Arquivo da categoria: Atitudes e Doação

Projeto social promove conhecimento e cultura através da leitura

Em um momento de dor e angústia, a professora Mariza Aparecida de Souza Schiochet, de Joinville (SC), buscou forças para levar esperança onde não há. Assim, nasceu o projeto social “Ler é Viajar Sem Sair do Lugar”, que espalha caixas de leitura em instituições sociais, comunidades carentes e hospitais de Joinville e região.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

Mariza conta que seus pais sempre foram envolvidos com atividades religiosas e, também, que os livros sempre fizeram parte de sua vida. Foi, inclusive, o amor aos livros e às crianças que levou Mariza a formar-se em Letras e fazer pós-graduação em “Gestão Escolar” e “Inclusão e Teoria em Libras”. “Sempre acreditei que as crianças são bons motivos para exercitarmos o convívio humano, uma vez que elas não têm preconceito. E, caso tenham, temos o dever de direcioná-las ao caminho para o bom convívio em sociedade”, comenta a professora.
Certas vez, enquanto Mariza levava sua mãe, diagnosticada com câncer, para o tratamento de quimioterapia, no Hospital Municipal São José, observou a ociosidade de pacientes e acompanhantes nos momentos de espera das consultas. Ela, então, encontrou a solução ideal em uma de suas paixões: os livros. No setor de Oncologia do hospital, disponibizou algumas obras literárias, a fim de entreter e enriquecer os pacientes e acompanhantes. Também, seus alunos levaram muita esperança e carinho aos pacientes do hospital escrevendo a eles cartinhas amorosas. A iniciativa deu tão certo que a apaixonada por leitura resolveu espalhar mais caixas em outros lugares. E foi assim que, há aproximadamente sete anos, nasceu o projeto “Ler é Viajar Sem Sair do Lugar”, da professora Mariza.

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As crianças do Espaço Criativo e Literário Júlio Emílio Braz vestiram a camisa (literalmente).

Ler é Viajar Sem Sair do Lugar
Com o objetivo de promover conhecimento e cultura através da leitura, o projeto (sem fins lucrativos) recebe as chamadas “Caixas de Leitura” do Movimento de Pessoas Melhores (www.pessoasmelhores.com) e tem apoio do Tio Cid, pub de um ex-aluno de Mariza, que sempre que possível realiza a compra do material solicitado.
“Tenho muitos anjos que, direta ou indiretamente, contribuem com o projeto. Sou muito grata a eles”, diz a professora. As Caixas de Leitura são especialmente decoradas por Mariza, com a ajuda de alunos e de seu marido. Então, as mesmas são abastecidas com livros doados por amigos, escritores, livrarias e simpatizantes do projeto. Entre os exemplares, estão romances, contos, gibis e histórias prazerosas que possam ser lidas em curto tempo. Em seguida, as caixas são espalhadas em instituições sociais, comunidades carentes e hospitais de Joinville e região.
De acordo com Mariza, a ideia é distribuir livros onde não há, especialmente nos bairros mais carentes, criar ambientes convidativos para despertar o interesse de crianças e, ainda, realizar contação de histórias. “Buscamos envolver cada vez mais leitores no universo prazeroso e lúdico da leitura e, assim, construir uma sociedade mais justa e humana, além de contribuir na formação de valores e cidadania”, acrescenta a idealizadora do projeto “Ler é Viajar Sem Sair do Lugar”.

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O IGP – Instituto Geral de Perícia também ganhou cantinho especial dedicado à leitura.

Depoimentos
Conforme Giane Costa, recepcionista do CENEF – Centro de Estudos e Orientação da Família, o projeto permite que aqueles que estão na sala de espera desfrutem de uma boa leitura. Ela ainda conta que aqueles mais absortos na leitura levam o exemplar para casa, a fim de ‘devorar’ o livro. Para Maria Eduarda, recepcionista do LABCenter – Laboratório de Análises Clínicas, o projeto é um bom incentivo para que as pessoas substituam os celulares por livros. “Muitos de nossos pacientes, que ficam em curva de lactose por duas horas a fio, aproveitam este tempo para ler”, fala Maria Eduarda.
Já no IGP (Instituto Geral de Perícia), uma pessoa pôde conhecer o projeto enquanto seu filho brincava no cantinho organizado com brinquedos e livros: “Atitudes como essa nos dão esperança de que o mundo pode ser melhor. Em uma Era Digital, onde muitos princípios estão se perdendo, é através do nosso exemplo que podemos ensinar nossas crianças que a leitura é, sim, muito importante”.

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Registro do Espaço Criativo e Literário Júlio Emílio Braz.

Poder transformador
O projeto, que nasceu da vontade de compartilhar com outras pessoas o poder transformador da leitura, acabou transformando a vida da própria idealizadora. Dentre tantas pessoas e histórias que lhe marcaram, Mariza fala sobre o “Espaço da Leitura”: “Certo dia, a convite de uma amiga, fui fazer uma contação de histórias em uma comunidade carente. Após a contação, veio o convite de colocar uma Caixa de Leitura ali. Relutei, pois o local era muito distante, não tínhamos apoio e gastaríamos com gasolina. Mas o apelo das crianças falou mais alto. A proprietária da casa, Miriam Padilha, conhece a realidade de cada uma daquelas crianças, que começaram a ler, emprestar e interessar-se por livros. Então, em sua garagem, iniciaram-se encontros semanais, com atividades lúdicas e de leitura. Sempre entusiasmada, Miriam foi recebendo cada vez mais crianças. Contudo, no inverno, o frio e a chuva atrapalhavam esses encontros. Portanto, eu e meu marido resolvemos unir nossas finanças para fechar uma parte da garagem. E o resultado foi uma alegria! O Espaço ficou muito aconchegante e uma vez ao mês levamos um escritor, um artista ou quem quer que possa contribuir com uma palavra de esperança, amor e cultura para as crianças da comunidade”.

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Pintura do artista plástico Luiz Arão, livros e uma brinquedoteca na delegacia que pode, também, ser um espaço cultural àqueles que estão na sala de espera.

