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André Vinicius, força e superação na batalha contra o câncer

Conhecido e querido por munícipes de toda a Itapoá, há oito anos o professor André Vinicius Araújo trava uma batalha contra um tumor no cérebro.
Hoje, sente-se confiante e seguro para falar sobre a doença que sempre esteve no anonimato e agradecer o carinho que tem recebido de todas as partes: “o apoio de amigos e familiares me encheu de amor, força e esperança”.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

 

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André Vinicius Araújo, professor em Itapoá, responsável pela locução de diversos eventos
significativos para o município.

 

 

De Nova Esperança-PR, André Vinicius é formado em Educação Física e há dezesseis anos reside em Itapoá. No município, ministrou aulas nas escolas municipais Frei Valentim, Alberto Speck e João Monteiro Cabral, atuou na Secretaria Municipal de Educação e nos último ano trabalhou como diretor na Secretaria Municipal de Planejamento e Urbanismo. Também, foi responsável pela locução de inúmeros eventos significativos para o município, como inaugurações de escolas, postos de saúde, asfalto, homenagens na Câmara Municipal de Vereadores, PROERD da Polícia Militar, eventos escolares e comunitários, entre outros. Há 12 anos, casou-se com Noemi Araújo, também professora da rede escolar municipal e, juntos, tiveram dois filhos: Yuri (8) e Marcos Vinicius (4).
Recordando o passado, André lembra que desde 2002 sentia fortes dores de cabeça. “Procurei um oculista, pois acreditava tratar-se de algum problema de visão, mas não. Fui protelando e até aprendi a conviver com aquela dor no dia a dia. Mas os anos passaram-se as dores foram aumentando gradativamente”, conta. Já em 2009, além de as crises tornarem-se mais frequentes e intensas, André passou a ter episódios de convulsão – preocupações que levaram-no a procurar um médico.
Após realizar ressonâncias, mapeamento cerebral e uma série de exames, em janeiro de 2010 – no dia do nascimento de seu primeiro filho –, André, que não possuía histórico de câncer na família, recebeu o diagnóstico constatando um tumor de 1,4 centímetros, situado no terceiro ventrículo do cérebro.

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André apresentando a inauguração do novo prédio da Prefeitura Municipal de Itapoá

Primeiros anos
Como o local onde o tumor encontrava-se era de difícil acesso, os médicos não podiam sequer realizar biópsias para descobrir seu grau – a não ser que realizassem uma cirurgia. Em consulta com duas equipes médicas em Curitiba-PR, André foi aconselhado a passar por uma cirurgia de urgência. Insatisfeito, ainda buscou a opinião de um terceiro médico, em Joinville-SC, que apresentou-lhe duas opções: submeter-se à cirurgia ou acompanhar, ao longo do tempo, o desenvolvimento do tumor através de exames periódicos. Após muitas pesquisas, André tomou conhecimento de que esta cirurgia oferecia muitos riscos (de sequelas e até morte) e, portanto, optou por realizar o acompanhamento.

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Ao lado de Cleniudo, seu amigo e compadre.

De 2010 em diante, viveu dias de dor de cabeça intermitente e náuseas, tendo sido internado diversas vezes, sempre recebendo o apoio de dois grandes amigos: Professor Eduardo e seu compadre Cleniudo, que sempre estiveram presentes e eram os únicos a saber o que realmente acontecia. “Onde quer que fosse, carregava cartelas de codeína, para mastigar sempre que a dor surgisse ou normalmente era atendido no pronto-atendimento para receber morfina”, recorda.
Naquele tempo, o professor fez um acordo consigo mesmo, de que quando passasse por algum episódio crítico, seria o momento de realizar a cirurgia. O marco aconteceu em março deste ano de 2018, quando André chegou a ter um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

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Tomando lugar na Academia de Letras de Itapoá

 

A cirurgia
Sabendo que durante o tratamento o cabelo iria cair, André forjou uma aposta aos seus filhos, a fim de que perdesse propositalmente e tivesse de raspar os cabelos. “Sempre deixamos nossos filhos a par de tudo, em uma linguagem mais simples, para que pudessem entender. Mas a brincadeira da aposta foi essencial para que o momento de raspar a cabeça se tornasse mais uma diversão do que um choque para eles”, comenta.
Durante os preparativos para a cirurgia, André Vinicius recorda uma intuição que dizia que ele não voltaria para casa: “Eu havia pesquisado muito sobre essa cirurgia e na grande maioria dos casos os pacientes vinham a óbito. Portanto, organizei documentos, deixei arquivos com todos os meus dados e senhas, revisei o seguro de vida e orientei um irmão para que na minha falta a família pudesse se organizar sem mim”. Em contrapartida, a esposa Noemi dava-lhe forças e insistia que tudo daria certo.

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Família reunida: André e a esposa Noemi, junto dos filhos Yuri (8) e Marcos Vinicius (4).

A cirurgia aconteceu em julho de 2018, totalizando aproximadamente doze horas de duração. Uma equipe de três neurocirurgiões e um neurofisiologista retirou boa parte do tumor que havia crescido para 2,8 centímetros – exatamente o dobro do tamanho de quando foi encontrado, em 2010.
Apenas um pedaço de cinco milímetros do tumor, situado dentro de um forame do cérebro, teve de ser mantido, já que, segundo os médicos, sua remoção total iria comprometer os movimentos das pernas.
Após o procedimento, André passou cinco dias internado na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), sentindo fortes dores e náuseas, tendo emagrecido quinze quilos em menos de uma semana, e mais três dias no quarto do hospital. No oitavo dia, antes de receber alta, as palavras de uma médica da UTI ficaram gravadas para sempre em sua memória: “Nem todas as pessoas que chegam aqui nesse estado, voltam para suas casas. Por isso, comemore esse dia como se fosse seu aniversário”.

 

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André com seu irmão Arthur, que esteve o tempo todo ao seu lado

De volta para casa
Conforme André Vinicius, pisar em casa e estar junto da família novamente foi uma emoção inenarrável. Ele, que saiu do hospital praticamente sem andar e com a visão turva, superou as expectativas da equipe médica e teve boa recuperação. “Tivemos de adaptar a casa, tirando tapetes do caminho e colocando barras de apoio. Com muita persistência, alongamento e exercícios para fortalecimento de perna, dentro de dez dias já voltei a caminhar sozinho, com a ajuda de uma bengala”, fala André.

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Com o irmão Ricardo, seus filhos e sobrinhos

O procedimento cirúrgico desencadeou alguns problemas de saúde, como diabetes, labirintite, náusea e problemas na tireoide. Dias depois, André ficou internado durante três dias, por motivos de fraqueza, tontura e náusea. Em setembro de 2018, submeteu-se à uma segunda cirurgia e quinze dias de internação, por conta de uma infecção causada por uma superbactéria e rejeição, momento este que foram removidas placas, parafusos e a tampa óssea que havia sido recolocada. Em compensação, desde a cirurgia de retirada do tumor as dores de cabeça cessaram de vez.

