Arquivo da categoria: Histórias – Pioneiros

Entre olhares, cartas e memórias

Muitas memórias e cartas de amor guardam Alcini Maria Paese Soares, de 65 anos, também conhecida como Cini, e Celso Soares, de 71 anos.
No mês dos namorados, contamos a história desse casal que vem de famílias pioneiras no município de Itapoá.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

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Celso e Alcini lendo as cartas que
escreviam um ao outro em meados de 70.

Filha de Avaní Caron Paese e Anévio Paese (falecido), Alcini nasceu e foi criada na cidade de Curitiba (PR). A família Paese, uma das pioneiras em Itapoá, fez história no município: “Meus pais tinham um hotel no Balneário Paese, o Hotel Frigomar. Eram muito ativos na comunidade, costumavam organizar torneios de futebol, promover bailinhos e clube de dança. Então, cresci em Curitiba, mas durante as férias, finais de semana e feriados, estava sempre no município litorâneo. Isso aqui não tinha nada, era só mato. Mas nós gostávamos muito de vir para cá”, conta Alcini.
Por sua vez, Celso é filho de Ilsa da Silva Soares e Rodolfo Aparício Soares, mais conhecido como Lindolfo (ambos falecidos). Nasceu em Guaramirim (SC) e aos 18 anos de idade foi sozinho a São Paulo tentar a vida como jogador profissional de futebol. “Jogo futebol desde os sete anos de idade. Enquanto goleiro, joguei em times de Joinville (SC) e tentei me profissionalizar no time da Portuguesa, em São Paulo. Cheguei muito perto do sonho, mas não consegui. Arrumei, então, um emprego na Editora do Brasil, em São Paulo, onde trabalhei por mais de quatro anos”, recorda. Sua irmã e seu cunhado, Nair Soares Mertens e Marcos Mertens, tinham um empreendimento em Itapoá, o famoso Hotel Pérola, o primeiro hotel da região. Por isso, Celso, assim como Alcini, passava suas férias e os finais de semana no município. “Gostava muito de Itapoá, pois tinha a família, a praia, a pesca e o futebol”, ele diz.

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Registro histórico: Celso e Alcini
na motocicleta da época.

 

À distância
Era feriado de Natal em Itapoá. Certa vez, Alcini, aos 17 anos de idade, foi ao Hotel Pérola buscar leite, uma vez que Lindolfo – pai de Celso e de Nair – tinha uma vaca. Chegando lá, a vaca ainda não tinha chego, mas Alcini avistou um rapaz estendendo uma camisa no varal: era Celso, na época, com 22 anos de idade. “Vi que ela estava chegando e fui estender a camisa só para me exibir para ela. Trocamos algumas palavras e para poder vê-la novamente, combinei de ir até a sua casa no período da noite para levar o leite”, recorda Celso.
A noite chegou, Celso levou o leite até a casa de Alcini e os dois, na companhia de seus pais, trocaram apenas alguns olhares. No dia seguinte, aconteceu o tradicional bailinho no Hotel Frigomar, onde dançaram “de rosto colado” (como eles mesmos contam) e passaram a namorar.

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Alcini acompanhando o “benzinho” no futebol, uma das grandes paixões de Celso.

Durante três anos, o relacionamento seguiu assim: Alcini vivendo e estudando em Curitiba, e Celso vivendo e trabalhando em São Paulo. Uma vez ao mês, ele visitava a amada na capital paranaense ou em Itapoá, se lá ela estivesse.
Para matar a saudade, os namorados trocavam cartas apaixonadas que levavam uma semana para chegar ao destinatário. Até os dias atuais, Alcini guarda com carinho todas as cartas em duas caixinhas: uma caixa para as cartas escritas por ela, e outra para as escritas por ele. Escritas à mão em meados de 1970, as cartas falam de amor e de saudade, e repetem inúmeras vezes o apelido carinhoso pelo qual Alcini e Celso sempre se chamaram: “meu benzinho”.

 

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Da esquerda para a direita: Marcos, Samara, Luiz Felipe, Andressa,
Celso, Gabrielle, Alcini e Tabata. À frente: Odir e Pedro Henrique.

Família
Morando juntos, em Curitiba, eles se casaram no ano de 1973. Alcini e Celso tiveram três filhas (da mais velha para a mais nova): Samara Maria Paese Soares, Tábata Maria Paese Soares e Andressa Lilian Paese Soares. Ainda, criaram um filho adotivo, Luiz Felipe de Souza.
A família costumava visitar Itapoá regularmente, mas foi no ano de 1976, que se mudou, de fato, para o município. Alcini recorda: “Meus pais nos deram um mercado, o Apolo 3 da Barra do Saí, para nós tocarmos. No início, moramos dentro de um trailer, a família toda, até que construímos nossa casa em cima do supermercado”.

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O casal participou da última edição do Jasti. Aqui na companhia do neto Pedro.