Além das páginas e da sala de aula, Mariza adora caminhar e pedalar na boa companhia de seu marido, seus filhos e de Debby, sua cachorrinha – daí a logomarca do projeto, criada pelo artista plástico Humberto Soares.
O projeto “Ler é Viajar Sem Sair do Lugar” nasceu de um momento de sofrimento, mas a mãe de Mariza, felizmente, foi curada e, hoje, aos 90 anos de idade, ajuda a filha a carimbar os livros que serão dispostos nas Caixas de Leitura.
Por sua vez, professora Mariza, transformadora e transformada, conclui: “Costumo falar que passei do cálvario até a ressureição, pois aprendi a colocar-me na dor do outro. Cada dia naquele setor de Oncologia com minha mãe foi sinônimo de aprendizagem e enriquecimento. Ali, aprendi a aceitar, conviver e buscar sempre motivos para levar um pouco de esperança ao próximo, seja através de uma cartinha (que seus alunos escrevem até hoje para os pacientes diagnosticados com câncer), uma leitura ou um sorriso”.

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Além da leitura, Mariza, a idealizadora do projeto, adora caminhar e pedalar na boa companhia de seu marido, seus filhos e de Debby, sua cachorrinha.

Fique atento aos pontos de distribuição de livros do projeto “Ler é Viajar Sem Sair do Lugar”:
• Joinville (SC): Setor de Oncologia do Hospital Municipal São José; HEMOSC – Hemocentro de Santa Catarina; Casa Padre Pio; Hospital Regional Hans Dieter Schmidt; CENEF – Centro de Estudos e Orientação da Família; Mercado Municipal – voluntária Stella Maris de Carvalho; Maternidade Darcy Vargas; LABCenter – Laboratório de Análises Clínicas; Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso; IGP – Instituto Geral de Perícia; Casa de Acolhimento São Lázaro; Igreja Católica, no bairro Itinga – voluntária Cláudia Cidral; CIRETRAN Joinville; Espaço Criativo e Literário Júlio Emílio Braz.
• São Francisco do Sul (SC): Posto de Saúde, na Praia da Enseada – voluntária Cláudia Cidral.
• Piçarras (SC): RECREA – Atividades de Lazer e Esportivas.

Amigos, parceiros e amantes da leitura, entrem em contato com Mariza através do e-mail izaschiochet@gmail.com ou telefone (47) 99651-7701. Com a compra de uma camiseta do projeto “Ler é Viajar Sem Sair do Lugar”, no valor de R$ 30,00, você apoia essa iniciativa. Saiba mais em facebook.com/livroparatodos

 

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Projeto empodera e incentiva mulheres a empreenderem

Cansada dos machismos diários e lembrando seu esforço para conquistar espaço na profissão, a designer de moda e empreendedora Mara Novaes Lanave, de Itapoá (SC), criou o projeto “Dela pra Elas” – que tem como propósito criar logotipos para ajudar mulheres a serem mais independentes em seus negócios.

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Mara Novaes Lanave é designer de moda, empreendedora e feminista. Na imagem, uma de suas estampas para pano de prato.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

Ao longo de sua vida, Mara ouviu por diversas vezes que não conseguiria ser uma mulher bem-sucedida. “Ouvia absurdos que eram proferidos, inclusive, por outras mulheres. Coisas do tipo ‘você não é capaz nem de comprar um pão com seu próprio dinheiro’ me deixavam tristes e faziam com que me sentisse burra”, recorda. Mas o tempo passou e ela formou-se em Design de Moda, tornou-se estilista e ilustradora de estampas, trabalhou para grandes marcas, como Zara, Renner, C&A, Levi’s e Brooksfield, criou a marca Pássaro Digital (com ilustrações digitais, artes para estampas, identidade visual e papelaria personalizada), o Studio Personaliza (com foco em produtos personalizados para festas) e, há pouco tempo, tornou-se empresária, com a Lanave Embalagens.
Ainda assim, sofria certos machismos diários. “Uma mulher empreendedora enfrenta situações que um homem empreendedor desconhece. Muitas vezes chegam à loja e me perguntam ‘onde está o dono?’, descartando a possibilidade de que eu também seja a dona”, fala. Empática com outras do mesmo gênero, tem apenas funcionárias mulheres. “Exceto na força, a capacidade intelectual e a dedicação de uma mulher em seu trabalho são iguais ou até melhores que de um homem”, diz. Contudo, Mara desejou fazer ainda mais pelas mulheres.

Dela pra elas

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Lembrando seu esforço para conquistar espaço e obter sucesso na profissão, a designer desejava criar um projeto onde pudesse ajudar, de alguma maneira, outras mulheres a serem mais independentes em seus negócios. Mas as questões eram muitas: como poderia ajudar, incentivar, dar ânimo, algo que faça essa mulher sonhar, empreender e realizar? “Então, notei que muitas de minhas clientes eram artesãs, confeiteiras e outras tantas profissionais excelentes, mas seus trabalhos não apresentavam identidade visual”, lembra Mara, que encontrou a solução: desenhar os logotipos que usariam em seus negócios. Em outras palavras, transformar o que estava em seus pensamentos em algo real, mais concreto e afetivo.
Assim, nasceu há cerca de um ano o projeto voluntário “Dela pra Elas”, com o intuito de empoderar mulheres empreendedoras, garantindo a decisão sobre seus negócios e suas vidas. Após a criação dos primeiros logotipos, a iniciativa fez sucesso entre as empreendedoras do município de Itapoá. A criadora explica: “Parece um simples desenho, mas gera motivação para que a mulher continue a batalhar pelo seu espaço. Além disso, o projeto tem um pilar afetivo, pois desejo, de todo o coração, que essas mulheres apresentem um trabalho mais bonito e se deem bem”.

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Resultados positivos
Entre as inúmeras profissionais de Itapoá beneficiadas com o projeto, ou seja, que ganharam logotipos para seus negócios, estão Julyana Satie da Silva, da “Julyana Satie Brigadeiros”, Jamille Franco, das “Delícias da Jama Diet”, e Wal Garcia, do “Wal Garcia Atelier”.
Julyana conta que sempre teve receio de tentar algo, por medo de falhar. “Dede que comecei a fazer doces com o dom que Deus me deu, a Mara sempre acreditou em mim e nunca me deixou desistir. O que deixou minha logo ainda mais especial foram o carinho e o amor que ela depositou em sua criação”, fala. Para Julyana, Mara é exemplo de força e determinação, e realiza um trabalho muito importante ao encorajar mulheres de Itapoá.
Já Wal, conta que o momento em que o projeto “Dela pra Elas” apareceu foi bastante oportuno, pois se encontrava desanimada com suas vendas no município. “Quando ela disse que faria minha logo, foi como tomar um ‘chá de ânimo’. Desde que ganhei uma arte para meu negócio, fiquei com um sentimento bom e, consequentemente, transferi isso para meu trabalho”, conta. Pelo simples fato de ganhar uma “cara nova” em sua página, Wal aumentou sua rede de clientes e contatos.
Não diferente das outras profissionais, Jamille também se diz incentivada por Mara, desde quando cogitou a montar um negócio até a criação de sua logo e seu cardápio. E complementa: “Mais do que uma designer, ela é o incentivo em pessoa. É um ser humano ‘mara’, como o próprio nome já diz”.

