Queimadas em quintais e terrenos baldios afetam o meio ambiente e são tipificadas como crime ambiental

O mês de agosto é considerado o auge da seca do inverno no Brasil. Falta de chuva, baixa umidade e fumaça no ar, por conta do aumento das queimadas, são problemas comuns em muitas regiões do país, inclusive, no município de Itapoá. Para alertar sobre este problema ambiental, entramos em contato com o Corpo de Bombeiros Militar de Itapoá, além de empresas do município que realizam a destinação correta de materiais e resíduos e, ainda, conhecemos as leis ambientais.
É bom lembrar: a prática da queimada prejudica o meio ambiente, causa transtornos aos moradores, é considerada crime ambiental e deve ser  fiscalizada e denunciada por todos os munícipes.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

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As queimadas, tão maléficas ao meio ambiente e à população, são ainda mais comuns nos meses de estiagem.

Se sobrevoarmos os bairros de nosso município, especialmente no final da tarde, veremos algumas nuvens de fumaça e focos de incêndio, provenientes da queima de lixo, de folhas e galhos de árvores, de restos de móveis, entre outros materiais. Não é novidade que, há gerações, a prática da queimada é tradicional em Itapoá, mas os tempos mudaram: a população cresceu e, consequentemente, o lixo e os problemas ambientais, também.
As queimadas no perímetro urbano são bastante prejudiciais à biodiversidade local, pois poluem o ar e acabam matando pequenos animais e plantas, além de comprometer a fertilidade dos solos. O fogo no quintal ou terreno baldio também acaba levando para dentro das residências cobras, aranhas, ratos, entre outras espécies que, fora do seu habitat natural, buscam lugares seguros e podem causar acidentes aos seres humanos.
Além disso, as queimadas afetam também a saúde da população. De acordo com os médicos, a fumaça e a fuligem diminuem a qualidade do ar e provocam doenças respiratórias, como asma, bronquite e rinite alérgica, atingindo, principalmente, crianças e idosos.
Também é importante salientar a diferença entre incêndios e queimadas: os primeiros (os incêndios) se tratam de proporções perigosas, onde não haja alguém controlando o fogo, podendo ser provocado de forma natural ou antropológica; enquanto as queimadas se tratam de incêndios intencionais em menores proporções, realizados em quintais ou lotes baldios para a queimada de materiais ou resíduos. Mas, vale lembrar que, assim como nos é transmitido através de noticiários, muitos incêndios se iniciam com uma simples queimada em um terreno baldio ou no quintal de casa.
O Corpo de Bombeiros Militar de Itapoá vem constantemente orientando as pessoas sobre os perigos e transtornos que as queimadas provocam e orienta os moradores a evitarem esta prática. De acordo com Sub Tenente Luz, “a incidência de queimadas, geralmente, é maior ao final do mês de agosto e pode persistir até o final de outubro, se a estiagem for prolongada em nossa região”. Ele também informa que, somente no ano de 2016, foram contabilizados 20 incêndios relacionados à limpeza ou materiais para descarte.
E não para por aí: a prática de botar fogo em materiais domiciliares é tipificada como crime ambiental e o responsável pode ser punido.

O que diz a Lei
Segundo a Lei n. 9.605/98, Art. 41, provocar incêndio em mata ou floresta é crime ambiental, sob pena de dois a quatro anos de reclusão e multa, se houver flagrante. Também na Lei n. 12.305/2010, Art. 47, é proibido destinar resíduos sólidos ou rejeitos para a queima a céu aberto ou em recipientes, instalações e equipamentos não licenciados para essa finalidade. Já a Lei Complementar Municipal n. 050/2016, que institui o Código de Obras e Posturas do Município de Itapoá, Art. 183, proíbe a queima de resíduos sólidos ou líquidos a céu aberto, bem como sua deposição em cursos d’água. Por fim, vale ressaltar, também, que segundo a Lei 4.657/1942, Art. 3, “ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece”.

Destinando seu lixo
Entendido que, de acordo com a Lei, a prática da queimada é terminantemente proibida, é bom lembrar que existem outros meios de destinação para o lixo, materiais ou resíduos – meios estes, legais, apropriados, recicláveis e que podem ajudar muitas pessoas.
Em Itapoá, a Surbi é a empresa responsável pela coleta de lixo domiciliar, que passa, de segunda-feira a sábado, em todas as localidades do município, e destina o material para a Associação de Catadores e Carroceiros de Itapoá. Segundo Maria Aparecida Maçaneiro, coordenadora geral da associação, lá, todo o lixo é separado e categorizado de acordo com o tipo de material (garrafa pet, vidro, plástico, papelão, isopor, ferro e afins) e vendido para empresas de reciclagem. “Também recebemos aparelhos eletrônicos e móveis em bom estado ou que possam ser restaurados, para doar às famílias de baixa renda”, conta.
Há também o Aterro de Resíduos da Construção Civil e Inertes que, através da empresa Disk Entulhos, pode providenciar a recolha dos materiais em questão, onde o proprietário (gerador) paga uma taxa conforme o volume e as características do resíduo. Em um pátio devidamente legalizado, a empresa recebe os resíduos da construção civil (entulhos), tais como alvenaria, demolição, concreto, tijolos, telhas, pisos, solos, madeira de caixaria, cepos, raizeiros e podas de árvores – muitos deles destinados à geração de energia, sendo picados e utilizados em caldeiras, na produção de carvão, ou como material de enriquecimento de solo agrícola.
Com os resíduos úmidos – restos de cozinha e jardins, especialmente folhas de árvores, que são os principais motivos das queimadas –, Maria sugestiona que sejam utilizados como adubo orgânico para uma horta. “Se você não tem condições ou, então, não deseja ter uma horta em casa, algum vizinho ou, até mesmo, alguma escola pode querer. Também penso que seria legal se fosse criado um projeto para transformar terrenos baldios em hortas comunitárias”, fala Maria.
Para entrar em contato com a empresa Disk Entulhos Itapema, basta ligar para (47) 99901-9555 (Alceu) ou (47) 99686-0322 (Dyoni). Já para saber mais sobre o trabalho da Associação de Catadores e Carroceiros de Itapoá, basta falar com Maria, através do número (47) 99920-5592. Além desses meios de destinação dos resíduos, vale lembrar que dezenas de carroceiros garantem o prato de comida junto à limpeza do município, recolhendo recicláveis das ruas, das lixeiras e até da praia.