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registro no hospital com seu pai Alvacir.

Graças ao local onde o tumor está situado, a equipe médica descartou a possibilidade de quimioterapia. Neste mês de novembro, André Vinicius está prestes a realizar sua primeira sessão de radioterapia, a fim de conter os cinco milímetros que ainda restam no cérebro e tentar inibir a volta do tumor.
O caso de André foi mencionado por um dos médicos devido à rápida recuperação em relação ao tamanho do tumor removido, um dos maiores já retirados desta região. Três meses após a cirurgia, André Vinicius leva uma vida quase normal, exceto pela tontura e enjoos que aparecem de vez em quando.

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André com seu filho Marcos e com sua mãe Rosângela.

Durante os anos que antecederam a cirurgia, uma coincidência chamou a atenção de da equipe médica: foi um “achado” em seu filho menor, uma mancha no mesmo local do pai, encontrada através de exames, que vem sendo monitorada através de ressonância. O caso foi levado à estudos em uma conferência em São Paulo no ano passado.
“Agradecemos imensamente à equipe de enfermeiros e médicos, tanto de Itapoá quanto de Joinville, especialmente aos doutores Michael, Júlio, André e Marcos Vinicius, responsáveis pelo sucesso da cirurgia de retirada do tumor. Estes profissionais tiveram cautela ao nos transmitir segurança e confiança, sanando todas as nossas dúvidas em uma linguagem de fácil entendimento”, contam André e Noemi.

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André Vinicius e Noemi, casados há doze anos.

Ainda, o casal agradece o apoio de seus familiares e dos muitos amigos, que contribuíram das mais diversas formas: com dicas, indicações de remédios naturais, cirurgias espirituais, igrejas, conselhos, deram apoio quando as forças quase acabaram, fizeram promessas, ligações, orações, visitas, enviaram mensagens e boas energias. Nas palavras de André: “Nós temos o hábito de pensar que estamos sozinhos, mas nessas horas difíceis descobrimos o quanto somos queridos. Amigos e irmãos chegaram a raspar a cabeça em meu apoio. Recebi muito carinho e amor de pessoas próximas e até de quem eu não conhecia. Isso, com certeza, fez com que atravessássemos os períodos difíceis com força, esperança e fé em Deus”.

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Com os colegas de trabalho da Esc. Mun. João Monteiro Cabral.

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Um registro com os amigos Lala, Mirlei e Neri (ao fundo), Anderson, João Roberto e Yasmin.

O que fica
Segundo a equipe médica, o caso de André apresenta sobrevida de, em média, dez anos. No entanto, o professor prefere não dar atenção a isso e viver um dia de cada vez. Em seus planos futuros estão as viagens para Aparecida do Norte-SP e para uma igreja em Portugal, com o objetivo de pagar promessas, além de voltar aos palcos para fazer a locução de eventos – atividade que sempre desempenhou com muito prazer.
Hoje, aos 40 anos de idade, André Vinicius dá ainda mais valor aos seus pais, irmãos e amigos que acompanharam cada dia de dor, sofrimento e alegria. “Minha esposa e meus filhos são tudo para mim. Passei a apreciar ainda mais os momentos em que estamos juntos”, diz.
O professor, muito querido por munícipes de toda a Itapoá, conta que não costumava tornar a público os detalhes de sua luta contra o câncer, mas, hoje, sente-se livre e seguro para falar sobre a doença com os demais. Emocionados, André e a esposa Noemi se olham e concluem: “nós vencemos”.

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Lutando contra o câncer, amor e união fazem a diferença

Nas mídias sociais, a hashtag #DinnoJuntosVenceremos prova o quanto o professor de Educação Física Claudinei Ferreira Mendes – mais conhecido como Dinno, serve de inspiração para muitos munícipes de Itapoá.
Há seis meses, ele luta diariamente contra o câncer. Ainda com um pouco de cansaço para falar, devido ao tratamento intensivo, Dinno conta com a ajuda da esposa, Vanilda de Souza – mais conhecida como Preta, para agradecer todo o carinho que vem recebendo e contar sua história, sinônimo de força e superação.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

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O casal Preta e Dinno, e a psicopedagoga e atleta Mahara Hermógenes, amiga do casal e uma das
responsáveis pela campanha #DinnoJuntosVenceremos, que lhe deu apoio nas redes sociais.

Natural de Ponta Grossa-PR, Dinno escolheu o município de Itapoá para viver. Na cidade litorânea, construiu carreira como professor de Educação Física da Escola Municipal Frei Valentim, conheceu Preta, com quem é casado há dezesseis anos, e também seu enteado, Jonatha Aguiar, considerado por ele como filho do coração.
Certa vez, Dinno e Preta passaram por uma mudança radical no estilo de vida. O casal tornou a cultivar hábitos mais saudáveis, praticar regularmente atividades físicas e seguir uma dieta com base na orientação de uma nutricionista. Juntos, também abriram a Academia DPJ Fitness.
Há aproximadamente três anos, o professor desenvolveu uma curiosa alergia a diversos medicamentos. À medida em que Dinno era medicado, crescia a lista de remédios que lhe causavam reações alérgicas, como inchaço na face.
Em maio deste ano de 2018, começou a sentir dores entre a perna esquerda e o quadril. Depois de duas semanas convivendo com a dor, foi a Joinville-SC para consultar-se no pronto-atendimento. “Temíamos que ele recebesse algum medicamento desconhecido que lhe causasse reação alérgica. Paramos, então, em uma clínica para marcarmos um horário com um ortopedista e especialista em quadril. Acreditamos muito que Deus sabe de todas as coisas, pois havia um horário vago para aquela mesma tarde”, recorda Preta.
Conforme o ortopedista, a dor que incomodava somente a perna esquerda podia significar muitas coisas, daí a importância de um exame de ressonância magnética, realizado na semana seguinte. Feito o exame, Dinno recebeu o diagnóstico de que estava com um pequeno problema na cartilagem na perna esquerda, que não justificava sua dor. Porém, o exame acusou também um tumor já bem desenvolvido, com nove centímetros, ao lado direito do glúteo. Frente ao médico, Preta e Dinno receberam a inesperada notícia, e com fé em Deus descobriram forças para enfrentar os próximos dias.

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O casal Preta e Dinno, e a psicopedagoga e atleta Mahara Hermógenes, amiga do casal e uma das
responsáveis pela campanha #DinnoJuntosVenceremos, que lhe deu apoio nas redes sociais.