Vínculo
Por realizar esse trabalho de forma gratuita, Mara confessa que já ouviu críticas de profissionais que têm como ganha-pão a criação de logotipos e artes em geral. “Àqueles que se chateiam com as criações, tento explicar que essa ação acontece como a ponta de um sonho que se inicia. Mesmo que eu me dedique para cada logotipo, tenho qualidades e intenções diferentes daqueles que vivem desta atividade”, explica.
Mais do que conhecer seu trabalho, saber dos seus sonhos e gostos e desenvolver um desenho, Mara criou vínculo com todas as mulheres do projeto “Dela pra Elas”. Assim como a doceira Julyana, muitas procuram a designer até hoje para pedir opinião ou dar um conselho a respeito do trabalho. Para Mara, fortalecer estes laços é multo importante: “As mulheres precisam ser mais unidas, solidárias e empáticas umas com as outras. É essa a mensagem que pretendo passar com o projeto. Uma mensagem ‘dela pra elas’”.

É mulher, tem o sonho de empreender e precisa de um logotipo para seu negócio? Entre em contato com Mara através do perfil “Mara Novaes Lanave”, no Facebook.

Voluntárias doam corações e ajudam mulheres com câncer de mama

Lidar com a perda do seio para o câncer de mama é algo extremamente difícil para muitas mulheres que, após a mastectomia, sentem dor física e psicológica. Mas, simples almofadas em formato de coração foram desenvolvidas exclusivamente para ajudá-las a ter mais conforto e a se sentirem mais acolhidas nessa fase delicada.
Pensando nelas, um grupo de voluntárias do município de Itapoá (SC), se uniu para doar amor e lindos corações de tecido às mulheres que lutam contra o câncer de mama. Alvina Vieira, Marli Colin, Sueli Carijo, Suely Magalhães e Maria Batista, mais conhecida como Ica, são parte do grupo “As Amorosas de Itapoá”.

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Da esquerda para a direita, Marli Colin, Sueli Carvalho,
Maria Batista Dias (a Ica), Alvina Vieira e Suely Magalhãs –
parte do grupo As Amorosas de Itapoá.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

No ano de 2009, dona Alvina foi diagnosticada com câncer de mama. Após a mastectomia (cirurgia de retirada da mama), um detalhe, em especial, chamou-lhe a atenção: “Na cidade de Joinville (SC), onde realizei o tratamento, ganhei uma almofada em formato de coração, que me ajudou a apoiar o braço, aliviar as dores e a dormência do pós-cirúrgico, reduzir o inchaço linfático provocado pela cirurgia, diminuir a tensão nos ombros e, quando usada debaixo do cinto de segurança do carro, proteger de eventuais golpes”. Os anos passaram-se, dona Alvina foi curada e pôde devolver sua almofada para que outras pacientes fizessem uso da mesma, mas aquele simples gesto a marcou para sempre.
Já participando das aulas de yoga do programa SCFC (Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculo), ofertado pelo CRAS (Centro de Referência da Assistência Social) de Itapoá, dona Alvina fez amizade com Marli, Suely, Ica, Sueli e outras tantas. “Ela contou-nos sua luta contra o câncer de mama e sugeriu que nós participássemos desse projeto, que acontece em todo o Brasil, e ajudássemos mulheres diagnosticadas com câncer de mama em nosso município. Imediatamente, abraçamos a ideia e passamos a estudar sobre o tema”, recorda Ica.

Dona Alvina, que já venceu a batalha contra o câncer de mama,
posa com a Almofada do Coração.

Folheto explicativo sobre o uso da almofada.

Almofada de amor
Em contato com voluntários de Joinville, Alvina teve acesso ao projeto das almofadas, que são confeccionadas com cuidado. “Para ser ergonômica, a almofada tem medidas certas e a quantidade de enchimento certo – por isso, é pesada em uma balança de precisão. A costura deve ser específica porque senão fica desconfortável”, explica. O tecido também deve ser 100% algodão e o enchimento deve ser com fibra antialérgica.
O trabalho voluntário iniciou em maio de 2017 e contou com a ajuda de cerca de 20 mulheres, em sua maioria aposentadas e com aptidão para artesanato. Valores simbólicos, tecidos, fibras e outros materiais foram doados por empresas e comerciantes de Itapoá. O ponto de encontro para guardar o material arrecadado e confeccionar as almofadas tornou-se a residência de Suely Magalhães. “Descobrimos qual era o forte de cada uma do grupo e definimos as funções: algumas cortam o tecido, outras preenchem a almofada, umas costuram e por aí vai”, explica a anfitriã.
Tudo é pensado nos mínimos detalhes: as voluntárias também criaram embalagens e folhetos explicativos sobre o uso da almofada, que foi batizada de “Almofada de Amor”. Marli, uma das voluntárias, explica a origem do nome: “É muito mais que algo material. Ela proporciona apoio físico e psicológico, já que traz à paciente lago para abraçar como um símbolo de solidariedade”.

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Semanalmente, as voluntárias reúnem-se para confeccionar almofadas que ajudam no tratamento contra o câncer de mama.

