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Barra do Saí: A primeira praia de Santa Catarina

 

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Com uma beleza única, a Barra do Saí faz divisa com o município de Guaratuba e dá boas vindas ao estado catarinense. Do outro lado do rio o litoral paranaense continua com o mesmo nome, mas cada praia tem sua particularidade.

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Sem dúvida esta é uma praia eclética: reúne as tradicionais canoas de pescadores com embarcações de esportes náuticos, reúne o verde da mata nativa com a areia branca, a água doce do rio com a salgada do mar. É neste balneário que o rio Saí Mirim, que percorre toda a cidade, desemboca na imensidão azul. Assim, tem lugar para todas as atividades: banho, surfe, jet-ski, barcos, pesca, caiaque ou qualquer outra coisa que se possa imaginar.

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Em virtude disso, este é um dos destinos para aulas práticas de arrais amador, mestre amador e motonauta (jet-ski) da Navegar Cursos Náuticos de Curitiba. Conforme os instrutores, Nelson Cavalaro e Moisés Carvalho de Paiva, este é um ótimo local para ministrar as aulas, especialmente pela versatilidade. “Às vezes subimos o rio, às vezes vamos para alto mar”, conta Nelson, aposentado da marinha.
Para tirar carteira de arrais são necessárias aulas teóricas e 6h de aulas práticas.
Os amigos de infância da capital paranaense já conheciam Itapoá, mas no curso conseguiram perceber ainda mais as belezas naturais que os encantam. A Barra do Saí, segundo eles, tem grandes peculiaridades. Além dos novos encantos, saíram daqui com novos conhecimentos: no rio só se pode andar em baixa velocidade e, para fazer manobras, é preciso estar a 200 m da praia.
Só que a Barra vai além do encontro do rio com o mar. Na praia, por exemplo, as boas ondas para surfe são cartão postal. Por ser mais distante da área central do município, esta praia é mais procurada por veranistas que tem casa ou surfistas. Também, diferente da região central, os pontos de comércio não são tão frequentes. Uma boa dica é o açaí na tigela que pode ser apreciado em dois pontos diferentes: na beira da praia ou na beira do rio, na reserva de manguezal.
Depois do rio Saí Mirim, onde as embarcações de pescadores seguem para o mar, uma praia deserta ainda faz parte do município itapoaense.

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Conforme Carlos José Semtome, presidente da APREMAI e proprietário do Barra do Açaí, muitos surfistas vão até esta praia para aproveitar as boas ondas e, entre as dunas dessa área, visitantes andam de caiaque ou stand up entre a natureza intacta.

Evaldo Speck: Memória que vale ouro

Grande parte da história do Saí Mirim foi vivenciada por ele, nasceu e durante toda a vida morou na comunidade. É o patriarca da família mais tradicional na região e neto de um dos primeiros colonizadores do Saí Mirim. De forma bem genérica podemos definir assim a vida de Evaldo Speck.

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Evaldo Speck guarda com carinho as lembranças do time Cruzeiro.

Augusta Gern

Com uma valiosa memória e muita simpatia a conversa interrompeu o descanso depois do almoço e nos fez viajar por uma remota Itapoá. Tudo começou em 1914 quando seus avós, Germano e Ana Speck deixaram o município de Pedras Grandes, no sul do estado, e chegaram a Itapoá, mais precisamente no Saí Mirim. Conforme Evaldo, os avós souberam de uma colonização na região e vieram atrás de trabalho. Assim, ali seu pai nasceu, cresceu e conheceu sua mãe. E em 1932, exatamente 82 anos atrás, Evaldo nasceu.

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Casa dos avós de Evaldo, feita de madeira, argilha e palha.

Sua vida sempre foi na roça, já trabalhou com arroz, banana, pinus, eucalipto e há alguns anos tem uma serraria, que oferece madeira para quase todos os materiais de construção do município.

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Serrareria da família.