Mais notícias
O casal foi encaminhado para tratar do problema com outro médico, Dr. André, ortopedista, cirurgião e especialista em coluna, que pediu mais uma série de exames. Antes que retornassem ao hospital, o médico telefonou para Dinno e informou que o mesmo tumor encontrado no glúteo havia sido encontrado na coluna vertebral, na região da lombar, além de outros dois pontos menores encontrados na bacia – por isso, a dor no lado esquerdo da perna, que passou a pressionar e se expandir para a coluna.
Do mês de maio a outubro, em praticamente todos os consultórios médicos por onde Dinno, Preta e Jonatha passaram, as notícias ficavam ainda mais difíceis.
Com fortes dores na coluna e o movimento da perna esquerda já comprometido, Dinno realizou a biópsia, a fim de descobrir qual o tipo do tumor. Preta recorda o dia em que recebeu o resultado: “O médico nos telefonou dizendo que o resultado da biópsia era nada favorável, pois tratava-se de um lipossarcoma maligno. Em seguida, tive de dar a notícia ao Dinno. Foi muito difícil, pois o termo ‘tumor maligno’ está comumente associado a morte. Felizmente, ele foi forte ao receber a notícia, já eu, que sempre fui mais sensível, caí em desespero”.

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Família que é unida, permanece unida nos momentos bons ou difíceis. No registro: Dinno (na maca), sua esposa Preta e o filho Jonatha (ao fundo).

O caso
Imediatamente, a família procurou um oncologista clínico para dar início ao tratamento. Este, por sua vez, descartou a possibilidade de realizar uma cirurgia, reiterando que a única saída seria o tratamento com radiografia. Contudo, a intuição de Preta dizia para não se contentar com apenas uma opinião médica. “Aprendemos que os familiares devem, sim, pesquisar sobre a enfermidade em fontes confiáveis. Ter certo conhecimento sobre o assunto nos ajuda a questionar e não nos conformar com a primeira resposta que recebermos”, diz a esposa de Dinno. Felizmente, o segundo oncologista a ser consultado, Dr. Jackson, foi bastante otimista ao dizer que Dinno era jovem e era preciso apostar em sua cirurgia.
Mas, antes, o professor de Educação Física foi internado imediatamente para que os exames de mapeamento geral fossem feitos mais depressa. A internação durou sessenta dias e foi supervisionada pelos doutores Jackson e André, que passaram a trabalhar juntos no caso de Dino, e por doutor Álvaro, oncologista e cirurgião especialista em tumor de partes moles (tecidos como músculos, ossos e gordura).
O caso de Dinno, com metástase (formação de uma nova lesão tumoral a partir de outra) em osso, na coluna vertebral, contrariou as estatísticas e chamou a atenção dos médicos, uma vez que o tumor do tipo lipossarcoma costuma apresentar metástase no intestino e principalmente no pulmão. Conforme os médicos, o estilo saudável que mantinha regularmente foi crucial para sua rápida recuperação e para impedir a metástase no pulmão.

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Um registro de Preta e Dinno, um casal companheiro, unido e forte.

Cirurgia e tratamento
Por ser o tumor que mais se desenvolveu e que estava ocasionando dor, a cirurgia consistiu na retirada do tumor da lombar. Felizmente, a equipe de médicos, que trabalhou em conjunto, realizou a cirurgia com sucesso, retirando 100% o tumor da lombar. Superando expectativas médicas, o paciente recuperou-se rapidamente da cirurgia.
Conforme os profissionais da saúde, uma vez que existiam três tumores pelo corpo (no glúteo e dois pontos menores na bacia, já que o da lombar havia sido removido), Dinno teria de fazer tratamento com quimioterapia. O primeiro ciclo das sessões de quimioterapia aconteceu no início de agosto de 2018 e foi bastante delicado, pois os médicos não sabiam se os medicamentos do tratamento causariam reações alérgicas.
Quatro dias depois de voltar para casa, Dinno apresentou indícios de febre. Voltou a Joinville e foi encaminhado para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do hospital, com uma infecção pulmonar. Passou a respirar com a ajuda de aparelhos e de uma máscara de oxigênio. “Os medicamentos indicados para febre estavam em sua lista de medicamentos que lhe causam alergia. Portanto, para baixar sua temperatura, os médicos colocaram cubos de gelo nas partes quentes. Foi um episódio muito difícil, ele gritava de dor”, lembra a esposa. Mais tarde, Dinno voltou a ter febre e Preta e Jonatha revezaram-se durante trinta e quatro horas a fio fazendo compressa com uma toalha umedecida, já que o gelo o machucava muito.
Por felicidade, após cinco dias na UTI, Dinno melhorou e recebeu alta para voltar a Itapoá. O médico lhe deu um tempo para recuperar-se, até que retomasse as sessões de quimioterapia. Apesar das reações comuns à quimioterapia, como náusea e queda de cabelo, o segundo ciclo do tratamento foi melhor, pois, dessa vez, a equipe médica já tinha conhecimento de que os medicamentos não apresentavam reação alérgica, e Dinno pôde tomar uma injeção que auxilia na imunidade.
O tratamento do paciente é intensivo: cada ciclo acontece de segunda a sexta-feira, com duas semanas de intervalo – período em que Dinno pode fazer atividades físicas moderadas e descansar, até que se inicie um novo ciclo. Atualmente, o professor de Educação Física completou seu quarto ciclo do tratamento. Na noite em que antecedeu o fechamento desta matéria, recebemos boas novas de Preta, que estava emocionada: Dinno realizou a cirurgia que retirou 100% do tumor do glúteo. Os dois tumores menores, situados na bacia, estão controlados, e seus órgãos estão todos limpos e preservados.

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Dinno, juntos venceremos
Familiares, amigos, conhecidos, alunos da Escola Municipal Frei Valentim e da academia DPJ Fitness mobilizaram uma campanha nas mídias sociais. Utilizando a hashtag #DinnoJuntosVenceremos, criaram camisetas, prestaram homenagens, lembranças, palavras de apoio e otimismo a Claudinei, o Dinno.
Sua batalha contra o câncer serviu de inspiração para muitos que nele se inspiram para superarem seus desafios, o que rendeu a Dinno medalhas de amigos que correram maratonas, troféu dos alunos que participaram do campeonato Moleque Bom de Bola, camiseta autografada pelos jogadores do Operário Ferroviário Esporte Clube, de Ponta Grossa-PR, entre outros tantos presentes que lhe encheram os olhos.
Hoje, Dinno valoriza ainda mais os momentos com os amigos e familiares, especialmente junto da esposa, do filho, da nora e do neto, Bernardo, de apenas um ano, por quem se declara um “avô coruja”.

Avô coruja assumido, Dinno aprecia os momentos junto ao neto Bernardo.