O casal tocou o mercado Apolo 3 durante muitos anos. Com o passar do tempo, as filhas foram crescendo e ajudando no serviço. No mesmo prédio, a família também tocou uma lanchonete, e tempos depois alugou o espaço para diferentes comércios, como imobiliária, loja de roupas, loja de 1,99, entre outros. Mas foi com uma panificadora que fizeram sucesso em Itapoá.
Nas palavras de Celso: “Certa vez, fiz um curso de panificação com um chileno, que nos ensinou a receita do pão chileno. Então, adaptei a receita com o pão francês e o pão de cachorro-quente, e criei minha própria versão do pão chileno. Foi um sucesso! Por cerca de vinte anos, administramos a Panificadora Pão Chileno, a primeira com forno elétrico na região. Lembro-me de que em um único Ano Novo chegamos a fazer dez mil pães”. Ainda em Itapoá, Celso realizou serviços para os pescadores trabalhando com um torno mecânico e, é claro, jogou muito futebol, nos times de Itapema do Norte e Frigomar, ajudando ainda a fundar o time Saí Mirim da Barra.

 

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Hoje, uma das alegrias do casal é praticar dança de salão, com o Grupo Reviver,
da ESF da Barra do Saí.

Sempre à frente do atendimento no comércio, Alcini fala que sua família trabalhou muito: “tudo foi construído com muito esforço e muita luta”. Já aposentados, o casal ainda mantêm vivos alguns prazeres do tempo “do leite da vaca”. Recentemente, Celso recebeu uma homenagem por contribuir com o futebol da cidade. Até hoje, os apaixonados praticam dança de salão, com o Grupo Reviver, de Itapoá – tendo ganhado, neste ano de 2019, o segundo lugar em um concurso de dança de salão.
Com 45 anos de casados e 40 anos de vida no município litorâneo, Alcini e Celso fizeram e ainda fazem história. Nos dias atuais, enxergam a alegria nos pequenos detalhes, como na dança ou em um almoço com a família reunida.

 

Histórias de amor e da vida na roça

No mês dos namorados, conhecemos um casal de pioneiros que fez e ainda faz história no município de Itapoá, mais precisamente na região do Saí Mirim.
São 61 anos de casados de Tertuliana do Espírito Santo Souza Speck, mais conhecida como Tita, de 80 anos, e João Emílio Speck, mais conhecido como Jango, de 86 anos. Em entrevista à revista Giropop, Tita e Jango falam sobre sua história de amor, suas famílias, a vida na roça e os costumes de antigamente.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

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Em sua casa, no Saí Mirim, Tita e Jango exibem
uma fotografia de seu casamento, há quase 62 anos.

De uma família de nove irmãos, Jango, nascido e criado no Saí Mirim, conta como sua família chegou à comunidade: “Meus pais deixaram Orleans (SC) e, de navio, chegaram a São Francisco do Sul (SC), onde atravessaram a baía e adentraram a mata. Aqui, no Saí Mirim, não tinha nada, era só bicho e mato”.
Por sua vez, Tita nasceu em São João do Itaperiú (SC), onde viveu até os 10 anos de idade. Sua família, que tirava o sustento da plantação e colheita do arroz, escolheu a região do Braço do Norte, próxima ao Saí Mirim, em Itapoá, para viver por conta das boas terras para plantar. Dona Tita recorda que, naquele tempo, uma companhia francesa adquiriu terras na região para trazer fábricas de palmito e implantar uma colônia e, por esse motivo, as pessoas chegavam ao local em busca de oportunidade de trabalho.
Desde a infância, Jango trabalhava na roça com os pais. “Ia para a escola, na Colônia do Saí, a pé, com os pés descalços, era quase uma hora de caminhada. No período da tarde, trabalhava na roça, ajudando meus pais a plantar milho, feijão, entre outros alimentos que eram vendidos em São Francisco do Sul”, recorda. Eram poucas as opções de diversão da criançada, que fazia bolas de papel para brincar.
Na época, não existia sequer uma picada que fizesse o trajeto entre o Saí Mirim e Itapema do Norte. A mata era fechada, e para chegar a Itapema do Norte, os moradores da comunidade desciam o rio, de canoa. “A gente saía às 6h da manhã do Saí Mirim e chegava às 2h da tarde em Itapema do Norte. O rio era muito raso e seu barranco muito limpinho, às vezes, a canoa chegava a encalhar na areia. Tinha muita fartura de peixe, como robalo, traíra e jundiá, e diversidade de pássaros, como aracuã e araponga. A gente parava a canoa no caminho para comer as frutas das árvores, era lindo de se ver! É uma pena que hoje em dia não tenha mais nada, já que a braquiária tomou conta do rio”, diz seu Jango.
Já Tita, veio de uma família de oito irmãos. Na juventude, atuou na escola e ensinou muitos moradores da Colônia do Saí a ler e escrever. Trabalhou na roça e, ainda, tornou-se catequista na igreja Nossa Senhora Aparecida – função que exerceu até os 60 anos de idade. “Antigamente, era tudo muito mais simples, difícil e pacato. Não tinha posto de saúde ou ônibus. Quando alguém adoecia, era curado em casa ou levado a Vila da Glória, em São Francisco do Sul. As poucas residências que tinham na região eram cobertas com palha, o assoalho era de madeira e o colchoado feito com penas de pato ou de ganso”, lembra.