Até chegar o crescimento e o desenvolvimento, teve uma vida com bastantes dificuldades. “Para comprar qualquer coisa tínhamos que ir caminhando até a Vila da Glória e a remo atravessávamos a Baía até São Francisco do Sul”, conta. Durante a Segunda Guerra Mundial lembra que todos ficaram um bom tempo sem conseguir comprar querosene e sal: “tínhamos que nos virar”. Neste tempo estrada era luxo, eram apenas picadas.
Este relato se assemelha muito ao casal Loli e Laura Gerker, do Braço do Norte. Esperado ou não, o entrelaçamento de famílias não é recente, sua falecida esposa, Brandina Fernandes Speck era do Braço do Norte, irmã de Laura. Assim, é difícil que as histórias não se repitam, não se unam e não formem uma grande família. Evaldo também passou por São Francisco do Sul, Garuva até Itapoá efetivamente se emancipar.

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Um ponto muito curioso de sua vida e de toda a comunidade foi o surgimento do time Cruzeiro. Fundado em 1955, Evaldo foi diretor por 30 anos. Fotos antigas revelam as diferentes gerações que nele jogaram, tanto masculina como feminina. Em sua casa um quarto é reservado para os troféus, que não são poucos. Desde o primeiro título municipal até os torneios menores, fica difícil sugerir quantas dezenas de troféus preenchem o cômodo. Além das fotos e títulos, um armário também guarda de forma muito organizada quase todas as camisetas do time. “Algumas se perderam com o tempo, mas a maioria está aí”, afirma.
Evaldo conta que em 1955 já existiam torneios municipais, mas as coisas eram bem diferentes: quando iam jogar no balneário Itapema do Norte, por exemplo, não dava para ir e voltar no mesmo dia. “A gente ia caminhando até o Pontal e depois pela praia seguíamos até Itapema do Norte”, lembra. Apesar de não ter participado em campo nos campeonatos, sempre que podia treinava junto com os titulares do time. O futebol sempre foi uma paixão. E esta paixão é seguida pela comunidade até hoje: apesar do time não existir mais há anos, todos os domingos e às vezes durante a semana moradores do Saí Mirim se reúnem para “bater uma bolinha”.
Outro marco importante foi a participação na abertura da estrada em 1957. Junto com Dórico Paese, Evaldo trabalhou no meio do mato para tornar aquele sonho uma realidade. “Dórico trabalhava mesmo com pá e não era fácil acompanha-lo”, conta.

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Suas lembranças afirmam que sempre esteve envolvido nas negociações e projetos para melhorar a cidade. Na época da luta para emancipação do município, Evaldo também esteve presente na capital do estado e acompanhou as discussões políticas. Hoje lamenta escolhas, para ele mal feitas: “Por que colocaram o nome dessa estrada para uma pessoa que rejeitou o município no momento de sua criação? Enquanto isso Dórico Paese, que lutou por Itapoá, não tem nem sequer o nome de uma rua”, fala. Datas e nome de pessoas envolvidas são muito bem lembradas, como se o ocorrido fosse ontem.
Além disso, Evaldo também recorda muito bem antigas paisagens do Saí Mirim. A casa de seus avós, por exemplo, além de estar registrada em uma foto original, permanece em detalhes na sua memória: “era uma casa de madeira, argila e palha, naquela época não havia tijolos por aqui”. A Escola Municipal Alberto Speck existe há muito tempo, desde o tempo em que Itapoá pertencia a São Francisco do Sul: “antigamente era chamada de Prainha do Saí”. Também são muito antigos o Posto de Saúde da Família e a igreja, ponto de encontro para muitos eventos da comunidade. “Antes a igreja era de madeira e tinha duas torres, mas como o vento acabou derrubando as torres, construíram uma nova igreja no local que se encontra atualmente”, recorda sua filha mais nova, Silmara Speck dos Santos, que também nasceu e mora na localidade.
Assim, entre filhos, netos e muitas lembranças, Evaldo aproveita a vida no Saí Mirim. Para ele, a localidade é um bom lugar para se viver, por isso mesmo completa seus 82 anos no mesmo local, seguindo a tradição da família Speck. Conforme Silmara, para setembro, quando se completam os 100 anos dos Speck no Saí Mirim, estão programando uma bela festa para celebração. É tradição que vale mesmo bastante comemoração.

