Arquivo da categoria: Atitudes e Doação

Doação de cabelo para pacientes com câncer

Os cabelos são a parte do corpo que muitas pessoas mais se dedicam, sempre buscando os melhores produtos, os cortes mais adequados e os tratamentos mais modernos. Toda essa vaidade existe porque os cabelos ajudam a desenhar o formato do rosto e, dependendo do tipo, podem deixar com uma aparência mais leve, mais jovem ou até mais magra. Por todas essas razões, perder os cabelos por causa de doenças autoimunes, de efeitos colaterais no tratamento contra o câncer ou mesmo por acidentes, mexe muito com a autoestima das pessoas.

Além da própria luta contra a doença, que é um processo muito difícil, a perda dos fios afeta o lado psicológico, que também é muito importante e faz a diferença no processo de cura. Por isso, muitas vezes o uso de uma peruca pode fazer a diferença, fazendo com que esses pacientes se sintam mais bonitos e confiantes e, assim, enfrentem melhor o tratamento.

Atitudes pequenas, porém grandes

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Augusta Fehrmann Gern e seu cabelo nos
inspiraram a abordar este tema.

Quem nos inspirou a abordar este tema foi Augusta Fehrmann Gern, de 25 anos. Ela sempre achou bonito o gesto de doar o cabelo para pacientes com câncer, mas aguardou o momento certo para fazer isso. “Eu já estava com vontade de mudar o visual, pois acredito que mudanças são sempre positivas. Mas, assim que me lembrei dessa atitude, pesquisei a respeito e descobri que, para doar, o cabelo deveria ter, no mínimo, 15 centímetros de comprimento”, recorda. Então, ela determinou que deixaria o cabelo crescer e só o cortaria após o dia do seu casamento.
Em abril deste ano, uma semana depois do grande dia, Augusta mediu os fios e viu que estavam no tamanho ideal e, então, foi ao cabeleireiro cortá-los. A atitude é importante, mas ela ressalta que o doador deve sentir-se bem com a escolha: “Eu acho que o cabelo um pouco mais curto é prático e combina com o inverno que está por vir”. Além disso, lembra que cabelo sempre cresce – para alguns mais rápido, para outros mais devagar.
Fios cortados, Augusta levou-os para casa, pois ainda não tinha um local para doar em mente. Através de uma amiga, soube da ONG Cabelaço (www.facebook.com/cabelacors), de Porto Alegre-RS. “Ela me passou a página da ONG e gostei muito do trabalho deles, especialmente por fazerem perucas para pacientes com câncer que são, em sua maioria, crianças”, conta Augusta. Com as informações obtidas na página da Cabelaço, ela enviou suas madeixas de Itapoá para Porto Alegre, pelo correio.
Para ela, é incrível como uma atitude tão simples pode mudar a vida de outra pessoa, já que o cabelo é responsável pela autoestima de muitos, especialmente meninas e mulheres. “E, no fim das contas, cortar os fios não faz tanta diferença, pois daqui a uns meses o cabelo pode estar igual ou até maior e mais forte que antes”, ressalta Augusta. Nas palavras de nossa inspiradora desta matéria, “é importante ter empatia e perceber que pequenas atitudes para nós podem ser grandes para outros”.

 

Gesto que inspira

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Seguindo seu exemplo, Chirley Ribas inspirou outras pessoas a doarem, também.

Há um ano, Chirley Ribas, de 31 anos, também doou seus fios de cabelo. Ela fala que sempre desejou ajudar o próximo, mas que nos últimos anos isso se intensificou, talvez por influência da maternidade. Pela rede social de uma conhecida, Chirley soube da entidade Casa do Adalto (www.facebook.com/casa.adalto), em Joinville-SC, que aceitava doação de cabelo e fabricava perucas para pacientes com câncer. “Achei muito interessante, mas foi vendo as fotos dos semblantes do ‘antes e depois’ de os pacientes ganharem as perucas que tive a certeza de que parte do meu cabelo faria muito mais diferença na cabeça de outra pessoa”, fala.
Ela, que estava há tempos mantendo o cabelo comprido, aliou a vontade de mudar radicalmente à vontade de ajudar. Após o corte, Chirley foi até a entidade entregar a doação em mãos: “Fui muito bem recebida na Casa do Adalto. Saí de lá com uma sensação muito boa”.
Depois disso, Chirley chegou a influenciar outras pessoas a doarem, como, por exemplo, uma amiga que incluiu o “corte para doação” em uma gincana na empresa em que trabalha, juntando e doando mais de quinze mechas para a mesma entidade que Chirley.