Sua história é sinônimo de força, superação e a prova de que um estilo de vida saudável pode ser crucial para a saúde. O professor de Educação Física ressalta: “cuidar da saúde é a melhor forma de prevenção, praticar atividades físicas regularmente, ter uma alimentação saudável e realizar exames de rotina”.
Emocionado ao recordar cada capítulo da luta que trava desde o mês de maio, Dinno deixa sua mensagem: “Essa doença apareceu de uma forma repentina em nossas vidas. Agradeço sempre a Deus pela família que me presenteou. Ao meu filho, Jonatha, que desde o primeiro diagnóstico está sempre ao meu lado, é meu parceiro, companheirão de todas as horas, e não mede esforços para me tranquilizar. À minha esposa, Preta, que não tenho palavras para descrever o que tem feito por mim neste momento tão difícil. Ela está 24 horas ao meu lado e mesmo que não contenha suas lágrimas em alguns momentos, continua firme diante das dificuldades. Sou grato pelos excelentes médicos, André Demo Boss (Clínica Athenas), Jackson Teixeira Martins (CHO) e Álvaro Rogério Novaes Carneiro (IOT), e enfermeiros que cuidaram tão bem de meu caso, e por cada mensagem de apoio, oração, conselho, ligação e homenagem que recebi de amigos e alunos. É isso que me mantém forte. Sempre falo que este é só período ruim que vai passar, pois acredito muito em Deus e na minha cura”.

Amorosas de Itapoá apoiam ações

Elas confeccionam almofadas em formato de coração para ajudar mulheres diagnosticadas com câncer de mama a terem mais conforto, promovem encontros nos Postos de Saúde da Família, oferecem carinho para que as pacientes sintam-se acolhidas e colocam o ‘câncer de mama’ cada vez mais em pauta no município.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

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Amorosas de Itapoá, participam da Caminha Outubro Rosa.

História
Em 2009, Alvina Vieira recebeu o diagnóstico positivo de câncer de mama. Após a mastectomia (cirurgia de retirada da mama), um detalhe, em especial, chamou-lhe a atenção: “Quando realizei o tratamento, ganhei uma almofada em formato de coração, que me ajudou a apoiar o braço, aliviar as dores e a dormência do pós-cirúrgico, reduzir o inchaço linfático provocado pela cirurgia, diminuir a tensão nos ombros e, quando usada debaixo do cinto de segurança do carro, proteger de eventuais golpes”. Os anos passaram-se, Alvina foi curada e pôde devolver sua almofada para que outras pacientes fizessem uso da mesma. Mas aquele simples gesto a marcou para sempre.
Já em Itapoá, Alvina conheceu Marli Colin, Suely Magalhães, Maria Batista – mais conhecida como Ica, Sueli Carijo e outras tantas com quem fez amizade. “Ela contou-nos sua luta contra o câncer de mama e sugeriu que participássemos desse projeto das almofadas, que acontece em todo o Brasil, para ajudar mulheres diagnosticadas com câncer de mama em Itapoá. Sem pensarmos duas vezes, abraçamos a causa”, recorda Suely Magalhães.

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Um abraço de amor
Pesquisando, as amigas descobriram que as almofadas são confeccionadas com muito cuidado. “Para ser ergonômica, a almofada tem medidas certas e a quantidade de enchimento certo – por isso, é pesada em uma balança de precisão. A costura deve ser específica porque senão fica desconfortável”, explica Alvina. O tecido também deve ser 100% algodão e o enchimento recebe fibra antialérgica.

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O trabalho voluntário conta com a ajuda de cerca de 20 mulheres, em sua maioria, aposentadas e com aptidão para artesanato. Valores simbólicos, tecidos, fibras, brindes e outros materiais foram doados por empresas e comerciantes de Itapoá. Durante as reuniões semanais na casa de Suely Magalhães, o grupo de amigas, intitulado ‘Amorosas de Itapoá’, descobriu qual era o forte de cada uma e delegou funções: um pequeno grupo corta o tecido, enquanto outro preenche a almofada, outro costura, etc.
Tudo é muito organizado e planejado nos mínimos detalhes. As voluntárias também criaram embalagens e folhetos explicativos sobre o uso da almofada, que foi batizada de ‘Almofada do Amor’. Afinal, trata-se de algo muito além do material.
A luta contra o câncer não é fácil, mas as Almofadas do Amor podem amenizar a dor, oferecendo autoestima, força, amor e solidariedade – intenções que as Amorosas sempre mentalizam em cada doação. Com base em sua experiência com o câncer de mama, a amorosa Alvina fala: “Queremos que as mulheres que recebam nossos corações sejam felizes e tenham fé. Isso foi a melhor coisa para mim”.

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Elas acreditam que o câncer de mama deve ser lembrado durante todo o ano, mas aproveitam o movimento de adesão mundial Outubro Rosa para apoiar uma série de ações no município de Itapoá, promovidas pela Secretaria Municipal de Saúde.

Doações
Desde maio de 2017, quando o grupo foi fundado, até o presente momento, as voluntárias confeccionaram 230 almofadas. Para realizar as doações, oferecer apoio e trocar experiências, as Amorosas atuam em parceria com a Secretaria de Saúde de Itapoá, e organizam, anualmente, rodas de conversa com mulheres que lutam contra o câncer de mama nas unidades do ESF (Estratégia Saúde da Família) de Itapoá.
Também, realizam arrecadação e doação de perucas, turbantes, lenços, gorros, chapéus e bonés – acessórios que fazem a diferença na vida de pacientes com câncer, e tornaram a confeccionar pequenas almofadas de coração preenchidas com pedrinhas, para simular a prática do autoexame da mama.
As doações também acontecem quando as voluntárias visitam outras cidades ou por intermédio de terceiros. As Almofadas do Amor, confeccionadas pelas Amorosas de Itapoá, já ajudaram pacientes de diferentes cidades, como Florianópolis-SC, Ponta Grossa-PR, Balneário Camboriú-SC e Londrina-PR. Nas palavras de Suely Magalhães: “é só nos indicar uma pessoa que está lutando contra o câncer de mama, que nosso abraço em formato de coração, a almofada, chega até ela”.

Deseja tornar-se uma voluntária, contribuir com doações de lenços, chapéus, tecidos ou outros materiais? Entre em contato com a amorosa Suely Magalhães através do WhatsApp 43 98406-8035. Ou, acesse a página “Amorosas de Itapoá”, no Facebook.