Doações
Em apenas seis meses, o grupo confeccionou 103 almofadas. Para realizar a doação das mesmas, escolheu o mês de outubro, que lembra o câncer de mama com a campanha Outubro Rosa. Para isso, as voluntárias atuaram em parceria com a Secretaria de Saúde de Itapoá, que realizou o levantamento de mulheres diagnosticadas com câncer de mama no município. Os dados surpreenderam: em outubro de 2017, havia 32 pacientes em Itapoá. “Mas queríamos mais que simplesmente fazer a doação das almofadas. Queríamos conhecer essas mulheres, ouvir suas histórias e oferecer carinho a elas”, fala Sueli Carijo.
E assim aconteceu: por intermédio da Secretaria de Saúde, as amigas organizaram, em cada unidade do PSF (Posto de Saúde da Família) de Itapoá, rodas de conversa com as pacientes. Suely Magalhães recorda: “Em cada bairro, vivemos diferentes emoções. Choramos, sorrimos, nos entristecemos e comemoramos. Mas estávamos todas lá, sempre juntas. Simbolizando apoio e fortalecimento àquelas mulheres”.
Através de amigas que intermediaram doações, as Almofadas do Coração também chegaram a pacientes de outros lugares, como Joinville (SC), Guaratuba (PR), Florianópolis (SC), Blumenau (SC) e Rolândia (PR). Suely Magalhães, que já tinha conhecimento de uma ONG em Londrina (PR), fez sua entrega pessoalmente, onde o grupo de voluntárias recebeu uma música em sua homenagem; bem como a colega Sueli Carijo, que visitou a Santa Casa de Ponta Grossa (PR), onde doou almofadas e emocionou-se com a história dessas guerreiras.

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Para realizar as doações das 103 almofadas confeccionadas, As Amorosas realizaram rodas de conversa.

Projetos futuros
Após muito trabalho e fortes emoções, o grupo de amigas intitulou-se “As Amorosas de Itapoá”, uma vez que a palavra é dividida por “amor” e “rosa” – cor que simboliza a luta contra o câncer de mama. As Amorosas receberam doações de camisetas que, em breve, serão estampadas com o logotipo do projeto.
O grupo, que participou de um passeio ciclístico promovido pelo PSF de Itapoá, tem em vista outros projetos. “Vamos organizar pontos de coleta de lenços, gorros, chapéus e bonés – acessórios que fazem a diferença na vida de pacientes com câncer. Também buscamos o apoio de uma advogada que possa levar informação às pacientes, pois, apesar do crescimento do número das acometidas pela doença, a falta de informação faz com que não tenham conhecimento dos direitos especiais citados na legislação”, conta dona Alvina, que já esteve desse mesmo lado.
Além das cinco entrevistadas, as voluntárias Adelina, Angélica, Elizabete, Eliete, Eusa, Marisa, Odete, Oliria, Marlene e Eliana, e as apoiadoras Silvia, Janaína, Licélia e Flávia também formam o grupo As Amorosas. Chá beneficente, Dia da Beleza, Desfile de Moda e palestras de prevenção são outras ações que planejam para o decorrer do ano. “Acreditamos que o câncer de mama merece visibilidade o ano todo, não somente durante o mês de outubro, pois dados comprovam que, se detectado na fase inicial, as chances de cura podem chegar até a 100% dos casos (Fonte: Instituto Brasileiro de Controle do Câncer)”, explica a amorosa Ica.

Trabalho voluntário
Nas reuniões semanais na casa de Suely Magalhães, As Amorosas trabalham, tomam café e divertem-se com as amigas. Exercer essa atividade tem, para elas, bons significados tanto para quem recebe quanto para quem doa. A amorosa Marli acredita que a ação beneficente é uma forma de crescimento pessoal e espiritual, enquanto a amorosa Sueli Carijo afirma que ajudar o próximo é gratificante e gera motivação, e complementa: “enquanto ajudamos o outro, ajudamos a nós mesmos”.
A luta contra o câncer não é fácil, portanto, as Almofadas do Coração representam autoestima, força e amor – intenções que As Amorosas sempre mentalizam em cada doação. Por fim, a amorosa dona Alvina conclui: “Queremos que as mulheres que recebam nossos corações sejam felizes e tenham fé. Isso foi a melhor coisa para mim”.

Deseja tornar-se uma voluntária ou contribuir com doações de lenços, chapéus, tecidos ou outros materiais? Entre em contato com a amorosa Marli através do WhatsApp
47 99930-0837 ou da amorosa Suely Magalhães através do WhatsApp 43 98406-8035.

O sopão da solidariedade

Criar 40 filhos adotivos, fazer sopa para dezenas de crianças carentes toda semana e viver a partir do lixo reciclado até parece história de novela, mas não é. Essa pessoa existe e seu nome é Tereza Aparecida Domingues, mais conhecida como Tereza do Sopão. Durante a semana ela trabalha catando lixo reciclado, cuida das duas únicas filhas adotivas que ainda estão em casa e separa os ingredientes para o famoso e tão esperado sopão de sábado: a refeição é feita em uma panela de 50 litros e serve em média 180 crianças.

Augusta Gern

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Dona Tereza Aparecida Domingues com o neto Eduardo e
as filhas adotivas Patrícia e Andressa.
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Casa de Dona Tereza, decorada com
objetos que achou no lixo.

Desde pequena Tereza gostava de cuidar de crianças e assim, observando a necessidade da comunidade que vivia em Curitiba, criou 40. “Antes não existia toda essa burocracia de juizado de menores, então criei, dei carinho, ensinei a estudar e alguns até tirei das drogas”, conta. Depois dos filhos de criação vieram os netos e até bisnetos, que também passaram por sua casa. Além da adoção, a catadora teve três filhos biológicos, mas uma faleceu com câncer. O resultado disso tudo é comprovado no Dia das Mães, segundo Tereza a casa vira uma grande festa. E toda essa família foi sustentada pelo lixo reciclado: além de vender para poder comprar os mantimentos, Tereza também decorou toda a sua casa com objetos encontrados no lixo.
Há 16 anos a catadora deixou a capital paranaense pela saúde de seu marido e, junto com seus filhos, escolheu Guaratuba como novo lar. O sopão começou no litoral: um dia Tereza encontrou vários quilos de frango congelado e resolveu fazer uma sopa, mas só na sua casa já eram mais dez bocas para alimentar. As crianças da vizinhança foram chegando e ao final 46 foram alimentadas em potinhos de margarina.
Na mesma época uma de suas netas de criação estava com câncer e, segundo ela, o médico encaminhou para sua casa, pois já não havia mais salvação: “então eu fiz uma promessa e, se ela se curasse, faria sopa para o resto de minha vida”. Dito e feito, enquanto sua neta hoje é mãe e vive com saúde, Tereza não deixa de fazer a famosa sopa.
Antes a sopa era feita com alimentos que pegava do mercado, que já não estavam mais para a venda, hoje todos os ingredientes vem de doação e o cardápio varia com o que tem, mas a verdura é indispensável: “A verdura não pode faltar, porque é o que nos traz saúde”. Para que todas as crianças tomem a sopa sem reclamar, Tereza tem até o cuidado de desmanchar a verdura, assim, segundo ela, ninguém tem desculpas para não ser saudável. Além da sopa, Tereza também promove eventos para a criançada como o Dia das Crianças, onde ganham bolo e cachorro quente, e Natal, onde o almoço é risoto, salada e refrigerante. A catadora também intermedia a doação de roupas: “A minha casa parece um trânsito, é gente que vem doar, é gente que vem pegar”.
Hoje, aos 57 anos de idade, seu desejo não é apenas continuar com a sopa, mas ir além: “meu sonho é ter uma casa de passagem para idosos carentes e poder levar sopa aos mais necessitados”. Tereza conta que já teve uma Kombi e gostaria de levar a sopa aos andarilhos da praça, mas a maresia acabou com o carro. “Algumas pessoas até escreveram para o quadro “Lata Velha”, mas até agora ninguém me procurou”, brinca.
E assim, com o desejo de ajudar cada vez mais, agradece a todos que apoiam com doações e afirma: “Você precisa fazer para poder ganhar”. Uma frase que parece com a sua vida: é simples, mas traz grandes ensinamentos, faz toda a diferença.

