Histórias de amor e da vida na roça

No mês dos namorados, conhecemos um casal de pioneiros que fez e ainda faz história no município de Itapoá, mais precisamente na região do Saí Mirim.
São 61 anos de casados de Tertuliana do Espírito Santo Souza Speck, mais conhecida como Tita, de 80 anos, e João Emílio Speck, mais conhecido como Jango, de 86 anos. Em entrevista à revista Giropop, Tita e Jango falam sobre sua história de amor, suas famílias, a vida na roça e os costumes de antigamente.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

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Em sua casa, no Saí Mirim, Tita e Jango exibem
uma fotografia de seu casamento, há quase 62 anos.

De uma família de nove irmãos, Jango, nascido e criado no Saí Mirim, conta como sua família chegou à comunidade: “Meus pais deixaram Orleans (SC) e, de navio, chegaram a São Francisco do Sul (SC), onde atravessaram a baía e adentraram a mata. Aqui, no Saí Mirim, não tinha nada, era só bicho e mato”.
Por sua vez, Tita nasceu em São João do Itaperiú (SC), onde viveu até os 10 anos de idade. Sua família, que tirava o sustento da plantação e colheita do arroz, escolheu a região do Braço do Norte, próxima ao Saí Mirim, em Itapoá, para viver por conta das boas terras para plantar. Dona Tita recorda que, naquele tempo, uma companhia francesa adquiriu terras na região para trazer fábricas de palmito e implantar uma colônia e, por esse motivo, as pessoas chegavam ao local em busca de oportunidade de trabalho.
Desde a infância, Jango trabalhava na roça com os pais. “Ia para a escola, na Colônia do Saí, a pé, com os pés descalços, era quase uma hora de caminhada. No período da tarde, trabalhava na roça, ajudando meus pais a plantar milho, feijão, entre outros alimentos que eram vendidos em São Francisco do Sul”, recorda. Eram poucas as opções de diversão da criançada, que fazia bolas de papel para brincar.
Na época, não existia sequer uma picada que fizesse o trajeto entre o Saí Mirim e Itapema do Norte. A mata era fechada, e para chegar a Itapema do Norte, os moradores da comunidade desciam o rio, de canoa. “A gente saía às 6h da manhã do Saí Mirim e chegava às 2h da tarde em Itapema do Norte. O rio era muito raso e seu barranco muito limpinho, às vezes, a canoa chegava a encalhar na areia. Tinha muita fartura de peixe, como robalo, traíra e jundiá, e diversidade de pássaros, como aracuã e araponga. A gente parava a canoa no caminho para comer as frutas das árvores, era lindo de se ver! É uma pena que hoje em dia não tenha mais nada, já que a braquiária tomou conta do rio”, diz seu Jango.
Já Tita, veio de uma família de oito irmãos. Na juventude, atuou na escola e ensinou muitos moradores da Colônia do Saí a ler e escrever. Trabalhou na roça e, ainda, tornou-se catequista na igreja Nossa Senhora Aparecida – função que exerceu até os 60 anos de idade. “Antigamente, era tudo muito mais simples, difícil e pacato. Não tinha posto de saúde ou ônibus. Quando alguém adoecia, era curado em casa ou levado a Vila da Glória, em São Francisco do Sul. As poucas residências que tinham na região eram cobertas com palha, o assoalho era de madeira e o colchoado feito com penas de pato ou de ganso”, lembra.

