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Festa do Divino: os versos e pés que levam bênçãos aos lares guaratubanos

O toque simbólico do tambor e a cantoria anunciam: a dona de casa interrompe qualquer atividade para reunir a família e, em sua casa, recebe com emoção os foliões com as bandeiras do Divino e Espírito Santo, para agradecer às graças alcançadas. Esta é uma cena comum em Guaratuba durante os meses que antecedem a Festa do Divino. Mais que uma tradição católica, a romaria das bandeiras é tradição histórica e cultural da cidade. São cerca de dois meses e 20 quilômetros de caminhada percorridos pelos foliões por todo o município, representando as andanças de Jesus e seus apóstolos, e emocionando os fiéis, de casa em casa e de canto em canto.

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O grupo de foliões, Elói da Silva, Edival Alves,
Jorge Tavares de Freitas, Abel Cordeiro em Cabaraquara.

Ana Beatriz Machado

Todo ano, próximo ao dia 3 de maio, dia de Santa Cruz, após receberem a bênção para a romaria, os foliões dão início à tradicional peregrinação, levando aos lares guaratubanos músicas e as bandeiras branca e vermelha – a primeira representando a Santíssima Trindade e a segunda, o Divino Espírito Santo. Partindo da igreja matriz, o primeiro ponto é a área rural, onde de barco e a pé os foliões visitam todos os sítios e povoados distantes, recebendo graças e pedidos; de lá, seguem para a Barra do Saí, sul da cidade, e percorrem toda a área urbana, antes que a festa inicie.
Grande número de fiéis faz procissão atrás das bandeiras, conduzindo velas acesas e entoando músicas em louvor ao Divino Espírito Santo e Santíssima Trindade, como o casal Emílio Tavares de Freitas e Maria Leocádia da Silva. “Antigamente havia dois grupos de foliões e as bandeiras saíam separadas”, conta Emílio, “acontecia de os grupos com as bandeiras se encontrarem pela cidade, sem querer, e era uma cena emocionante”. Hoje em dia, pela dificuldade de encontrar pessoas que preservem a tradição, as bandeiras saem juntas, em um grupo de quatro foliões.

Para os fiéis, receber as bandeiras em suas casas é sinônimo de graça e devoção; enquanto para os foliões, esta missão significa fé e compromisso.

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Família da dona Silvia Regina da Silva recebendo a bandeira do Divino na região de Cabaraquara.

O grupo de foliões é composto por quatro pessoas, cada qual na sua função: tambor, rabeca, viola e voz. O mais antigo na tradição é Elói da Silva, que completou em 2015, 45 anos de participação na romaria e é responsável por anunciar a aproximação das bandeiras através do toque simbólico de seu tambor. Assim como três dos quatro foliões, sua relação com a folia remonta à infância e às relações familiares. Folião desde os 19 anos de idade, Elói conhece as comunidades de Guaratuba como a “palma da mão” e ensinou os caminhos aos colegas.

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A viola é tocada por Jorge Tavares de Freitas, conhecido por muitos como Jorginho. Aos 63 anos de idade, ele completa 16 anos de tradição na romaria. “E continuarei, até quando minhas pernas permitirem”, afirma.
O terceiro folião é Abel Cordeiro que, de seus 71 anos, 24 são de tradição na romaria. Apesar de ter experiência com outros instrumentos, sua paixão é a rabeca – instrumento musical com cordas, semelhante ao violino. Dentre os quatro foliões, Abel foi o único que não seguiu a tradição de família e sim, somente por vontade própria. “Esta tradição me encanta desde criança”, conta, “já estive no papel de fiel, recebendo a bandeira em casa, e sei o quanto é emocionante”.
Já a cantoria do grupo é puxada por Edival Alves, de 54 anos. O mais novo, tem três anos de experiência na romaria. “Vim de uma família muito tradicionalista, cujo costume e fé vêm sendo preservados há gerações”, conta.

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Segundo Edival, os meses de caminhadas são cansativos, mas não devem parar. “É uma tradição muito bonita e que já faz parte de nossas vidas e lares e por isso, não deve acabar”, afirma.

Segundo os foliões, a saudade de casa e da família é grande, mas contam já estar acostumados. Em suas mochilas, algumas peças de roupas e seus aparelhos celulares, para a tentativa de encurtar a distância e matar a saudade durante a caminhada.
Mas toda a saudade e cansaço valem a pena a cada parada, os foliões já presenciaram muitas histórias de devoção. Cleusa Amorim Peres, por exemplo, carrega a fé no Divino Espírito Santo de várias gerações. “Receber a bandeira em minha casa é um momento de forte emoção, pois me lembro da minha mãe, que era muito devota e fazia promessas todos os anos”, conta.
A tradição de aguardar as bandeiras é praticada pela maioria dos fiéis, mas na área rural se intensifica. Para chegar à comunidade Salto Parati, por exemplo, os foliões vão de barco e depois caminham por aproximadamente um dia, para visitar apenas quatro casas. “Temos a responsabilidade com todos os fiéis, que esperam o ano todo por este momento”, afirma o folião Elói.

