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Entre acordes e batucadas

Para um menino de apenas 12 anos de idade, Francisco Machado Pereira Costa Oliveira, de Itapoá (SC), detém um expressivo currículo musical.
Ele, que cresceu em meio aos instrumentos percussivos de seu pai, realiza aulas de violão na Escola de Música Tocando em Frente, participa da Orquestra Sua Majestade o Violão, é integrante da banda Djong’s Roots, foi um dos selecionados para estudar no Coree Music Institute e, recentemente, conquistou uma vaga na orquestra infanto-juvenil do Instituto.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

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Francisco Machado Pereira Costa Oliveira tem apenas 12 anos e já é sucesso na música em Itapoá.

Francisco é filho de Patrícia Machado Pereira, pedagoga e psicopedagoga, e Francisco Eduardo Costa Oliveira, mais conhecido como Baiano, portuário e músico. Por influência de Patrícia, cresceu ao som de grandes artistas da Música Popular Brasileira, já de Baiano, ‘herdou’ o apreço pelo gênero musical reggae.
Desde muito cedo Francisco teve contato com instrumentos de seu pai, que é percussionista. Diferente da maioria das crianças, em muitos dos registros fotográficos de sua primeira infância, ao invés de estar cercado de brinquedos, está cercado de instrumentos percussivos, como bongô, atabaque e pandeiro. Seus pais ainda contam que, quando tinha cerca de 4 anos de idade, Francisco pegava um violão de brinquedo, tocava e cantava dizendo ser o “Mómemali” (Bob Marley).

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Desde pequeno, teve contato com instrumentos percussivos por influência de seu pai, que é percussionista.

Observando o interesse e a facilidade do pequeno Francisco com os instrumentos, Patrícia e Baiano fizeram o combinado de que ele começaria a fazer aulas de música quando estivesse alfabetizado, para que pudesse ler as notas musicais das partituras.
O primeiro instrumento a ser dominado por ele foi o bongô, que aprendeu de maneira autodidata, apenas observando seu pai durante as apresentações pelas noites itapoaenses. Aos 7 anos de idade, Francisco ganhou seu primeiro violão e apaixonou-se pelo instrumento. Aprendeu as primeiras dedilhadas sozinho, até que aos 9 anos ingressou no coral Sementes do Amanhã e nas aulas particulares de violão da Escola de Música Tocando em Frente, com o professor Helmuth Kirinus.

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Mais tarde, ingressou na Orquestra Sua Majestade o Violão,
idealizada pela Escola de Música Tocando em Frente.

O tempo passou e Francisco deu continuidade nas aulas particulares de violão, tendo conquistado uma vaga no teste seletivo da Orquestra Sua Majestade o Violão, uma orquestra de violonistas de Itapoá idealizada pela Escola de Música Tocando em Frente, que tem por objetivo a formação musical continuada e democratização de acesso à cultura. Com a Orquestra Sua Majestade o Violão, Francisco apresentou-se em eventos do município de Itapoá e outras cidades, como Joinville (SC) e Curitiba (PR).
A experiência de quatro anos como capoeirista na Associação de Capoeira Lenço de Seda, com o professor Primo Angola, também contribuiu para sua formação musical, uma vez que na capoeira aprendeu a dominar certos instrumentos, como atabaque, pandeiro e berimbau. Ainda, Francisco passou a fazer participações especiais nas apresentações da Djong’s Roots, banda de reggae, MPB, hip hop e samba rock, composta pelos músicos Diogo Silva, Baiano Roots (seu pai), Daniel Melo, Dérico Berté e Rodrigo. “Adoro tocar em público, como nas apresentações da orquestra ou com a Djong’s Roots, e gosto de assistir a outros músicos tocando, também”, diz Francisco.

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Com o primo João Alexandre, seu parceiro musical. À esquerda, Francisco e João na primeira apresentação da Saint Groove, e à direita, durante uma apresentação da orquestra de violões.

No início de 2019, foi um dos oito itapoaenses aprovados para integrar o Coree Music Institute (Instituto Core de Música), de Joinville (SC), que atua na formação de jovens talentos para o desenvolvimento de orquestras de excelência. No Instituto, Francisco é bolsista e estuda percussão erudita, tendo acesso a diferentes instrumentos, como tímpano, bumbo, xilofone, vibrafone, marimba, prato, entre outros.
Conforme Helmuth Kirinus, professor de violão na Escola de Música Tocando em Frente, o jovem vem aprimorando cada vez mais suas habilidades na música. Em suas palavras: “O Francisco, além de uma musicalidade que desenvolveu na base familiar, tem uma história com os outros fundamentos da música, como a leitura rítmica e melódica que teve início no coral Sementes do Amanhã, e deu continuidade nas aulas particulares de violão. Acredito que esse conjunto fez com que ele conquistasse uma vaga no teste seletivo da Orquestra Sua Majestade o Violão e no Instituto Core, onde segue desenvolvendo seu aprimoramento. Ele também é muito criativo e assimila facilmente as sugestões técnicas do instrumento, no caso do violão”.

