Entre olhares, cartas e memórias

Muitas memórias e cartas de amor guardam Alcini Maria Paese Soares, de 65 anos, também conhecida como Cini, e Celso Soares, de 71 anos.
No mês dos namorados, contamos a história desse casal que vem de famílias pioneiras no município de Itapoá.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

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Celso e Alcini lendo as cartas que
escreviam um ao outro em meados de 70.

Filha de Avaní Caron Paese e Anévio Paese (falecido), Alcini nasceu e foi criada na cidade de Curitiba (PR). A família Paese, uma das pioneiras em Itapoá, fez história no município: “Meus pais tinham um hotel no Balneário Paese, o Hotel Frigomar. Eram muito ativos na comunidade, costumavam organizar torneios de futebol, promover bailinhos e clube de dança. Então, cresci em Curitiba, mas durante as férias, finais de semana e feriados, estava sempre no município litorâneo. Isso aqui não tinha nada, era só mato. Mas nós gostávamos muito de vir para cá”, conta Alcini.
Por sua vez, Celso é filho de Ilsa da Silva Soares e Rodolfo Aparício Soares, mais conhecido como Lindolfo (ambos falecidos). Nasceu em Guaramirim (SC) e aos 18 anos de idade foi sozinho a São Paulo tentar a vida como jogador profissional de futebol. “Jogo futebol desde os sete anos de idade. Enquanto goleiro, joguei em times de Joinville (SC) e tentei me profissionalizar no time da Portuguesa, em São Paulo. Cheguei muito perto do sonho, mas não consegui. Arrumei, então, um emprego na Editora do Brasil, em São Paulo, onde trabalhei por mais de quatro anos”, recorda. Sua irmã e seu cunhado, Nair Soares Mertens e Marcos Mertens, tinham um empreendimento em Itapoá, o famoso Hotel Pérola, o primeiro hotel da região. Por isso, Celso, assim como Alcini, passava suas férias e os finais de semana no município. “Gostava muito de Itapoá, pois tinha a família, a praia, a pesca e o futebol”, ele diz.

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Registro histórico: Celso e Alcini
na motocicleta da época.

 

À distância
Era feriado de Natal em Itapoá. Certa vez, Alcini, aos 17 anos de idade, foi ao Hotel Pérola buscar leite, uma vez que Lindolfo – pai de Celso e de Nair – tinha uma vaca. Chegando lá, a vaca ainda não tinha chego, mas Alcini avistou um rapaz estendendo uma camisa no varal: era Celso, na época, com 22 anos de idade. “Vi que ela estava chegando e fui estender a camisa só para me exibir para ela. Trocamos algumas palavras e para poder vê-la novamente, combinei de ir até a sua casa no período da noite para levar o leite”, recorda Celso.
A noite chegou, Celso levou o leite até a casa de Alcini e os dois, na companhia de seus pais, trocaram apenas alguns olhares. No dia seguinte, aconteceu o tradicional bailinho no Hotel Frigomar, onde dançaram “de rosto colado” (como eles mesmos contam) e passaram a namorar.

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Alcini acompanhando o “benzinho” no futebol, uma das grandes paixões de Celso.

Durante três anos, o relacionamento seguiu assim: Alcini vivendo e estudando em Curitiba, e Celso vivendo e trabalhando em São Paulo. Uma vez ao mês, ele visitava a amada na capital paranaense ou em Itapoá, se lá ela estivesse.
Para matar a saudade, os namorados trocavam cartas apaixonadas que levavam uma semana para chegar ao destinatário. Até os dias atuais, Alcini guarda com carinho todas as cartas em duas caixinhas: uma caixa para as cartas escritas por ela, e outra para as escritas por ele. Escritas à mão em meados de 1970, as cartas falam de amor e de saudade, e repetem inúmeras vezes o apelido carinhoso pelo qual Alcini e Celso sempre se chamaram: “meu benzinho”.

 

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Da esquerda para a direita: Marcos, Samara, Luiz Felipe, Andressa,
Celso, Gabrielle, Alcini e Tabata. À frente: Odir e Pedro Henrique.

Família
Morando juntos, em Curitiba, eles se casaram no ano de 1973. Alcini e Celso tiveram três filhas (da mais velha para a mais nova): Samara Maria Paese Soares, Tábata Maria Paese Soares e Andressa Lilian Paese Soares. Ainda, criaram um filho adotivo, Luiz Felipe de Souza.
A família costumava visitar Itapoá regularmente, mas foi no ano de 1976, que se mudou, de fato, para o município. Alcini recorda: “Meus pais nos deram um mercado, o Apolo 3 da Barra do Saí, para nós tocarmos. No início, moramos dentro de um trailer, a família toda, até que construímos nossa casa em cima do supermercado”.

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O casal participou da última edição do Jasti. Aqui na companhia do neto Pedro.

O casal tocou o mercado Apolo 3 durante muitos anos. Com o passar do tempo, as filhas foram crescendo e ajudando no serviço. No mesmo prédio, a família também tocou uma lanchonete, e tempos depois alugou o espaço para diferentes comércios, como imobiliária, loja de roupas, loja de 1,99, entre outros. Mas foi com uma panificadora que fizeram sucesso em Itapoá.
Nas palavras de Celso: “Certa vez, fiz um curso de panificação com um chileno, que nos ensinou a receita do pão chileno. Então, adaptei a receita com o pão francês e o pão de cachorro-quente, e criei minha própria versão do pão chileno. Foi um sucesso! Por cerca de vinte anos, administramos a Panificadora Pão Chileno, a primeira com forno elétrico na região. Lembro-me de que em um único Ano Novo chegamos a fazer dez mil pães”. Ainda em Itapoá, Celso realizou serviços para os pescadores trabalhando com um torno mecânico e, é claro, jogou muito futebol, nos times de Itapema do Norte e Frigomar, ajudando ainda a fundar o time Saí Mirim da Barra.

 

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Hoje, uma das alegrias do casal é praticar dança de salão, com o Grupo Reviver,
da ESF da Barra do Saí.

Sempre à frente do atendimento no comércio, Alcini fala que sua família trabalhou muito: “tudo foi construído com muito esforço e muita luta”. Já aposentados, o casal ainda mantêm vivos alguns prazeres do tempo “do leite da vaca”. Recentemente, Celso recebeu uma homenagem por contribuir com o futebol da cidade. Até hoje, os apaixonados praticam dança de salão, com o Grupo Reviver, de Itapoá – tendo ganhado, neste ano de 2019, o segundo lugar em um concurso de dança de salão.
Com 45 anos de casados e 40 anos de vida no município litorâneo, Alcini e Celso fizeram e ainda fazem história. Nos dias atuais, enxergam a alegria nos pequenos detalhes, como na dança ou em um almoço com a família reunida.