Os interessados em conhecer
o projeto ou fazer doações de
alimentos podem entrar em
contato pelo (41) 3442-2839.

Matéria publicada na Revista Giropop, Edição 19, Julho/2014

Edson Ricardo Reis: Um navio de superações

Augusta Gern

Um acidente de trabalho e uma grave lesão na coluna mudaram a história de Edson Ricardo Reis em 2010. Fortes dores na coluna e a dependência para realizar as atividades rotineiras desencadearam uma depressão profunda, que abalou seus desejos e sonhos.

De São Bento do Sul, a família deixou o frio e optou pela cidade de férias para colaborar na recuperação das dores de Edson. Mas além do clima, outros fatores foram fundamentais para sua recuperação.“Antes tudo precisava de um incentivo, para se cuidar, para se arrumar”, conta a esposa Cristiane.

As coisas começaram a mudar com o trabalho escolar de seu filho Natanael (6). Edson o ajudou a construir três réplicas em material reciclado: um navio, um avião e o Farol do Pontal. “Ali comecei a ver que ele estava melhorando, estava começando a sorrir”, lembra Cristiane. Para comprovar a evolução, sua esposa fotografou todas as fases do trabalho, que provam a mudança ao longo do dia.

Ao final do trabalho, quando as obras foram entregues, foi como se a alegria também estivesse ido embora. Mas não foi por muito tempo: quando soube do projeto Recicloterapia, do Posto de Saúde do Balneário Pontal, Cristiane lembra que fez questão de conversar diretamente com a médica responsável e contar da experiência de seu marido. “Falei que acreditava e apoiava muito este trabalho”, afirma.

O projeto Recicloterapia surgiu a partir do 1º Concurso de Experiências Exitosas da cidade, que motivou as unidades de saúde a criarem novas formas de integração com os pacientes. Conforme a médica responsável, Talita Recheleto Strano, o objetivo foi integrar os pacientes depressivos com a unidade e a comunidade. Para isso, foram realizadas oficinas quinzenais de artesanato com materiais reciclados, um projeto idealizado e organizado por todos os profissionais da unidade.

Ao todo foram 20 pacientes que participaram dos seis meses de oficinas. Este projeto venceu o Concurso Municipal de Experiências Exitosas e ficou entre os 100 melhores projetos apresentados na IV Mostra Nacional de Experiências em Atenção Básica / Saúda da Família, em Brasília.

Porém, os principais resultados foram com os próprios pacientes. “Alguns nem conversavam no início, depois já estavam trocando até dicas de receitas”, conta Talita. Edson foi um dos pacientes que surpreendeu, tanto pela criatividade, como pelo modo que começou a levar a vida.

“Participei do projeto para me ajudar e ajudar o Posto de Saúde”, afirma Edson.

 Durante as oficinas, construiu um legítimo navio de papelão e outros materiais reciclados, de 1m de altura por 2,70m de comprimento, com todos os detalhes e acabamentos que se tem direito.

Conforme Cristiane, foram meses de trabalho muito positivos. Da mesma forma do trabalho de seu filho, fotografou todas as etapas e observou a melhora no quadro de seu marido. “Ele começou a rir novamente. Todos os pacientes que participaram melhoraram”, conta Cristiane.

A ideia de construir um navio surgiu pelo simples fato de sempre apreciá-los de longe. Morador do Pontal, todo o dia Edson observa os diferentes navios que passam no quintal da comunidade. O detalhe é que a admiração é feita de longe, Edson nunca chegou muito perto de um navio. Isso surpreendeu visitantes da cidade que trabalhavam embarcados: “perguntaram se ele era engenheiro ou trabalhava em navios, porque todos os detalhes eram legítimos, estavam iguais aos originais”, lembra Cristiane.

E assim, mais do que interação e gosto pela vida, o projeto instigou o talento de Edson. Ao tirar o navio de casa por alguns minutos, olhos curiosos e admirados já chegam perto para conhecer e elogiar o trabalho. Momentos de sorrisos para Edson e muito orgulho para sua família.

Em relação ao projeto, a equipe do posto de saúde afirma que é emocionante ver os resultados obtidos e, em breve, novos projetos devem surgir na comunidade. Sobre a premiação nacional, Talita afirma que é um reconhecimento de um trabalho realizado por toda a equipe. Agora, além do troféu, terão direito de conhecer um dos outros 99 projetos premiados, em um intercâmbio de muita cultura, criatividade e superação.

Matéria publicada na Revista Giropop – Edição 15 – Março/2013

Doação de cabelo para pacientes com câncer

Os cabelos são a parte do corpo que muitas pessoas mais se dedicam, sempre buscando os melhores produtos, os cortes mais adequados e os tratamentos mais modernos. Toda essa vaidade existe porque os cabelos ajudam a desenhar o formato do rosto e, dependendo do tipo, podem deixar com uma aparência mais leve, mais jovem ou até mais magra. Por todas essas razões, perder os cabelos por causa de doenças autoimunes, de efeitos colaterais no tratamento contra o câncer ou mesmo por acidentes, mexe muito com a autoestima das pessoas.