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A diversão dos adolescentes eram as partidas de futebol, as tradicionais festas organizadas pela igreja todo domingo e os bailinhos à luz do lampião (uma vez que naquele tempo não existia energia elétrica na região) – onde Tita e Jango se conheceram e trocaram seus primeiros olhares, quando ela tinha 15 anos, e ele 21. Já apaixonados, namoraram durante três anos, até que decidiram se casar. Inicialmente, o casal viveu em uma casa situada próxima ao morro, no Saí Mirim – “o rancho do morro era coberto de palha e feito com as tábuas deitadas”, como eles dizem. Mais tarde, construíram uma casa de madeira, onde vivem juntos até os dias atuais.
Poucos meses após o casamento, veio o primeiro filho do casal. E, assim, Tita e Jango tiveram oito filhos, sendo quatro mulheres e quatro homens. Do mais velho para o mais novo, são eles: Emílio e Eronilda (ambos já falecidos), Maria, José, Paulo Henrique, Pedro, Sandra e Silvana.
Na vida adulta, Jango participou da diretoria da igreja e fez sucesso no meio futebolístico. “Costumava ir a pé até Itapema do Norte, pela mata fechada, só para jogar futebol, no time do Cruzeiro. Jogava com os pés descalços e voltava para casa com as canelas ardendo”, conta. Ainda, ajudou na emancipação do município de Garuva (SC), candidatou-se a vereador por Garuva e trabalhou na construção da primeira estrada que interligava os municípios de Itapoá e Garuva.
Já em Itapoá, fez amizade com Ademar Ribas do Valle – um dos principais responsáveis pela emancipação do município e primeiro prefeito do mesmo –, e participou ativamente de conquistas históricas para a cidade. “Volta e meia, alguém aparecia no bananal me buscando para ir a algum lugar representar a região do Saí Mirim. Lembro-me de uma excursão em que reunimos os antigos pescadores de Itapoá e fomos a Florianópolis (SC) para reivindicar energia elétrica para a cidade. Carregávamos faixas com os dizeres ‘queremos luz para Itapoá’ e conseguimos”, conta. Ao longo de sua vida, Jango teve um Fusca e uma Kombi, tendo levado muitas gestantes da comunidade para dar à luz nas cidades vizinhas. Também, trabalhou como caminhoneiro e viajou estradas afora.
Enquanto isso, Tita assumiu as tarefas domésticas, a educação dos oito filhos e, vez ou outra, ajudava o esposo na roça. “Eu tirava o leite da vaca, fazia queijinho, bolo e pães caseiros. Para alimentar todos os filhos, tinha de fazer seis pães de forma”, recorda Tita, “em casa, criávamos porcos, galinhas e gados, e todos os dias nossos filhos levavam o café para o pai, na roça”.
Atualmente, Tita e Jango têm treze netos e quatro bisnetos. No Saí Mirim, onde vivem, a natureza ainda é bela, mas a fartura do rio e a diversidade de pássaros são incomparáveis à época de sua infância. Em casa, o casal cria vacas, porcos e galinhas, e planta abacaxis, mandiocas, palmitos, entre outros.
Aos 80 anos de idade, dona Tita gosta de cuidar da horta, viajar de excursão para Iguape (SP) e Aparecida do Norte (SP), e participar de festas religiosas. “Ultimamente, tenho cuidado mais da minha saúde e descansado bastante. Mas ainda sonho em conhecer Gramado, no Rio Grande do Sul”, confessa. Já seu Jango, aos 86 anos de idade, ainda trabalha na roça, ora plantando ora colhendo. Para ele, os dias em que precisa ir à cidade para consultar-se com o médico ou algo do tipo são sofridos: “não gosto de trânsito nem de prédios, o meu negócio são os bichos e o mato”. Assim como Tita, Jango também tem um sonho: conhecer um trecho do rio Amazonas, em Manaus, no Amazonas.
Conforme o casal, sua maior alegria é reunir a família aos domingos para uma costela ou uma feijoada. As memórias de Tita e Jango dariam um livro, dividido em capítulos que contariam as histórias de suas famílias, da vida na roça, dos costumes de antigamente e do Saí Mirim. Com quase 62 anos de casados, Tertulina, a Tita, e João Emílio, o Jango, contam o segredo para uma relação que ultrapassou meio século: “amor, perdão, paciência e saber se colocar no lugar do outro”.

Empreendimento Riviera Santa Maria marcará a Itapoá do futuro

Influente na história de Itapoá, a família Gunther sempre acreditou no futuro promissor do município. Além das contribuições passadas, os Gunther buscam, também, marcar a Itapoá do futuro. Estamos falando do empreendimento Riviera Santa Maria, um projeto da família, junto de outras empresas e empreendedores.
Em entrevista à revista Giropop, os irmãos Pedro Silvano Gunther e Rubens Geraldo Gunther falam sobre a história de sua família, suas contribuições e, é claro, sobre este projeto inovador, moderno e sustentável, que promete grande impacto no município.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

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Irmãos Gunther em recente encontro familiar.