Matéria publicada na Revista Giropop – Edição 16 – Maio/2014

A 5ª geração de uma tradição

No jardim o pé de carambolas está cheio, na cozinha é preparada a culinária alemã e, na comunidade onde vive está a sua família. Nascida e criada no Saí Mirim, Jéssica Speck dos Santos, 19 anos, faz parte da família mais tradicional da comunidade.

Augusta Gern

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Há 100 anos seus tataravôs Speck chegaram e iniciaram a história que hoje torna grande parte da localidade uma só família. Avô, tios, primos e tantos outros familiares moram na vizinhança.
Jéssica é daquelas meninas que teve uma infância invejada. Subir em pés de árvores, conhecer diferentes animais e diferentes plantas, correr e pular à vontade, e o melhor: tudo nas redondezas de casa. Filha única, ela conta que sempre brincou muito com seus primos e fez dali um parque de diversões.
Diferente da comunidade vizinha Braço do Norte, no Saí Mirim a internet chegou há alguns anos e o celular pega razoavelmente, dependendo da operadora e o local em que se está. Porém, as dificuldades para o estudo também não foram poucas. O primeiro grau foi todo realizado na escola municipal da própria comunidade, Alberto Speck. Depois, no ensino médio Jéssica passou para a Escola Nereu Ramos, onde dependia do transporte escolar. Estudou na mesma época em que estavam asfaltando a SC 416 e durante alguns dias o trânsito era quase impossível.

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Jéssica com o avô Evaldo e a mãe Silmara.

“Como a maioria do pessoal estudava a noite, pela manhã erámos poucos no ônibus e muitas vezes ficamos no caminho”, conta. Segundo ela, muitas vezes os vizinhos agricultores os “salvavam” no trajeto com o caminhão dos produtos que comercializavam.

Além disso, alguns apelidos e brincadeiras pelo local onde vivia sempre a incomodaram, esta foi a única fase que quis sair do campo e morar na praia. Fora isso, a comunidade sempre foi muito amada e hoje faz parte dos planos da futura fisioterapeuta.
Além de fazer faculdade e apreciar as belezas do Saí Mirim, junto com sua mãe, Silmara Speck dos Santos, Jéssica está sempre envolvida nos eventos da família e da comunidade. Ali o que não faltam são encontros de família e jogos de futebol. Quase todos os finais de semana a conversa e risadas reúnem boa parte dos Speck. Também não se pode negar a boa mão para doces: chocolates, docinhos e até bolos saem daquela casa como nenhuma outra.
Assim, em uma rotina tranquila e cheia de sonhos, segue sua vida na amada comunidade. Para Jéssica, mais do que conhecer bastante gente, a tranquilidade e simpatia do local agradam muito. “Aqui você sai na rua e sempre recebe um bom dia, diferente de cidade grande, onde ninguém se olha”, fala.

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Os avós de Evaldo foram os primeiros a chegar a comunidade.

Para ela, isso e a liberdade de se viver junto à natureza fazem do Saí Mirim um lugar perfeito para viver. A localidade também já conquistou seu namorado e a expectativa é que daqui alguns anos mais uma geração da família cresça no Saí Mirim.

Matéria publicada na Revista Giropop – Edição 18 – Maio/2014

Itapoá segundo os Manoéis

No “Quem É?” conhecemos a história de duas personalidades marcantes e antigas do município: Manoel Caldeira, também conhecido por Seu Maneco, e Manoel Perez da Silva, também conhecido por Manoel Quati. Amigos de longa data, o primeiro foi criado na região da Barra do Saí, enquanto o segundo foi criado próximo ao morro da comunidade do Saí Mirim. Além do primeiro nome, os Manoéis desta pauta têm em comum o amor por Itapoá e suas histórias de vida, que se confundem com a história do município.