Saiba como denunciar
Nas situações de incêndios criminosos, em proporções perigosas, onde não haja alguém controlando o fogo, a comunidade deve acionar o Corpo de Bombeiros Militar de Itapoá, através do número 193. Neste caso, é fundamental que sejam passadas todas as informações como, por exemplo, localização, posição do incêndio e gravidade da situação.
Entretanto, incêndios intencionais em quintais ou terrenos baldios para a queimada de materiais e resíduos, em menores proporções, devem ser denunciados para a Secretaria de Meio Ambiente da Prefeitura Municipal de Itapoá, através do telefone 3443-0244. No caso de propriedades particulares, além da localização, o denunciante deve informar, se possível, a identidade do proprietário, que será punido quando pego em flagrante. Vale ressaltar que a identidade do denunciante será mantida sob sigilo.
E, agora que o assunto já foi esclarecido, basta cada munícipe fazer a sua parte: não praticar esse crime, passar as informações para amigos e familiares, e, se possível, denunciar, pois o tempo seco somado às pequenas queimadas pode resultar em misturas explosivas e danosas ao nosso corpo e ao nosso planeta.

 

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Guará: O belo voo vermelho sobre as águas calmas

Com sua exuberante plumagem vermelha e considerada uma das aves brasileiras mais belas, o Guará marca presença nas Baías da Babitonga e de Guaratuba. Típico de manguezais, ele é um grande representante da diversidade de aves na região e tem grande importância à preservação, assim, tornou-se alvo de pesquisas e monitoramentos nas duas baías. Porém, este é um fato recente: o Guará ficou desaparecido durante décadas e há poucos anos foi avistado novamente.

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Foto de Alexandre Grose

Augusta Gern

Conforme o livro “Guará: ambiente, fauna e flora dos manguezais de Santos – Cubatão”, de Fábio Olmos e Robson Silva e Silva (2003), uma das primeiras referências às aves vermelhas ocorreu em 1556, com a clássica obra de Hans Staden. O Alemão que foi aprisionado por índios Tupinambás avistou a ave em uma pequena ilha situada ao norte de Guarujá (SP), que até hoje é conhecida como Ilha dos Guarás.

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Foto de Alexandre Grose

A partir de então outros relatos também descrevem hábitos da ave no país, mas só foram assinaladas nos estados do Paraná e Santa Catarina muito mais tarde, na década de 1820, quando a vinda da família imperial permitiu o acesso de expedições científicas.
Conforme Marcos Wasilewski, observador de aves de Guaratuba, havia uma boa população de guarás na Baía do município, porém foi alvo de caça: suas penas eram muito utilizadas para a confecção de roupas e chapéus da corte. Segundo ele, esta ação só diminuiu a partir de uma legislação que proibiu a caça de guarás, por volta de 1885. “Talvez esta foi a primeira legislação para a conservação da ave”, sugere.

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Foto de Zig Koch

Porém, mesmo com a legislação e por Guaratuba escolhê-lo como ave símbolo, durante muitos anos o guará ficou desaparecido na cidade. Marcos lembra que na comemoração ao Dia do Meio Ambiente em 2008 conseguiram emprestar um guará vivo do zoológico de Pomerode para as crianças conhecerem e, a partir de então, ele voltou a dar o ar de sua graça na cidade. “Foi neste mesmo ano que registramos o primeiro guará do estado do Paraná na Baía de Guaratuba”, lembra.

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Foto de Zig Koch

Com isso, a ave começou a ser monitorada por amantes da natureza e participantes do Instituto Guaju. A partir de conversas com pescadores e moradores das regiões mais retiradas da Baía, o grupo começou a encontra-la e fazer os registros.
No ano passado foram vistos mais de 300 guarás juntos e, em outro dia, cerca de 350 filhotes. “Podemos afirmar que a população da Baía de Guaratuba deve ultrapassar 600 guarás”, ressalta Marcos.
Segundo Clécio João Tkachechen, também observador de aves em Guaratuba, os guarás preferem habitar o fundo da Baía porque a água é menos salgada e assim, os crustáceos que se alimenta também. Porém, como são aves muito migratórias, ainda não encontraram nenhum de seus ninhos.

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Foto de Zig Koch

Da mesma forma a ave reapareceu na Baía da Babitonga. Conforme Alexandre Grose, biólogo e pesquisador da Univille, o estado catarinense ficou 150 anos sem registros das aves, que voltou apenas em 2011.
O pesquisador explica que a primeira presença foi identificada em Santos na década de 90, as aves então começaram a se reproduzir e descer para o sul do país. A expectativa agora é que ela continue se reproduzindo, crescendo e habitando mais regiões do estado.
O primeiro registro na Baía da Babitonga, em 2011, foi de 20 indivíduos. Neste ano, o número já chega a 250. Porém, segundo Alexandre, que monitora as aves há três anos, este ainda é um número pequeno, por isso é muito importante a preservação da ave e, principalmente de seu habitat, o mangue.

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Foto de Zig Koch

Na Babitonga os principais registros são na Lagoa de Saguaçu, no Canal do Linguado e no Palmital. Em Itapoá, ainda não houve registros. Além dessa região das Baías da Babitonga e de Guaratuba, há relatos da presença dos guarás também em regiões de São Paulo e da Bahia.
Além do Brasil, a ave também está presente em Trinidad e Tobago (onde é a ave nacional), na Colômbia, na Venezuela e nas Guianas.

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Foto de Zig Koch

Características do Guará
O guará (Eudocimus ruber) é uma ave da família Threskiornithidae, que lembra as garças. Mede entre 50 e 60 cm, possui bico fino, longo e levemente curvado para baixo. Sua plumagem é inconfundível: um colorido vermelho muito forte.
Esta coloração está muito ligada à sua alimentação, que prioriza os caranguejos. Conforme o livro de Olmos e Silva e Silva (2003), “o vermelho das penas dos guarás se deve a um pigmento chamado cataxantina, que é um derivado do caroteno. O caroteno é o responsável pela cor da cenoura e da casca dos caranguejos e camarões, evidenciada quando são cozidos”. Segundo o livro, os guarás são capazes de absorver o pigmento de suas presas e acumulá-lo em suas penas, tornando-as assim vermelhas.
Sua reprodução é feita em colônias. Os ninhos são feitos no alto das árvores à beira dos mangues e lamaçais litorâneos.

SAIBA MAIS
Confira mais informações sobre as aves no site http://www.wikiaves.com.br e no livro “Guará: ambiente, flora e fauna dos manguezais de Santos-Cubatão” de Fábio Olmos e Robson Silva e Silva.

Itapoá ganhará um espaço de referência em Estudos de Florestas Costeiras

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Àqueles que ainda imaginam que Itapoá se resume às suas praias, vem aí, mais uma boa notícia para ressaltar o potencial socioambiental do município: o Centro de Referência em Estudos de Florestas Costeiras. O projeto, que já está em sua fase final de execução, foi desenvolvido pela Associação de Defesa e Educação Ambiental (ADEA) e busca valorizar e estimular a pesquisa científica e a educação ambiental na região.