Qual a relação da família Gunther com a história de Itapoá?
Nosso patriarca, Geraldo Mariano Gunther, foi um homem à frente do seu tempo. Advogado militante, político atuante (vereador, prefeito, deputado estadual), jornalista, proprietário do jornal “O Democrata”, de Concórdia (SC), e empresário visionário, sempre acreditou no futuro promissor do município. Costumava dizer que essa era a praia mais bonita do “sul do mundo”. Em 1956, sugeriu a Dórico Paese que investisse em Joinville (SC). Dórico liderava os empreendimentos da família Paese na criação de loteamentos urbanos e vinha de uma bem sucedida experiência em Concórdia. Acreditando no potencial de Joinville, juntaram-se a outros empreendedores e fundaram, em janeiro de 1957, a SIAP – Sociedade Imobiliária Agrícola e Pastoril Ltda. Logo em seguida, Adalcino Rosa comentou com Dórico sobre a existência da praia de Itapoá, a qual só era acessada por barcos, a partir de São Francisco do Sul (SC).
A “descoberta” de Itapoá animou o grupo a focar esforços nesse projeto e, como primeira tarefa, abriram os 8 km de estrada que faltavam para ligar a colônia Saí Mirim à praia. Os detalhes desse início de colonização de Itapoá estão muito bem descritos no livro “Memórias Históricas de Itapoá e Garuva”, de Vitorino Luiz Paese.

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Ida Ormeneza Gunther e Geraldo Mariano Gunther,  os fundadores da IGG.

Há quanto tempo frequentam o município?
A partir de 1964 passamos a veranear todos os anos em Itapoá. O mês de janeiro era, exclusivamente, dedicado à praia. Morávamos em Concórdia e a viagem levava o dia inteiro, saindo de madrugada, em estradas precárias e, em certas épocas do ano, intransitáveis. A luz era a do sol e a água a da chuva. Somente anos depois vieram os fornecimentos de energia elétrica, água, telefone, asfalto, etc.

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Família Gunther em 1957, ano em que Geraldo e demais sócios da SIAP iniciaram o desenvolvimento de Itapoá.

Vocês participaram ativamente da transformação política, social e econômica de Itapoá?
Pedro Silvano e Rubens Gunther: Em 1964, nossa família apoiou a transferência do município de São Francisco do Sul para Garuva, em 1989, acompanhou a criação do município de Itapoá e, em 2003, a instalação da Comarca. Também, cedeu áreas para a construção dos Condomínios Solar do Atlântico, Vivenda das Palmeiras, Portal dos Mares e Cancun. Construiu espaços de lazer e convívio, como o Camping D’Itapoá (hoje, administrado pela Associação dos Funcionários da Prefeitura Municipal de Itapoá) e a casa de espetáculos Maresia (hoje, Italama). Doou uma quadra para a Fundação Hermon, colaborou na viabilização do CTG Fronteira do Litoral e do Campo de Futebol. Apoiou o desenvolvimento urbano, cedendo área para a primeira estação de captação e tratamento de água e doando 60.000 m² para a instalação da nova Estação de Tratamento de Águas (ETA) e da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE). Em 2000, pagamos o asfaltamento da Avenida Brasil, no trecho compreendido entre o Tikay e o Condomínio Vivendas das Palmeiras. Já em 2011, assumimos o asfaltamento do Caminho da Onça, no trecho que corta a área, enquanto o Porto arcou com o custo do asfalto no resto da cidade.

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Veraneio da família em Itapoá, em 1964.

E quanto ao projeto do empreendimento Riviera Santa Maria? Quando começou? Quais as dificuldades iniciais?
Em 1959, a família adquiriu duas glebas para desenvolver empreendimentos imobiliários. Dez anos depois, foi registrado o Loteamento Santa Maria e entregue sua abertura para a empresa Moreira Bastos, de Lages (SC), que não conseguiu completar o serviço. Pelas incertezas e dificuldades da época, o empreendimento não prosperou. As dificuldades associadas às demarcações e sobreposições de áreas inviabilizaram o loteamento e foi necessário um processo judicial de retificação e ratificação de divisas, que só foi concluído em 1999. Já entre 1995 e 2005, antevendo uma forma de urbanização mais própria para residências de veraneio, a família promoveu a implantação dos Condomínios Vivenda das Palmeiras, Solar do Atlântico, Portal dos Mares e Cancun, em regime de permuta por área construída. Contudo, apesar dos cuidados tomados para que as construções atendessem a todos os critérios técnicos e legais, a partir de 2003, o MPF (Ministério Público Federal) ingressou com Ações Civis Públicas (ACP) contra os Condomínios, contra a FATMA (Fundamentação do Meio Ambiente) e contra a Prefeitura de Itapoá, pedindo a anulação das licenças concedidas, com a argumentação, que até hoje não está superada, de que as construções se encontravam em Terras de Marinha e em Áreas de Proteção Permanente (APP), coberta de vegetação de restinga.

