados no artesanato. Repetindo o mantra ‘Deus seja louvado em cada ponto desse bordado’, criou peças exclusivas, de cores vibrantes, cheias de identidade, histórias, mensagens e significados.

Batalha após batalha

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Defendo e levanto a bandeira das ações de campanhas
preventivas. Salvam vidas… Salvou a minha”, diz a enfermeira
Cintia, que posa ao lado das camisetas de inúmeras campanhas.

         Diferente da mãe, Joana, que seguiu para as artes, e do pai, Anísio, que é aficionado por letras e autor de cinco livros, Cintia encontrou-se na área de enfermagem. Tinha 38 anos e residia em Ortigueira-PR, quando ajudou a promover uma campanha do Outubro Rosa que mudou sua vida. Ela recorda: “Para incentivar mulheres a realizarem o autocuidado e a mamografia, eu mesma fui fazer o exame. Nunca imaginei que pudesse acontecer comigo. Acabei por me tornar exemplo de quão importantes são essas ações preventivas, que possibilitam mudar o destino das pessoas. Por isso, defendo e levanto a bandeira das ações de campanhas preventivas. Salvam vidas… Salvou a minha.”. Era ano de 2014, oito anos após o câncer de mama de sua mãe, e Cintia recebeu o diagnóstico positivo de câncer na mama esquerda, do tipo triplo negativo.

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         Naquela época, Cintia, que é mãe de cinco filhos, estava amamentando o caçula. “Eu atribuía o crescimento da mama à produção de leite, mas, ao final das contas, tratava-se de uma massa tumoral. Com 75% da mama comprometida, tive interromper a amamentação para realizar a mastectomia”, explica a enfermeira. Ela recorda este período como um turbilhão de emoções, pois residia em Ortigueira e fazia as sessões de quimioterapia em Curitiba-PR, uma viagem que durava, em média, quatro horas.

         Visto que Joana e Anísio já tinham uma casa no município de Itapoá desde 1994, Cintia veio ao município litorâneo do norte catarinense junto do esposo e dos cinco filhos, com o objetivo de estar mais próxima do tratamento, em Curitiba. Mesmo depois de realizar a mastectomia, Cintia não estava tranquila: “Eu queria retirar as duas mamas, pois sentia que havia algo de estranho na mama direita, também, mas o médico insistia que não. Desconfiada e seguindo minha intuição, decidi ir ao oncologista da família, que já havia tratado o câncer de mama de minha mãe e estava tratando o câncer de mama de minha irmã, paralelo ao meu, para pegar uma segunda opinião”. Em consulta e após de alguns exames complementares, descobriu que na mama direita também constavam células cancerígenas, e realizou, novamente, a mastectomia – dessa vez, para retirada do seio direito e esvaziamento total das axilas.

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Com base em sua experiência, Joana pôde ajudar e fortalecer as duas filhas que, na época, lutavam contra o câncer de mama. “Minha mãe foi como um anjo. Cuidou de mim, me trouxe a palavra de Deus quando mais precisei e dizia que eu estava linda com a cabeça raspada e utilizando turbantes. Ela também compartilhou comigo seu amor pelo artesanato e, para amenizar a situação, passei a bordar com ela”, recorda Cintia.

De acordo com os médicos, a enfermeira estaria apta para reconstruir ambos os seios três anos após o câncer de mama. Contudo, em 2017, já trabalhando, Cintia fora surpreendida durante os exames de rotina. “Através de um nódulo no ovário, descobri que estava com tumor pélvico. Senti todas aquelas emoções novamente, de medo, angústia e cansaço. Mas venci todas elas novamente, também”, conta Cintia que, após vencer o câncer de mama, venceu o câncer na região pélvica.

Por conta do tumor pélvico, a cirurgia de prótese nos seios teve de ser adiada para daqui a três anos, mas a enfermeira garante: “Quero, sim, colocar prótese, mas, hoje, a estética não é prioridade em minha vida. Sou feliz e grata por estar viva. Graças a Deus, pude aproveitar muito bem os meus seios, fornecendo alimento e nutrientes aos meus cinco filhos, que são meus tesouros”.

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Neste mês, Cintia veste a camisa da Campanha Mundial Outubro Rosa.

Lições que ficam

         Mesmo que diagnosticadas com câncer de mama em períodos diferentes, mãe e filha estiveram lado a lado, enfrentando e vencendo batalhas. Hoje, compartilham de uma nova vida e das lições que ficam. Aos 64 anos de idade, Joana, junto do esposo Anísio, instalou-se, de vez, em Itapoá. Para o casal, a vida é um sopro e deve ser aproveitada todos os dias. Por isso, dedicam-se aos ofícios e aos filhos que tanto amam, e até mesmo compraram um motorhome para viajarem.

         Na companhia do marido e dos cinco filhos, Cintia também reconstruiu sua vida no município litorâneo, onde trabalha como enfermeira responsável pela Vigilância Epidemiológica e professora de enfermagem da escola técnica de enfermagem de Itapoá. Assim como a experiência do câncer guiou Joana até suas agulhas e pontos bordados, guiou Cintia para seu propósito na profissão. Hoje, aos 43 anos de idade, a enfermeira veste a camisa, ergue a bandeira e luta por campanhas de prevenção e combate ao câncer de mama.

         Depois que venceram uma grave enfermidade, mãe e filha pararam de fazer planos, de preocupar-se com pequenas coisas, e passaram a dar ainda mais valor à família e ao amor de Deus. “Hoje, sou uma pessoa diferente, não só porque sou uma sobrevivente do câncer de mama ou porque passei pelos momentos mais dolorosos de minha vida, mas porque vivo do jeito que sempre quis viver”, conta Joana. Não à toa, em uma de suas telas, bordou, para lembrar-se para sempre: ”O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã” (Salmos 30:5).