Animais também curam

Nesta edição, descobrimos com esta série que o amor por animais pode proporcionar mais do que alegria, amizade e boas histórias, também auxilia na cura e na vontade de seguir em frente.

Augusta Gern

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Beatriz Peres de Oliveira: os livros e os animais.

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Esta história não poderia começar de forma diferente, unindo as grandes engrenagens da vida de Beatriz Peres de Oliveira: os livros e os animais.
Com 11 anos de idade, a moradora de São Francisco do Sul mostra como não podemos desistir de nossos sonhos, nossos objetivos, em qualquer obstáculo, principalmente quando são movidos com tanto amor. Há cerca de dois anos recebeu a notícia que estava com um tumor no cerebelo, mas está dando a volta por cima.
A leitura é uma paixão que vem de berço e a motivou a começar a escrever. Com a paixão por animais, principalmente cachorros, tomou a iniciativa e escreveu o Tob, um livro infantil.
“Ela fez tudo sozinha, toda a história é fruto da imaginação dela. Me lembro dela sentada no sofá escrevendo com atenção e me perguntando: Se eu escrever um livro vocês publicam? E nós sempre dizendo que sim, que em breve o faríamos”, conta Fabiane Peres, mãe de Beatriz.
A única exigência dela é que o dinheiro arrecadado com o livro fosse revertido aos animais da rua, queria ajuda-los.
“Como sempre foi apaixonadas por animais, não gosta de vê-los sofrer. Antes de ser alfabetizada, e até hoje, pede para vendermos a nossa casa e comprar um terreno grande para poder cuidar dos animais”, conta a mãe. Desde pequena ela quer ser veterinária e bióloga, inclusive Fabiane conta que ela até já desenha a planta de seu futuro pet shop.
No aniversário de dez anos ela teve a grande surpresa: ganhou sua cachorrinha Minnie, mas nem conseguiu curti-la direito. Dez dias depois descobriram o tumor e, por passar muito tempo no hospital, deixou a companheira nos cuidados de sua avó.
“Ela não viu a Minnie crescer e isso mexeu muito com ela, a fez sofrer demais durante o tratamento”, lembra Fabiane.
Foram 15 meses de tratamento intensivo: dez cirurgias, quimioterapia, radioterapia, medicamentos para combater a doença, passagens pela UTI e constantes internações.
Durante todo esse período, mesmo longe, a mãe afirma que a cachorrinha Minnie deu muita força: “Ter um cachorro era um grande desejo de Bia e quando aconteceu de o destino as separarem, Bia sofreu muito”.
Fabiane lembra que quando Beatriz esperava para fazer a cirurgia, chorava muito pedindo para ver a Minnie. Depois da cirurgia ficou quase dois meses sem conseguir falar, e logo quando voltou pedia constantemente para o médico deixar Minnie visita-la.

“O reencontro das duas foi lindo, quase dois meses
depois a Minnie a reconheceu na hora”, lembra.
Porém, como o tratamento era Blumenau, a cachorrinha
precisou ficar mais um tempo com a avó.

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Durante este período no hospital, o sonho de publicar o livro saiu da gaveta e tornou-se realidade. Conforme Fabiane, a publicação foi feita com a ajuda de voluntários sonhadores de Blumenau.
No hospital onde Bia fez o tratamento tem pedagogia hospitalar e, na véspera de uma internação para quimioterapia, ela pediu que a mãe pegasse o livro, pois tentariam publicá-lo. Isso foi em novembro de 2013 e ali o assunto parecia ter acabado. “Bia continuou o tratamento e em abril de 2014 as coisas pioraram, fazendo com que ela entrasse em coma devido a uma infecção generalizada, permanecendo assim por cerca de 50 dias, 30 desses na UTI”, conta a mãe.
Dois meses depois, em junho, veio a notícia de que o Tob seria publicado com a ajuda dos voluntários e mais do que isso, também virou pelúcia.

O primeiro lançamento foi dia 25 de setembro, em Blumenau. “Chegando a São Francisco do Sul, nossa cidade, a Bia pediu que nós não deixássemos o seu sonho morrer, que ela precisava ajudar os animais de rua, e assim aqui, com a ajuda de mais sonhadores, conseguimos fazer um lançamento no dia 17 de novembro”, conta.
Com essa surpresa que a vida lhe deu e como precisa se reabilitar, a mãe conta que mudaram um pouco o destino da renda dos livros: parte vai para a reabilitação da Bia, parte para continuarem publicando o seu livro e parte para os animais de rua, seu principal sonho.
Os livros também não param: Bia já tem outros dois livros prontos, está trabalhando em mais um e já tem ideia para outro. “A continuação do Tob vem aí, além dele tem o Wendy na Selva e outro que ainda é segredo”, fala Fabiane.
Junto à produção de livros, hoje Bia está lutando para sua reabilitação motora voltar ao normal e fisioterapia e equoterapia fazem parte da sua rotina. “A equoterapia, inclusive, volta ao ponto da ligação da Bia com os animais, ela adora os cavalos”, afirma a mãe. A Minnie também a ajuda, sempre a faz companhia e sabe dos cuidados que Bia precisa: “ela sabe que a Bia está fraquinha e que não pode pular nela, é incrível a conexão”. Assim, junto com o sonho de ajudar os animais, seu grande desejo é melhorar e voltar a andar.