Esta iniciativa faz parte do projeto “Implantação do Plano de Manejo: estruturação e desenvolvimento da Reserva Particular de Patrimônio Natural, RPPN Fazenda Palmital -Reserva Volta Velha”, contemplado pelo MPF (Ministério Público Federal) no edital sobre a indenização depositada pela empresa Norsul – em virtude do naufrágio de uma barcaça na Baía da Babitonga, em São Francisco do Sul-SC, em 2008. Vale ressaltar que este é um dos nove projetos aprovados para a região.Esta iniciativa faz parte do projeto “Implantação do Plano de Manejo: estruturação e desenvolvimento da Reserva Particular de Patrimônio Natural, RPPN Fazenda Palmital -Reserva Volta Velha”, contemplado pelo MPF (Ministério Público Federal) no edital sobre a indenização depositada pela empresa Norsul – em virtude do naufrágio de uma barcaça na Baía da Babitonga, em São Francisco do Sul-SC, em 2008. Vale ressaltar que este é um dos nove projetos aprovados para a região.

O Centro de Referência em Estudos de Florestas Costeiras faz parte da implantação do Plano de Manejo da RPPN Fazenda Palmital – Reserva Volta, que foi aprovado em 2012 pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio. “Entre as ideias propostas para utilizar o recurso, os idealizadores julgaram o Centro a mais eficaz para o momento, uma vez que abrange diferentes aspectos para a implantação do Plano”, explica o administrador Werney Serafini, da ADEA.

A estrutura está sendo construída na área de uso da RPPN Fazenda Palmital – Reserva Volta Velha, em local permitido para implantação de infraestrutura de acordo com o zoneamento definido no Plano de Manejo. Em meio à Mata Atlântica, o Centro fica a 2.700m da atual sede da Fazenda Santa Clara, que juntamente com a RPPN Fazenda Palmital, compõe a conhecida Reserva Volta Velha.

3-15Em frente ao Centro, o administrador Werney Serafini e o empresário e biólogo Lúcio Machado, parte da equipe técnica da ADEA encarregada pelo projeto.

Projetando o espaço

Os responsáveis pela execução do projeto do Centro de Referência em Estudos de Florestas Costeiras foram o arquiteto Carlos Henrique Nóbrega, autor do projeto arquitetônico, e o engenheiro João Gabriel Gonzatto Araldi, responsável técnico pela execução da obra e pelos projetos estrutural, hidráulico, elétrico e de prevenção de incêndios.

Apesar de ter direcionado sua vida profissional para a área de urbanismo e meio ambiente, o arquiteto Carlos Henrique fala que gosta muito de projetar, especialmente fazendo uso da madeira. “O Centro foi projetado nos mínimos detalhes e as especificações deste projeto foram bem desafiantes. A obra deveria ser de baixo custo, em função das limitações orçamentárias do projeto; tinha de ser considerada toda a questão logística na metodologia construtiva, afinal, durante a construção, a área ainda não estaria dotada de energia elétrica e o acesso era precário; os materiais deveriam ser de qualidade, para evitar futuros problemas de manutenção; além disso, a obra deveria utilizar materiais com procedência ambiental, contemplar as questões de acessibilidade, utilizar a ventilação cruzada e técnicas de conforto térmico sem a utilização de ar condicionado, e prever um sistema de tratamento de esgoto eficiente sem a necessidade de energia elétrica”, explica Carlos Henrique. Além de todas estas especificações, o projeto do Centro ainda deveria ficar harmonioso e transmitir o conceito de natureza.

Pensando nisso, foram projetados, ao todo, 443m², que englobam secretaria, laboratório, auditório, refeitório, cozinha, dispensa, banheiros e dormitórios. “Este foi um trabalho que fiz com muito prazer. Sou suspeito para falar, mas acredito que atingimos nosso objetivo”, conclui o arquiteto Carlos Henrique, “sempre comento que os fatores mais importantes no sucesso desta obra foram o planejamento, os cuidados em desenvolver todos os projetos complementares e a sorte em contar com uma equipe de profissionais comprometidos com o projeto e muito eficientes”.

6-11A Jibata, principal meio de transporte para chegar até a obra.

Mãos à obra
No comando da construção, estão os irmãos construtores João Francisco Klodzinski e Luiz Antônio Klodzinski. Iniciada em novembro de 2015, durante a construção ocorreram fortes períodos de chuva, além disso, os profissionais realizaram todo o trabalho sem energia elétrica, apenas com um pequeno gerador. Eles utilizavam uma Jibata para chegar até a obra, mas o percurso também poderia ser feito de canoa pelo rio ou a pé. “Desde o início sabíamos o desafio dessa construção, mas conhecíamos muito bem o território, pois há muitos anos vivemos na região da Reserva Volta Velha, além disso, tivemos apoio de toda a equipe da ADEA”, contam. Com os irmãos, os filhos Gabriel Alexandre Dias Klodzinski (filho de João Francisco) e Pedro Francisco da Veiga Klodzinski (filho de Luiz Antônio) formaram a equipe de trabalho.

Além dos quatro profissionais, há o acompanhamento permanente da equipe técnica da ADEA encarregada pelo projeto: o biólogo e presidente da ADEA Celso Darci Seger, a graduanda em biologia Carolina Guedes, o administrador Werney Serafini, o guia de turismo Yawaritsawa Trumai Waurá e o empresário e biólogo Lúcio Machado. As paredes erguidas são resultado do trabalho em equipe. O material é de primeira, desde as ferragens até a madeira. A matéria-prima utilizada foi madeira de pinus auto clavado. Além da própria estrutura do Centro, os construtores contam que as sobras de madeira foram reutilizadas para a construção de móveis, como camas, mesas, bancos, armários e prateleiras. Hoje, com parte dos recursos disponibilizados ao projeto, o caminho que dá acesso à obra recebeu revestimento em pedras e bica corrida, o que possibilita o transito de qualquer veículo. Ao ver que tudo está dando certo e vem sendo construído por suas mãos, os irmãos Klodzinski se dizem orgulhos e satisfeitos. Para João Francisco, é importante ressaltar o cuidado empregado em toda a construção: “o material utilizado é vistoriado pela ADEA e o constante acompanhamento da equipe técnica contribuiu para que tudo ficasse assim, tão bonito”.

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No comando da construção, estão os irmãos construtores João Francisco Klodzinski e Luiz Antônio Klodzinski, e seus filhos Gabriel Alexandre Dias Klodzinski (filho de João Francisco) e Pedro Francisco da Veiga Klodzinski (filho de Luiz Antônio).

Programas de Educação Ambiental
O Centro de Referência em Estudos de Florestas Costeiras tem como objetivo criar uma base para executar atividades relacionadas à educação ambiental no ensino formal e não formal. Um dos principais feitos com a chegada do Centro é a reativação do programa CEAL (Centro de Educação ao Ar Livre), executado pela ADEA em parceria com a instituição de psicopedagogia Síntese nos anos de 2006 a 2009, que atendeu mais de 1.300 crianças das escolas públicas de Itapoá. Em uma experiência de três dias e duas noites oferecida a alunos do ensino fundamental, nas instalações do Centro, os estudantes vivenciarão uma imersão na natureza, aprendendo sobre plantas e animais que habitam na área, entre outras descobertas.

