O romance do 1010

Eles se conheceram dentro do ônibus 1010 (dez-dez) da Transtusa. quando ele era motorista do transporte universitário e ela estudante. E, mesmo com quase vinte anos de diferença de idade, Roberta Nicole Iepeco (37) e Antonio Amauri Vieira (55), mais conhecido como Amauri, têm uma relação admirável: de muito respeito, afinidades e, claro, muito amor.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

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Como tudo começou: a estudante Roberta e o motorista de ônibus Amauri.

O ano era 2015 e, na época, universitários que moravam no município de Itapoá tinham acesso ao ônibus universitário, que levava, diariamente, os estudantes até Joinville (SC). Foi, inclusive, no transporte universitário, mais precisamente no 1010 da empresa Transtusa, que Roberta e Amauri se conheceram.
De Irati (PR), Amauri conta que sempre trabalhou estrada afora, ora como caminhoneiro ora como motorista de ônibus – profissão que exerce há mais de vinte anos. Já em Itapoá, trabalhou durante cinco anos como motorista de ônibus, transportando universitários em busca do tão almejado Ensino Superior. Dentre eles, estava Roberta, que cursava Educação Física na Univille – Universidade da Região de Joinville, no turno da manhã.

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Apesar da diferença de idade, a sintonia entre o casal foi muito grande.

Simpático e disposto, Amauri sempre fora bem-quisto por todos os estudantes. Todos os dias, por volta das 5h da madrugada, o motorista passava nos pontos de ônibus para pegar os universitários rumo a Joinville. Ao contrário dos demais colegas, a estudante de Educação Física tinha dificuldade para pegar no sono durante a viagem. “Eu não conseguia dormir, pois tinha receio que acontecesse algum acidente de trânsito. Então, costumava passar os 80 km de viagem fazendo companhia para o motorista”, recorda.
Sendo assim, a estudante e o motorista de ônibus formaram uma forte amizade. Todos os dias, conversavam, escutavam músicas, tomavam café na cabine do ônibus e davam boas risadas no famoso 1010. “Ela levava um pen drive com músicas para escutarmos na viagem e, coincidentemente, gostava das mesmas músicas que eu”, lembra Amauri, que também apreciava a companhia de Roberta nas rotineiras viagens.
Em suas memórias, Roberta recorda que planejava apresentar o motorista para a sua mãe, a fim de que engrenasse um romance com ela. Mas ela conta que não adiantou: “o destino tinha planos ainda maiores que o meu”.


Certa vez, a estudante fez uma cirurgia e teve de afastar-se da faculdade durante um período para recuperar-se. “Foram dois meses em que fiquei em casa, de repouso. Quando me dei conta, não estava sentindo saudade da rotina ou dos estudos, estava sentindo saudade dele, do Amauri, de conversar com ele e vê-lo todos os dias”, conta. Depois de trocarem algumas mensagens via celular, Amauri visitou Roberta em sua casa e, desde então, perceberam que aquele sentimento ultrapassava a amizade.
A partir daí, passaram a namorar discretamente, sem que os demais estudantes do ônibus soubessem. Felizmente, os universitários do turno matutino criaram laços de amizade. “Tínhamos um grupo no WhatsApp, chamado ‘1010 Matutino’, e nos tornamos amigos. A companhia de todos eles deixava tudo mais leve, e aquela viagem rotineira passou algo prazeroso”, lembram. Quando descoberto o romance entre Roberta e Amauri, os estudantes festejaram e vibraram pelo casal.
O motorista Amauri, com seus óculos ray ban escuro – sua marca registrada, passou a fazer as viagens ainda mais sorridente, assim como Roberta, que fez amizade com os demais motoristas da empresa Transtusa e ganhou dos colegas universitários o apelido de “Primeira-dama do 1010”.
O famoso ônibus fez história. Para celebrar a união de Roberta e Amauri e a amizade entre a galera do 1010, os universitários do turno matutino promoveram uma festa junina no próprio ônibus – palco do início da história de amor entre Roberta e Amauri.
Cumplicidade


De relacionamentos anteriores, Roberta tem um filho, enquanto Amauri tem três filhos biológicos (dois homens e uma mulher) e duas enteadas, que também considera como filhas. “Desde que nos conhecemos, sempre fomos honestos e francos um com o outro. Felizmente, a família aprovou esse amor, pois ficou nítido o bem que fazíamos um ao outro”, comentam. Logo depois de sete meses de namoro, o casal passou a morar junto.
Mesmo com quase vinte anos de diferença de idade, a sintonia entre o casal é forte. Amauri e Roberta gostam das mesmas músicas, dos mesmos programas e são parceiros para tudo. O motorista, que já transportou muitos grupos de excursões para lugares turísticos, como Florianópolis (SC) e Nova Trento (SC), fez questão de levar a amada em todos eles. Já Roberta, que de uns anos para cá adotou um estilo de vida mais saudável, ajudou o amado com a alimentação e na prática de exercícios físicos. Hoje, eles realizam caminhadas e malham juntos na Swell Academia, onde Roberta trabalha.
Festar é com eles mesmos! Além disso, Roberta é uma costureira de mão cheia. Assim, uniram o útil ao agradável: participam de bailes, festas de flashback, carnavais e outras datas comemorativas, sempre com fantasias costuradas por ela. Pedrita e Bambam, Batman e Mulher Gato, Marilyn Monroe e Michael Jackson são apenas alguns dos personagens já incorporados pelos dois.

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Caminhar, malhar na Academia Swell, passear, festar e dançar são os verbos preferidos desse casal.

Para o motorista, o 1010 da Transtusa era mais que um ônibus. “Adorava limpá-lo e dirigi-lo. Cuidava dele como se fosse meu”, diz Amauri. Com o fim do transporte universitário, trabalhou na empresa Transita e hoje trabalha na empresa Oceania, fazendo as linhas dentro do município de Itapoá. Mas confessa um desejo: “comprar um ônibus para poder transportar os universitários de Itapoá novamente, pois esse ofício me deixava muito feliz”.
Cinco anos após o romance no ônibus, Amauri e Roberta se declaram apaixonados pelas mesmas qualidades: “Nossas afinidades, o respeito, a educação, a confiança e o companheirismo. Cuidamos muito bem um do outro e caminhamos sempre juntos”. Eles também compartilham seu grande sonho: “Temos o sonho de, um dia, nos casarmos dentro do ônibus 1010, onde tudo começou”.
Recentemente, Roberta foi diagnosticada com dois tumores na região pélvica e um tumor no fígado. Para cobrir gastos com consultas e exames, seus amigos Carol e Evandro, proprietários da Swell Academia, disponibilizaram uma caixinha na academia para doações de quantia de qualquer valor. Além dos alunos da academia, ela também recebeu ajuda da Casa Espírita de Itapoá, amigos e familiares. Ela fala: “Acredito que Deus não coloca as pessoas em nosso caminho sem um propósito. O Amauri foi esse anjo em minha vida, principalmente nessa batalha que terei de enfrentar agora”. Enquanto isso, escrevem juntos sua história de amor e cumplicidade.