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Primeira tentativa de lançar o loteamento Santa Maria, em 1969.

Como se encontra a situação dessas Ações Civis Públicas?
Estamos contestando judicialmente a demarcação da linha de preamar média de 1831 (LPM1831) por entender que ela foi realizada de forma ilegal, e contestando a classificação de proteção de vegetação de restinga por entendermos que a lei protege a vegetação associada ao acidente geográfico restinga e não genericamente a vegetação de restinga. Das quatro ACP’s, duas foram solucionadas através de acordo e outras duas continuam sem decisão até o momento.

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Pedro Silvano Gunther, Vice-Presidente da IGG e Rubens Geraldo Gunther, Presidente.

Desde a iniciativa de implantar o loteamento, nos anos 70, ao imbróglio jurídico ambiental originado na construção dos condomínios, o que vem sendo estudado?
Fomos estudando alternativas e avaliando riscos. A família desenhou muitos projetos para a área, que sempre esbarraram na insegurança jurídica que entendíamos que só seria superada por um projeto transformador e que atendesse a todas as exigências legais, ambientais e fosse economicamente viável. Tivemos a felicidade de encontrar um grupo empreendedor e visionário, composto por engenheiros, administradores e advogados que se dispuseram a assumir o risco, em conjunto com a família, de implantar em Itapoá um projeto inovador, ambientalmente e socialmente responsável e economicamente viável, evitando “fazer mais do mesmo”. O grupo de desenvolvedores – formado por executivos que implantaram o Porto Itapoá, um conceituado empreendedor imobiliário de Curitiba, um arquiteto e um escritório de advocacia – assinou em 2011, com a IGG, empresa da família, um “Protocolo de Intenções” para o desenvolvimento e implantação do projeto Riviera Santa Maria, baseado no “Estudo Conceitual da Gleba”, elaborado pelo escritório de arquitetura do urbanista Jaime Lerner.

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60.000 m² doados pela família para a construção da
Estação de Tratamento de Água de Itapoá.

Desde então, o trabalho tem sido desenvolvido junto dos empreendedores?
Estamos em intenso trabalho, contratando empresas de elevada capacidade técnica, como a AQUAPLAN, para elaborar o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o respectivo Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), a VECTOR, para os projetos de infraestrutura, a IOCH, para o projeto elétrico, além do indispensável e qualificado suporte jurídico do escritório BRÜMMER ADVOCACIA.
Todo o esforço está sedo feito para que quando obtivermos a Licença Ambiental de Instalação (LAI) não haja interrupção no desenvolvimento do projeto, que só se transformará em realidade quando tivermos a segurança jurídica necessária.

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Ilustração da concepção da Praia de Bambu.

Há bastante informação no site rivierasantamaria.com.br a respeito do empreendimento. Mas gostaríamos que vocês falassem sobre os conceitos do mesmo.
O projeto do Riviera é algo que só poderia sair da cabeça de um urbanista experiente como Jaime Lerner, com uma vida dedicada à administração de Curitiba (PR), além de trabalhos no planejamento de outras cidades. O que ele nos ensina é que devemos priorizar o deslocamento a pé ou de bicicleta e, consequentemente, diminuir o tráfego de veículos. Desenhou, então, um bairro, onde as pessoas possam morar, trabalhar, fazer compras, divertirem-se, sem grandes deslocamentos. O projeto abriga os conceitos de diversidade de usos e de renda, que servirá tanto para moradores quanto veranistas. E a Praia de Bambu – espaço de uso público onde ficarão lojas, restaurantes, uma alameda para pedestres e áreas de descanso e lazer – deve prover lazer e gastronomia para os moradores de outros bairros da cidade. As construções e o passeio terão cobertura de bambu, criando, assim, uma identidade própria, que servirá de ponto turístico para Itapoá.

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Área sobre a qual foi projetado o Riviera Santa Maria.
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Masterplan que está sendo objeto  de licenciamento ambiental.

Além da Praia de Bambu, quais as outras inovações do projeto?
Haverá um eixo comercial e de serviços públicos no Caminho da Onça para servir toda a cidade. Serão criadas duas pistas largas, com bastante área de estacionamento e ali se dará o trânsito entre os bairros vizinhos. Ligando o Caminho da Onça à Avenida Brasil, no centro do empreendimento, haverá uma rambla, que é uma avenida bem larga, com lojas, restaurantes e bares. Serão 12 km de ciclovias e muitas ruas exclusivas para pedestres. Os prédios residenciais serão menores na frente, para a Avenida Brasil, e maiores à medida que se distanciam do mar. Estão previstos apartamentos de 70 m² a 350 m², para acomodar a necessidade de diversos interesses e rendas. Há também um espaço previsto para lagoas cristalinas, cuja ideia é usar uma tecnologia chilena de tratamento de água, o que geraria um outro ponto de atração, com operação o ano todo, dentro do Riviera.

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Pedro e Rubens visitam Crystal Lagoon no Chile.