Outro projeto que será implantado no espaço é o Viveiro Florestal Educador, uma estrutura que está sendo construída ao lado do Centro. Este programa, com o nome Itapoá Sempre Verde, visa o desenvolvimento de atividades de educação ambiental comunitária em Itapoá e representa uma das ações compensatórias da ampliação do Porto Itapoá. No viveiro, serão produzidas mudas florestais nativas para a recuperação da conservação ambiental e, em seguida, doadas para a comunidade. Neste projeto, o público-alvo serão alunos dos 7º e 8º anos da rede municipal de Itapoá e moradores das comunidades do Pontal, Figueira e Jaguaruna.

Já nas outras atividades,  o público-alvo destas e de outras atividades serão crianças e jovens – com prioridade para alunos de Itapoá e, também, dos municípios de entorno, como Garuva-SC, São Francisco do Sul-SC, Guaratuba-PR e Joinville-SC – que passarão a utilizar este espaço como apoio nas vivências de campo e trabalho pedagógico das escolas públicas e privadas. Segundo Werney Serafini, quanto ao público escolar de Itapoá, serão disponibilizados três eventos por ano (preferencialmente para alunos do sétimo ano) sem despesa com a utilização do Centro e a estimativa é de atendimento anual entre 700 a 800 pessoas. De acordo com Werney, “para oficializar esta contrapartida, o município de Itapoá deverá oferecer apoio em relação à alimentação, transporte e recursos para a remuneração da equipe”.

Já na área de pesquisa científica, o Centro servirá de base para pesquisadores e alunos de universidades, instituições públicas e organizações não governamentais da região. “A proposta é a de disseminar conhecimentos sobre o meio físico e biótico do local e oferecer cursos de capacitação em florestas costeiras”, explica Werney.

A importância do Centro


Para Werney Serafini, o Centro de Referência em Estudos de Florestas Costeiras inaugura uma nova fase no município. Ele salienta: “Não é novidade que pesquisadores, estudantes, professores e observadores de aves do mundo todo vêm a Itapoá para explorar o potencial socioambiental do município. Amigos e visitantes afirmaram que um Centro com este conceito e este porte é muito raro no Brasil e na América Latina. Entendido isso, o município de Itapoá tende a ganhar muito”.

De acordo com o arquiteto Carlos Henrique Nóbrega, esta estrutura trará possibilidades infinitas: educação ambiental, turismo ecológico, acantonamentos, eventos, pesquisas, estudos, treinamentos, etc. – que movimentarão o ecoturismo de Itapoá durante o ano todo e beneficiarão toda a região.Segundo o empresário Lúcio Machado, que, junto de sua família, administra a Reserva Volta Velha, além dos inúmeros benefícios para a questão educacional, científica e ecoturismo, o espaço buscará reativar a tradição histórica de pesquisas na Reserva, estimulando convênios com universidades brasileiras e estrangeiras, intensificando a produção acadêmica sobre a fauna e flora da região, promovendo programas de educação ambiental, entre outros. “Desde sua criação, em 1992, a Reserva não é uma unidade de conservação isolada, mas integrada, recebendo grupos e estudiosos do mundo todo. Com a chegada do Centro, acredito que todas estas atividades ambientais, frutos de anos de trabalho, sejam ainda mais organizadas e intensificadas, já que os pesquisadores terão, agora, estruturas voltadas às suas necessidades”, explica. Sobre os programas voltados aos alunos da rede pública do município, Lúcio afirma: “Normalmente, o ensino da educação ambiental é feito de maneira superficial. Já usufruindo deste espaço, as crianças estarão imersas à natureza, aprendendo através de vivências e descobertas. Nosso objetivo é que todos os alunos do município passem pelos programas ambientais oferecidos no Centro, pois acreditamos que as crianças têm um poder gigantesco e que, através delas, serão impactadas as famílias e toda a comunidade”. Para o futuro, a equipe planeja desenvolver outros projetos no Centro, como, por exemplo, estabelecer um dia da semana para que as escolas do município utilizem a estrutura de forma livre e voluntária, seja para aulas, estudos, experiências, reuniões, conselhos, entre outros.

Para Yawaritsawa Trumai Waurá, um dos responsáveis pelo atendimento na Reserva Volta Velha e integrante da equipe técnica da ADEA encarregada pelo projeto, a expectativa é grande: “Espero poder contribuir com a experiência de vida que tive morando em meio à floresta, convivendo e dividindo a vida como ela é no seu ciclo natural. Conhecer do meio ambiente em que vivemos nos ajuda a entender e respeitar todos os seres vivos, cada qual com sua diferença”.

A equipe da ADEA e a instituição gestora da RPPN Fazenda Palmital preveem a conclusão das obras do Centro de Referência em Estudos de Florestas Costeiras para julho deste ano. Entendido a importância deste espaço para o município, os envolvidos convidam toda a população itapoaense para conhecer e se envolver no projeto. Pois, como finaliza Werney: “nós, seres humanos, preservamos e cuidamos daquilo que conhecemos e vivenciamos”.

Saiba mais sobre a ADEA

Fundada em 1974, na cidade de Curitiba-PR, por renomados ambientalistas, cientistas, pesquisadores e professores, a ADEA teve papel preponderante na articulação da sociedade civil e governamental para inúmeros projetos ambientais no estado do Paraná, e serviu de referencial para a constituição de diversas associações ambientalistas em todo o Brasil.
A partir da década de 90, a ADEA passou a coordenar os trabalhos de gerenciamento, fiscalização e organização de pesquisas sobre a Floresta Atlântica das Planícies Costeiras na Reserva Volta Velha, em Itapoá. Em 2005, foi eleita uma nova diretoria e definida uma base territorial para a sua atuação, priorizando a região do bioma da Mata Atlântica compreendida entre a Baía de Guaratuba-PR e a Baía da Babitonga, em Santa Catarina, e seus respectivos entornos.
Além da execução do projeto na RPPN Fazenda Palmital, a ADEA também marca presença em outros projetos ambientais da região, como o Babitonga Ativa, por exemplo, executado pela Universidade da Região de Joinville (Univille) e também contemplado pelo edital de indenização da empresa Norsul, que visa elaborar um plano de governabilidade ecossistêmico e colaborativo para a região da Baía da Babitonga.

Ana Beatriz Machado

Foto aérea: Rubens Vandresen
Imagens matéria: Edson Ferreira da Veiga, Zig Koch.
Matéria publicada na Revista Giropop – Edição 53 – Junho/2017

 

Rio Saí Mirim: Conservar é preciso

Por sua expressiva biodiversidade e atrativos naturais de
beleza incomum, o Rio Saí Mirim encanta a todos.