Família
A diversão dos adolescentes eram as partidas de futebol, as tradicionais festas organizadas pela igreja todo domingo e os bailinhos à luz do lampião (uma vez que naquele tempo não existia energia elétrica na região) – onde Tita e Jango se conheceram e trocaram seus primeiros olhares, quando ela tinha 15 anos, e ele 21. Já apaixonados, namoraram durante três anos, até que decidiram se casar. Inicialmente, o casal viveu em uma casa situada próxima ao morro, no Saí Mirim – “o rancho do morro era coberto de palha e feito com as tábuas deitadas”, como eles dizem. Mais tarde, construíram uma casa de madeira, onde vivem juntos até os dias atuais.
Poucos meses após o casamento, veio o primeiro filho do casal. E, assim, Tita e Jango tiveram oito filhos, sendo quatro mulheres e quatro homens. Do mais velho para o mais novo, são eles: Emílio e Eronilda (ambos já falecidos), Maria, José, Paulo Henrique, Pedro, Sandra e Silvana.
Na vida adulta, Jango participou da diretoria da igreja e fez sucesso no meio futebolístico. “Costumava ir a pé até Itapema do Norte, pela mata fechada, só para jogar futebol, no time do Cruzeiro. Jogava com os pés descalços e voltava para casa com as canelas ardendo”, conta. Ainda, ajudou na emancipação do município de Garuva (SC), candidatou-se a vereador por Garuva e trabalhou na construção da primeira estrada que interligava os municípios de Itapoá e Garuva.
Já em Itapoá, fez amizade com Ademar Ribas do Valle – um dos principais responsáveis pela emancipação do município e primeiro prefeito do mesmo –, e participou ativamente de conquistas históricas para a cidade. “Volta e meia, alguém aparecia no bananal me buscando para ir a algum lugar representar a região do Saí Mirim. Lembro-me de uma excursão em que reunimos os antigos pescadores de Itapoá e fomos a Florianópolis (SC) para reivindicar energia elétrica para a cidade. Carregávamos faixas com os dizeres ‘queremos luz para Itapoá’ e conseguimos”, conta. Ao longo de sua vida, Jango teve um Fusca e uma Kombi, tendo levado muitas gestantes da comunidade para dar à luz nas cidades vizinhas. Também, trabalhou como caminhoneiro e viajou estradas afora.
Enquanto isso, Tita assumiu as tarefas domésticas, a educação dos oito filhos e, vez ou outra, ajudava o esposo na roça. “Eu tirava o leite da vaca, fazia queijinho, bolo e pães caseiros. Para alimentar todos os filhos, tinha de fazer seis pães de forma”, recorda Tita, “em casa, criávamos porcos, galinhas e gados, e todos os dias nossos filhos levavam o café para o pai, na roça”.
Atualmente, Tita e Jango têm treze netos e quatro bisnetos. No Saí Mirim, onde vivem, a natureza ainda é bela, mas a fartura do rio e a diversidade de pássaros são incomparáveis à época de sua infância. Em casa, o casal cria vacas, porcos e galinhas, e planta abacaxis, mandiocas, palmitos, entre outros.
Aos 80 anos de idade, dona Tita gosta de cuidar da horta, viajar de excursão para Iguape (SP) e Aparecida do Norte (SP), e participar de festas religiosas. “Ultimamente, tenho cuidado mais da minha saúde e descansado bastante. Mas ainda sonho em conhecer Gramado, no Rio Grande do Sul”, confessa. Já seu Jango, aos 86 anos de idade, ainda trabalha na roça, ora plantando ora colhendo. Para ele, os dias em que precisa ir à cidade para consultar-se com o médico ou algo do tipo são sofridos: “não gosto de trânsito nem de prédios, o meu negócio são os bichos e o mato”. Assim como Tita, Jango também tem um sonho: conhecer um trecho do rio Amazonas, em Manaus, no Amazonas.
Conforme o casal, sua maior alegria é reunir a família aos domingos para uma costela ou uma feijoada. As memórias de Tita e Jango dariam um livro, dividido em capítulos que contariam as histórias de suas famílias, da vida na roça, dos costumes de antigamente e do Saí Mirim. Com quase 62 anos de casados, Tertulina, a Tita, e João Emílio, o Jango, contam o segredo para uma relação que ultrapassou meio século: “amor, perdão, paciência e saber se colocar no lugar do outro”.