Muito do que está no planejamento do empreendimento é resultado da experiência obtida pelos integrantes do projeto em viagens. Quais foram as suas principais inspirações?
Em viagem ao Chile, conhecemos a já mencionada tecnologia de tratamento de água. São lagos que parecem verdadeiras piscinas, ideais tanto para banho quanto para prática de esportes aquáticos, a custo razoáveis. Em Cartagena de Índias, na Colômbia, pudemos ver formas eficazes de combate à erosão marinha. Estivemos também em Portugal, França e Mônaco, onde pudemos conhecer, além dos trabalhos de proteção da orla, a forma de ocupação das cidades. Já em Abu Dabhi, conhecemos a cidade sustentável de Masdar, com muitos conceitos interessantes de uso de energia e coexistência de moradias e escritórios. Por Cingapura, vimos o resultado do esforço de uma linha de governo que transformou um porto sujo em uma cidade de primeiro mundo. Os integrantes do grupo desenvolvedor, por seu turno, também conhecem diversos países e, a cada viagem, trazem importantes subsídios para o aperfeiçoamento do projeto do Riviera.

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Rubens visita ponte de bambu em Bogotá, Colômbia.

Há muitas empresas e profissionais envolvidos no projeto?
É um projeto complexo, que exige alta especialização e envolve alto risco. Atualmente, entre as empresas contratadas, os empreendedores e a família, temos cerca de 20 profissionais trabalhando no projeto. Na implantação, será dada preferência para empresas e profissionais de Itapoá, desde que atendam as pré-qualificações técnicas e os altos padrões de qualidade que o projeto exige. Além disso, estamos prevendo apoio na formação e qualificação de mão-de-obra para as necessidades futuras.

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Pedro visita Jardim Botânico no Havaí.

E o empreendimento tem ano previsto para lançamento?
Todas as nossas previsões foram adiadas, pois não contávamos com a extrema burocracia envolvida no processo. Além das licenças municipais e estaduais, temos o acompanhamento do Ministério Público Federal que, apesar de não ser órgão licenciador, tem a prerrogativa de solicitar o embargo judicial de qualquer obra que supostamente agrida o meio ambiente. Então, estamos dando todos os passos necessários para prosseguir com segurança. De qualquer forma, nossa expectativa é que obtenhamos as licenças que faltam e o “sinal verde” do Ministério Público Federal ainda este ano.

Vocês estão trabalhando para proporcionar um novo destino para o município. Em comemoração aos 29 anos de Itapoá, qual a mensagem final a todos os munícipes?
Participamos da história de Itapoá há seis décadas. Somos testemunhas do progresso deste pedaço do paraíso e não temos dúvida que o município crescerá de forma ainda mais acelerada. A nossa maior realização, que vem somar com o trabalho de tantas outras famílias pioneiras, será a viabilização do Riviera Santa Maria, que vai contribuir para a grandeza de Itapoá. Estamos otimistas e acreditamos que a população vai orgulhar-se deste empreendimento.

 

História: Memórias de uma antiga Itapoá

No mês das mulheres, contamos a história de três mulheres fortes e vividas: as irmãs Elisa dos Santos Silva (83 anos), Pureza dos Santos Silva (75 anos) e Maria Porfírio da Costa (68 anos), mais conhecida como dona Lica.
Nascidas e criadas no município de Itapoá (SC), mais precisamente na Barra do Saí, sua família foi uma das pioneiras da região – o que, é claro, nos rendeu boas histórias e muitas memórias.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

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Da esquerda para a direita, as irmãs Maria Porfírio da Costa (a dona Lica), Elisa dos Santos Silva
e Pureza dos Santos Silva. No colo, o retrato de seus pais Justina e Alexandre.

Tudo começou pelos falecidos Justina Alexandrina da Conceição e Alexandre Porfírio dos Santos, nascidos e criados em uma casa à beira da mata, na colônia do Saí-Guaçu, em Itapoá – o que indica que sua família ajudou a povoar o local. Não se sabe ao certo o ano em que isso aconteceu, pois, naquele tempo, as datas dos registros não tinham precisão.
Na comunidade, Justina e Alexandre tiveram seus seis primeiros filhos: Emanuel (que faleceu logo em seu nascimento), Inácio (falecido há três anos), as gêmeas Ana e Maria (falecidas com sete meses de vida), Luzia (que vive em Guaratuba, aos 85 anos de idade) e Elisa (uma de nossas entrevistadas). Certo dia, em busca de novos ares, a família deixou a colônia e, em uma canoa, desceu o rio Saí-Guaçu abaixo, para viver na Barra do Saí.