O livro Tob custa R$ 15, mais o valor do Correio, e pode ser adquirido pela página dela no facebook: /beatrizperesescritora. Para aquisição é só mandar uma mensagem e você pode acompanhar os relatos curtindo a página.

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Peixe sai da água e entra na moda

Fazer arte, amizade e bem ao meio ambiente. É assim que o diferente conquistou lugar na vida de várias mulheres e está ganhando espaço na moda. Afinal, quem um dia imaginou que a pele do peixe poderia virar arte? Sim, depois que o peixe foi pescado, vendido, limpo e transformado em alimento, ainda pode ser base para exclusivos objetos, como bijuterias, carteiras, bolsas, sapatos e até roupas.

Augusta Gern

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Ela já fez sete vestidos de noiva e hoje se sente realizada com seu artesanato. “Não tenho nem o que dizer, é uma realização muito grande”, afirma Fátima da Graça Vianna de Oliveira.
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Malzira Kuliack Cândido também era professora. No começo, ela conta que ficava só olhando, nunca tinha mexido com artesanato. “É incrível”, afirma.
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Carteiras são a especialidade de Maria Elena Nascimento. Antes trabalhava com peixe, fazia rede artesanal. “Nunca pensei que era possível fazer isso com a pele do peixe”, conta.
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“Nunca passou na minha cabeça fazer isso. No começo eu não sabia nem como pegar”, conta Ingrid Maier. A artesã antes era costureira e hoje sente-se realizada com o novo ofício.
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Para Maria Lucia Alves da Silva, professora aposentada do Paraná, este projeto é uma das coisas mais bonitas que já viu, aliando o lado ecológico, à criatividade e geração de renda. Suas especialidades são marca páginas e tererê para o cabelo.
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Maria Alzira Coneglian Viana é professora aposentada e, quando parou de lecionar, buscou cursos de artesanato. Hoje sente-se feliz e realizada com o trabalho de todo o grupo: “A nossa equipe é maravilhosa, colaboradora e criativa”.
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Mariette Bark sempre trabalhou com peixe em restaurantes. “Sempre procurava alguma coisa para fazer com a pele, pois é tão linda. E ficava me perguntando, mas nunca imaginei uma coisa dessas”. Sua especialidade são carteiras e flores.
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“Não dava um centavo para essa pele, é fascinante”, afirma Janete Nunes de Jesus. A artesã era pescadora e costurava um pouco, hoje sua especialidade são chaveiros, mas gosta de aprender um pouco de tudo.
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“É novo e maravilhoso. O que hoje é arte antes era lixo”, fala a artesã Marli Peres. Antes trabalhava com pesca e nunca tinha mexido com artesanato. O que mais gosta de fazer são os brincos com escamas de peixe.
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Lourdes Paixão já trabalha com artesanato há anos, mas sempre com raízes encontradas na praia. Estava presente quando o projeto iniciou, saiu e hoje está retornando. Para ela, mexer com peixe é uma novidade muito grande.

