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Fandango Chimarrita, tradição viva às margens da Babitonga

A batida do sapato no chão, o rodar das saias e o sorriso no rosto são marcas registradas do Fandango Chimarrita, tradição viva em Itapoá. Essa típica dança dos colonos açorianos consiste na dança batida: os homens sapateiam sem cessar, criando ritmo e tornando o sapato de madeira um instrumento fundamental; já as mulheres arrastam o pé e, em volteios, demonstram toda a delicadeza, gingado e simpatia.

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Augusta Gern

Às margens da Babitonga, mais precisamente no balneário Pontal, um grupo de pessoas mantem a tradição que chegou em 1840 na região, e hoje é um dos únicos representantes da cultura no litoral catarinense. Todos nativos da região, dançam para preservar a cultura, não deixar morrer a herança deixada pelos antepassados.

Conforme os participantes, esta era a diversão antigamente, momento para descontrair e paquerar. “Naquele tempo não podia nem tocar em uma moça, então era nesta hora que eles aproveitavam para trocar olhares”, conta Francisco Peres do Rosário. Assim, cada música tem uma coreografia e um significado. O Fandango é propriamente o sapateado, já Chimarrita significa “chamar para dança”, a união dos dois promove as belíssimas apresentações do grupo.

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Além da diversão, a dança sempre teve também uma ligação muito forte com a fé. Junto com outras culturas que já foram perdidas na cidade, como Terno de Reis, Santo Amaro, Bandeiras do Divino e São Gonçalo, o Fandango marcava presença em todos os festejos religiosos. “Depois de qualquer tradição religiosa, quando as pessoas pagavam as suas promessas, faziam três batidas de Fandango”, conta Luiz Celso Schultz Martendal. Atualmente, conforme os participantes, a dança não deixa de ser uma tradição religiosa, mas independe de religião.

Francisco lembra que seus pais e tios sempre dançaram muito, em 1940 e 1950, por exemplo, tudo era motivo para o festejo. No Carnaval era rigoroso: três dias de dança. Mas até então o grupo era muito fechado, só dançava quem realmente sabia. “Em 1980 é que a nova geração começou a dançar, a resgatar e reviver a tradição”, conta Francisco.

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E assim, entre danças e descansos, paradas e voltas, a tradição segue até hoje. Atualmente são cerca de 20 pessoas envolvidas, todos nativos do Pontal e de diferentes gerações: há os da melhor idade e também adolescentes. A coordenação e organização do grupo é de responsabilidade da ACOPOF – Associação Comunitária do Pontal e Figueira do Pontal e os ensaios acontecem apenas antes de apresentações. Todos os anos o grupo marca presença na Festilha, em São Francisco do Sul, e já se apresentou em diferentes cidades, como Joinville e Florianópolis.

Uma diferença nos dias atuais é a ausência do cantor e tocador de viola. Depois que o músico faleceu, há cerca de 15 anos, as apresentações são realizadas com música gravada. “Ainda bem que uma pessoa gravou uma antiga apresentação, se não hoje não teríamos mais música”, fala Luiz. Conforme Janete Nunes de Jesus, um familiar do músico canta muito bem, mas tem vergonha de participar de apresentações. “Por isso estamos passando essa cultura para os nossos filhos e nossos netos, para não deixar morrer”, afirma.

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Exemplos desse repasse são os grandes dançarinos de hoje. Fabrício Peres do Rosário, filho de Francisco, aprendeu e foi incentivado pelo pai. Começou aos 15 anos e hoje, em virtude do trabalho, não consegue marcar presença em todas as danças. Elaine Nunes Neves Burbello, filha de Elisabeth Nunes Neves, também aprendeu a tradição com a mãe. Hoje as duas dançam juntas e o pequeno neto, de apenas cinco anos, já arrisca alguns passos do sapateado.

E junto com o gosto e desejo de manter a tradição, uma peça é fundamental para que a dança aconteça: o tamanco de madeira. Utilizado apenas pelos homens, precisa ser forte e rústico, pois é dele que sai o tom dessa tradição.

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