Na época, presidente da ADEA – Associação de Defesa e Educação Ambiental, o secretário executivo da associação, Werney Serafini, foi um dos idealizadores do projeto mostra fotográfica “Saí Mirim do começo ao fim”. Participou, também, da equipe que realizou o evento “Incursão ao Rio Saí Mirim”, que deu origem a um detalhado relatório sobre os impactos ambientais causados ao rio.
De acordo com esse relatório, os impactos constatados, sobretudo no perímetro urbano, foram: supressão das matas ciliares; fragmentação de habitats fluviais; extração clandestina de palmito Juçara; plantio de essências exóticas (como Eucaliptos e Pinus); lançamento de efluentes (esgotos domésticos in natura), resíduos do manejo de arrozeiras e, principalmente, desmatamento e ocupação ilegal das margens do rio. Constatou, inclusive, adiantado processo de assoreamento em trechos próximos a desembocadura no mar.
Numa comparação, Werney considera o Saí Mirim e sua bacia hidrográfica tão importante quanto são as praias para o município.

“Algumas pessoas não compreendem por que morando em um município litorâneo com tanta praia e mar como Itapoá, insisto sobre o cuidado com o rio e a mata. Costumo responder que Itapoá é especial, pois tem praia, tem rio e tem mata”, diz Werney, “mas, se não cuidarmos, em pouco tempo isso poderá acabar”.

Ele acredita que o Saí Mirim, manancial para o abastecimento d’água de Itapoá, está ficando gradativamente comprometido, notadamente na região de Itapema do Norte, onde existem ocupações irregulares nas margens do rio.
Enquanto morador do município, sua expectativa vai de encontro com uma das propostas da ADEA, em que, as margens do rio, por força de lei municipal são consideradas Áreas de Preservação Permanente (APP’s), em 100 metros, de cada lado, nas áreas não loteadas, e 50 metros nas urbanizadas, devem ser transformadas em Unidade de Conservação fazendo parte de um mosaico abrangendo 50% do território, composto por Áreas de Preservação Ambiental (APA’s), Parques Lineares, Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN’s) e outras modalidades, a começar pelas margens do Saí Mirim.
Para isso, são necessárias políticas ambientais voltadas à conservação e a preservação. “Nos últimos anos, em Itapoá, as políticas ambientais foram direcionadas às questões relativas a licenciamentos ambientais para supressão de vegetação. Os licenciamentos são importantes, mas acredito que devem ser submetidos a uma visão conservacionista e preservacionista”, diz Werney.
Em sua opinião, não basta que alguns moradores tenham consciência sobre a necessidade de proteger o meio ambiente e impedir todas as formas de poluição e agressão ao Rio Saí Mirim, mas que a população como um todo deveria ser sensibilizada. Por fim, Werney parafraseia o dizer do economista Moura Andrade, que considera adequado ao momento atual: “se cada pessoa, individualmente, destruir um infinitésimo (uma árvore, por exemplo), o efeito, aparentemente, parecerá mínimo, mas se coletivamente todos destruírem um infinitésimo, haverá certamente uma tragédia ambiental”.

Ética e educação
ambiental
Em nome da equipe da Assessoria e Planejamento Ambiental & Associados – Asplamb, Jéssica Holz, bióloga e responsável técnica, ressalta que, para preservar o Rio Saí Mirim, é preciso tratar o esgoto doméstico para que não seja lançado in natura no rio, evitar o desmatamento e construções em áreas não edificáveis, realizar o replantio de espécies nativas para evitar o assoreamento, além de prevenir, avaliar e monitorar a mata ciliar associada ao Rio Saí Mirim.
Ela explica que as áreas de matas ciliares e manguezais estão inseridos dentro do conceito de Áreas de Preservação Permanente (APP’s), ou seja, áreas protegidas, cobertas ou não por vegetação nativa, com a função ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica e a biodiversidade, facilitar o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas, definidas no Novo Código Florestal (Lei Federal nº 12.651/2012). “Contudo, a lei tem o sentido, também, de proibir construções às margens do referido rio devido às enchentes que podem ocorrer, realizando danos às propriedades”, explica.
Para tal, a empresa Asplamb pode contribuir atuando junto das entidades ambientais municipais na elaboração de projetos de educação ambiental e de projetos técnicos, com o intuito de recuperar e monitorar as áreas de APP do rio.

Por sua expressiva biodiversidade e atrativos naturais de beleza incomum, o Rio Saí Mirim encanta a todos.

Secretaria de Meio Ambiente em ação
Além de ser o manancial que abastece água para a população itapoaense, irriga sua agricultura e apresenta a maior bacia hidrográfica da região, recebendo contribuições de diversas vertentes, Ricardo Haponiuk, secretário do Meio Ambiente de Itapoá, salienta outra notável característica do Rio Saí Mirim: “Ele atravessa longitudinalmente todo o território itapoaense, desde a zona rural até a divisa com o Paraná. Essa mistura de características o torna, por consequência, o curso d’água mais importante para Itapoá” – o que justifica a necessidade da sua preservação.
Entre as maneiras de se proteger os cursos d’água, ele destaca a preservação de seus mananciais, a manutenção das matas ciliares e o combate à poluição. “Legalmente, há uma série de dispositivos nas diversas esferas que protegem os recursos hídricos, boa parte deles focados, essencialmente, na conservação da qualidade d’água, que é crucial para todas as atividades humanas. O novo Código Florestal (Lei nº 12.651/2012), por exemplo, instituiu como Áreas de Preservação Permanente (APP’s) espaços de caráter ambiental frágil ou vulnerável, como é o caso das nascentes e das margens dos rios. Nessas situações, a interferência antrópica é regulamentada a fim de preservar as condições naturais da área”, explica Ricardo, “dessa forma, construções e supressão de vegetação nessas regiões são, salvo algumas exceções, vedadas, assim como o lançamento de esgoto ou efluentes não tratados diretamente nos rios”.
Como já mencionado, a manutenção da vegetação que margeia o rio é fundamental para a conservação dos recursos hídricos. O secretário do Meio Ambiente explica que a mata ciliar, como é tecnicamente conhecida, apresenta um conjunto de funções ecológicas que influenciam a qualidade da água, além de desempenhar um papel importante no combate ao assoreamento dos cursos da água. “Vale ressaltar que a reposição dessa mata, quando degradada, deve ser feita com rigor técnico, principalmente no que diz respeito ao tipo de vegetação a ser replantada.
O simples fato de plantar qualquer tipo de árvore na beira dos rios, principalmente espécies exóticas, não garante o papel crucial que a mata ciliar desempenha”, diz.
Por fim, Ricardo, em nome da Secretaria de Meio Ambiente, explica que para colocar em prática qualquer iniciativa quanto ao Rio Saí Mirim, como ações e/ou projetos, é necessário, primeiramente, conhecer o curso d’água, a dinâmica da sua bacia de contribuição e dos seus afluentes.