Este é o trabalho com o couro de peixe, desenvolvido pela ACAPPI – Associação das Curtidoras da Pele de Peixe de Itapoá, do balneário Pontal. Há sete anos, professoras aposentadas, costureiras e pescadoras ganharam um novo aprendizado e ofício, e com isso estão fazendo a diferença. Além do conhecimento e muita amizade – o grupo se reúne dois dias na semana para produzir as peças – o artesanato também está colaborando na renda familiar. As artesãs participam das feiras municipais, já estiveram em outras cidades e também aceitam encomendas.
Tudo começou com a bióloga Sara Pontes, afirma a presidente da Associação, Maria Alzira Coneglian Viana. Sara era voluntária da ONG Bridge International (Instituto para promoção da vida), que tinha parceria com a igreja Metodista do município. Desde 2008 esta ONG estava trabalhando em Itapoá, no projeto Estação Samambaial.
Conforme Sara, uma das voluntárias desse projeto realizado no balneário Samambaial fez um curso de produção artesanal de couro de peixe na Barra do Saí, ofertado por alguma entidade local. “Na época a ideia não foi para frente, mas apontou uma possibilidade de desenvolver um projeto de geração de renda com este material”, conta Sara.
Assim, a bióloga se propôs a procurar informações sobre o processo, estuda-lo e escrever um projeto para aplicação. Com tudo em mãos, em 2010 a ONG conseguiu o apoio de parceiros para a implantação da atividade no Samambaial e iniciou o projeto ICHTUS. Conforme Maria Alzira, ICHTUS significa peixe em grego.
“Entretanto, observando o potencial das outras comunidades de Itapoá, principalmente o Pontal que possuía um grupo de mulheres bastante forte e uma boa tradição com a atividade pesqueira, foi submetido à Fundação do Banco do Brasil um projeto para ampliação das atividades no Pontal e na Barra do Saí”, recorda Sara. Deu certo e entre 2011 e 2012 foram realizadas as atividades para implantação de pequenos curtumes artesanais de couro de peixe.
Em todas as três localidades o projeto proporcionou um curso de processamento da pele de peixe, acompanhamento para realização e consolidação do aprendizado, capacitação para produção das peças e para o trabalho associado, parceria para a venda e divulgação do material, criação de identidade visual e preparação para a autonomia, conta Sara.
Porém, com o término do financiamento do projeto em 2012, apenas o grupo de artesãs do balneário Pontal permaneceu. Hoje já são dois anos trabalhando somente através da associação. “Mesmo com algumas dificuldades burocráticas e financeiras elas têm acreditado no trabalho em grupo e na capacidade de se renovar, foram em busca de novas parcerias e hoje contam com o apoio de outros grupos”, fala Sara. De acordo com Maria Alzira, hoje o Porto de Itapoá apoia a associação. Recentemente, essa parceria proporcionou um curso de curtimento de pele de peixe com produtos naturais, o que possibilitará ainda mais sustentabilidade.
Segundo as artesãs, para a transformação da pele do peixe em couro são necessários 13 processos químicos. Depois que a pele chega à associação, através de pescadores e restaurantes da região, o material é congelado até ocorrer a primeira etapa da transformação, onde é feita a raspagem de gordura, vísceras e escamas. Aí já inicia a “pegada ecológica”.
Conforme Maria Alzira, ao invés dos restos do peixe estar apodrecendo nas lixeiras e sujando ruas, viraram arte. “Depois da primeira etapa de raspagem, o que não é utilizado é levado até as gaivotas, como um grande banquete”, afirma. As escamas geralmente são aproveitadas para a confecção de brincos ou detalhes como flores em alguns objetos.
Todos os passos são rigorosamente realizados de acordo com os cursos e acompanhados de apostilas. “Tudo tem uma medida certa, se não podemos estragar a pele”, conta a presidente da associação.

26112012-primeira etapa do processo - raspagem da gordura e escamas
Primeira etapa do processo,
raspagem da gordura e escamas
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Sistema artesanal de tratamento de efluentes de cortume de peixe
14042014-secagem - última etapa da transformação da pele em couro
Secagem, última etapa da
transformação da pele em couro
14042014-coletes feitos com couro de peixe
Secagem, última etapa da
transformação da pele em couro

Além de trabalharem com um material natural, tudo é realizado para evitar impactos ambientais. Após todos os processos, o material químico é destinado até o sistema artesanal de tratamento de efluentes de curtume de pele de peixe, localizado na própria sede da associação. Todo o efluente é tratado e a água sai limpa, regando as plantas do jardim. O resíduo de produtos é recolhido pelo Porto que, de acordo com a associação, o destina a um aterro industrial.
Assim, cuidando do meio ambiente e fazendo arte, as mulheres da localidade do pontal levam uma rotina que nunca imaginaram. Ao perguntar sobre o potencial da pele do peixe, nenhuma das associadas já havia pensado em uma alternativa artística. Hoje, os sonhos navegam longe, como os navios por ali passam. “Um dia queremos exportar nossas peças”, brincam.
Uma brincadeira que pode dar certo. Conforme Sara, apesar desse ser o único projeto de cunho sustentabilidade ambiental e geração de renda apoiado pela ONG, outras iniciativas com o couro de peixe existem em todo o Brasil. No litoral paranaense, por exemplo, existe um grupo em Guaratuba e outro na Praia de Leste.
Para a bióloga, o projeto no Pontal é motivo de muito orgulho. “Das várias iniciativas com couro de peixe que conheço essa é a mais sólida no que diz respeito a uma organização de trabalho associado, além de evoluir absurdamente no design e qualidade das peças, sem perder o toque artesanal do material”, afirma.