Do lado de cá
Chegando ao destino final, precisavam de um lugar para viver. Dona Elisa explica como acontecia antigamente: “Para morar em um lugar já habitado, era preciso pedir permissão à pessoa mais velha que ali vivia. Na época, o mais antigo era Pedro Franco. Ele, então, permitiu que nosso pai demarcasse um terreno e construísse uma casinha para nossa família”.
Já na Barra do Saí, Justina e Alexandre tiveram mais quatro filhos: Antônia (que faleceu com um ano de vida), Luiza (falecida há 21 anos), Pureza e Maria (as duas últimas, também entrevistadas).
Naquele tempo, da Barra do Saí até a Figueira do Pontal, a maioria das famílias vivia de duas atividades: a roça e a pesca. As crianças, por sua vez, pouco desfrutavam da infância, pois ajudavam seus pais desde muito cedo, seja socando o arroz no pilão, cozinhando para a família, cuidando dos irmãos mais novos ou plantando e colhendo alimentos na roça.
Estudo também era sinônimo de luxo. Dona Elisa, a mais velha, estudou durante três meses em uma escola de Coroados, em Guaratuba (PR) – o acesso era feito a pé, pela praia, e de canoa, pelo rio. Já as irmãs Pureza e Lica receberam estudo de professoras que chegavam a Itapoá e lecionavam nas casas das famílias.

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Dona Elisa foi a primeira costureira da Barra do Saí e até hoje orgulha-se ao mostrar uma de suas máquinas de costura.

Costumes
Dentre as lembranças das brincadeiras de criança, as irmãs gostavam de pular corda, aparar peteca e brincar de roda. “Também brincávamos de esconder bolo. A brincadeira era assim: segurando uma varinha, uma criança pedia aos colegas que procurassem ingredientes na natureza, como folhas de laranja ou de mamona, para fazer um bolo de brincadeira. A criança que chegasse atrasada ganhava uma varada. Depois, escondíamos o bolo debaixo da terra e todos tinham que procurar”.
Católica, a família rezava na rua, em um campal, onde havia uma cruz, e os filhos tinham o costume de pedir bênção aos mais velhos. “Quando uma criança aprontava, apanhava com vara de cipó. Mas, comigo, isso aconteceu uma só vez, pois amava e respeitava muito o papai e a mamãe (modo carinhoso que as irmãs referem-se até hoje aos seus pais)”, conta dona Lica. As benzedeiras também eram parte da crença popular. “Cobreiro, quebrante, vermes ou dor de barriga, não havia nada que uma benzedeira, um chá de erva ou um homeopata não curassem”, complementa dona Lica.
As irmãs mais novas aprenderam a confeccionar cestos e balaios de cipó. Também, pescavam no rio e pegavam caranguejo e marisco no manguezal. “Antigamente, os peixes existiam em abundância em nossos rios”, contam. Diferente das irmãs, o passatempo favorito de Elisa era costurar e fazer crochê, atividades que aprendeu apenas observando suas vizinhas. “Aprendi a fazer crochê aos cinco anos e, aos dez, costurei meu primeiro vestido”, conta Elisa, que fazia roupa para as irmãs e as vizinhas, com anarruga, faile, itamina e fustão – tecidos populares da época.
Em um tempo onde não existia massa de pão, a comida tradicional da família dos Santos Silva era arroz, toucinho de porco, gengibre e carne de passarinho. “Felizmente, nossas mesas eram fartas de comida, principalmente antes de ir para a roça”, lembra dona Pureza. Desde a juventude, os pratos favoritos das três irmãs são mocotó com rabada, caldo de peixe e feijoada com carne cozida.

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A simpática dona Pureza cuidando
de suas plantas, na Barra do Saí.

Histórias
Na boca do povo estavam lendas como O Homem da Mão Peluda, que se escondia na mata e pegava as crianças que andassem sozinhas à noite, e o Boitatá, uma grande cobra que lançava fogo. Certa noite, Elisa, que se considera a mais “marvada” (como costumam dizer) entre as irmãs, estava caminhando pela praia e, com um facho que soltava faíscas, assustou o povoado: “Eu dava voltas e voltas no escuro, com o facho faiscando. Todo mundo saiu correndo, achando que era o Boitatá. No dia seguinte, só se falava disso, e eu fingi que não sabia de nada. Hoje, só conto essa história porque aquela gente já se foi”.
Ela também recorda uma noite em que seguiu sua mãe pela beira da praia, para ver um barco que havia encalhado: “Pelo caminho, desviei de pontos vermelhos muito brilhantes, que acreditava serem brasas do cachimbo da mamãe. Mais tarde, conversando com ela, descobri que seu cachimbo não estava aceso e desconfiamos de que eram diamantes”. Naquela época, muito se falava sobre pratas, ouros e pedras preciosas que existiam próximas aos sambaquis – mas nunca alguém, de fato, as achou.
Assim como cada volta do Rio Saí Mirim, as donas Pureza, Lica e Elisa contam que, a cada 1000 metros, as praias de Itapoá recebiam nomes específicos, que foram agrupados com o tempo. Começando pela Barra do Saí, eram eles: Abreu, Crispim, Arrancado, Roxo, Camboão, Mendanha, Ilha do Meio, Ariel, Lagoinha, Lorato, Itapoá, Morretes, Barra do Rio, Ana Rosa, Ponta do Pontal, Pontal, Piçarras e Figueira. Diferente do que muitos imaginam, a praia da antiga Itapoá era quase inacessível. “Antigamente, a praia era cercada por mata fechada. Era a coisa mais linda, mas também era muito perigoso. Hoje, morando no mesmo lugar em que cresci, percebo que a praia parecia muito mais distante, graças às árvores e plantas que existiam para chegar até lá”, lembra dona Lica.
Tradicionais eram as festas e fogueiras para Santo Antônio, São Pedro e São João. Dona Elisa lembra os bailes caipiras, de Carnaval e de Páscoa: “eram muito mais divertidos, pois hoje em dia não é dança, é pulo”. Segundo as irmãs, ao bater todo o arroz (procedimento para retirar o grão do cacho), o alimento era sacado e o salão ficava livre para o baile, que acontecia até o amanhecer. Assim como sua mãe, dona Pureza adorava dançar. Fandango, Tonta, Chamarrita, Passeado, Xote, Vaneira, Manzuca e Meia Arcanja eram as modas musicais da época. “Quando chegava a Tonta, as moças sabiam que a Chamarrita vinha logo em seguida. Por isso, havia um versinho que dizia: ‘quando chega a Tonta, Chamarrita na ponta’”, recorda dona Lica, que tem memória boa para os versos de antigamente.