Além da própria luta contra a doença, que é um processo muito difícil, a perda dos fios afeta o lado psicológico, que também é muito importante e faz a diferença no processo de cura. Por isso, muitas vezes o uso de uma peruca pode fazer a diferença, fazendo com que esses pacientes se sintam mais bonitos e confiantes e, assim, enfrentem melhor o tratamento.

Atitudes pequenas, porém grandes

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Augusta Fehrmann Gern e seu cabelo nos
inspiraram a abordar este tema.

Quem nos inspirou a abordar este tema foi Augusta Fehrmann Gern, de 25 anos. Ela sempre achou bonito o gesto de doar o cabelo para pacientes com câncer, mas aguardou o momento certo para fazer isso. “Eu já estava com vontade de mudar o visual, pois acredito que mudanças são sempre positivas. Mas, assim que me lembrei dessa atitude, pesquisei a respeito e descobri que, para doar, o cabelo deveria ter, no mínimo, 15 centímetros de comprimento”, recorda. Então, ela determinou que deixaria o cabelo crescer e só o cortaria após o dia do seu casamento.
Em abril deste ano, uma semana depois do grande dia, Augusta mediu os fios e viu que estavam no tamanho ideal e, então, foi ao cabeleireiro cortá-los. A atitude é importante, mas ela ressalta que o doador deve sentir-se bem com a escolha: “Eu acho que o cabelo um pouco mais curto é prático e combina com o inverno que está por vir”. Além disso, lembra que cabelo sempre cresce – para alguns mais rápido, para outros mais devagar.
Fios cortados, Augusta levou-os para casa, pois ainda não tinha um local para doar em mente. Através de uma amiga, soube da ONG Cabelaço (www.facebook.com/cabelacors), de Porto Alegre-RS. “Ela me passou a página da ONG e gostei muito do trabalho deles, especialmente por fazerem perucas para pacientes com câncer que são, em sua maioria, crianças”, conta Augusta. Com as informações obtidas na página da Cabelaço, ela enviou suas madeixas de Itapoá para Porto Alegre, pelo correio.
Para ela, é incrível como uma atitude tão simples pode mudar a vida de outra pessoa, já que o cabelo é responsável pela autoestima de muitos, especialmente meninas e mulheres. “E, no fim das contas, cortar os fios não faz tanta diferença, pois daqui a uns meses o cabelo pode estar igual ou até maior e mais forte que antes”, ressalta Augusta. Nas palavras de nossa inspiradora desta matéria, “é importante ter empatia e perceber que pequenas atitudes para nós podem ser grandes para outros”.

 

Gesto que inspira

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Seguindo seu exemplo, Chirley Ribas inspirou outras pessoas a doarem, também.

Há um ano, Chirley Ribas, de 31 anos, também doou seus fios de cabelo. Ela fala que sempre desejou ajudar o próximo, mas que nos últimos anos isso se intensificou, talvez por influência da maternidade. Pela rede social de uma conhecida, Chirley soube da entidade Casa do Adalto (www.facebook.com/casa.adalto), em Joinville-SC, que aceitava doação de cabelo e fabricava perucas para pacientes com câncer. “Achei muito interessante, mas foi vendo as fotos dos semblantes do ‘antes e depois’ de os pacientes ganharem as perucas que tive a certeza de que parte do meu cabelo faria muito mais diferença na cabeça de outra pessoa”, fala.
Ela, que estava há tempos mantendo o cabelo comprido, aliou a vontade de mudar radicalmente à vontade de ajudar. Após o corte, Chirley foi até a entidade entregar a doação em mãos: “Fui muito bem recebida na Casa do Adalto. Saí de lá com uma sensação muito boa”.
Depois disso, Chirley chegou a influenciar outras pessoas a doarem, como, por exemplo, uma amiga que incluiu o “corte para doação” em uma gincana na empresa em que trabalha, juntando e doando mais de quinze mechas para a mesma entidade que Chirley.

 

Mudar faz bem

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Evandro Chagas Ribeiro da Rosa cortou seu cabelo e está à procura de um local para doá-lo.

Homns com cabelos compridos também podem abraçar essa ideia. Evandro Chagas Ribeiro da Rosa, de 19 anos, sempre teve a intenção de doar o cabelo quando o cortasse: “não queria jogá-lo fora sabendo que poderia fazer a diferença para alguém”. O corte foi realizado em abril desse ano, em Itapoá, mas, na semana seguinte iniciou sua semana de provas na universidade e, por isso, Evandro ainda não dedicou tempo para procurar algum hospital, ONG ou entidade para doar a mecha cortada.
Até o presente momento, ele está com o pedaço de seu cabelo guardado, à procura de algum lugar para doar, de preferência em Florianópolis-SC, onde estuda. Para aqueles que desejam fazer o mesmo, ele encoraja: “Doar o cabelo é importante para quem recebe, mas também pode ser legal para quem doa, pois, além de se sentir satisfeito em ajudar o próximo, um novo visual pode simbolizar coisas boas e refrescar a personalidade”.

 

Crianças também doam

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O pequeno João Gabriel Borges da
Costa Ramos está esperando seu cabelo atingir o comprimento mínimo para, então, doá-lo.

Se doar o cabelo para pessoas com câncer já é uma atitude bonita, quando a ideia parte de uma criança é ainda mais especial. O pequeno João Gabriel Borges da Costa Ramos, de apenas 8 anos, teve a ideia quando estava assistindo a um programa de televisão. “O programa contava sobre meninas que tinham câncer e sonhavam com uma festa de 15 anos. O hospital organizou uma festa para elas, que eram fãs do cantor Luan Santana, que é meu ídolo também. Então, o Luan Santana fez uma surpresa e dançou valsa com as meninas que tinham câncer”, conta João, que, a partir daí, se sensibilizou com a causa e tomou a decisão de deixar o cabelo crescer para doar.
A família de João ficou muito orgulhosa com isso, também alertou a ele que o cabelo poderia demorar a crescer, que no verão seria difícil por conta do calor e que alguns amigos poderiam fazer bullying, mas ele se manteve firme. Alguns amigos da escola apoiaram a atitude de João, mas outros chegaram a fazer piadas de mau gosto sobre seu cabelo comprido. “Eu pensei em desistir, mas conversei com minha família e todo mundo me lembrou da importância desse ato”, diz. Até agora, João está esperando os fios chegarem ao comprimento mínimo para, depois, pesquisar um lugar para doar. Em suas palavras, ele conta o que está lhe motivando a ajudar pessoas com câncer: “eu me imagino no lugar delas”.
A pequena Khiara Luna Teixeira Bauer, de 9 anos, também teve essa ideia. Ela conta que a empregada de sua casa tinha uma filha que morreu de câncer e, por isso, se inspirou. Khiara, que tinha o cabelo longo, cortou e doou para o Instituto Atitude na Cabeça (www.facebook.com/atitudenacabecacuritiba), de Curitiba-PR. A pequena aprovou seu novo visual e fala sobre a experiência: “Doar meu cabelo para pessoas com câncer foi bom e legal, e fez bem para o coração e para a alma”.