Autoexame, um alerta às alterações da mama

A melhor maneira de combater o câncer de mama é através da prevenção. Ao prevenir, a doença é diagnosticada em sua fase precoce e apresenta maiores chances de cura.
Do Laboratório de Diagnóstico por Imagem (LAD), de Guaratuba-PR, a ginecologista Angela Moser aconselha toda mulher a buscar um profissional uma vez ao ano para fazer exame clínico e obter orientação preventiva sobre doenças ginecológicas: “a falta de informação leva a um atraso no diagnóstico, impossibilitando muitas vezes o tratamento adequado”.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

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Durante muito tempo, em campanhas de conscientização para o câncer de mama fora divulgada a informação de que o autoexame das mamas, baseado na palpação, era a melhor forma para detectá-lo precocemente. Contudo, o tempo passou, a medicina evoluiu e esta recomendação mudou. Segundo a ginecologista, hoje, para a prevenção deste tipo de câncer, além do autoexame, a mulher deve procurar seu ginecologista para o exame clínico, a mamografia (sempre complementada pela ecografia das mamas), e a orientação médica preventiva.
“O autoexame continua sendo importante, porém, de forma secundária”, conta Angela. Ela também explica que isso acontece porque quando o tumor atinge o tamanho suficiente para ser palpado, já não está mais no estágio inicial, e as chances de cura não são máximas. Ou seja, o autoexame não substitui a importância do exame clínico feito por um profissional ou da mamografia, pois só ela pode detectar precocemente um nódulo pequeno com grandes chances de cura. Mas, então, qual a finalidade do autoexame?
Ao contrário do que muitos pensam este hábito não tem como objetivo ensinar a mulher a detectar precocemente o câncer de mama, e sim, educar a conhecer seu corpo, em especial o aspecto e a textura normal de suas mamas, de modo a reconhecer alguma alteração que possa surgir. “Percebendo qualquer diferença, é importante buscar auxílio médico”, ensina a ginecologista. Vale lembrar que muitas dessas alterações percebidas não é câncer, porém, somente um profissional será capaz de identificar do que se trata.
Toda mulher a partir de, aproximadamente, 20 anos de idade deve ser estimulada e orientada a realizar regularmente o autoexame das mamas. “Apesar da incidência do câncer de mama ser maior entre mulheres a partir dos 35 anos de idade, não significa que não possa ocorrer em grupos etários mais jovens”, explica a ginecologista.
Segundo Angela, o procedimento do autoexame é recomendável todo mês, uma semana após o término da menstruação, quando as mamas estão menos sensíveis. Para as mulheres que não menstruam mais, o ideal é definir um dia específico do mês para fazê-lo como, por exemplo, todo dia 15.
Este hábito é muito simples e por ser rápido, indolor, sem efeitos secundários e sem custo, é também acessível. A ginecologista recomenda que o autoexame seja realizado durante o banho, com as mãos ensaboadas. “A palpação deve ser feita com os dedos da mão juntos e esticados em movimentos circulares desde a axila até o mamilo (bico da mama)”, explica. A mão direita examina a mama esquerda e a mão esquerda examina a mama direita, sempre em busca de alguma alteração.
Já as mulheres acima dos 40 anos de idade devem fazer seus exames de rotina, incluindo a mamografia. No entanto, no espaço de tempo entre as consultas ou exames de mamografia, o autoexame também deve ser realizado.
De acordo com Angela, o principal fator de risco deste câncer é ser mulher – uma vez que ele também se manifesta em homens, seguido da faixa etária, com o aumento da incidência a partir dos 35 anos de idade. Antecedente familiar de primeiro grau (como mãe, irmãs e filhas) também é outro fator de predisposição para o surgimento desses tumores.
Outros fatores, embora com menor peso, também são considerados fatores de risco, como: primeira menstruação precoce, menopausa tardia, gestação após os 30 anos de idade, uso prolongado de hormônios sexuais, obesidade, vida sedentária, uso frequente de bebidas alcoólicas e tabagismo, estresse, má alimentação, exposição excessiva à radiação, etc.
Ou seja, eliminar estes fatores é uma forma válida de praticar a prevenção. “Com práticas saudáveis é possível reduzir a probabilidade do câncer de mama, no entanto, mesmo mantendo esses hábitos as mulheres ainda estão sujeitas a desenvolverem a doença”, explica a ginecologista. Ela complementa que o câncer de mama, assim como os demais tipos de câncer, é resultado de mutação genética, que pode ser herdada ou então espontânea, como ocorre na grande maioria dos casos.
Portanto, o autoexame é somente uma das ferramentas para se detectar alterações mamárias. Ainda mais importante que ele, é visitar o ginecologista pelo menos uma vez ao ano, para que seja feito o exame clínico. A mamografia deve ser realizada, anualmente, após os 40 anos de idade, sempre complementada pela ecografia. Somente deverá ser realizada abaixo dos 40 anos em pacientes com antecedentes familiares.
“A realização regular dos exames deve estar entre as boas práticas para reduzir o risco de mortalidade por câncer de mama”, aconselha a ginecologista Angela.

E você, já realizou o autoexame neste mês e a mamografia neste ano?

Câncer de mama: é melhor prevenir do que remediar

Quanto antes houver a descoberta do câncer de mama, maiores serão as chances de sucesso do tratamento. Portanto, a fim de inspirar mulheres a realizarem mamografia e exames de rotina, contamos a inspiradora história de Sandra Regina Medeiros da Silva, vencedora da batalha contra o câncer de mama e profissional da área da saúde, de Itapoá-SC.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

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Formada em Enfermagem pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Sandra viveu boa parte de sua vida na cidade de Joinville-SC, onde se casou, teve duas filhas e deu os primeiros passos na profissão. Durante seis anos trabalhou no Hospital Municipal São José, já em 1990, começou o trabalho na Maternidade Darcy Vargas, onde atuou por 25 anos, entre os setores de obstetrícia, administrativo e ambulatório. Na maternidade, Sandra criou e coordenou diversos projetos e campanhas de melhoria de qualidade.
Para a enfermeira, trabalhar na área da saúde é poder enxergar a vida com outros olhos.

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A história de Sandra Regina Medeiros da Silva com o câncer de mama ressalta a importância da prevenção. Na foto com parte da sua equipe da Secretaria de Saúde do município.

“A essência de nosso trabalho é cuidar das pessoas para manter e reestabelecer sua saúde. Para seguir esta profissão é imprescindível gostar de lidar com pessoas e ter preparo emocional para confortar pacientes em situações de bastante fragilidade. Trabalhar na área da saúde, com certeza, fez com que me tornasse uma pessoa melhor, mudou meu olhar para as pessoas melhor e me incentivou ainda mais a cuidar de minha saúde”, fala.

Sempre realizando exames de controle, em dezembro de 2009, Sandra teve uma surpresa. Notando algo estranho, o médico solicitou exames de ultrassom, mamografia e biópsia (remoção de fragmento de tecido ou outro material de um organismo vivo para fins diagnósticos).