 

Mudar faz bem

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Evandro Chagas Ribeiro da Rosa cortou seu cabelo e está à procura de um local para doá-lo.

Homns com cabelos compridos também podem abraçar essa ideia. Evandro Chagas Ribeiro da Rosa, de 19 anos, sempre teve a intenção de doar o cabelo quando o cortasse: “não queria jogá-lo fora sabendo que poderia fazer a diferença para alguém”. O corte foi realizado em abril desse ano, em Itapoá, mas, na semana seguinte iniciou sua semana de provas na universidade e, por isso, Evandro ainda não dedicou tempo para procurar algum hospital, ONG ou entidade para doar a mecha cortada.
Até o presente momento, ele está com o pedaço de seu cabelo guardado, à procura de algum lugar para doar, de preferência em Florianópolis-SC, onde estuda. Para aqueles que desejam fazer o mesmo, ele encoraja: “Doar o cabelo é importante para quem recebe, mas também pode ser legal para quem doa, pois, além de se sentir satisfeito em ajudar o próximo, um novo visual pode simbolizar coisas boas e refrescar a personalidade”.

 

Crianças também doam

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O pequeno João Gabriel Borges da
Costa Ramos está esperando seu cabelo atingir o comprimento mínimo para, então, doá-lo.

Se doar o cabelo para pessoas com câncer já é uma atitude bonita, quando a ideia parte de uma criança é ainda mais especial. O pequeno João Gabriel Borges da Costa Ramos, de apenas 8 anos, teve a ideia quando estava assistindo a um programa de televisão. “O programa contava sobre meninas que tinham câncer e sonhavam com uma festa de 15 anos. O hospital organizou uma festa para elas, que eram fãs do cantor Luan Santana, que é meu ídolo também. Então, o Luan Santana fez uma surpresa e dançou valsa com as meninas que tinham câncer”, conta João, que, a partir daí, se sensibilizou com a causa e tomou a decisão de deixar o cabelo crescer para doar.
A família de João ficou muito orgulhosa com isso, também alertou a ele que o cabelo poderia demorar a crescer, que no verão seria difícil por conta do calor e que alguns amigos poderiam fazer bullying, mas ele se manteve firme. Alguns amigos da escola apoiaram a atitude de João, mas outros chegaram a fazer piadas de mau gosto sobre seu cabelo comprido. “Eu pensei em desistir, mas conversei com minha família e todo mundo me lembrou da importância desse ato”, diz. Até agora, João está esperando os fios chegarem ao comprimento mínimo para, depois, pesquisar um lugar para doar. Em suas palavras, ele conta o que está lhe motivando a ajudar pessoas com câncer: “eu me imagino no lugar delas”.
A pequena Khiara Luna Teixeira Bauer, de 9 anos, também teve essa ideia. Ela conta que a empregada de sua casa tinha uma filha que morreu de câncer e, por isso, se inspirou. Khiara, que tinha o cabelo longo, cortou e doou para o Instituto Atitude na Cabeça (www.facebook.com/atitudenacabecacuritiba), de Curitiba-PR. A pequena aprovou seu novo visual e fala sobre a experiência: “Doar meu cabelo para pessoas com câncer foi bom e legal, e fez bem para o coração e para a alma”.

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O processo de corte dos fios da pequena
Khiara Luna Teixeira Bauer, que também abraçou essa causa.

 

Se pode ajudar, ajude

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As madeixas de Júlia de Freitas e ela conferindo o novo visual.

Júlia de Freitas, de 18 anos, sempre desejou cortar seu cabelo, no entanto, adiava esse dia por falta de coragem; até que caiu a ficha de que o cabelo não faria falta para ela e que alguém faria bom uso dele. O corte aconteceu em abril desse ano, mas Júlia guardou os fios para pesquisar um local de confiança para qual possa doar.
Ela, que também é doadora de sangue, acredita que é desnecessário acumular coisas das quais não precisamos ou não nos farão falta, especialmente quando alguém pode se beneficiar com isso – ou seja, se tem a oportunidade de ajudar o próximo, ajude. E fala: “o cabelo cresce e a sensação de estar fazendo a coisa certa, também”.