“Para esse propósito, a Secretaria já está compilando informações e dados já existentes, assim como irá desenvolver estudos complementares para produzir um diagnóstico preliminar do Rio Saí Mirim”, diz o secretário de Meio Ambiente.

Ainda conforme o secretário, a partir dessa análise será possível ter um panorama da realidade do curso d’água: “somente então, vamos partir para a fase de elaboração de projetos tecnicamente mais fidedignos e coerentes com as reais demandas da comunidade itapoaense”.

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Por nos contemplarem com suas informações técnicas e opiniões acerca deste tema, agradecemos também a Antonio Carlos Pereira, extensionista técnico da Epagri, Elimar Althaus Monte Raso, operador da Itapoá Saneamento, Andressa Ritter Vaz, assessora de comunicação da Itapoá Saneamento, Werney Serafini, secretário executivo da Associação de Defesa e Educação Ambiental (ADEA), Jéssica Holz,
bióloga e responsável técnica da Assessoria e Planejamento Ambiental & Associados (ASPLAMB), e Ricardo Haponiuk, Secretário do Meio Ambiente da Prefeitura Municipal de Itapoá.

Ana Beatriz Machado
Matéria publicada na Revista Giropop – Edição 51

Rio Saí Mirim: Um traçado sobre o manancial que abastece o município

A Revista Giropop acompanhou todo o trajeto da área rural do Rio Saí Mirim, manancial para captação de água de Itapoá, que percorre 42,8 km do município. Através desta experiência, abordamos temas como a conservação e proteção da água, desenvolvimento correto dos recursos hídricos e medidas para resolver problemas relacionados à poluição.
Nesta aventura, fomos acompanhados por Enio Dambrós. Criado em lavoura, ele foi técnico de agrícola da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) durante quatro anos. Há sete anos Enio também participou do projeto de uma exposição fotográfica itinerante do Rio Saí Mirim, e realizou parte do percurso do rio de barco, durante uma semana, na companhia de dois profissionais. Pela colaboração nesta matéria, nossos agradecimentos a este grande conhecedor da área rural de Itapoá.

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Enio Dambrós, nosso guia turístico pela área rural do Rio Saí Mirim.

Há quem diga que Itapoá se assemelha a uma ilha, cercada por água de todos os lados, já que está inserida entre ecossistemas extremamente frágeis: o marítimo e o fluvial. A rede hidrográfica de Itapoá é formada por importantes rios, também a nível regional, como o Rio Saí Mirim, localizado no extremo norte do município, que abriga expressiva biodiversidade e oferece atrativos naturais de beleza incomum, além de ser o manancial para captação de água para o abastecimento da população.
A bacia hidrográfica deste rio é considerada de maior influência e presença no município por possuir diversos corpos d’águas, curvas e vertentes que irrigam Itapoá.
De acordo com o relatório “Incursão ao Rio Saí Mirim”, proposto pelas entidades ambientalistas ADEA, Associação de Proteção da Reserva do Mangue de Itapoá (APREMAI), Fundação Pró-Itapoá e Vida Preservada, o Rio Saí Mirim e a respectiva bacia hidrográfica abrange uma área de contribuição hídrica de 177,10 km² e perímetro de 77,26 km, nos municípios catarinenses de São Francisco do Sul, Garuva e Itapoá. Outra característica da bacia, conforme o Plano Municipal Integrado de Saneamento Básico (PMISB) do município, fornecido pela Prefeitura Municipal de Itapoá, é que mais de 70% de sua área está localizada na zona rural do município.
Começamos nosso roteiro nas nascentes do Rio Saí Mirim, na sua maioria, situadas nos limites de São Francisco do Sul, ao lado direito do topo mais alto da estrada que leva a Vila da Glória, pelo asfalto da SC 416. Lá de cima, é possível avistar parte do mar de São Francisco do Sul (localizado a, aproximadamente, 4 km de distância do local), e morros por todos os lados.
Acompanhando o fluxo do rio, descemos um pouco e encontramos o primeiro ponto turístico que se beneficia de uma vertente do Rio Saí Mirim: a cachoeira da Serrinha.

Partindo da sua nascente, a cachoeira da Serrinha é o primeiro
ponto turístico que se beneficia de uma vertente do rio.

Mais a frente, na comunidade Cristo-Rei, há também a Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (CASAN) do município. Enio explica que, através de travessia subaquática pela Baía da Babitonga, a empresa recalca parte da água do rio para São Francisco do Sul. No local, é possível observar uma pequena barragem com filtro utilizada pela CASAN para retirar as impurezas da água. Partindo dali, fica difícil avistar o rio pela estrada, mas, por trás das árvores, todos os canais de água vão se encontrando para dar forma ao Rio Saí Mirim.

A CASAN, através de travessia subaquática pela Baía da Babitonga,
recalca parte da água do rio para São Francisco do Sul.

No caminho, é possível observar diversas espécies de Guarapuvu, árvores frondosas, utilizadas antigamente na fabricação de canoas – hoje, muito raras e protegidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (IBAMA).

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Já na comunidade do Saí Mirim, boa parte das terras se trata de mata preservada, onde moradores e produtores obtiveram o seu cantinho para residir e produzir alimentos.
Próximos e localizados na Estrada Geral do Saí Mirim, podemos observar outros pontos turísticos, como a Cachoeira do Casarão, cuja água, segundo moradores locais, vem do Rio do Meio, um afluente (rio ou curso de águas menores que desaguam em rios principais) do Rio Saí Mirim, e espaços para pesque-pague, como o Pesque-pague Ledoux e a Chácara Jacaré. De acordo com Enio, os locais de pesque-pague não se beneficiam diretamente do Rio Saí Mirim, mas de suas vertentes exclusivas.

Pelo caminho, é possível avistar diversas plantações de banana, arroz, palmito, aipim, além de áreas de reflorestamento.

À esquerda, a Cachoeira do Casarão. Já à direita, o
Pesque-pague Ledoux (acima) e a Chácara Jacaré (abaixo).

Pelo caminho, conhecemos Paulo Martimiano Dias, 67 anos, nascido e criado na comunidade do Saí Mirim, e secretário de finanças do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Itapoá. Sua casa fica localizada próxima ao rio Água Branca, outro afluente do Rio Saí Mirim. Em sua casa há também um açude construído por ele, abastecido com água de uma vertente, conduzida por 1470 metros de mangueiras que captam a água por detrás do morro. No açude, Paulo cria jundiás, carpas, tilápias e outros peixes para consumo próprio.

“Hoje, quase ninguém da área rural aproveita a água do rio, com exceção, talvez, dos pescadores. Também percebo que o volume de água está menor que era em minha infância”, fala o morador da comunidade do Saí Mirim, “em compensação, podemos beber a água do rio de qualquer ponto, pois sua qualidade permanece a mesma”.

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Paulo Martimiano Dias, nascido e criado na comunidade do Saí Mirim,
nos levou até o Rio do Meio, outro afluente do Rio Saí Mirim.

