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Sorria com amor, você está em Salvador

 

Professora de Itapoá (SC), Patrícia Machado Pereira cresceu escutando ídolos baianos, como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Dorival Caymmi e Maria Bethânia. Todas aquelas canções falavam sobre as cores, os amores e os sabores da Bahia.
Recém-aposentada, Patrícia ganhou de sua filha Ana Beatriz (quem vos escreve) um presente inusitado no Dia das Mães: uma viagem a Salvador, capital da Bahia. Juntas, mãe e filha descobriram “o que é que a Bahia tem”.

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Ana Beatriz e Patrícia, mãe e filha curtindo o presente de Dia das Mães, juntas, em Salvador.

Ana Beatriz Machado Pereira da Costa

O ano de 2019 era perfeito para a viagem acontecer, já que Patrícia completou 50 anos de idade, estava aposentada, depois de 28 anos de trabalho frente à educação de Itapoá. A escolha do presente foi clara, já que Patrícia tinha o gingado, o colorido e a alegria da Bahia – só faltava ir para lá.
Contando com a atual Brasília, o Brasil já teve três capitais, e a primeira delas foi Salvador – a capital brasileira por 214 anos, entre 1549 e 1763. Sua escolha foi determinada pela posição estratégica que a Baía de Todos os Santos representava para os navegadores portugueses, já que por ali escoava a maior parte do pau-brasil extraído.
Fundada, inicialmente, como São Salvador da Bahia de Todos os Santos, a cidade fica situada ao Nordeste do Brasil e é notável em todo o mundo pela sua gastronomia, música e arquitetura. A influência africana em muitos aspectos culturais da cidade a torna o centro da cultura afro-brasileira.
A viagem, que foi comprada em maio, aconteceu no mês de outubro. Patrícia recorda a primeira impressão que teve da cidade soteropolitana: “Salvador, como qualquer capital, é muito grande, com mais de 2,8 milhões de habitantes. A diferença é que lá, em cada canto que se vê, parece verão e Carnaval o ano todo. A cidade é totalmente musical!”.

Praia da Barra: agito, música e águas cristalinas

Dias de Barra
Inicialmente, ficamos hospedadas na região da Barra, um bairro ao Sul de Salvador, que possui uma localização geográfica única no mundo, onde é possível ver tanto o nascer quanto o pôr do sol no mar – já que ocupa o vértice da península em que está a cidade.
“A Barra foi nosso quintal por quatro dias. Dobrando uma esquina, estávamos no barzinho que ganhou o nosso coração, o La Bouche. Dobrando outra esquina, já estávamos no Farol da Barra, um dos principais cartões-postais de Salvador. Tudo isso, à beira da Praia da Barra, bastante agitada, ensolarada e cheia de vida”, comenta Patrícia. Na região, conhecemos o Farol da Barra, o Museu Náutico da Bahia (que fica dentro do Farol) e o Cristo da Barra – e, claro, ‘batemos cartão’ todos os dias no La Bouche, ao som de muito axé, samba e MPB.
Ao pegarmos o mapa de Salvador, notamos que as outras atrações turísticas que gostaríamos de visitar ficavam mais descentralizadas. Portanto, mudamos os ares e nos hospedamos no coração do famoso Pelourinho, carinhosamente chamado de Pelô.

As cores, as ladeiras e os encantos do Pelourinho, o famoso Pelô.