 

Vontade de doar de novo

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Naiara Pinheiro doou seu cabelo uma vez e, hoje, depois de ter crescido, pretende fazê-lo de novo.

Outra história inspiradora de doação de cabelo para pessoas com câncer aconteceu há alguns anos e vem de Naiara Pinheiro, de 22 anos. Ela conta que sempre manteve o visual com o cabelo longo, mas cogitava a ideia de cortá-lo. Até que se apaixonou por um perfil no Instagram chamado Cabelegria (@cabelegria), voltado a doações de cabelo, de São Paulo-SP. “Fotos das crianças felizes com as perucas me sensibilizaram e foram decisivas para que eu entrasse nessa, também”, diz.
Naturalmente, Naiara foi ao salão de beleza, em Itapoá, e cortou suas madeixas. Porém, realizou a doação para um local um pouco mais próximo: o Projeto Cabelo Amigo (www.facebook.com/cabeloamigocuritiba), de Curitiba-PR. “Infelizmente, não pude ir até o local para acompanhar o processo de confecção da peruca, mas conversei com a responsável pelo projeto e fiquei satisfeita em ajudar uma causa séria e tão importante”, fala.
Atualmente, Naiara deixou Itapoá e mora na Espanha. Seu cabelo voltou a ficar comprido e ela já está à procura de uma instituição por lá para doar seus fios de cabelo novamente, desta vez, para alguma paciente com câncer espanhola. Para quem admira esta atitude, mas ainda não tomou coragem, ela recomenda que procurem por fotos de crianças e adultos antes e depois do recebimento das perucas. E finaliza: “Não venda o seu cabelo e muito menos o jogue fora, mas faça alguém se sentir verdadeiramente especial com a doação dele”.

Bons motivos

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Visual pós-tesoura de Rhaiza Carvalho Capaverde

Por fim, encerramos nossa série com o depoimento de Rhaiza Carvalho Capaverde, de 25 anos, que cortou seu cabelo com a intenção de doar em novembro do ano passado. “Fiquei apreensiva no momento de cortar, pois meu cabelo nunca esteve tão grande como naquela época, mas criei coragem e, no fim das costas, adorei meu novo visual”, conta.
Rhaiza cortou com seu cunhado, que é cabeleireiro e realizou o corte de maneira com que as mechas fossem aproveitadas, o que resultou em 30 centímetros de fios de cabelo cortados. Até o presente momento, seus fios estão guardados, pois ela deseja realizar a doação pessoalmente e ainda não reservou tempo para isso.
Assim como a pequena Khiara citada anteriormente, Rhaiza pretende doar suas mechas para o Instituto Atitude na Cabeça (www.facebook.com/atitudenacabecacuritiba), de Curitiba-PR.
“Ajudar uma pessoa a recuperar sua autoestima e, assim, obter forças para continuar o tratamento e combater o câncer é um gesto muito bonito”, fala Rhaiza.
Ainda assim, se isso não comover você, ela lhe oferece bons motivos para também se livrar do cabelão: “sentimento de gratidão, liberdade pelo ato de solidariedade, sensação de missão cumprida e, além disso, um novo visual”.

Ana Beatriz Machado

 

Desafios e superações de pessoas que convivem com uma doença rara

Há cinco anos, Ana Beatriz Moreira de Almeida foi diagnosticada com dermatopolimiosite, uma doença rara. De lá para cá, ela e sua mãe, Lucélia Ranata Borges, moradoras de Itapoá-SC, conheceram as dificuldades de quem tem doenças raras, como a dor do diagnóstico, a falta de informações e a busca por tratamentos de alto custo. Todos esses problemas comprovam que as doenças raras ainda representam desafio para a saúde pública.
Em nome de Ana, Lucélia e de todos que vivem este contexto, abordamos este tema para chamar atenção, prevenir e promover a saúde.