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Os exames, então, detectaram células malignas em todo o quadrante da mama direita. E, aos 50 anos de idade, Sandra, que já havia amamentado suas duas filhas e não possuía histórico de câncer na família, estava diante do diagnóstico positivo de câncer de mama.
“Nestes momentos, não importa se você é forte, tem autoestima, trabalha na área da saúde ou não. Você é um ser humano como outro qualquer”, comenta Sandra, “felizmente, recebi muito apoio de minhas filhas e de meu marido, que sempre pensou positivo e me incentivou a seguir em frente”.

O processo de Sandra foi bastante rápido: da descoberta do câncer até a cirurgia de mastectomia (excisão ou remoção total da mama) levou pouco mais de um mês. E, em um único dia, ela realizou a retirada da mama e o implante da prótese. Vale ressaltar que o principal fator que fez com que Sandra descobrisse o câncer de mama logo no início, não precisasse fazer sessões de quimioterapia ou radioterapia, e tratasse a enfermidade depressa foi seu antigo hábito de fazer exames religiosamente.

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Desde o diagnóstico até a recuperação da cirurgia, Sandra enfrentou momentos difíceis. “Mesmo depois que obtive a cura, vivi por aproximadamente cinco anos muito assustada, temendo correr o risco de recidiva (reaparecimento) do câncer”, conta. Para prevenir-se, após a cirurgia, além de sessões de fisioterapia, Sandra realizou exames de controle de três em três meses e, depois, de seis em seis meses. Ainda, tomou medicação via oral durante cinco anos.

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Atualmente, aos 59 anos de idade, quase nove anos após a descoberta do câncer de mama, Sandra realiza exames de controle anualmente, uma vez que médicos constatam que, dez anos após o câncer, a chance de uma metástase (formação de uma nova lesão tumoral a partir de outra) é reduzida. Ela, que hoje reside em Itapoá e contribui para a saúde do município, continua realizando exames de rotina e levando as lições da experiência. “Passar por um câncer nos ensina muitas lições.
Hoje, muitas coisas perderam o significado para mim, enquanto outras ganharam”, diz Sandra, que venceu o câncer de mama graças à prevenção.

 

História: Memórias de uma antiga Itapoá

No mês das mulheres, contamos a história de três mulheres fortes e vividas: as irmãs Elisa dos Santos Silva (83 anos), Pureza dos Santos Silva (75 anos) e Maria Porfírio da Costa (68 anos), mais conhecida como dona Lica.
Nascidas e criadas no município de Itapoá (SC), mais precisamente na Barra do Saí, sua família foi uma das pioneiras da região – o que, é claro, nos rendeu boas histórias e muitas memórias.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

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Da esquerda para a direita, as irmãs Maria Porfírio da Costa (a dona Lica), Elisa dos Santos Silva
e Pureza dos Santos Silva. No colo, o retrato de seus pais Justina e Alexandre.

Tudo começou pelos falecidos Justina Alexandrina da Conceição e Alexandre Porfírio dos Santos, nascidos e criados em uma casa à beira da mata, na colônia do Saí-Guaçu, em Itapoá – o que indica que sua família ajudou a povoar o local. Não se sabe ao certo o ano em que isso aconteceu, pois, naquele tempo, as datas dos registros não tinham precisão.
Na comunidade, Justina e Alexandre tiveram seus seis primeiros filhos: Emanuel (que faleceu logo em seu nascimento), Inácio (falecido há três anos), as gêmeas Ana e Maria (falecidas com sete meses de vida), Luzia (que vive em Guaratuba, aos 85 anos de idade) e Elisa (uma de nossas entrevistadas). Certo dia, em busca de novos ares, a família deixou a colônia e, em uma canoa, desceu o rio Saí-Guaçu abaixo, para viver na Barra do Saí.

Do lado de cá
Chegando ao destino final, precisavam de um lugar para viver. Dona Elisa explica como acontecia antigamente: “Para morar em um lugar já habitado, era preciso pedir permissão à pessoa mais velha que ali vivia. Na época, o mais antigo era Pedro Franco. Ele, então, permitiu que nosso pai demarcasse um terreno e construísse uma casinha para nossa família”.
Já na Barra do Saí, Justina e Alexandre tiveram mais quatro filhos: Antônia (que faleceu com um ano de vida), Luiza (falecida há 21 anos), Pureza e Maria (as duas últimas, também entrevistadas).
Naquele tempo, da Barra do Saí até a Figueira do Pontal, a maioria das famílias vivia de duas atividades: a roça e a pesca. As crianças, por sua vez, pouco desfrutavam da infância, pois ajudavam seus pais desde muito cedo, seja socando o arroz no pilão, cozinhando para a família, cuidando dos irmãos mais novos ou plantando e colhendo alimentos na roça.
Estudo também era sinônimo de luxo. Dona Elisa, a mais velha, estudou durante três meses em uma escola de Coroados, em Guaratuba (PR) – o acesso era feito a pé, pela praia, e de canoa, pelo rio. Já as irmãs Pureza e Lica receberam estudo de professoras que chegavam a Itapoá e lecionavam nas casas das famílias.

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Dona Elisa foi a primeira costureira da Barra do Saí e até hoje orgulha-se ao mostrar uma de suas máquinas de costura.

Costumes
Dentre as lembranças das brincadeiras de criança, as irmãs gostavam de pular corda, aparar peteca e brincar de roda. “Também brincávamos de esconder bolo. A brincadeira era assim: segurando uma varinha, uma criança pedia aos colegas que procurassem ingredientes na natureza, como folhas de laranja ou de mamona, para fazer um bolo de brincadeira. A criança que chegasse atrasada ganhava uma varada. Depois, escondíamos o bolo debaixo da terra e todos tinham que procurar”.
Católica, a família rezava na rua, em um campal, onde havia uma cruz, e os filhos tinham o costume de pedir bênção aos mais velhos. “Quando uma criança aprontava, apanhava com vara de cipó. Mas, comigo, isso aconteceu uma só vez, pois amava e respeitava muito o papai e a mamãe (modo carinhoso que as irmãs referem-se até hoje aos seus pais)”, conta dona Lica. As benzedeiras também eram parte da crença popular. “Cobreiro, quebrante, vermes ou dor de barriga, não havia nada que uma benzedeira, um chá de erva ou um homeopata não curassem”, complementa dona Lica.
As irmãs mais novas aprenderam a confeccionar cestos e balaios de cipó. Também, pescavam no rio e pegavam caranguejo e marisco no manguezal. “Antigamente, os peixes existiam em abundância em nossos rios”, contam. Diferente das irmãs, o passatempo favorito de Elisa era costurar e fazer crochê, atividades que aprendeu apenas observando suas vizinhas. “Aprendi a fazer crochê aos cinco anos e, aos dez, costurei meu primeiro vestido”, conta Elisa, que fazia roupa para as irmãs e as vizinhas, com anarruga, faile, itamina e fustão – tecidos populares da época.
Em um tempo onde não existia massa de pão, a comida tradicional da família dos Santos Silva era arroz, toucinho de porco, gengibre e carne de passarinho. “Felizmente, nossas mesas eram fartas de comida, principalmente antes de ir para a roça”, lembra dona Pureza. Desde a juventude, os pratos favoritos das três irmãs são mocotó com rabada, caldo de peixe e feijoada com carne cozida.