O primeiro Manoel, o Caldeira

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‘‘Nós amanhecemos no rio e anoitecemos no rio’’, fala seu Maneco.

Também conhecido por Seu Maneco ou Seu Caldeira, Manoel Caldeira, natural de Itapoá, mora na Barra do Saí, tem 84 anos e uma porção de histórias. Ele não sabe ao certo se a origem de sua família é portuguesa ou espanhola, mas conta que seus avós chegaram ao Brasil de navio. Seu pai, Aristides Caldeira, nasceu e cresceu em Guaratuba e, aos 25 anos, passou a residir em Itapoá, onde conheceu sua mãe, Maria Clara, na comunidade do Saí Guaçu, do outro lado do rio. Eles se apaixonaram e, então, Aristides trouxe Maria para morar na comunidade do Saí Mirim, em Itapoá. Juntos, tiveram quatro filhos: duas mulheres e dois homens; Manoel foi um deles.
Ele é do tempo em que não havia quase nada em Itapoá. “O rio era a estrada. Para irmos às cidades vizinhas, só de canoa”, recorda. Grande conhecedor do município, Seu Maneco diz que já ouviu muitas pessoas afirmando que sabem tudo sobre Itapoá e, quando isso acontece, ele lhes desafia: “Você sabe onde fica a Volta da Figueirinha ou do Bananá, no Rio Saí Mirim? Se não sabe, não conhece tudo”.
De acordo com Seu Maneco, antigamente, cada volta do Rio Saí Mirim possuía um nome específico, batizado por moradores locais. Para nos explicar melhor, desenhou as curvas do rio no chão de sua casa. Partindo da sua foz, na Barra do Saí, recordou cada nome, são eles: Ostra, Tetequera, Ostrinha, Poço Novo, Marca, Poço de Baixo do 2000 (que leva esse nome porque, no local, foram pescadas 2000 tainhas), Poço de Cima do 2000, Volta do Jaruvá, Volta Comprida do Bugio, Poço do Bugio, Piçarrão, Volta Comprida do Piçarrão, Volta do Quati, Poço da Figueirinha de Baixo, Poço da Figueirinha de Cima, Volta Comprida da Figueirinha, Poço Redondo, Volta do Poço da Coroa, Volta da Pistola, Poço do Crispim, Volta da Goiaba, Poço do Piri, Volta do Arrancado de Baixo, Volta do Arrancado de Cima, Volta da Timbuva, Volta do Piçarrão (localizada na ponte de cimento da estrada Cornelsen), Volta do Bananá, Volta Comprida do Bananá e Passa-macaco. A partir desse ponto, Seu Maneco não se recorda dos nomes das voltas do rio e diz que quem o sabe é seu amigo, o Manoel Perez.
Assim como cada volta do Rio Saí Mirim, ele diz que, a cada 1000 metros, as praias de Itapoá têm nomes específicos, não encontrados. Começando na Barra do Saí, são eles: Abreu, Crispim, Arrancado, Roxo, Camboão, Mendanha, Ilha do Meio, Ariel, Lagoinha, Lorato, Itapoá, Morretes, Barra do Rio, Ana Rosa, Ponta do Pontal, Pontal, Piçarras e Figueira.