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De Itapoá-SC, a mãe Lucélia Ranata Borges e a filha Ana Beatriz Moreira de Almeida, diagnosticada com uma doença rara.
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A jovem Ana Beatriz sempre sorrindo, no hospital em Joinville.
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Amizade que nasceu com a dificuldade: Ana e a amiga Amanda Victória Ribeiro, também diagnosticada com dermatopolimiosite, e as mães Lucélia e Ana Carla Salvador.
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Durante a consulta com um dos profissionais.

Dos sintomas ao resultado
Tudo começou em 2012, quando Ana tinha 12 anos, e começou a apresentar as mãos arroxeadas e as bochechas avermelhadas, em forma de asas de borboleta. Quando levada ao hospital, o médico alegou dermatite, decorrente do frio. Ainda assim, Lucélia levou a filha a uma dermatologista, em Joinville, que, por conta das manchas, afirmou que fosse Síndrome de Raynaud. Conforme o tempo passava, Ana apresentava outros sintomas, como fraqueza nos músculos.
Desde os primeiros sintomas, a vida de Ana mudou. Ela, que gostava de fazer balé e pretendia fazer o teste para ingressar na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, estava totalmente dependente de sua mãe para tudo, já que apresentava dificuldades para elevar os braços, levantar de uma cadeira ou subir escadas, por exemplo. A menina conta que perdeu até mesmo a vontade de ir para a escola, pois sofria bullying dos colegas.
“Estávamos desnorteadas, pois cada profissional nos dava um diagnóstico diferente; um deles chegou até a dizer que se tratava de problemas psicológicos”, lembra Lucélia. Na incessante busca de saber do que se tratava, mãe e filha foram indicadas a uma reumatologista, de Joinville, que, primeiramente, suspeitou de lúpus e pediu que fosse realizada uma biópsia muscular e exames complementares. Após seis meses desde os primeiros sintomas, os exames concluíram que Ana tinha duas síndromes muito raras, a poliomiosite e a dermatomiosite, que, quando somadas, formam uma síndrome ainda mais rara, chamada dermatopoliomiosite.
Para Ana e Lucélia, o diagnóstico foi sinônimo de alívio, pois, agora sim, elas sabiam qual caminho seguir.

Estágios e tratamento
A dermatopolimiosite é uma doença crônica, inflamatória e de origem autoimune, caracterizada, sobretudo, por manchas avermelhadas ou arroxeadas em articulações (principalmente nas mãos), manchas avermelhadas nas pálpebras, fraqueza muscular (principalmente nas cinturas escapular e pélvica) e dores articulares – sintomas apresentados por Ana –, além de fotossensibilidade (agravamento de lesões com o sol) e manifestações extramusculares, como acometimento articular, cardíaco e pulmonar. Outra informação importante é que, assim como outras doenças autoimunes, não existe a cura completa da dermatopolimiosite, mas sim um tratamento, que visa a estabilização da doença, minimiza a incapacidade e melhora a qualidade de vida do diagnosticado.
Entendido isso, todo mês, mãe e filha tornaram a passar uma semana em Joinville, na casa de familiares, para realizar o tratamento de Ana com um reumatologista, um neurologista e uma dermatologista. “No início, pagamos muitas consultas particulares e tivemos muita dificuldade para obter os medicamentos que deveriam ser fornecidos pelo Ministério Público”, conta Lucélia, que é professora de Itapoá, e também passou por períodos difíceis ao ter que se ausentar da escola com frequência para acompanhar a filha nas consultas.
Felizmente, elas receberam ajuda de toda a família, que fez rifas, e da igreja adventista da Barra do Saí, que organizou ações sociais para contribuir nas despesas com os medicamentos, consultas e idas a Joinville. Como não havia cotas pelo SUS (Sistema Único de Saúde) para obtenção dos medicamentos necessários para o tratamento de Ana, Lucélia optou por incluir a filha em um plano de saúde.
No tratamento, Ana utilizou medicamentos orais e injetáveis para estabilizar a doença, no entanto, ao mesmo tempo em que minimizavam os sintomas, estes medicamentos resultavam no comprometimento dos músculos do corpo e em um inchaço agravante. Para preservar e melhorar a função muscular, Ana passou a fazer fisioterapia e pilates. Por ser jovem e passar por essa série de acontecimentos, ela também realizou algumas sessões de terapia, mas acabou sendo dispensada, pois, segundo a psicóloga, a família de Ana sempre manteve diálogo aberto com relação à doença e trabalhou sua força e autoestima.
Por ser uma doença muito rara, há pouquíssimos estudos sobre a dermatopolimiosite. A origem dessa doença, por exemplo, ainda é desconhecida pela medicina. Com muita pesquisa, Lucélia descobriu que a dermatopolimiosite se enquadra no estatuto do deficiente. Em contato direto com advogados, promotores e juízes, ela sanou suas dúvidas e tomou conhecimento dos direitos que sua filha poderia ter, como, por exemplo, os medicamentos através do SUS, um professor auxiliar em sala de aula e estacionamento exclusivo, bem como dos seus próprios direitos enquanto mãe da paciente, como, por exemplo, licença para se ausentar do trabalho e cuidar da filha.
Durante três anos, o quadro clínico de Ana se manteve estável, até que, no ano passado, em 2016, ela ficou dezessete dias internada, por conta das reações de um dos medicamentos. Hoje, para monitorar o funcionamento de seus órgãos, ela toma doses um pouco menores. Já a mãe Lucélia, briga na justiça para obter os medicamentos de alto custo para o tratamento da filha, que chegam a custar mais de R$ 60.000,00.