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O processo de corte dos fios da pequena
Khiara Luna Teixeira Bauer, que também abraçou essa causa.

 

Se pode ajudar, ajude

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As madeixas de Júlia de Freitas e ela conferindo o novo visual.

Júlia de Freitas, de 18 anos, sempre desejou cortar seu cabelo, no entanto, adiava esse dia por falta de coragem; até que caiu a ficha de que o cabelo não faria falta para ela e que alguém faria bom uso dele. O corte aconteceu em abril desse ano, mas Júlia guardou os fios para pesquisar um local de confiança para qual possa doar.
Ela, que também é doadora de sangue, acredita que é desnecessário acumular coisas das quais não precisamos ou não nos farão falta, especialmente quando alguém pode se beneficiar com isso – ou seja, se tem a oportunidade de ajudar o próximo, ajude. E fala: “o cabelo cresce e a sensação de estar fazendo a coisa certa, também”.

 

Vontade de doar de novo

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Naiara Pinheiro doou seu cabelo uma vez e, hoje, depois de ter crescido, pretende fazê-lo de novo.

Outra história inspiradora de doação de cabelo para pessoas com câncer aconteceu há alguns anos e vem de Naiara Pinheiro, de 22 anos. Ela conta que sempre manteve o visual com o cabelo longo, mas cogitava a ideia de cortá-lo. Até que se apaixonou por um perfil no Instagram chamado Cabelegria (@cabelegria), voltado a doações de cabelo, de São Paulo-SP. “Fotos das crianças felizes com as perucas me sensibilizaram e foram decisivas para que eu entrasse nessa, também”, diz.
Naturalmente, Naiara foi ao salão de beleza, em Itapoá, e cortou suas madeixas. Porém, realizou a doação para um local um pouco mais próximo: o Projeto Cabelo Amigo (www.facebook.com/cabeloamigocuritiba), de Curitiba-PR. “Infelizmente, não pude ir até o local para acompanhar o processo de confecção da peruca, mas conversei com a responsável pelo projeto e fiquei satisfeita em ajudar uma causa séria e tão importante”, fala.
Atualmente, Naiara deixou Itapoá e mora na Espanha. Seu cabelo voltou a ficar comprido e ela já está à procura de uma instituição por lá para doar seus fios de cabelo novamente, desta vez, para alguma paciente com câncer espanhola. Para quem admira esta atitude, mas ainda não tomou coragem, ela recomenda que procurem por fotos de crianças e adultos antes e depois do recebimento das perucas. E finaliza: “Não venda o seu cabelo e muito menos o jogue fora, mas faça alguém se sentir verdadeiramente especial com a doação dele”.

Bons motivos

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Visual pós-tesoura de Rhaiza Carvalho Capaverde

Por fim, encerramos nossa série com o depoimento de Rhaiza Carvalho Capaverde, de 25 anos, que cortou seu cabelo com a intenção de doar em novembro do ano passado. “Fiquei apreensiva no momento de cortar, pois meu cabelo nunca esteve tão grande como naquela época, mas criei coragem e, no fim das costas, adorei meu novo visual”, conta.
Rhaiza cortou com seu cunhado, que é cabeleireiro e realizou o corte de maneira com que as mechas fossem aproveitadas, o que resultou em 30 centímetros de fios de cabelo cortados. Até o presente momento, seus fios estão guardados, pois ela deseja realizar a doação pessoalmente e ainda não reservou tempo para isso.
Assim como a pequena Khiara citada anteriormente, Rhaiza pretende doar suas mechas para o Instituto Atitude na Cabeça (www.facebook.com/atitudenacabecacuritiba), de Curitiba-PR.
“Ajudar uma pessoa a recuperar sua autoestima e, assim, obter forças para continuar o tratamento e combater o câncer é um gesto muito bonito”, fala Rhaiza.
Ainda assim, se isso não comover você, ela lhe oferece bons motivos para também se livrar do cabelão: “sentimento de gratidão, liberdade pelo ato de solidariedade, sensação de missão cumprida e, além disso, um novo visual”.

Ana Beatriz Machado

 

Desafios e superações de pessoas que convivem com uma doença rara

Há cinco anos, Ana Beatriz Moreira de Almeida foi diagnosticada com dermatopolimiosite, uma doença rara. De lá para cá, ela e sua mãe, Lucélia Ranata Borges, moradoras de Itapoá-SC, conheceram as dificuldades de quem tem doenças raras, como a dor do diagnóstico, a falta de informações e a busca por tratamentos de alto custo. Todos esses problemas comprovam que as doenças raras ainda representam desafio para a saúde pública.
Em nome de Ana, Lucélia e de todos que vivem este contexto, abordamos este tema para chamar atenção, prevenir e promover a saúde.

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De Itapoá-SC, a mãe Lucélia Ranata Borges e a filha Ana Beatriz Moreira de Almeida, diagnosticada com uma doença rara.
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A jovem Ana Beatriz sempre sorrindo, no hospital em Joinville.
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Amizade que nasceu com a dificuldade: Ana e a amiga Amanda Victória Ribeiro, também diagnosticada com dermatopolimiosite, e as mães Lucélia e Ana Carla Salvador.
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Durante a consulta com um dos profissionais.