Sua infância foi difícil. Com apenas 8 anos de idade, Manoel levava cinco crianças menores para estudar na Barra do Saí de Guaratuba, todos os dias, de canoa. “As outras crianças aprenderam uma coisinha ou outra, mas eu não aprendi nada, pois tinha que conduzir a canoa e ainda cuidar delas”, diz. Já aos 11 anos, seu pai, que era pescador e navegador, veio a falecer, e Manoel passou a ajudar no sustento da família, trabalhando na roça e na pesca. Ele conta que, antigamente, era no rio que os pequenos aprendiam as coisas da vida, como a se defender do perigo.
Certo dia, observou o cunhado construir uma canoa, e fez uma, também. “Batizamos minha primeira canoa de ‘só ela’, pois brincávamos que ela era ‘feia, que só ela’”, conta Seu Maneco, que, mais tarde, se tornou construtor de barcos, canoas e remos para pesca. Ele diz que já perdeu a conta de quantas canoas, barcos e remos construiu, e que tem trabalhos espalhados nos rios e mares de todo Brasil.
Conforme relato, a construção dessas embarcações era feita à mão e durava aproximadamente um mês, passando por várias etapas. As madeiras utilizadas eram guapuruvu, pela leveza e facilidade de entalhe, madeira guarataia, como, também, as madeiras guaruva, cauvi, imbiriçu, canela, que, segundo Manoel são madeiras da localidade. “A canoa e o barco de madeira já fizeram sua história, mas hoje em dia tudo é feito de fibra ou materiais muito mais resistentes”, diz.
Aos 84 anos, Seu Maneco é pai, avô, bisavô e tataravô. Ao longo de vida, casou-se três vezes e teve doze filhos, três deles já falecidos. Junto de sua atual esposa, Dulce Soares de Souza, reside na Barra do Saí, à beira do Rio Saí Mirim, ao lado de uma rampa de descida para o rio. Junto, o casal divide a rotina de pescar no rio. Diariamente, deixam mais de quarenta caixinhas de pesca pela água do rio e recolhem-nas para, depois, vender os peixes e camarões que foram fisgados. “Nós amanhecemos no rio e anoitecemos no rio”, fala Seu Maneco. De acordo com ele, ainda existem muitas espécies de peixes no Rio Saí Mirim, como tainha, escrivão, bagre, jundiá, traíra e robalo, no entanto, em menores proporções, já que, muito antigamente, ele costumava pescar cerca de cem tainhas todo dia.
Nas palavras de Manoel, sua atividade favorita atualmente é descansar, mas Dulce o desmente: “Ele, mesmo aos 84 anos, não para um minuto sequer. Está sempre pescando, tarrafeando, vendendo ou construindo uma coisa ou outra”. Sobre a lenda de uma grande cobra que vive no Rio Saí Mirim, a esposa de Manoel reza para que o marido nunca a encontre, pois é “corajoso feito um índio velho”, diz. Já Seu Maneco, afirma: “nunca tive medo dos bichos, só dos homens”.
Católico, ele também costuma assistir às missas na televisão e fazer promessas a seus santos. “Aqui em casa, até os passarinhos assistem à missa”, fala. Além do Rio Saí Mirim, a sua base de sustento, e da fé, o seu alicerce, o pescador gosta de criar pequenos versos. Para ele, nascer, crescer, fazer parte da história de Itapoá e viver à beira do Rio Saí Mirim é ter, todos os dias, inspiração.