Os aprendizados
Nas habituais idas a Joinville, há três anos, Ana fez amizade com Amanda Victória Ribeiro, também portadora da dermatopolimiosite. Elas se tornaram amigas, passaram a trocar informações e realizar o tratamento juntas; Lucélia e Ana Carla Salvador, mãe de Amanda, também fizeram amizade e trocam experiências e descobertas acerca da doença das meninas.
Desde que soube que a filha é portadora de uma doença rara, Lucélia vem estudando e ficando expert no assunto. Hoje, deixou de ser apenas mãe e é um pouco psicóloga, um pouco juíza e um pouco médica. “Aprendi a me colocar mais no lugar do outro”, conta a professora e mãe de Ana, que tem o desejo de compartilhar sua constante busca pelo conhecimento sobre a dermatopolimiosite e ajudar outras pessoas.
Já Ana, atualmente, tem 17 anos de idade, estuda no terceiro ano do Ensino Médio, tem um namorado e uma família que cuidam dela com carinho, gosta de viajar e leva uma vida normal, com pequenas limitações e dores de vez em quando. Ela fala que, às vezes, passa por momentos de tristeza, mas que, cada vez mais, vem aprendendo a conviver com isso. E finaliza: “Hoje, percebo o quanto algumas pessoas se queixam à toa e dou muito mais valor à vida e às pessoas que tenho comigo”.

Deseja saber mais sobre as doenças raras? Acesse o portal “Muitos Somos Raros”: http://www.muitossomosraros.com.br.

Instituto Atitude na Cabeça transformando doação de cabelos em sorrisos e bem-estar

Criado há quatro anos, sendo há dois anos juridicamente constituído, o Instituto Atitude na Cabeça (IAC) surgiu da necessidade de um local em Curitiba que fabricasse e doasse perucas para pacientes com qualquer tipo de patologia que venha a ocorrer a perda dos cabelos, total ou parcial, temporária ou definitiva, (como cânceres, lúpus, tiroides, cirurgias pós-bariátrica, diabetes, acidentes, alopecia e escalpe lamentos). “Como as perucas são muito caras – chegando até a serem consideradas artigos de luxo – e muitas pacientes não têm condições financeiras de adquirir uma, criamos um grupo de voluntários para receber doações de cabelos cortados corretamente e confeccionar perucas e doá-las aos pacientes de baixa renda”, conta Suely Maria Baldan, presidente do Instituto.

2-1Parte da equipe do Instituto Atitude na Cabeça. Da esquerda para direita:
Neto, Maria, Sandra, Tyane, Suely (presidente do instituto),
Raphael, Caxambu e Fabio.