As cores do Pelô
Nas palavras de minha mãe, Patrícia: “O Pelourinho fica no Centro Histórico de Salvador, com ruas estreitas, enladeiradas e com calçamento em paralelepípedos. É como se fosse um grande shopping ao ar livre, pois oferece inúmeras atrações turísticas e musicais. Há uma concentração de bares, restaurantes, lojas, museus, teatros, terreiros, associações, igrejas e outros monumentos de grande valor histórico”. Com um conjunto arquitetônico colonial barroco brasileiro preservado e integrante do Patrimônio Histórico da ONU (Organização das Nações Unidas) para a Educação, a Ciência e a Cultura, o Pelourinho é repleto de cores, ritmos e ‘transpira’ arte, cultura e história.
Salvador é dividida entre a Cidade Baixa e a Cidade Alta. A primeira, é a área litorânea (banhada pela Baía de Todos os Santos), uma planície relativamente estreita, cujas principais atividades econômicas da região são a portuária e a comercial. Já a Cidade Alta, trata-se da parte maior e mais moderna da cidade de Salvador. Do Pelô, pegamos o tradicional Elevador Lacerda, para descer da Cidade Alta à Cidade Baixa. O Elevador Lacerda é o primeiro elevador urbano do mundo, inaugurado em 1873. Do alto de suas torres, a vista é linda para a Baía de Todos os Santos. Também é possível descer para a Cidade Baixa com o Plano Inclinado, uma espécie de bondinho que custa apenas 15 centavos. Pegando o Elevador Lacerda para a Cidade Baixa, conhecemos o famoso Mercado Modelo – um pavilhão com mais de 200 lojas que oferecem a maior variedade em souvenires da Bahia, e passeamos pelo Forte de São Marcelo e Porto de Salvador.
Ficaria difícil listar todas as atrações que nós, mãe e filha, visitamos e nos apaixonamos no Pelô. Algumas delas foram: a Casa de Jorge Amado com o café Zélia Gattai, a varanda de Michael Jackson (onde ele gravou o videoclipe de They Don’t Care About Us, em 1996) e a ABCA (Associação Brasileira de Capoeira Angola). Mas duas atrações no Pelourinho merecem destaque especial: a Terça da Bênção, na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, uma missa católica, ritmada com atabaques como nos terreiros de candomblé; e a Casa do Carnaval da Bahia, um museu moderno e interativo, com ambientes, figurinos, instrumentos musicais, guias e salas que contam a história do Carnaval, dos trios elétricos, das cantoras e dos cantores de Carnaval, do samba e do nosso povo.
Para visitar essas atrações, Patrícia dá as dicas: “A missa da Igreja dos Pretos acontece às terças-feiras. É gratuita, mas é abarrotada de fiéis e turistas, por isso, é bom chegar cedo. Vale muito a pena, pois é uma missa linda, onde o catolicismo anda de mãos dadas com as religiões de matriz africana. A fé e a emoção dos baianos nessa missa é de arrepiar! Já para a conhecer a Casa do Carnaval da Bahia é preciso pagar o ingresso no valor de R$ 30. O local é repleto de figurinos e instrumentos originais que marcaram a carreira de grandes artistas, como Ivete Sangalo, Carlinhos Brown, Timbalada e É o Tchan. Com um dispositivo e um fone de ouvido, podemos ouvir narrações e assistir a vídeos que contam, em temas, a história do Carnaval, do samba e da Bahia. O museu tem uma trilha sonora deliciosa, com clássicos do axé, e também nos leva a uma sala interativa, onde nos fantasiamos com adereços e aprendemos coreografias de músicas. Ao final, somos levados a um terraço colorido com uma vista linda para assistir ao pôr do Sol na Baía de Todos os Santos. Para quem vai ao Pelô, a ida à Casa do Carnaval da Bahia é imperdível”.

Um de nossos lugares favoritos em todo o Pelourinho: a Casa do Carnaval da Bahia.