Matéria publicada na Revista Giropop – Edição 16 – Abril/2014

 

Geva: O dom das mãos para os cabelos

Augusta Gern

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Agenda cheia, muito trabalho e reconhecimento. É assim que Gevanildo Martins, conhecido por todos como Geva, leva sua rotina atualmente em Itapoá. Com o salão “G Cabelo Arte Studio”, ele tem aquele dom que toda a mulher adora: deixa-la cada vez mais bonita.
O trabalho inicia logo cedo e vai até o início da noite, de terça-feira a sábado. Uma rotina que abrange cortes, penteados, tintura, escovas, hidratação, manicure, maquiagem, sobrancelha e todos outros cuidados referentes ao cabelo. Uma rotina fruto de muito trabalho e dedicação.
Tudo começou quando criança. Com quatro irmãs, um irmão e duas sobrinhas, cresceu brincando de boneca. “Todos os dias as meninas iam com um penteado diferente para a escola”, conta. Porém nada era pensado, procurado ou visto em revistas, intuitivamente ele as arrumava. Também cortava o cabelo sem nem mesmo saber se estava certo ou errado, corte que virou moda alguns anos depois e voltou com toda a força agora.
E mesmo com todo esse dom, nunca pensou em ser cabelereiro. Geva nasceu em Itapoá e há 32 anos as oportunidades não eram muitas. Com o pai pescador e a mãe do lar, ele sempre ajudou em casa, mas seu sonho era ser um grande executivo ou jogador de vôlei.
Aos 15 anos de idade foi morar em Florianópolis com a irmã e, da mesma forma que aqui, continuou arrumando meninas sem ter uma explicação. “Morava em um prédio que tinham muitas meninas, aí acabava arrumando elas”, lembra.
Aos 16 ou 17 anos voltou para Itapoá e começou a trabalhar em um salão de beleza. Foi a sua primeira experiência profissional na área. No início apenas lavava e fazia sobrancelha, dois meses depois já estava cortando e fazendo escova.
Mas sua experiência ganhou auge a partir dos 21 anos, quando decidiu morar em Curitiba. Não sabia o que iria fazer e lá nada conhecia, mas uma amiga disse que iria o ajudar. Numa segunda-feira viu no jornal uma vaga de trabalho em um bom salão de beleza e na quinta-feira já começou a trabalhar. Lá ficou por quatro anos e percebeu o amor que tinha pela profissão.

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Durante esse período Geva conheceu diferentes técnicas, fez muitos cursos e viajou para diferentes locais. Foi um dos maquiadores do Cristal Fashion, desfile de Curitiba, e até saiu em revistas. Tinha uma vida invejável.
Ao fim de quatro anos em Curitiba voltou para Itapoá para ajudar a família. Foi na época que ocorreu uma grande enchente e acabou ficando por aqui. Começou a trabalhar em um salão de beleza e depois de três anos sua mãe perguntou: “Por que você não abre um salão?”.
A ideia foi boa. Geva chamou sua irmã Jaqueline e juntos resolveram concretizá-la. Mas no início não foi fácil, as economias eram poucas e todo o salão foi financiado. “Com o que tínhamos de dinheiro fomos para São Paulo comprar escovas e outras coisas miúdas”, conta Jaqueline Martins. O restante foi pago com muito trabalho, mas em um ano estavam com todo o investimento quitado.
Jaqueline conta que no primeiro dia de trabalho a agenda do Geva já estava cheia e ela, como sócia, mostrou toda a sua experiência administrativa. Também fez alguns cursos de cabelo, mas seus olhos sempre brilharam mais para móveis projetados, que também trabalha atualmente. Mesmo assim, pelas mãos de Jaque as sobrancelhas são perfeitas e é especialista em micropigmentação.
No início o salão era formado apenas pelos sócios e uma manicure, mas com o tempo a equipe foi crescendo. Hoje são quatro pessoas trabalhando com cabelo e duas manicures. Toda a equipe mostra muito talento e contagia a todos pela união no trabalho. Segundo Geva, já houve períodos da temporada que trabalharam com 12 funcionários.
E as cadeiras são sempre cheias. Se tiver mais gente trabalhando, com certeza o número de clientes também só aumenta. Só neste ano já arrumaram mais de 15 noivas, por exemplo. Uma agenda disputada pelo talento.
Talento colaborado por toda a técnica. Gevanildo não consegue recordar o número de cursos que já participou, mas são dois ou três por ano. Os maiores destaques são para a Academia International Llongueras Center, de Buenos Aires, e o segundo lugar no concurso do Fashion Hair On Board em 2012, onde participou com cerca de 600 profissionais. Seu sonho é passar por mais duas academias, pois nunca para de investir.
Assim, é difícil quem resista às suas mãos. Mãos que começaram a trabalhar na infância e sonham em um dia ter uma rede de salões.