Esta atitude foi ganhando cada vez mais visibilidade, já que perder os cabelos por causa de doenças autoimunes, de efeitos colaterais no tratamento contra o câncer ou, até mesmo, por acidentes mexe muito com a autoestima das pessoas. “O cabelo faz parte do sistema tegumentar, que carrega o DNA de cada pessoa. Além da própria luta contra a doença, que é um processo muito difícil, a perda dos fios afeta o lado psicológico, que também é muito importante e faz a diferença no processo de cura”, explica Suely, “por isso, muitas vezes o uso de uma peruca pode fazer a diferença, fazendo com que esses pacientes se sintam mais bonitos e confiantes, passem despercebidos, não sofrendo preconceitos por um visual fora do que a sociedade entende como normal e, assim, enfrentem melhor o tratamento”.

Confeccionando e doando as perucas

3-2Voluntária do IAC na confecção de perucas.

Com as mechas de cabelos doadas, a maioria das perucas é confeccionada por voluntárias do Instituto Atitude na Cabeça, mas também são feita parcerias com outras fábricas. A confecção funciona da seguinte forma: as mechas são costuradas em um tipo de rede resistente e, assim, a peruca é entregue ao paciente. “Do mesmo jeito que as mechas de cabelo vão para a fábrica, elas voltam, só que costuradas na rede. O corte da peruca é feito por profissionais voluntários, de acordo com o tipo de rosto do paciente, etc., fazendo com que cada peruca seja personalizada”, explica Suely.

O paciente também deve enviar uma fotografia de como era o seu cabelo e de como ele está sem cabelo, para que seja feita uma peruca próxima àquela cor ou textura de como ele era.De acordo com a presidente, para confeccionar uma única peruca são necessárias, no mínimo, 250 gramas de cabelo doado (equivalente a de três a cinco doares). Lembrando que quanto maior o comprimento do cabelo, mais pesagem necessita.Para receber a doação de uma peruca, o Instituto realiza uma análise social, para se certificar de que o paciente não possui recursos financeiros para comprar o produto – que custa, no mínimo, R$ 1.500,00 (se tratando de um modelo de cabelo curto, o cabelo comprido é ainda mais caro).

As doações aos pacientes são realizadas independentemente de hospitais ou regiões. “As perucas podem ser entregues em mãos ou via correio, como já o fizemos para diversos estados do Brasil”, conta Suely. Atualmente, o IAC é reconhecido por diversos hospitais, que lhe indicam aos pacientes.

Os relatos de quem recebe a doação

Dayane Cristiana Alves Burbela foi diagnosticada com lúpus há cinco anos. 

Diagnosticada com câncer de mama, Lucinéia Martins
utilizava lenços antes de receber a doação da peruca.

8-7Marinês Ribeiro, diagnosticada com câncer de mama,
utilizando a peruca. Essa foto, inclusive, vai para o livro que Marinês está escrevendo sobre essa experiência.