Através de um caminho por trás de sua casa, Paulo nos levou a um trecho do Rio Saí Mirim, onde desagua o Rio do Meio, ou seja, onde se encontram todos os afluentes da Cachoeira do Casarão. No caminho, nos contou uma de suas lembranças relacionadas ao rio: “Antigamente, ia de carroça até a ponte antiga (localizada no asfalto da SC 416), levava mercadorias para colocar nas canoas, e navegava até a foz do Rio Saí Mirim para chegar lá e trocar as mercadorias por peixes” – hábito comum dos produtores na época.

Rio do Meio, outro afluente do Rio Saí Mirim e a ponte velha (localizada no asfalto da SC 416), onde moradores deixavam as carroças para partirem de canoa até a foz do rio.

Após as comunidades de Cristo-Rei, em São Francisco do Sul, e Saí Mirim, em Itapoá, chegamos à comunidade do Braço do Norte, também em Itapoá. Lá, visitamos Laura Fernandes Gerker e Luis Francisco Gerker, o Loli – uma das primeiras famílias de moradores da comunidade. Sua casa fica localizada a aproximadamente 12 km da nascente do Rio Saí Mirim, e bem em frente a um afluente do rio, que, segundo ele, é chamado de Rio Lamim.
Aos 79 anos de idade, Loli, que foi nascido e criado na vila do Braço do Norte, conta que foi lá que viu seus dez filhos crescerem e mostrou aos seus netos a alegria de se viver junto à natureza. Na casa de Loli e Laura, a água límpida vem diretamente de uma vertente do rio e tem sabor muito agradável. O casal explica que, próximo a sua casa, cruzam três rios afluentes do Rio Saí Mirim: “o Rio Batuvi, mais acima, o Rio Lamim, bem atrás de nossa casa, e o Rio Braço do Norte, mais abaixo”.
De acordo com Enio, é na comunidade do Braço do Norte, em Itapoá, que se encontram a maior parte cultivo de arroz, as chamadas arrozeiras. Presentes em boa parte do percurso, elas são abastecidas com águas de nascentes do Rio Saí Mirim. “As arrozeiras armazenam, reutilizam a água e despejam-na para dentro o rio. Como a água desce lentamente, ela não desperdiça nutrientes da água. Além disso, o arroz necessita de água e sol, elementos que temos em abundância, e é um alimento de baixo custo e sustentável, que pode ser produzido apenas usufruindo da natureza”, fala Enio.

Na casa de Laura Fernandes Gerker e Luis Francisco Gerker (o Loli), a água, diretamente de uma vertente do rio, tem sabor muito agradável.

Apesar de o trecho do Rio Saí Mirim ser o mais longo do percurso, é o trecho do Rio Braço do Norte que possui maior volume de água, pois apresenta maior área de captação, ou seja, é o que mais beneficia e fornece água para o município de Itapoá.
O Rio Braço do Norte é um divisor de águas, pois separa duas vertentes do Rio Saí Mirim: o Braço do Norte, pertencente ao município de Itapoá, e o Bom Futuro, pertencente ao município de Garuva. “Porém, essa divisa chega a ser quase imaginária, pois as duas regiões são muito próximas e semelhantes”, diz Enio.
Logo atrás dessa divisa, ele nos conta que há belos morros e uma mata fechada com fauna relativamente preservada, com a presença de animais silvestres, como bugios, onças parda, catetos (porcos do mato), quatis, iraras, lontras, tatus, jaós, jacus, arapongas e outras tantas espécies.

Na comunidade do Bom Futuro, Alcides Vieira é um dos produtores de arroz de Garuva, plantando cerca de 80 hectares. Ele conta que, somado às produções de outros moradores, as águas de, aproximadamente, 220 hectares de plantações de arroz fazem parte da bacia hidrográfica do Rio Saí Mirim. Próximo ao asfalto da SC 416 já é possível avistar a imensidão de arrozeiras dos produtores de Garuva e o sistema de passagem da água pela mesma, que desagua no Rio Saí Mirim.

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Ao fundo, uma das plantações de arroz que
fazem parte da bacia hidrográfica do rio.

Da área rural para a cidade

Por fim, deixando as localidades do Braço do Norte e do Bom Futuro, atravessamos o asfalto da SC 416 para chegarmos à outra comunidade: o 1º de Julho, em Itapoá, popular pelo Pesque-solte 1º de Julho e pelo Centro de Tradições Gaúchas, o CTG.

À direita da porteira do CTG, ao final da Estrada Geral da Serrinha da comunidade rural 1º de Julho, está localizada a Estação de Tratamento de Água (ETA) da Itapoá Saneamento. Trata-se do segundo ponto (ETA 2) de captação que bombeia água bruta para o tratamento – o primeiro ponto (ETA 1) fica localizado ao final da Rua 650, no Balneário Brasília, e o terceiro ponto (ETA 3) fica localizado ao final da Rua 1000, no Balneário Jardim da Barra. Todos os três pontos estão localizados na extensão do Rio Saí Mirim.

Em uma das Estações de Tratamento de Água (ETA) da Itapoá Saneamento, conhecemos o processo de captação d’água bruta para o tratamento.

Elimar Althaus Monte Raso, operador da ETA 2, nos explica que a empresa capta água no Rio Saí Mirim e trabalha 24 horas por dia para manter a qualidade da água, que é distribuída para toda a população itapoaense. Lá, a água do rio é filtrada e tratada para ser enviada às casas do município, com o pH (potencial hidrogeniônico) de 6,5 a 7 – considerado neutro. A poucos passos da ETA 2, chegamos até o trecho onde o Rio Saí Mirim e o Rio Braço do Norte se encontram; também é lá que estão a bomba e a barragem para que a Itapoá Saneamento envie água para toda a cidade.
Para Andressa Ritter Vaz, assessora de comunicação da Itapoá Saneamento, a empresa compreende que o Rio Saí Mirim é de fundamental importância para o município de Itapoá, uma vez que é deste manancial que se retira a água in natura que é tratada nas ETA’s, para se tornar potável e própria para o consumo humano e ser distribuída para a população local. Além disso, Andressa explica que os pontos de captação de água são monitorados regularmente e realizadas análises da qualidade da água do rio periodicamente, a fim de garantir a eficácia do processo de tratamento da água, garantindo assim a distribuição de água potável com qualidade, quantidade e continuidade.