Matéria publicada na Revista Giropop – Edição 16 – Abril/2014

Itapoá nas palavras da história

     Augusta Gern

          Vitorino Luiz Paese escreveu o maior registro histórico da cidade, o livro “Memórias históricas de Itapoá e Garuva”. Antes com uma memória gravada em pequenos relatos ou nas boas e interessantes conversas dos antigos moradores que aqui escolheram viver, o livro trouxe um documento de registros. Com uma história que começa junto aos índios carijós, a obra apresenta pontos que impulsionaram o crescimento e desenvolvimento da cidade.

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22042014-1957 - primeira placa de itapoá - ambrósio paese
1957 – Primeira placa de Itapoá.
Ambrósio Paese com um amigo.
22042014-1958 - 1ª pedra - vila dos pescadores
1958 – 1ª pedra – vila dos pescadores
22042014-1958 - Dórico Paese - escritorio joinville
1958 – Dórico Paese em seu escritório em Joinville.

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Veículo suporte base para a construção da estrada.

22042014-acampamento suporte da estrada - 1957
1957 – Acampamento suporte da estrada.

 

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Refeição ao ar livre.
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Famoso táxi, Pontal – Itapoá.
22042014-pioneiros de itapoa - 1958
1958 – Pioneiros de Itapoá
22042014-primeira hospedaria de itapoa - 1958
Primeira hospedaria de Itapoá.
22042014-1959 - planta do primeiro loteamento registrado de itapoa - planta b1 - baln itapoa
1959 – Planta do primeiro loteamento
registrado de Itapoá – planta b1 – Baln Itapoá.
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Inauguração da estrada Itapoá – Barra do Saí.
22042014-primeiro hotel de itapoa - proximidades do corpo de bombeiros
Primeiro Hotel de Itapoá,
próximo ao Corpo de Bombeiros.
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1963 – Arrastão em Itapoá.

22042014-1963 - arrastao em itapoa

Imagens Vitorino Paese

           De forma cativante, através das páginas Vitorino conta a história dos municípios de Itapoá e Garuva, enfatizando principalmente “a primeira comunicação regular de Itapoá com o mundo”, a abertura da estrada Serrinha e toda a sua importância. A conclusão dessa primeira estrada também é apresentada por imagens em um documentário inédito em DVD, gravado em 1958.

            Para Vitorino, professor, economista e historiador, tudo começou com a sua proximidade com os acontecimentos. Seu irmão Dórico Paese fez parte da Sociedade Imobiliária Agrícola e Pastoril Ltda – S.I.A.P, conforme o livro a responsável pela abertura da estrada e o “despertar de Itapoá”. “Eles descobriram que Itapoá tinha todos os ingredientes para se tornar um grande balneário”, conta Vitorino.

            Sempre interessado nos fatos, o autor esteve na cidade pela primeira vez em 1955, aos oito anos de idade. Talvez por curiosidade de criança, aliada ao seu gosto pela história e pesquisa, começou a guardar e registrar todos os fatos, como panfletos e documentos. “Estava sempre atento com tudo que acontecia e admirava a coragem deles em abrir a estrada em uma cidade ainda carente de qualquer infraestrutura”, lembra.

            Segundo ele, este “gosto por loucura” para abrir a estrada só pode estar no sangue da família. Seu farol de bons exemplos, o Nôno Giácomo, também citado no livro, era detentor de conhecimentos sobre engenharia de estradas e foi chamado pelo governo gaúcho para opinar sobre a abertura de uma via. “Impressionado com a formação técnica, o mandatário aproveitou-o de imediato, incubindo-o da abertura de um dos trechos. Muito dinâmico e motivado pela distinção recebida, rapidamente arregimentou o pessoal e concluiu em tempo recorde a etapa a ele destinada”, cita na página 51 do livro. Conforme Vitorino, muitas foram as dificuldades enfrentadas pelo Nôno, mas que não desistiu.

            A mesma persistência ele conta que o irmão e seus sócios tiveram em Itapoá. Em 1957 houve o maior volume pluviométrico registrado, e as fortes chuvas atrasaram o cronograma das obras da estrada, causando problemas orçamentários e outros imprevistos. “Mas entre as duas opções que tinham, continuar e ver a estrada pronta ou parar e deixar todos os investimentos para trás, decidiram seguir em frente”, conta Vitorino.