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O grande momento
Entre muitos passos e outros, a chegada das bandeiras às casas dos fiéis é o momento de maior emoção para as famílias. Para a fiel Laura, sinônimo de paz, já para Cleusa, de lembrança. Cada família se sente tocada de acordo com sua fé e experiência de vida. A cantoria não cessa: também entra nas residências que acolhem as bandeiras de portas e coração abertos.
Na região de Cabaraquara, Silvia Regina da Silva e Celina Luiza da Costa Silva, mãe e filha, têm ex-foliões na família e sabem da dificuldade e cansaço da caminhada pela cidade. “Quando recebemos as bandeiras, oferecemos almoço e lugar para descanso”, conta Silvia, “e ainda é pouco, já que eles trazem graças ao nosso lar”. A cada parada, as bandeiras se enfeitam de fotografias, bilhetes e fitas dos fiéis, como forma de pedidos e promessas. Silvia e Celina costumam pedir por um mundo com menos violência. Outros pedidos são mais direcionados, como o de Laura de Freitas Torquatto, de 66 anos, que não podia ter filhos. Hoje, suas graças foram alcançadas, e como pagamento de promessa, ela percorre parte da caminhada junto aos foliões.
Após compartilharem graças e fé, os foliões passam para a casa vizinha cantando e tocando a mesma música, onde tudo se repete. Terminadas as visitas, depois de percorrer toda a cidade, eles se preparam para os dias da grandiosa Festa do Divino.

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No primeiro dia da Festa, são eles que conduzem as bandeiras ao altar da igreja matriz, acompanhados pelo casal festeiro mor, e ali, no altar, deixam as bandeiras até o final da festa.

Feito isso, é hora de se preparar para o próximo ano, onde tudo se repete e a fé é intensificada. Mas quem disse que o trabalho acabou? Mesmo depois de tantos quilômetros percorridos a pé durante meses, o trabalho volta ao normal. “Assim que a festa acaba, é hora de ir para o mar, tarrafear”, conta Edival.
Assim, os quatro foliões são hoje, mais que exemplo de força e coragem, pelos milhares passos e todo o tempo distante de casa, mas também, de fé e persistência, por manterem acesa uma tradição histórica e cultural da cidade de Guaratuba, “até que suas pernas permitam”. Eles são famosos nos lares guaratubanos pelos seus passos de bênçãos e versos de fé, mas antes disso, a fé se encontra, especialmente, dentro de cada um deles.

Matéria publicada na Revista Giropop – Edição 30 – Julho/2015

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Cabaraquara: roteiro ideal para conhecer e degustar ostras

Guaratuba reserva mais do que belas praias como destino turístico. Do outro lado da baía, por exemplo, depois de se atravessar o ferry boat, a comunidade Cabaraquara se apresenta como um roteiro ideal para conhecer e degustar ostras. Por uma única estrada, restaurantes de diferentes estilos se especializaram no prato que é cultivado ali, em frente ao quintal.

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 São mais de cinco restaurantes especializados, alguns de cultivo próprio e outros que comercializam de cultivos vizinhos, mas todas as ostras são dali, da própria baía de Guaratuba. O estuário natural tem as condições ambientais apropriadas para o cultivo das iguarias e já chegou a ser destacada a nível mundial. Diferentes publicações e os próprios cultivadores contam que especialistas do Japão avaliaram ostras produzidas em várias regiões do planeta, inclusive de Guaratuba, e afirmaram que a ostra nativa da região tem um dos melhores sabores do mundo. O resultado é uma resposta a todo cuidado e conservação da comunidade local com os recursos naturais, aliado à boa qualidade da água para o cultivo.

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Marcelo Ferraz Monteiro, proprietário
do restaurante Vivere Parvo

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Hamilton de Moura Kirchner, proprietário
do restaurante Ostra Viva.

 O cultivo de ostras fortaleceu e ganhou mais visibilidade na região a partir do projeto Cultimar, que movimentou os cultivadores. O projeto foi criado em 2005 pelo Grupo Integrado de Aquicultura e Estudos Ambientais da Universidade Federal do Paraná e, conforme informações publicadas pelo próprio projeto, o objetivo foi desenvolver novas fontes de renda para comunidades da região que não descaracterizasse o ambiente natural e as atividades tradicionais. Antes, uma das principais atividades era o extrativismo que, além de não ser saudável, não é nem um pouco rentável.

 Conforme informações do projeto, os produtores de ostras da região possuem três maneiras para abastecer o cultivo: a extração de formas juvenis do ambiente natural (que deve respeitar o tamanho mínimo de cinco centímetros), a coleta de sementes de ostras por meio de coletores artificiais e a obtenção de sementes de ostras produzidas em laboratórios. Com as sementes em mãos, os cultivadores as colocam nas lanternas-berçários apropriadas para o crescimento, em estruturas chamadas de “long line”. O tempo necessário para o cultivo de ostras, conforme os próprios cultivadores, é de 12 a 18 meses, quando atingem um tamanho comercial e estão prontas para o consumo.