“O plano da Itapoá Saneamento é consolidar o pleno abastecimento de água para o município, com a finalização da implementação do novo sistema produtor de água, projetado já prevendo o crescimento populacional e, principalmente, o aumento de consumo nas temporadas de verão”, fala a assessora de comunicação da empresa.
Como parte do projeto do sistema produtor, a Itapoá Saneamento está em fase de elaboração de um projeto para nova captação de água bruta, que partirá do Rio Saí Mirim e terá um espaço destinado para ações socioambientais. Também está em andamento o projeto para implantação do esgotamento sanitário, que prevê a universalização da coleta, afastamento e tratamento de todo esgoto gerado pela população do município.
“A Itapoá Saneamento vem trabalhando intensamente para resolver o problema de falta de água no município durante a temporada. Um grande passo foi dado neste verão, onde foi reduzido significativamente as ocorrências de falta de água com a implantação do novo sistema produtor, mesmo em regime de operação emergencial”, explica Andressa, “ainda há muito o que se fazer, mas com dedicação da equipe técnica e investimentos isso será possível”. Para contribuir com o trabalho da Itapoá Saneamento, os moradores podem fazer a sua parte ajudando na preservação do manancial e seu entorno, não jogando lixo e não poluindo o rio.
Chegando ao destino final da área rural do município, concluímos que o Rio Saí Mirim, se tratando de sua localidade rural, ainda não sofreu grandes impactos ambientais, tem sua flora e fauna preservada e beneficia quase que exclusivamente a população urbana de Itapoá, oferecendo a ela água tratada. Apesar de tamanho benefício, muitos acreditam que esta região possa ser ainda mais explorada e preservada.

“Precisamos pensar em proteger o macro, não o micro. Um bom exemplo é o de que precisamos proteger a onça, nosso maior predador selvagem, pois, para que ela sobreviva, teremos de proteger a mata como um todo, incluindo outras espécies e, consequentemente, protegeremos o Rio Saí Mirim”, diz Enio.

Para ele, o nosso guia turístico desta pauta, o Rio Saí Mirim é uma bênção e a natureza é perfeita, mas nós, seres humanos, devemos realizar ações contínuas, monitoramentos e programas ambientais para mantê-los preservados e conservados.
Ademais, Enio também acredita que essa região possua grande potencial para turismo ecológico, como trilhas, a fim de educar e integrar a população itapoaense e visitantes dentro da história do próprio município. E finaliza: “educação ambiental não são palavras, mas atitudes”.

Ana Beatriz Machado
Matéria publicada na Revista Giropop Edição 51

APREMAI busca parceiros e voluntários para atuarem na proteção da reserva do mangue de Itapoá

“Preservar a natureza é respeitar a vida e o futuro” – esta é a ideologia da Associação de Proteção da Reserva do Mangue de Itapoá, a APREMAI. Atuante na região da Barra do Saí, mais precisamente na área de mangue onde desemboca o Rio Saí Mirim, que percorre todo o município, a APREMAI tem o intuito de sensibilizar a comunidade local e os turistas sobre educação ambiental e preservação do meio ambiente. Mas, para que a associação dê continuidade aos projetos já executados, busca parceiros e voluntários com um objetivo em comum: uma Itapoá mais responsável ambientalmente.

 

 

 

Idealizada a partir de uma reunião dos moradores e pescadores da região da Barra do Saí, a APREMAI é uma organização independente, registrada em 22 de agosto de 2006; no entanto, já vem cuidando da área há, aproximadamente, dezesseis anos. Segundo Carlos José Sentone, mais conhecido como Carlinhos, presidente e um dos idealizadores da associação, “a projeção da APREMAI é estimular o conhecimento ambiental e a formação de um pensamento crítico sobre os problemas e soluções para o meio ambiente. Tudo isso, através de um conjunto de ideias e objetivos, trabalhando em equipe e idealizando a obtenção de conhecimento”.
Entre os projetos da associação, destaca-se o Projeto de Educação Ambiental, que visa o uso sustentável dos recursos naturais locais, trabalhando a importância da conservação do meio ambiente e do bem estar social da comunidade em geral. Disseminando o conhecimento para as próximas gerações, a APREMAI realiza parcerias com instituições escolares do município de Itapoá, com a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Itapoá e recebe, inclusive, visitas de escolas de outras cidades, como Blumenau-SC e Itajaí-SC. “A parceria com as escolas e demais associações, como a APAE, é muito significativa para nós, pois, através da dinâmica de vídeos, palestras, maratonas, gincanas ecológicas e brincadeiras, formamos novos cidadãos e futuros protetores dos nossos manguezais e do Rio Saí Mirim”, fala o presidente da APREMAI.
Várias mudanças positivas foram observadas desde o início do trabalho da associação. Segundo Carlinhos, os 159.000 metros de área de mangue estavam bastante comprometidos, devido à poluição e à ocupação indevida. “Muitos pescadores se queixavam que não havia mais peixe no rio”, recorda. Hoje, moradores e visitantes do local estão mais conscientes e a área de mangue na Barra do Saí é, segundo Carlinhos, uma das mais preservadas de todo o Rio Saí Mirim. De acordo com moradores locais, a mata ciliar se recuperou, e nas redondezas do mangue é possível observar o jacaré-de-papo-amarelo, gaviões-pega-macaco, caranguejo guaiamum, além de aves de espécies raras. Já no rio, para o bem daqueles que sobrevivem da pesca, encontram-se peixes, como tainhas, robalos, caratingas e escrivãos. Nas palavras do presidente da associação: “o mangue voltou a viver”.
Atualmente, a APREMAI conta com 11 membros ativos e, aproximadamente, 20 associados. Carlinhos, o presidente, conta que, sempre que possível, por hábito, prepara seu barco e realiza o monitoramento de toda a área. “Mas, para fazer mais pelo mangue da Barra do Saí, estamos recrutando corpo técnico, voluntários e estagiários”, diz. Alguns dos projetos previstos para a associação são: oficializar o espaço como área voltada ao turismo ecológico, realizar oficinas e palestras, e desenvolver pequenas ações sustentáveis, como, por exemplo, horta comunitária, viveiro de mudas de árvores, oficinas de reciclagem, plantio de mudas de espécies nativas, gincanas de limpeza de praias e mangues, etc.
Para Carlinhos, para manter um equilíbrio ambiental é preciso a participação de todos. “Salvar o mangue é salvar as espécies que desconhecemos e proteger a biodiversidade do planeta. Nossa mudança de atitude é urgente, pois as mudanças climáticas já estão acontecendo e nos afetando”, explica, “esse cuidado com o meio ambiente deve ser coletivo e institucional, uma vez que estamos todos aprendendo que já destruímos o bastante e agora necessitamos aprender a construir e salvar”. Por fim, ele deixa o convite: “se você deseja ajudar a salvar os nossos manguezais e o nosso Rio Saí Mirim, apoie a causa da APREMAI, limpando, monitorando, promovendo educação ambiental e, assim, inspirando outras pessoas a mudarem atitudes”.

Deseja fazer parte da associação ou, então, firmar alguma parceria?
Entre em contato com o Carlinhos através do telefone (47) 9 9605-4005, diretamente na sede da APREMAI, situada ao final da Rua Tupy (Rua 60), nº. 465, na Barra do Saí ou, ainda, pela página “Apremai”, no facebook.

Ana Beatriz Machado
Matéria publicada na Revista Giropop – Edição 51