 

O segundo Manoel, o Perez

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‘‘Ainda estou acostumado a me localizar pelos nomes antigos”, Manoel Perez.

Natural de Biguaçu-SC, quando moço, Pedro Perez da Silva passou a morar em Itapoá. No município, conheceu a itapoaense Maria Ana de Jesus. Juntos, tiveram quatro filhos: três mulheres e um homem – este último, Manoel Perez da Silva, também conhecido como Manoel Quati, protagonista deste texto.
Nascido no Saí Mirim, foi nesta comunidade que Manoel e seus irmãos cresceram. Seu pai era deficiente físico e fabricava redes, balaios e cestos para vender. Para ajudar a família, aos 10 anos de idade Manoel teve de começar a trabalhar na roça. “Tive uma vida muito difícil. Já passei fome e já trabalhei muito”, fala. Com exceção da irmã mais nova, os filhos de Pedro e Maria Ana, mesmo morando em frente a uma escola, não chegaram a estudar. “Eles nos mandavam trabalhar na roça, pois diziam que a escola não nos daria comida, mas o trabalho sim”, diz. De vida simples, Manoel recorda que era impossível saber a cor do tecido de suas roupas, pois quase sempre eram remendadas.
Quando criança, ganhou o apelido de Manoel Quati, pois costumava aprontar bastante e subir nas árvores para não apanhar da mãe. Ainda pequeno, ele andava pela mata do Saí Mirim cortando cipó branco para fabricar vassouras e vende-las. Para ajudar a família, também plantava aipim e arroz, roçava grama, fazia balaios e cortava palmito – atividades que aprendeu com o pai. Com uma canoa de madeira e um ônibus lata-velha, chegava até o centro de Itapoá, em Itapema do Norte, para vender os produtos em um armazém.
Entre suas lembranças mais marcantes sobre a antiga Itapoá estão a Primeira e Segunda Guerra Mundial. Na Primeira Guerra Mundial, Manoel era muito pequeno, mas recorda que seu avô foi morar no meio da mata do Saí Mirim para proteger os filhos até que a guerra terminasse. Já na Segunda Guerra, ele era moço e, quando deixava a comunidade do Saí Mirim para ir ao centro fazer compras, observava, no antigo Areião (região onde se encontra a Primeira Pedra), o acampamento de batalha de soldados que ficavam à espreita, vigiando os navios no mar. “Os soldados também se prontificaram para ensinar a ler e escrever àqueles que tivessem tempo e interesse”, conta, “muitos rapazes, na época, aprenderam com eles”.
Já na vida adulta, ele começou a pescar em alto-mar para vender em São Francisco do Sul. Para chegar a qualquer uma das cidades vizinhas, seja para vender produtos ou comprar remédios, Manoel narra que era preciso navegar durante um dia inteiro, com início na madrugada. Entre as idas e vindas pelo Rio Saí Mirim, Manoel Perez e Manoel Caldeira se conheceram e se tornaram amigos. Em seguida, casaram-se e perderam contato.
Pai de treze filhos, dois deles já falecidos, ele começou a cria-los no Saí Mirim, junto de sua primeira esposa. Mais tarde, Manoel trabalhou durante cinco anos na construção da estrada Cornelsen, abrindo a picada, e, quando o serviço foi concluído, passou a morar na região do Samambaial, onde vive na companhia de Reni Maria Faria, sua segunda esposa.
Assim como Manoel Caldeira, Manoel Perez também conhece cada volta do Rio Saí Mirim. Partindo da Volta do Passa-macaco (de onde Manoel Caldeira parou), ele segue listando os antigos nomes de cada região do rio: Volta do Poço do Cambiju, Volta do Quilombo de Baixo, Volta do Quilombo de Cima, Guarajuva, Volta do Piri, Reta da Boca do Braço do Norte, Volta do Ribeirão da Pedra, Canta Galo, Volta do Seu Fábio, Volta dos André, Volta dos Gonçalo, Volta do Gavina, Volta do Marcelo, Volta do Porto, até que se chega à ponte do Rio Saí Mirim.
Aos 81 anos de idade, Manoel afirma que desconhece a Itapoá dos dias atuais. “Dias atrás fui para o centro e quase me perdi, pois as localidades passaram a receber outros nomes e ainda estou acostumado a me localizar pelos nomes antigos”, fala. Apesar de tantas mudanças, Manoel diz que não sente saudade do passado. “A vida era, sim, mais tranquila, no entanto, era também mais sofrida”, conta. Ele, que sempre teve muita força de vontade para trabalhar, também gosta de ir a bailes, mas hoje, só deseja descansar.
Amigos de longa data, o tempo e a Itapoá atual afastaram os Manoéis desta história. Mas, o destino quis que a filha de Manoel Perez se casasse com o filho de Manoel Caldeira. E, neste mês de abril de 2017, a Revista Giropop promoveu este reencontro: de muitas histórias, lembranças e emoções, vividas por dois filhos desta terra tão querida chamada Itapoá.

Ana Beatriz Machado

Matéria publicada na Revista Giropop – Edição 51 – Abril/2017

 

Rio Saí Mirim: Conservar é preciso

Por sua expressiva biodiversidade e atrativos naturais de
beleza incomum, o Rio Saí Mirim encanta a todos.