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Assim, com uma região famosa pela qualidade e sabor das ostras, cada restaurante disponibiliza diferentes serviços e características. A principal semelhança entre todos é o cuidado e contato com a natureza: de forma sustentável e preservando as riquezas naturais, a natureza faz parte da decoração, atrativos e, claro, do belo cenário.

Além da boa gastronomia, Cabaraquara também é um paraíso natural, cercado por manguezais e pela Mata Atlântica. Ali é possível fazer passeios de stand up e caiaque pela baía, ou mesmo trilhas pela mata nativa. Há duas trilhas principais: uma que vai até a comunidade rural Salto Parati e a do Morro Cabaraquara, uma subida de duas horas e com uma vista fantástica do cume: além de toda a cidade é possível ver o Oceano Atlântico, ilhas de Santa Catarina e a Serra do Mar.

O sopão da solidariedade

Criar 40 filhos adotivos, fazer sopa para dezenas de crianças carentes toda semana e viver a partir do lixo reciclado até parece história de novela, mas não é. Essa pessoa existe e seu nome é Tereza Aparecida Domingues, mais conhecida como Tereza do Sopão. Durante a semana ela trabalha catando lixo reciclado, cuida das duas únicas filhas adotivas que ainda estão em casa e separa os ingredientes para o famoso e tão esperado sopão de sábado: a refeição é feita em uma panela de 50 litros e serve em média 180 crianças.

Augusta Gern

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Dona Tereza Aparecida Domingues com o neto Eduardo e
as filhas adotivas Patrícia e Andressa.
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Casa de Dona Tereza, decorada com
objetos que achou no lixo.

Desde pequena Tereza gostava de cuidar de crianças e assim, observando a necessidade da comunidade que vivia em Curitiba, criou 40. “Antes não existia toda essa burocracia de juizado de menores, então criei, dei carinho, ensinei a estudar e alguns até tirei das drogas”, conta. Depois dos filhos de criação vieram os netos e até bisnetos, que também passaram por sua casa. Além da adoção, a catadora teve três filhos biológicos, mas uma faleceu com câncer. O resultado disso tudo é comprovado no Dia das Mães, segundo Tereza a casa vira uma grande festa. E toda essa família foi sustentada pelo lixo reciclado: além de vender para poder comprar os mantimentos, Tereza também decorou toda a sua casa com objetos encontrados no lixo.
Há 16 anos a catadora deixou a capital paranaense pela saúde de seu marido e, junto com seus filhos, escolheu Guaratuba como novo lar. O sopão começou no litoral: um dia Tereza encontrou vários quilos de frango congelado e resolveu fazer uma sopa, mas só na sua casa já eram mais dez bocas para alimentar. As crianças da vizinhança foram chegando e ao final 46 foram alimentadas em potinhos de margarina.
Na mesma época uma de suas netas de criação estava com câncer e, segundo ela, o médico encaminhou para sua casa, pois já não havia mais salvação: “então eu fiz uma promessa e, se ela se curasse, faria sopa para o resto de minha vida”. Dito e feito, enquanto sua neta hoje é mãe e vive com saúde, Tereza não deixa de fazer a famosa sopa.
Antes a sopa era feita com alimentos que pegava do mercado, que já não estavam mais para a venda, hoje todos os ingredientes vem de doação e o cardápio varia com o que tem, mas a verdura é indispensável: “A verdura não pode faltar, porque é o que nos traz saúde”. Para que todas as crianças tomem a sopa sem reclamar, Tereza tem até o cuidado de desmanchar a verdura, assim, segundo ela, ninguém tem desculpas para não ser saudável. Além da sopa, Tereza também promove eventos para a criançada como o Dia das Crianças, onde ganham bolo e cachorro quente, e Natal, onde o almoço é risoto, salada e refrigerante. A catadora também intermedia a doação de roupas: “A minha casa parece um trânsito, é gente que vem doar, é gente que vem pegar”.
Hoje, aos 57 anos de idade, seu desejo não é apenas continuar com a sopa, mas ir além: “meu sonho é ter uma casa de passagem para idosos carentes e poder levar sopa aos mais necessitados”. Tereza conta que já teve uma Kombi e gostaria de levar a sopa aos andarilhos da praça, mas a maresia acabou com o carro. “Algumas pessoas até escreveram para o quadro “Lata Velha”, mas até agora ninguém me procurou”, brinca.
E assim, com o desejo de ajudar cada vez mais, agradece a todos que apoiam com doações e afirma: “Você precisa fazer para poder ganhar”. Uma frase que parece com a sua vida: é simples, mas traz grandes ensinamentos, faz toda a diferença.

Os interessados em conhecer
o projeto ou fazer doações de
alimentos podem entrar em
contato pelo (41) 3442-2839.

Matéria publicada na Revista Giropop, Edição 19, Julho/2014