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A simpática dona Pureza cuidando
de suas plantas, na Barra do Saí.

Histórias
Na boca do povo estavam lendas como O Homem da Mão Peluda, que se escondia na mata e pegava as crianças que andassem sozinhas à noite, e o Boitatá, uma grande cobra que lançava fogo. Certa noite, Elisa, que se considera a mais “marvada” (como costumam dizer) entre as irmãs, estava caminhando pela praia e, com um facho que soltava faíscas, assustou o povoado: “Eu dava voltas e voltas no escuro, com o facho faiscando. Todo mundo saiu correndo, achando que era o Boitatá. No dia seguinte, só se falava disso, e eu fingi que não sabia de nada. Hoje, só conto essa história porque aquela gente já se foi”.
Ela também recorda uma noite em que seguiu sua mãe pela beira da praia, para ver um barco que havia encalhado: “Pelo caminho, desviei de pontos vermelhos muito brilhantes, que acreditava serem brasas do cachimbo da mamãe. Mais tarde, conversando com ela, descobri que seu cachimbo não estava aceso e desconfiamos de que eram diamantes”. Naquela época, muito se falava sobre pratas, ouros e pedras preciosas que existiam próximas aos sambaquis – mas nunca alguém, de fato, as achou.
Assim como cada volta do Rio Saí Mirim, as donas Pureza, Lica e Elisa contam que, a cada 1000 metros, as praias de Itapoá recebiam nomes específicos, que foram agrupados com o tempo. Começando pela Barra do Saí, eram eles: Abreu, Crispim, Arrancado, Roxo, Camboão, Mendanha, Ilha do Meio, Ariel, Lagoinha, Lorato, Itapoá, Morretes, Barra do Rio, Ana Rosa, Ponta do Pontal, Pontal, Piçarras e Figueira. Diferente do que muitos imaginam, a praia da antiga Itapoá era quase inacessível. “Antigamente, a praia era cercada por mata fechada. Era a coisa mais linda, mas também era muito perigoso. Hoje, morando no mesmo lugar em que cresci, percebo que a praia parecia muito mais distante, graças às árvores e plantas que existiam para chegar até lá”, lembra dona Lica.
Tradicionais eram as festas e fogueiras para Santo Antônio, São Pedro e São João. Dona Elisa lembra os bailes caipiras, de Carnaval e de Páscoa: “eram muito mais divertidos, pois hoje em dia não é dança, é pulo”. Segundo as irmãs, ao bater todo o arroz (procedimento para retirar o grão do cacho), o alimento era sacado e o salão ficava livre para o baile, que acontecia até o amanhecer. Assim como sua mãe, dona Pureza adorava dançar. Fandango, Tonta, Chamarrita, Passeado, Xote, Vaneira, Manzuca e Meia Arcanja eram as modas musicais da época. “Quando chegava a Tonta, as moças sabiam que a Chamarrita vinha logo em seguida. Por isso, havia um versinho que dizia: ‘quando chega a Tonta, Chamarrita na ponta’”, recorda dona Lica, que tem memória boa para os versos de antigamente.

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A mais nova das irmãs, Maria Porfírio da Costa, conhecida como dona Lica, em frente ao terreno onde cresceu e mora atualmente.

De geração em geração
Naquele tempo, um aperto de mão era sinônimo do início de um namoro. Como a maioria dos antigos, Elisa, Pureza e Lica também se casaram com o primeiro namorado e conheceram seus esposos (hoje, já falecidos) nos tradicionais bailinhos. Já o parto dos bebês era feito com as famosas parteiras. Dona Pureza recorda: “Quando a bolsa da gestante estourava, o marido ia de bicicleta buscar a parteira, que vinha na garupa. Somente no nascimento do bebê que descobríamos o seu sexo”. Para entender a árvore genealógica dessa grande família, é preciso citar um a um (quem sabe, nossos leitores não identifiquem alguns conhecidos?).
Elisa se casou quando tinha 15 anos de idade com Álvaro Emídio da Silva. Seu sogro, Euclides Emídio da Silva, foi um imigrante que chegou a Itapoá em 1922, sendo um dos primeiros homens a habitar a região da Barra do Saí – daí o nome da conhecida Escola Municipal Euclides Emídio da Silva. Juntos, Elisa e Álvaro tiveram seis filhos: Ezequiel Domingos da Silva, Eurides José da Silva (já falecido), Rosi Elisa da Silva (já falecida), Álvaro Luiz da Silva (também já falecido), Alexandre dos Santos Silva e Euclides Emídio da Silva Neto.
Já Pureza, se casou aos 16 anos com João Pedro da Silva. Tiveram oito filhos: Madalena da Silva, João Alexandre da Silva, José Afonso da Silva, Antonio Santos da Silva, Fernando da Silva, Rosa da Silva, Maria da Silva e Pedro Paulo da Silva (os três últimos já falecidos).
Por fim, Maria, a dona Lica, também se casou aos 16 anos de idade. Seu parceiro foi Alirie Félix da Costa, com quem teve seis filhos: os gêmeos Dulcenéia da Costa e Dirceu da Costa, Davi Porfírio da Costa, Doval da Costa, Dorival da Costa e Daniel da Costa.
Vale lembrar que as três irmãs se casaram na igrejinha da comunidade Saí-Guaçu e todos os vestidos de noiva foram confeccionados pela primeira costureira da Barra do Saí: dona Elisa.