            Conforme o historiador, momentos como esse lembram as pessoas que aqui moravam de forma heroicamente e que mostraram um desprendimento que emociona, ajudando efetivamente na abertura da estrada. Assim, o livro detalha o ano de 1958, quando Itapoá saiu do anonimato: “… Com grande alegria, os pescadores, agricultores e demais habitantes dessas localidades viam chegar à porta de suas casas o primeiro veículo e com ele a certeza de que estavam definitivamente interligados, regularmente, aos demais pontos do país. Houve muita festa, pois o grande sonho, de tanto acalentado e quase desacreditado, finalmente… graças a Deus, estava concretizado”, trecho da página 65.

            Assim, com muitos documentos em mãos e uma memória invejável, Vitorino seguiu por muitos anos colecionando tudo como algo precioso, mas não pensava em escrever um livro. O impurrão final foi quando o amigo Padre Tarcísio de Garuva o entregou um envelope com novos documentos. “Sempre o visitava e naquele dia ele estava com problemas de saúde. Me entregou um envelope e assim segui viagem, sem abri-lo. Até que me dei conta que aquilo era um presente e que deveria ver”, recorda. No envelope havia documentos sobre as duas experiências francesas na região, também citadas no livro.

            Com todos os momentos registrados, o professor se deu conta de que precisava partilhar esta história, que não era justo guardá-la apenas na memória e em documentos engavetados, e então resolveu escrevê-la. Para garantir a veracidade dos fatos, Vitorino foi até a Câmara de São Francisco do Sul, cidade mãe de Garuva e Itapoá, e buscou as atas de criação dos distritos e depois municípios. Também fez um “pente-fino” com as notícias publicadas na época e conversou com pessoas que aqui moravam. Depois de tudo comprovado, juntou o material com o inédito documentário de 1958, que guardou em rolo, transformou em fita e depois em DVD.

            Para ele, sua convivência com os fatos facilitou muito o trabalho. Uma lembrança interessante é ter conhecido pessoalmente Tereza Rosa do Nascimento, senhora que viveu a abolição da escravatura e o presentou com uma caneca gigante usada no café matinal dos escravos.

De todos os registros, a maior dificuldade foi conseguir o significado do nome Itapoá. Como os índios carijós foram os primeiros habitantes da região, além da pesquisa em livros e dicionários, foi através de reuniões com paraguaios que falam guarani que chegou ao significado: “a pedra que ressurge”. Conforme ele, os índios costumavam dar o nome do local fundamentados no acidente geográfico ou ponto notável que mais chamasse a sua atenção e não dissociavam o místico do real. Assim, impressionados com a pedra que desaparece com a preamar e reaparece com a baixa-mar, surgiu o nome Itapoá.

            E entre memória, pesquisa e dificuldades, nasceu um trabalho de 25 anos. “Nunca houve preocupação em terminá-lo na outra semana”, afirma Vitorino. Assim, em 2012 o livro foi lançado para autoridades dos dois municípios contemplados. De acordo com o autor, o momento de lançamento também foi muito propício, pois a obra não tem nenhum vínculo político (nenhum dos prefeitos da época concorreram à reeleição). Ele ressalta o agradecimento a todos que acreditaram no seu trabalho e o apoiaram no momento do lançamento.

            Hoje o livro está presente em muitas residências de Itapoá, Garuva e tantas outras cidades, pela distribuição gratuita. Também está em bibliotecas públicas e logo será lançada a segunda edição. Com o término desse trabalho, Vitorino incentiva a publicação de mais registros históricos, mas ressalta o cuidado com datas equivocadas.

            O livro “Memórias Históricas de Itapoá e Garuva” apresenta então uma das grandes paixões de Vitorino: o município que reserva grandes momentos históricos, belas paisagens naturais e um desenvolvimento promissor. Para ele, Itapoá tem muitas pessoas e energias boas: “A história conta que os carijós sempre foram muito carismáticos e um povo de palavra, devem ter deixado suas vibrações positivas por aqui”, arrisca Vitorino.

Viagem de navio: Viagem dos Sonhos

Sônia Charlotte Heeren

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Quando se fala em viagens para o exterior logo pensamos em translados, hotéis, trens, aluguel de carro.
No entanto, existe uma forma de viajar,que nos apresenta beleza, shows, excelente cardápio e local para pernoitar durante nossos passeios em terra firme, que é viajar de navio e, o melhor de tudo…é acessível ao nosso bolso!! Saindo de navio, de Veneza, a caminho da Croácia e Ilhas Gregas pode-se afirmar, é algo inusitado, tanto pela paisagem como pelo lado histórico, em que contempla-se Veneza do navio dando-nos a impressão de que estamos vivendo há muitos séculos atrás e que a história e o romantismo de Veneza permanecem intactos!