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O papel da família
Além das aulas de violão e de percussão, na vida pessoal, Francisco adora tocar música ao lado de seus primos, que também seguem no caminho da música. “Meu primo Ícaro toca violão e é compositor, meu primo Thomas compõe versos e tem um grupo de rap, e meu primo João Alexandre toca violão e participa também da Orquestra Sua Majestade o Violão. Por isso, os encontros em família são sempre divertidos e musicais”, conta Francisco. Junto do primo João Alexandre, com quem compartilha afinidades musicais, criou o projeto instrumental “Saint Groove” – em que os dois primos tocam no violão músicas de reggae, MPB, rock, blues e samba. “A Saint Groove começou com uma brincadeira entre primos, nos encontros em família. Mas realizamos nossa primeira apresentação e as pessoas gostaram bastante”, diz.
Para um garoto de apenas 12 anos de idade, em fase de descobertas, transições e formação de caráter, é normal que Francisco seja eclético e tenha lá suas fases. Ele, que já gostou muito ora de reggae, ora de MPB, ora de rock, ora de funk, ora de samba, gosta também de música eletrônica e sonha em, um dia, poder manusear um toca-discos e um mixer como um DJ. Mas afirma: “Gosto de todo tipo de música. Vou do samba de Benito di Paula à música eletrônica de Alok em um minuto”.

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Em 2019, Francisco foi um dos selecionados para participar do Coree Music Institute, onde faz aulas de percussão erudita. Na imagem ao meio, Francisco ao lado do professor Bruno.

Em qualquer projeto na infância e adolescência, o apoio da família é fundamental. Conforme sua mãe, Patrícia, que é também educadora: “O papel dos familiares neste processo é ficar atento às habilidades e aptidões de cada criança. Algumas têm habilidades para os esportes, outras para as artes, outras para a escrita, outras para as exatas, outras para a música, e por aí vai. Quando observamos que o que Francisco gosta e sabe fazer é música, nós o apoiamos, o estimulamos e o incentivamos o máximo possível para este caminho. É normal que nessa idade os jovens não tenham o comprometimento, a maturidade e o interesse que almejamos o tempo todo, por isso o estímulo da família é tão importante”.

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Francisco também realiza participações ‘pra lá’ de especiais nas apresentações da banda Djong’s Roots, que tem como um dos músicos seu pai, Baiano Roots.

Já para o pai, Baiano, ver o filho seguindo seus passos na música é sinônimo de orgulho e emoção: “Muitos pais têm esse desejo de que os filhos se pareçam com eles, sigam seus passos na profissão, nas atividades ou na vida, mas com o Francisco foi algo natural. Acredito mesmo que ele, assim como eu, tem o dom da música, com ouvido apurado, facilidade em manusear os instrumentos e principalmente amor pela música. Mas sempre ensinamos a ele, que a vocação é importante, mas o estudo, também. Somente assim ele será um músico de sucesso, como seus ídolos”, comenta.
Dentro de casa, Francisco – que hoje toca violão, atabaque, pandeiro, cobel, meia-lua, bongô, cajón, ukulelê, entre outros tantos instrumentos – já tem seu primeiro fã-clube: seu pai Baiano, sua mãe Patrícia e sua irmã Ana Beatriz (quem vos escreve). Nas palavras do menino de 12 anos, “sou apaixonado pela música e gostaria de deixar um agradecimento aos meus professores, Mutti, da Orquestra Sua Majestade o Violão, e Bruno, do Coree Music Institute, por me ensinarem e fazerem parte da minha formação enquanto músico”.
Recentemente, ao final de 2019, o jovem participou de um processo seletivo para ingressar na orquestra infanto-juvenil do Coree Music Institute, sendo aprovado como o mais novo integrante da orquestra do grupo de percussão erudita. Se Francisco seguir por estes acordes e estas batucadas, ainda ouviremos muito o seu nome nos palcos da vida. Mas ainda que siga outra profissão, a música já cumpre seu papel, como formadora de cidadão, de caráter, personalidade e de valores.

Otti MC: Entre métricas, melodias, flows e levadas

A expressão “RAP” provém da língua inglesa, com o sentido de Rhythm And Poetry – traduzindo, Ritmo e Poesia. Este estilo é assim denominado porque mescla um ritmo intenso com rimas poéticas, integrando o cenário cultural conhecido como hip hop. No Brasil, este gênero vem se difundindo cada vez mais e lançando novos MC’s (os chamados mestres de cerimônia, que versam e rimam). Em Itapoá-SC, o estudante Jadiel Miotti do Nascimento, de 21 anos, vem batalhando por amor à música, letra e poesia no rap e, hoje, se tornou o Otti MC.