Vida moderna
Além do pioneirismo na costura, dona Elisa também foi a primeira merendeira da antiga Escolinha da Barra e a primeira funcionária do Posto de Saúde da Barra, quando o município ainda pertencia a Garuva (SC). Pureza, por sua vez, trabalhou durante trinta anos como confeiteira, suprindo toda a comunidade com seus pães, doces e bolos. Já Maria, a Lica, trabalhou no antigo restaurante Cabana da Barra, em uma banca de camarão e como zeladora das casas de turistas – atividade que mantém até os dias atuais.
Se dedicássemos um dia inteiro para conhecer as histórias destas simpáticas senhoras, ainda assim, seria pouco. Mas, em uma tarde, tivemos o prazer de ouvir alguns de seus causos, saber mais sobre sua família e sobre a Itapoá de tempos remotos. É bom ressaltar que Pureza e Elisa são tias-avós e dona Lica é avó de quem vos escreve – o que deixou esta tarde de descobertas ainda mais especial.
Nos dias atuais, tudo mudou: dona Lica e dona Pureza têm aparelhos celulares, e dona Elisa liga a sua televisão para assistir à novela. Mas, mesmo com o avanço tecnológico, sentem saudade do passado: “As pessoas viviam com muito pouco e se sentiam muito mais completas e felizes. Tinham empatia umas pelas outras e os vizinhos eram como irmãos. Hoje, com tanta maldade, percebemos que o amor esfriou da face da terra, mas ainda é preciso ter fé, para que ele viva dentro de nós”.

Projeto empodera e incentiva mulheres a empreenderem

Cansada dos machismos diários e lembrando seu esforço para conquistar espaço na profissão, a designer de moda e empreendedora Mara Novaes Lanave, de Itapoá (SC), criou o projeto “Dela pra Elas” – que tem como propósito criar logotipos para ajudar mulheres a serem mais independentes em seus negócios.

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Mara Novaes Lanave é designer de moda, empreendedora e feminista. Na imagem, uma de suas estampas para pano de prato.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

Ao longo de sua vida, Mara ouviu por diversas vezes que não conseguiria ser uma mulher bem-sucedida. “Ouvia absurdos que eram proferidos, inclusive, por outras mulheres. Coisas do tipo ‘você não é capaz nem de comprar um pão com seu próprio dinheiro’ me deixavam tristes e faziam com que me sentisse burra”, recorda. Mas o tempo passou e ela formou-se em Design de Moda, tornou-se estilista e ilustradora de estampas, trabalhou para grandes marcas, como Zara, Renner, C&A, Levi’s e Brooksfield, criou a marca Pássaro Digital (com ilustrações digitais, artes para estampas, identidade visual e papelaria personalizada), o Studio Personaliza (com foco em produtos personalizados para festas) e, há pouco tempo, tornou-se empresária, com a Lanave Embalagens.
Ainda assim, sofria certos machismos diários. “Uma mulher empreendedora enfrenta situações que um homem empreendedor desconhece. Muitas vezes chegam à loja e me perguntam ‘onde está o dono?’, descartando a possibilidade de que eu também seja a dona”, fala. Empática com outras do mesmo gênero, tem apenas funcionárias mulheres. “Exceto na força, a capacidade intelectual e a dedicação de uma mulher em seu trabalho são iguais ou até melhores que de um homem”, diz. Contudo, Mara desejou fazer ainda mais pelas mulheres.

Dela pra elas

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Lembrando seu esforço para conquistar espaço e obter sucesso na profissão, a designer desejava criar um projeto onde pudesse ajudar, de alguma maneira, outras mulheres a serem mais independentes em seus negócios. Mas as questões eram muitas: como poderia ajudar, incentivar, dar ânimo, algo que faça essa mulher sonhar, empreender e realizar? “Então, notei que muitas de minhas clientes eram artesãs, confeiteiras e outras tantas profissionais excelentes, mas seus trabalhos não apresentavam identidade visual”, lembra Mara, que encontrou a solução: desenhar os logotipos que usariam em seus negócios. Em outras palavras, transformar o que estava em seus pensamentos em algo real, mais concreto e afetivo.
Assim, nasceu há cerca de um ano o projeto voluntário “Dela pra Elas”, com o intuito de empoderar mulheres empreendedoras, garantindo a decisão sobre seus negócios e suas vidas. Após a criação dos primeiros logotipos, a iniciativa fez sucesso entre as empreendedoras do município de Itapoá. A criadora explica: “Parece um simples desenho, mas gera motivação para que a mulher continue a batalhar pelo seu espaço. Além disso, o projeto tem um pilar afetivo, pois desejo, de todo o coração, que essas mulheres apresentem um trabalho mais bonito e se deem bem”.

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Resultados positivos
Entre as inúmeras profissionais de Itapoá beneficiadas com o projeto, ou seja, que ganharam logotipos para seus negócios, estão Julyana Satie da Silva, da “Julyana Satie Brigadeiros”, Jamille Franco, das “Delícias da Jama Diet”, e Wal Garcia, do “Wal Garcia Atelier”.
Julyana conta que sempre teve receio de tentar algo, por medo de falhar. “Dede que comecei a fazer doces com o dom que Deus me deu, a Mara sempre acreditou em mim e nunca me deixou desistir. O que deixou minha logo ainda mais especial foram o carinho e o amor que ela depositou em sua criação”, fala. Para Julyana, Mara é exemplo de força e determinação, e realiza um trabalho muito importante ao encorajar mulheres de Itapoá.
Já Wal, conta que o momento em que o projeto “Dela pra Elas” apareceu foi bastante oportuno, pois se encontrava desanimada com suas vendas no município. “Quando ela disse que faria minha logo, foi como tomar um ‘chá de ânimo’. Desde que ganhei uma arte para meu negócio, fiquei com um sentimento bom e, consequentemente, transferi isso para meu trabalho”, conta. Pelo simples fato de ganhar uma “cara nova” em sua página, Wal aumentou sua rede de clientes e contatos.
Não diferente das outras profissionais, Jamille também se diz incentivada por Mara, desde quando cogitou a montar um negócio até a criação de sua logo e seu cardápio. E complementa: “Mais do que uma designer, ela é o incentivo em pessoa. É um ser humano ‘mara’, como o próprio nome já diz”.

Vínculo
Por realizar esse trabalho de forma gratuita, Mara confessa que já ouviu críticas de profissionais que têm como ganha-pão a criação de logotipos e artes em geral. “Àqueles que se chateiam com as criações, tento explicar que essa ação acontece como a ponta de um sonho que se inicia. Mesmo que eu me dedique para cada logotipo, tenho qualidades e intenções diferentes daqueles que vivem desta atividade”, explica.
Mais do que conhecer seu trabalho, saber dos seus sonhos e gostos e desenvolver um desenho, Mara criou vínculo com todas as mulheres do projeto “Dela pra Elas”. Assim como a doceira Julyana, muitas procuram a designer até hoje para pedir opinião ou dar um conselho a respeito do trabalho. Para Mara, fortalecer estes laços é multo importante: “As mulheres precisam ser mais unidas, solidárias e empáticas umas com as outras. É essa a mensagem que pretendo passar com o projeto. Uma mensagem ‘dela pra elas’”.

É mulher, tem o sonho de empreender e precisa de um logotipo para seu negócio? Entre em contato com Mara através do perfil “Mara Novaes Lanave”, no Facebook.