Dos sintomas ao resultado
Tudo começou em 2012, quando Ana tinha 12 anos, e começou a apresentar as mãos arroxeadas e as bochechas avermelhadas, em forma de asas de borboleta. Quando levada ao hospital, o médico alegou dermatite, decorrente do frio. Ainda assim, Lucélia levou a filha a uma dermatologista, em Joinville, que, por conta das manchas, afirmou que fosse Síndrome de Raynaud. Conforme o tempo passava, Ana apresentava outros sintomas, como fraqueza nos músculos.
Desde os primeiros sintomas, a vida de Ana mudou. Ela, que gostava de fazer balé e pretendia fazer o teste para ingressar na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, estava totalmente dependente de sua mãe para tudo, já que apresentava dificuldades para elevar os braços, levantar de uma cadeira ou subir escadas, por exemplo. A menina conta que perdeu até mesmo a vontade de ir para a escola, pois sofria bullying dos colegas.
“Estávamos desnorteadas, pois cada profissional nos dava um diagnóstico diferente; um deles chegou até a dizer que se tratava de problemas psicológicos”, lembra Lucélia. Na incessante busca de saber do que se tratava, mãe e filha foram indicadas a uma reumatologista, de Joinville, que, primeiramente, suspeitou de lúpus e pediu que fosse realizada uma biópsia muscular e exames complementares. Após seis meses desde os primeiros sintomas, os exames concluíram que Ana tinha duas síndromes muito raras, a poliomiosite e a dermatomiosite, que, quando somadas, formam uma síndrome ainda mais rara, chamada dermatopoliomiosite.
Para Ana e Lucélia, o diagnóstico foi sinônimo de alívio, pois, agora sim, elas sabiam qual caminho seguir.

Estágios e tratamento
A dermatopolimiosite é uma doença crônica, inflamatória e de origem autoimune, caracterizada, sobretudo, por manchas avermelhadas ou arroxeadas em articulações (principalmente nas mãos), manchas avermelhadas nas pálpebras, fraqueza muscular (principalmente nas cinturas escapular e pélvica) e dores articulares – sintomas apresentados por Ana –, além de fotossensibilidade (agravamento de lesões com o sol) e manifestações extramusculares, como acometimento articular, cardíaco e pulmonar. Outra informação importante é que, assim como outras doenças autoimunes, não existe a cura completa da dermatopolimiosite, mas sim um tratamento, que visa a estabilização da doença, minimiza a incapacidade e melhora a qualidade de vida do diagnosticado.
Entendido isso, todo mês, mãe e filha tornaram a passar uma semana em Joinville, na casa de familiares, para realizar o tratamento de Ana com um reumatologista, um neurologista e uma dermatologista. “No início, pagamos muitas consultas particulares e tivemos muita dificuldade para obter os medicamentos que deveriam ser fornecidos pelo Ministério Público”, conta Lucélia, que é professora de Itapoá, e também passou por períodos difíceis ao ter que se ausentar da escola com frequência para acompanhar a filha nas consultas.
Felizmente, elas receberam ajuda de toda a família, que fez rifas, e da igreja adventista da Barra do Saí, que organizou ações sociais para contribuir nas despesas com os medicamentos, consultas e idas a Joinville. Como não havia cotas pelo SUS (Sistema Único de Saúde) para obtenção dos medicamentos necessários para o tratamento de Ana, Lucélia optou por incluir a filha em um plano de saúde.
No tratamento, Ana utilizou medicamentos orais e injetáveis para estabilizar a doença, no entanto, ao mesmo tempo em que minimizavam os sintomas, estes medicamentos resultavam no comprometimento dos músculos do corpo e em um inchaço agravante. Para preservar e melhorar a função muscular, Ana passou a fazer fisioterapia e pilates. Por ser jovem e passar por essa série de acontecimentos, ela também realizou algumas sessões de terapia, mas acabou sendo dispensada, pois, segundo a psicóloga, a família de Ana sempre manteve diálogo aberto com relação à doença e trabalhou sua força e autoestima.
Por ser uma doença muito rara, há pouquíssimos estudos sobre a dermatopolimiosite. A origem dessa doença, por exemplo, ainda é desconhecida pela medicina. Com muita pesquisa, Lucélia descobriu que a dermatopolimiosite se enquadra no estatuto do deficiente. Em contato direto com advogados, promotores e juízes, ela sanou suas dúvidas e tomou conhecimento dos direitos que sua filha poderia ter, como, por exemplo, os medicamentos através do SUS, um professor auxiliar em sala de aula e estacionamento exclusivo, bem como dos seus próprios direitos enquanto mãe da paciente, como, por exemplo, licença para se ausentar do trabalho e cuidar da filha.
Durante três anos, o quadro clínico de Ana se manteve estável, até que, no ano passado, em 2016, ela ficou dezessete dias internada, por conta das reações de um dos medicamentos. Hoje, para monitorar o funcionamento de seus órgãos, ela toma doses um pouco menores. Já a mãe Lucélia, briga na justiça para obter os medicamentos de alto custo para o tratamento da filha, que chegam a custar mais de R$ 60.000,00.

Os aprendizados
Nas habituais idas a Joinville, há três anos, Ana fez amizade com Amanda Victória Ribeiro, também portadora da dermatopolimiosite. Elas se tornaram amigas, passaram a trocar informações e realizar o tratamento juntas; Lucélia e Ana Carla Salvador, mãe de Amanda, também fizeram amizade e trocam experiências e descobertas acerca da doença das meninas.
Desde que soube que a filha é portadora de uma doença rara, Lucélia vem estudando e ficando expert no assunto. Hoje, deixou de ser apenas mãe e é um pouco psicóloga, um pouco juíza e um pouco médica. “Aprendi a me colocar mais no lugar do outro”, conta a professora e mãe de Ana, que tem o desejo de compartilhar sua constante busca pelo conhecimento sobre a dermatopolimiosite e ajudar outras pessoas.
Já Ana, atualmente, tem 17 anos de idade, estuda no terceiro ano do Ensino Médio, tem um namorado e uma família que cuidam dela com carinho, gosta de viajar e leva uma vida normal, com pequenas limitações e dores de vez em quando. Ela fala que, às vezes, passa por momentos de tristeza, mas que, cada vez mais, vem aprendendo a conviver com isso. E finaliza: “Hoje, percebo o quanto algumas pessoas se queixam à toa e dou muito mais valor à vida e às pessoas que tenho comigo”.

Deseja saber mais sobre as doenças raras? Acesse o portal “Muitos Somos Raros”: http://www.muitossomosraros.com.br.