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De Itapoá-SC, Jadiel Miotti do Nascimento se tornou o Otti MC.

 

Ana Beatriz Machado

Seu primeiro contato musical começou em família, especialmente com sua mãe, que canta desde cedo na igreja e sempre lhe incentivou a cantar. Já o contato com o rap veio um pouco mais tarde, através de seus irmãos mais velhos, que escutavam músicas do gênero. Durante o ensino médio, Jadiel conta que descobriu seu talento com as palavras nas aulas de português, onde falavam sobre poesia. “Assim como aconteceu com muitos outros, a arte me surgiu como refúgio, alcova particular que me auxiliava a vivenciar meus próprios dilemas”, diz. Jadiel, que é aluno do curso de Direito, recorda que no início da faculdade conheceu Daniel, um amigo que compunha rap com muito talento e lhe incentivou a criar seus próprios versos.
A partir de então, ele passou a participar de batalhas de rimas na região, onde chegou a se consagrar campeão, e produziu e lançou duas músicas às mídias: “Chocolate e Avelã” e “Remanescente”. Com músicas de teor lírico e conteúdo poético, ele deseja levar amor e reflexão aos ouvintes. “Visualizou a minha evolução muito mais em meu trabalho e em mim, enquanto ser humano, do que propriamente com as conquistas obtidas por intermédio do rap, pois amadureci muito nos dois sentidos”, diz. Fã de rappers como Sabotage, Mano Brown, 2Pac e Eminem, Otti MC conta que, atualmente, músicas dos rappers Russ e Coruja BC1 não saem de sua playlist e estão lhe inspirando bastante.

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Otti MC quando foi campeão da
8ª Edição da Central das Rimas – Joinville.

Conciliar os estudos com a música não tem sido fácil. De acordo com o estudante, isso se deve ao fato de que seu processo criativo nas composições está cada vez maior. “Isso me faz, em grande parte do tempo, deixar os estudos em segundo plano. Obviamente, minha mãe não gosta muito disso (risos)”, conta. Sobre o preconceito com o rap, Jadiel fala que já notou olhares ou comentários, mas, felizmente, nada mais que isso. “Por levantar bandeiras pouco questionadas, de uma minoria que sofre, o rap ainda carrega muito estigma por pessoas que não conhecem o ritmo e aplicam a ele um julgamento premeditado”, explica.
Porém, para Jadiel, a maior dificuldade do cenário do rap é a falta de apoio, seja ele financeiro, para promoção e divulgação dos trabalhos, ou na questão de oportunidades. Ele explica que, como o cenário do rap no Brasil vem crescendo de maneira estrondosa, a visibilidade de um MC no início da carreira é muito baixa, e em um cenário bastante concorrido. “Na questão financeira, sempre que possível, meu pai me ajuda, o que é de grande valia. Mas, na maioria das vezes, eu escrevo minhas letras, crio minhas melodias, e ainda pago meus beats (batidas), e as produções de áudio e visuais”, fala. Apesar das dificuldades, ele afirma que algumas portas já lhes foram abertas, e que continuará trabalhando para que portas ainda maiores se abram.

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Otti MC quando foi campeão da
8ª Edição da Central das Rimas – Joinville.

Para aqueles que desejam entrar para o mundo do rap, Jadiel aconselha: “Não será um caminho fácil. Mas persista nos seus sonhos, afinal de contas, você é o único representante deles”. Estudar e praticar os elementos que compõe o rap, como métrica, levada, melodia e flow, também é uma dica para se tornar um rimador melhor. Mas, apesar do longo caminho, ele se diz satisfeito. “É muito bom ouvir elogios, críticas e sugestões de pessoas próximas ou, até mesmo, de outros estados. Através das rimas, pude ser gratificado com relatos de pessoas que disseram que minha música lhes motiva, lhes inspira ou embala seus relacionamentos amorosos”, conta.
Jadiel, que nunca pensou em viver da música, conta que, ultimamente, esta ideia vem sendo cogitada. Para esse ano de 2017, Otti MC possui cinco projetos musicais e videoclipes, e nos adianta que em março lançará uma nova música com a participação de seu amigo Patrick Hdk. Ele também pretende continuar participando de batalhas de MC’s para, quem sabe, garantir uma vaga para o Duelo Nacional de MC’s. Aos que acompanham o seu trabalho, Jadiel agradece e oferece a certeza de que sempre estará buscando evoluir em suas músicas. Para conhecer mais sobre seu trabalho, basta acessar a página Otti MC, no Facebook. “E se você não conhece muito o rap nacional, procure pesquisar”, fala o rimador, “pois existem várias vertentes dentro do rap e talvez alguma delas lhe agrade ou, melhor, mude a sua vida, assim como mudou a minha”.