Na época, presidente da ADEA – Associação de Defesa e Educação Ambiental, o secretário executivo da associação, Werney Serafini, foi um dos idealizadores do projeto mostra fotográfica “Saí Mirim do começo ao fim”. Participou, também, da equipe que realizou o evento “Incursão ao Rio Saí Mirim”, que deu origem a um detalhado relatório sobre os impactos ambientais causados ao rio.
De acordo com esse relatório, os impactos constatados, sobretudo no perímetro urbano, foram: supressão das matas ciliares; fragmentação de habitats fluviais; extração clandestina de palmito Juçara; plantio de essências exóticas (como Eucaliptos e Pinus); lançamento de efluentes (esgotos domésticos in natura), resíduos do manejo de arrozeiras e, principalmente, desmatamento e ocupação ilegal das margens do rio. Constatou, inclusive, adiantado processo de assoreamento em trechos próximos a desembocadura no mar.
Numa comparação, Werney considera o Saí Mirim e sua bacia hidrográfica tão importante quanto são as praias para o município.

“Algumas pessoas não compreendem por que morando em um município litorâneo com tanta praia e mar como Itapoá, insisto sobre o cuidado com o rio e a mata. Costumo responder que Itapoá é especial, pois tem praia, tem rio e tem mata”, diz Werney, “mas, se não cuidarmos, em pouco tempo isso poderá acabar”.

Ele acredita que o Saí Mirim, manancial para o abastecimento d’água de Itapoá, está ficando gradativamente comprometido, notadamente na região de Itapema do Norte, onde existem ocupações irregulares nas margens do rio.
Enquanto morador do município, sua expectativa vai de encontro com uma das propostas da ADEA, em que, as margens do rio, por força de lei municipal são consideradas Áreas de Preservação Permanente (APP’s), em 100 metros, de cada lado, nas áreas não loteadas, e 50 metros nas urbanizadas, devem ser transformadas em Unidade de Conservação fazendo parte de um mosaico abrangendo 50% do território, composto por Áreas de Preservação Ambiental (APA’s), Parques Lineares, Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN’s) e outras modalidades, a começar pelas margens do Saí Mirim.
Para isso, são necessárias políticas ambientais voltadas à conservação e a preservação. “Nos últimos anos, em Itapoá, as políticas ambientais foram direcionadas às questões relativas a licenciamentos ambientais para supressão de vegetação. Os licenciamentos são importantes, mas acredito que devem ser submetidos a uma visão conservacionista e preservacionista”, diz Werney.
Em sua opinião, não basta que alguns moradores tenham consciência sobre a necessidade de proteger o meio ambiente e impedir todas as formas de poluição e agressão ao Rio Saí Mirim, mas que a população como um todo deveria ser sensibilizada. Por fim, Werney parafraseia o dizer do economista Moura Andrade, que considera adequado ao momento atual: “se cada pessoa, individualmente, destruir um infinitésimo (uma árvore, por exemplo), o efeito, aparentemente, parecerá mínimo, mas se coletivamente todos destruírem um infinitésimo, haverá certamente uma tragédia ambiental”.

Ética e educação
ambiental
Em nome da equipe da Assessoria e Planejamento Ambiental & Associados – Asplamb, Jéssica Holz, bióloga e responsável técnica, ressalta que, para preservar o Rio Saí Mirim, é preciso tratar o esgoto doméstico para que não seja lançado in natura no rio, evitar o desmatamento e construções em áreas não edificáveis, realizar o replantio de espécies nativas para evitar o assoreamento, além de prevenir, avaliar e monitorar a mata ciliar associada ao Rio Saí Mirim.
Ela explica que as áreas de matas ciliares e manguezais estão inseridos dentro do conceito de Áreas de Preservação Permanente (APP’s), ou seja, áreas protegidas, cobertas ou não por vegetação nativa, com a função ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica e a biodiversidade, facilitar o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas, definidas no Novo Código Florestal (Lei Federal nº 12.651/2012). “Contudo, a lei tem o sentido, também, de proibir construções às margens do referido rio devido às enchentes que podem ocorrer, realizando danos às propriedades”, explica.
Para tal, a empresa Asplamb pode contribuir atuando junto das entidades ambientais municipais na elaboração de projetos de educação ambiental e de projetos técnicos, com o intuito de recuperar e monitorar as áreas de APP do rio.