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A mais nova das irmãs, Maria Porfírio da Costa, conhecida como dona Lica, em frente ao terreno onde cresceu e mora atualmente.

De geração em geração
Naquele tempo, um aperto de mão era sinônimo do início de um namoro. Como a maioria dos antigos, Elisa, Pureza e Lica também se casaram com o primeiro namorado e conheceram seus esposos (hoje, já falecidos) nos tradicionais bailinhos. Já o parto dos bebês era feito com as famosas parteiras. Dona Pureza recorda: “Quando a bolsa da gestante estourava, o marido ia de bicicleta buscar a parteira, que vinha na garupa. Somente no nascimento do bebê que descobríamos o seu sexo”. Para entender a árvore genealógica dessa grande família, é preciso citar um a um (quem sabe, nossos leitores não identifiquem alguns conhecidos?).
Elisa se casou quando tinha 15 anos de idade com Álvaro Emídio da Silva. Seu sogro, Euclides Emídio da Silva, foi um imigrante que chegou a Itapoá em 1922, sendo um dos primeiros homens a habitar a região da Barra do Saí – daí o nome da conhecida Escola Municipal Euclides Emídio da Silva. Juntos, Elisa e Álvaro tiveram seis filhos: Ezequiel Domingos da Silva, Eurides José da Silva (já falecido), Rosi Elisa da Silva (já falecida), Álvaro Luiz da Silva (também já falecido), Alexandre dos Santos Silva e Euclides Emídio da Silva Neto.
Já Pureza, se casou aos 16 anos com João Pedro da Silva. Tiveram oito filhos: Madalena da Silva, João Alexandre da Silva, José Afonso da Silva, Antonio Santos da Silva, Fernando da Silva, Rosa da Silva, Maria da Silva e Pedro Paulo da Silva (os três últimos já falecidos).
Por fim, Maria, a dona Lica, também se casou aos 16 anos de idade. Seu parceiro foi Alirie Félix da Costa, com quem teve seis filhos: os gêmeos Dulcenéia da Costa e Dirceu da Costa, Davi Porfírio da Costa, Doval da Costa, Dorival da Costa e Daniel da Costa.
Vale lembrar que as três irmãs se casaram na igrejinha da comunidade Saí-Guaçu e todos os vestidos de noiva foram confeccionados pela primeira costureira da Barra do Saí: dona Elisa.

Vida moderna
Além do pioneirismo na costura, dona Elisa também foi a primeira merendeira da antiga Escolinha da Barra e a primeira funcionária do Posto de Saúde da Barra, quando o município ainda pertencia a Garuva (SC). Pureza, por sua vez, trabalhou durante trinta anos como confeiteira, suprindo toda a comunidade com seus pães, doces e bolos. Já Maria, a Lica, trabalhou no antigo restaurante Cabana da Barra, em uma banca de camarão e como zeladora das casas de turistas – atividade que mantém até os dias atuais.
Se dedicássemos um dia inteiro para conhecer as histórias destas simpáticas senhoras, ainda assim, seria pouco. Mas, em uma tarde, tivemos o prazer de ouvir alguns de seus causos, saber mais sobre sua família e sobre a Itapoá de tempos remotos. É bom ressaltar que Pureza e Elisa são tias-avós e dona Lica é avó de quem vos escreve – o que deixou esta tarde de descobertas ainda mais especial.
Nos dias atuais, tudo mudou: dona Lica e dona Pureza têm aparelhos celulares, e dona Elisa liga a sua televisão para assistir à novela. Mas, mesmo com o avanço tecnológico, sentem saudade do passado: “As pessoas viviam com muito pouco e se sentiam muito mais completas e felizes. Tinham empatia umas pelas outras e os vizinhos eram como irmãos. Hoje, com tanta maldade, percebemos que o amor esfriou da face da terra, mas ainda é preciso ter fé, para que ele viva dentro de nós”.