Dentre os mais de quinhentos pacientes beneficiados com uma peruca, está Dayane Cristiana Alves Burbela, de 27 anos, diagnosticada com lúpus há cerca de cinco anos. “Quando a queda do meu cabelo veio a acontecer foi um período difícil, pois, além disso, surgiram manchas em meu rosto”, conta Dayane, que se sentia intimidada ao sair nas ruas por conta dos olhares das pessoas, e passou a utilizar lenços. Antes de conhecer a equipe do Instituto Atitude na Cabeça, ela enviou fotos de como era seu cabelo e, então, a equipe providenciou alguns modelos de peruca fiéis ao seu cabelo original, no entanto, Dayane acabou optando por um modelo diferente do que era antes. “Depois que recebi a doação da peruca me senti mais viva, pois tinha muita saudade de pentear meus cabelos e pude voltar a fazê-lo”, diz.
Outra beneficiada foi Lucinéia Martins, de 53 anos, diagnosticada com câncer de mama em 2014. “O médico alertou que meu cabelo cairia por causa da quimioterapia, mas me desesperei quando isso começou a acontecer e, então, pedi a meus filhos que raspassem todo o meu cabelo”, conta. Neste momento, ela ressalta que recebeu muito apoio da família. Alex José Martins, filho de Lucinéia, comprou alguns lenços para a mãe usar: “ela ficou maravilhosa com os lenços e isso ajudou muito para que ela saísse na rua tranquila, sem receber olhares das pessoas”. Foi através de uma paciente do hospital que já havia recebido a doação de uma peruca que Lucinéia soube do Instituto. “Quando estive lá, fui muito bem recebida. A equipe me mostrou opções próximas ao meu cabelo natural para que eu me sentisse melhor e me ensinou a vestir a peruca”, diz. Para Lucinéia, a peruca trouxe bem-estar, autoestima e fez com que ela se sentisse mulher novamente.
Assim como Lucinéia, Marinês Ribeiro, de 56 anos, também foi diagnosticada com câncer de mama. Isso aconteceu em novembro de 2016 e, desde então, Marinês vem realizando o tratamento. “Para mim, a parte mais difícil até então foi a queda de cabelo, pois, diferente dos outros sintomas, este você percebe todas as vezes que se olha no espelho”, diz. Ela conheceu o IAC por acaso, enquanto passava pela rua, e conta que foi acolhida com muito amor e carinho. “A equipe me forneceu uma peruca igual ao meu cabelo de quando eu tinha quinze anos. Gosto muito de usá-la, pois melhora minha autoestima e me faz sentir bem”, fala Marinês, que está escrevendo um livro sobre essa fase de sua vida.
Hoje, os cabelos de Dayane voltaram a crescer, mas seu tratamento ainda não terminou, pois ela ainda terá de realizar quimioterapia para controle do lúpus. O cabelo de Lucinéia também cresceu, ela já fez a devolução da peruca para o IAC, foi curada do câncer de mama e, atualmente, está na fila de espera para reconstrução da mama. Já Marinês, terminou a quimioterapia e está se preparando para fazer a cirurgia da retirada da mama no início deste mês de junho.
Àqueles que pensam em doar suas mechas de cabelo para o Instituto Atitude na Cabeça, Marinês dá o recado: “não pensem duas vezes, pois é uma instituição séria, com voluntários que realizam um trabalho muito bonito e que, com uma peruca, ajudam muitas pessoas a encararem a doença de forma mais positiva, assim como está acontecendo comigo”.

e4193eed-3d75-455c-a03e-564Anna Beatriz

Saiba como ajudar
Todo o trabalho realizado no Instituto Atitude na Cabeça é baseado no voluntariado. Além de recolher doações de cabelos cortados corretamente, o Instituto também faz doações de prótese de silicone externa para as mulheres que ainda não fizeram a reconstrução da mama, e de almofadas “Atitude do Coração”, que ajudam na drenagem e circulação do sague na região da mama recém-operada e trazem segurança e conforto ao utilizar o cinto de segurança em cima da mama retirada, além de lenços, turbantes, bonés para os homens, boinas e demais acessórios para a cabeça.
Vale frisar que o IAC aceita doações de quantias em dinheiro, e busca novos voluntários e novas parcerias com empresas e profissionais das áreas de micro pigmentação – que podem realizar a reconstrução das auréolas dos seios (para pacientes com câncer de mama) e das sobrancelhas (para pacientes com alopecia).

f23ee032-05e3-411d-8500-650Ana é muito feliz mesmo sabendo que não tem cílios, sobrancelhas ou cabelos, e muito amada por todos.

Para doar o cabelo corretamente
É preciso estar atento aos critérios do corte, para que o mesmo seja 100% reaproveitado. A presidente Suely explica: “O tamanho mínimo para a doação de cabelo são vinte centímetros. No momento do corte, o cabelo deve estar limpo e seco, nunca molhado, pois assim cria fungos e apodrece. Cabelos crespos, com tinturas, mechas ou progressiva também são bem-vindos. Para cortá-los, separe-os em pequenas mechas e amarre-as com elásticos bem firmes. O corte deve ser realizado acima dos elásticos”.
Pessoas do mundo todo podem enviar suas mechas cortadas para o Instituto Atitude na Cabeça através do correio. Cada doador recebe um certificado e tem sua fotografia com a mecha em mãos divulgada na página do IAC no Facebook (se desejar a imagem exposta), inspirando assim outras pessoas.

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Deseja fazer uma visita ao Instituto Atitude na Cabeça ou enviar a sua doação? O IAC fica localizado na Rua Francisco Rocha, número 1544, no bairro Bigorrilho, em Curitiba-PR, CEP 80730-390. O atendimento é realizado de segunda a sexta-feira, das
9h às 17h. Para saber mais sobre o
Instituto, acesse a página http://www.facebook.com/atitudenacabeca
ou ligue para (41) 3015-0768.

Ana Beatriz Machado