Por sua expressiva biodiversidade e atrativos naturais de beleza incomum, o Rio Saí Mirim encanta a todos.

Secretaria de Meio Ambiente em ação
Além de ser o manancial que abastece água para a população itapoaense, irriga sua agricultura e apresenta a maior bacia hidrográfica da região, recebendo contribuições de diversas vertentes, Ricardo Haponiuk, secretário do Meio Ambiente de Itapoá, salienta outra notável característica do Rio Saí Mirim: “Ele atravessa longitudinalmente todo o território itapoaense, desde a zona rural até a divisa com o Paraná. Essa mistura de características o torna, por consequência, o curso d’água mais importante para Itapoá” – o que justifica a necessidade da sua preservação.
Entre as maneiras de se proteger os cursos d’água, ele destaca a preservação de seus mananciais, a manutenção das matas ciliares e o combate à poluição. “Legalmente, há uma série de dispositivos nas diversas esferas que protegem os recursos hídricos, boa parte deles focados, essencialmente, na conservação da qualidade d’água, que é crucial para todas as atividades humanas. O novo Código Florestal (Lei nº 12.651/2012), por exemplo, instituiu como Áreas de Preservação Permanente (APP’s) espaços de caráter ambiental frágil ou vulnerável, como é o caso das nascentes e das margens dos rios. Nessas situações, a interferência antrópica é regulamentada a fim de preservar as condições naturais da área”, explica Ricardo, “dessa forma, construções e supressão de vegetação nessas regiões são, salvo algumas exceções, vedadas, assim como o lançamento de esgoto ou efluentes não tratados diretamente nos rios”.
Como já mencionado, a manutenção da vegetação que margeia o rio é fundamental para a conservação dos recursos hídricos. O secretário do Meio Ambiente explica que a mata ciliar, como é tecnicamente conhecida, apresenta um conjunto de funções ecológicas que influenciam a qualidade da água, além de desempenhar um papel importante no combate ao assoreamento dos cursos da água. “Vale ressaltar que a reposição dessa mata, quando degradada, deve ser feita com rigor técnico, principalmente no que diz respeito ao tipo de vegetação a ser replantada.
O simples fato de plantar qualquer tipo de árvore na beira dos rios, principalmente espécies exóticas, não garante o papel crucial que a mata ciliar desempenha”, diz.
Por fim, Ricardo, em nome da Secretaria de Meio Ambiente, explica que para colocar em prática qualquer iniciativa quanto ao Rio Saí Mirim, como ações e/ou projetos, é necessário, primeiramente, conhecer o curso d’água, a dinâmica da sua bacia de contribuição e dos seus afluentes.

“Para esse propósito, a Secretaria já está compilando informações e dados já existentes, assim como irá desenvolver estudos complementares para produzir um diagnóstico preliminar do Rio Saí Mirim”, diz o secretário de Meio Ambiente.

Ainda conforme o secretário, a partir dessa análise será possível ter um panorama da realidade do curso d’água: “somente então, vamos partir para a fase de elaboração de projetos tecnicamente mais fidedignos e coerentes com as reais demandas da comunidade itapoaense”.

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Por nos contemplarem com suas informações técnicas e opiniões acerca deste tema, agradecemos também a Antonio Carlos Pereira, extensionista técnico da Epagri, Elimar Althaus Monte Raso, operador da Itapoá Saneamento, Andressa Ritter Vaz, assessora de comunicação da Itapoá Saneamento, Werney Serafini, secretário executivo da Associação de Defesa e Educação Ambiental (ADEA), Jéssica Holz,
bióloga e responsável técnica da Assessoria e Planejamento Ambiental & Associados (ASPLAMB), e Ricardo Haponiuk, Secretário do Meio Ambiente da Prefeitura Municipal de Itapoá.

Ana Beatriz Machado
Matéria publicada na Revista Giropop – Edição 51