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Os navios, geralmente, partem de Veneza à tarde ao som de músicas o que deixa os passageiros maravilhados e com a impressão de que estão vivenciando um sonho.
Realmente, um sonho de viagem! E a viagem continua por onze dias, sem preocupar-se onde tomar o café da manhã, onde almoçar, onde lanchar e onde jantar. Jantares saborosos e cardápio variado é o que curtimos nesse tipo de viagem.
Ainda em Veneza, avista-se os canais cortados por pontes em arco, gôndolas deslizando em silêncio pelas águas e palácios medievais formando um conjunto sem igual. A Piazza de San Marco, coração e alma de Veneza admiradas do navio é um momento tão emocionante que chega a arrepiar. Percebe-se do navio quão maravilhosa é a Campanile de San Marco,que aparece em destaque por ser a torre mais alta de Veneza e que foi construída para servir de orientação às embarcações que se aproximavam da cidade e é nesse momento, em particular, que parecemos vivenciar a Idade Média!!
Num determinado momento aprecia-se o Grande Canal que corresponde a uma avenida cheia de água,em que três pontes cruzam o canal: a Ponte Degli Scalzi, a Ponte di Rialto e a Ponte de l’Accademia. Às margens do Grande Canal avista-se uma infinidade de palacetes dos séculos 17 e 18, que contam com seus detalhes toda sua história de luxos e extravagância. Interessante também são as hastes que contornam Veneza, como que emoldurando o local. Hastes verticais que servem com atracadouros das gôndolas e outras embarcações, como o “Vaporetto” (ônibus de Veneza), únicos meios de transporte na cidade.

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Outro ponto turístico visto do navio é o Palácio dos Doges e a Ponte dos Suspiros, embora seu nome tenha conotação adocicada e romântica,não há nada de romântico, mas sim de tristeza, pois os prisioneiros que eram levados do Palácio a prisão passavam pela ponte, olhavam com tristeza dando o último suspiro.
Do navio vê-se Murano, onde existem muitas fábricas de cristais com artesãos na entrada das fabriquetas e a praia dos ricos,de Veneza,a praia de Lido! Portanto, Veneza é inesquecível e uma visita não é suficiente. Garanto, uma delas deveria ser de navio!

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Na próxima darei continuidade a essa esplêndida viagem de navio, tendo o Mar Adriático, que é uma parte do Mar Mediterrâneo, como pano de fundo!

Tia Cida e um rancho preenchido de alegria

Para os que gostam de dançar juntinho e arrastar o pé, como é popularmente conhecido o bailão, o Rancho da Tia Cida é um dos locais mais visitados. Com a brisa do mar refrescando a porta de entrada, todos os sábados à noite a música é garantida. O espaço aconchegante e familiar é um dos mais tradicionais da cidade: há mais de 20 anos promove muita dança e alegria em seus bailes.

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Maria Aparecida Alves Fernandes, a querida Tia Cida, como é muito mais conhecida

Augusta Gern

Mas a história vai muito além: Maria Aparecida Alves Fernandes, a querida Tia Cida, como é muito mais conhecida, chegou a Itapoá há 36 anos e o objetivo não era promover boas festas, mas sim muita comida boa. “Vim para Itapoá quando tive uns dias de férias, pois ainda não conhecia o mar. Chegando aqui vi como a cidade tinha futuro e resolvi arriscar. Queria mostrar para Itapoá como trabalho, queria ter a oportunidade de ficar por aqui”, conta.

Na época, Tia Cida lembra que parou em um terreno perto do mar, onde jovens jogavam futebol logo ao lado. Chegando em São Bento, sua cidade natal, falou sobre o município e do desejo de morar em Itapoá. Dias depois veio novamente com um conhecido que tinha terras por aqui e, ao chegar ao mesmo terreno, perto do mar e onde os mesmos jovens jogavam futebol, ganhou a oportunidade de começar uma nova vida. “Me arrepio só de lembrar. Este foi o local que conversei com Deus quando vim pela primeira vez para cá”, conta.

E assim, antes mesmo da emancipação de Itapoá, surgiu o local Tia Cida. No início era apenas um quiosque para lanches e porções perto da praia, depois se transformou em uma pizzaria e restaurante, e quando as jantas começaram a contar com música ao vivo, percebeu que o que os itapoaenses gostavam mesmo era de dançar. “Nunca pensei em ter um bailão, mas as pessoas acabaram transformando isso aqui e me ensinaram a trabalhar”, afirma.

Assim, com algumas ampliações e reformas, o local ainda transmite o seu objetivo: deixar a vida das pessoas mais feliz. E com toda a humildade que o criou e a história que o sustenta, hoje o Tia Cida recebe frequentadores de diferentes cidades da região e em todos os sábados está cheio de gente.

Além dos bailões, o local é utilizado para diferentes eventos: festas escolares, eventos beneficentes, jantares de associações, casamentos, aniversários, entre outros. Também, muitos eventos para a comunidade foram organizados e preparados pela própria Tia Cida. Ao revirarmos a caixa de fotos antigas descobrimos as grandes festas realizadas na época do Dia das Crianças: uma multidão de crianças e um bolo de até mais de 10 metros preenchiam a casa com ainda mais amor.

Matéria publicada na Revista Giropop – Edição 9

Edson Ricardo Reis: Um navio de superações

Augusta Gern

Um acidente de trabalho e uma grave lesão na coluna mudaram a história de Edson Ricardo Reis em 2010. Fortes dores na coluna e a dependência para realizar as atividades rotineiras desencadearam uma depressão profunda, que abalou seus desejos e sonhos.

De São Bento do Sul, a família deixou o frio e optou pela cidade de férias para colaborar na recuperação das dores de Edson. Mas além do clima, outros fatores foram fundamentais para sua recuperação.“Antes tudo precisava de um incentivo, para se cuidar, para se arrumar”, conta a esposa Cristiane.

As coisas começaram a mudar com o trabalho escolar de seu filho Natanael (6). Edson o ajudou a construir três réplicas em material reciclado: um navio, um avião e o Farol do Pontal. “Ali comecei a ver que ele estava melhorando, estava começando a sorrir”, lembra Cristiane. Para comprovar a evolução, sua esposa fotografou todas as fases do trabalho, que provam a mudança ao longo do dia.

Ao final do trabalho, quando as obras foram entregues, foi como se a alegria também estivesse ido embora. Mas não foi por muito tempo: quando soube do projeto Recicloterapia, do Posto de Saúde do Balneário Pontal, Cristiane lembra que fez questão de conversar diretamente com a médica responsável e contar da experiência de seu marido. “Falei que acreditava e apoiava muito este trabalho”, afirma.

O projeto Recicloterapia surgiu a partir do 1º Concurso de Experiências Exitosas da cidade, que motivou as unidades de saúde a criarem novas formas de integração com os pacientes. Conforme a médica responsável, Talita Recheleto Strano, o objetivo foi integrar os pacientes depressivos com a unidade e a comunidade. Para isso, foram realizadas oficinas quinzenais de artesanato com materiais reciclados, um projeto idealizado e organizado por todos os profissionais da unidade.

Ao todo foram 20 pacientes que participaram dos seis meses de oficinas. Este projeto venceu o Concurso Municipal de Experiências Exitosas e ficou entre os 100 melhores projetos apresentados na IV Mostra Nacional de Experiências em Atenção Básica / Saúda da Família, em Brasília.

Porém, os principais resultados foram com os próprios pacientes. “Alguns nem conversavam no início, depois já estavam trocando até dicas de receitas”, conta Talita. Edson foi um dos pacientes que surpreendeu, tanto pela criatividade, como pelo modo que começou a levar a vida.

“Participei do projeto para me ajudar e ajudar o Posto de Saúde”, afirma Edson.

 Durante as oficinas, construiu um legítimo navio de papelão e outros materiais reciclados, de 1m de altura por 2,70m de comprimento, com todos os detalhes e acabamentos que se tem direito.

Conforme Cristiane, foram meses de trabalho muito positivos. Da mesma forma do trabalho de seu filho, fotografou todas as etapas e observou a melhora no quadro de seu marido. “Ele começou a rir novamente. Todos os pacientes que participaram melhoraram”, conta Cristiane.

A ideia de construir um navio surgiu pelo simples fato de sempre apreciá-los de longe. Morador do Pontal, todo o dia Edson observa os diferentes navios que passam no quintal da comunidade. O detalhe é que a admiração é feita de longe, Edson nunca chegou muito perto de um navio. Isso surpreendeu visitantes da cidade que trabalhavam embarcados: “perguntaram se ele era engenheiro ou trabalhava em navios, porque todos os detalhes eram legítimos, estavam iguais aos originais”, lembra Cristiane.

E assim, mais do que interação e gosto pela vida, o projeto instigou o talento de Edson. Ao tirar o navio de casa por alguns minutos, olhos curiosos e admirados já chegam perto para conhecer e elogiar o trabalho. Momentos de sorrisos para Edson e muito orgulho para sua família.

Em relação ao projeto, a equipe do posto de saúde afirma que é emocionante ver os resultados obtidos e, em breve, novos projetos devem surgir na comunidade. Sobre a premiação nacional, Talita afirma que é um reconhecimento de um trabalho realizado por toda a equipe. Agora, além do troféu, terão direito de conhecer um dos outros 99 projetos premiados, em um intercâmbio de muita cultura, criatividade e superação.

Matéria publicada na Revista Giropop – Edição 15 – Março/2013