Bonfim, Itapuã e Casa de Iemanjá
Depois de conhecer com calma cada cantinho da Praia da Barra, do Pelourinho e seus arredores, conhecemos a tradicional Igreja Senhor do Bonfim (padroeiro dos baianos), onde são distribuídas e amarradas em pedido as famosas fitinhas do Bonfim – um souvenir e amuleto típico de Salvador, e a famosa Sorveteria da Ribeira, que já faz parte do roteiro turístico de Salvador, uma vez que é point de celebridades como Ivete Sangalo, Gilberto Gil e Lázaro Ramos, e vende sorvetes com sabores de frutas típicas, como biribiri, cajá, mangaba, graviola e sapoti.
Mas, como boas filhas de Itapoá, aguardávamos ansiosas pela ida à Praia de Itapuã. Por lá, conhecemos a casa onde viveu o poeta Vinicius de Moraes, a Praça Vinicius de Moraes, a Praça Dorival Caymmi, o Farol de Itapuã e a praia vizinha, Stella Maris, que ganhou nossos corações com suas pedras que formam piscinas naturais, seus coqueiros e cactos que compõem cenários paradisíacos.
Ainda, desbravamos as belezas e o charme do Rio Vermelho, o bairro mais visitado de Salvador. “O Rio Vermelho é encantador tanto durante o dia, com sua vila de pescadores, paredes cheias de arte e estátuas de sereias por todo o canto, quanto durante a noite, a escolha certa para curtir a boemia baiana, com muito agito na Vila Caramuru, um conglomerado de restaurantes e bares com música ao vivo”, recorda Patrícia. No Rio Vermelho, está situada a Casa de Yemanjá, um espaço aberto para visitação com velas, estátuas de Iemanjá e rosas, onde pescadores, soteropolitanos e turistas agradecem e pedem bênçãos à Rainha do Mar.
Encantadas por cada canto do Rio Vermelho, em nosso último dia de viagem, fomos caminhando e curtindo cada praça, cenário e paisagem ao pôr do sol. A pé, passamos pela Praia da Paciência, por Ondina, até que, quando nos demos conta, havíamos caminhado mais de dez quilômetros e chego à Praia da Barra. E assim nossa viagem se encerrou: prestigiando a música baiana no La Bouche e brindando com acarajé no gramado do Farol da Barra – exatamente no mesmo lugar onde tudo começou.

Outros pontos turísticos apaixonates no Pelô: a Fundação Casa de Jorge Amado, a sacada onde Michael Jackson gravou seu videoclipe e a ABCA (Associação Brasileira de Capoeira Angola) — representada pelo Mestre Pelé da Bomba.

O que é que a Bahia tem
Essa foi nossa primeira viagem “mãe e filha” e adoramos a experiência. Nos tornamos mais amigas, mais parceiras, colecionamos memórias e bons momentos. Nas palavras de minha mãe, Patrícia: “Antes mesmo de embarcar, já sabíamos que iríamos nos apaixonar por Salvador, pois tudo lá é a nossa cara, desde as músicas até o clima ensolarado. Mas viver essa experiência com uma pessoa com quem temos um vínculo afetivo tão forte foi ainda mais especial”.
É certo que, em Salvador, nem tudo são flores: o assédio de vendedores e pedintes incomoda um pouco, especialmente no Pelourinho. Mas, diferente do que muitos aqui no Sul acreditam, o povo baiano é muito criativo, disposto e trabalhador. Antes mesmo que nós, turistas, pensemos em acordar, eles já estão na areia das praias com suas estruturas e barraquinhas montadas, oferecendo tudo o que você possa imaginar debaixo do Sol a pino. É incrível o esforço que fazem para tirar seu ganha-pão e ver, nós, os turistas, felizes. Nós frisamos que tão importante quanto visitar Salvador é conhecer sua história, a história do nosso povo. O Pelourinho, por exemplo, apesar de tantas cores, festividades e grupos musicais, nasceu como espaço de castigo dos escravos. O próprio nome ‘Pelourinho’ é originado da coluna de cantaria (pedra) com argolas de bronze (que estão presentes nas calçadas do Pelô até hoje), na qual escravos eram amarrados e torturados. Também há quem conte que, antigamente, escravos eram comercializados no subsolo do que é hoje o Mercado Modelo onde muitos morreram afogados. Já a famosa Ladeira da Preguiça leva esse nome porque era lá que mercadorias eram transportadas do porto para a cidade, nas costas de escravos ou em carretas abarrotadas empurradas por eles, enquanto a elite da época se divertia com gritos de “sobe, preguiça!”, ao presenciar os escravos subindo penosamente a ladeira.

Vista do Elevador Lacerda, em frente à tradicional Igreja Nosso Senhor do Bomfim,
e a Praia da Barra com vista para o Forte da Barra.

Entendida a história por trás de cada ponto turístico, Salvador se torna um local ambíguo: de energia forte, boa e ao mesmo tempo ruim, um lugar alegre e ao mesmo tempo triste, com um povo alegre, feliz, devoto e festeiro, mas que já sofreu (e ainda sofre) pela cor de sua pele.
Na cidade onde em cada canto há um gênero musical tocando (axé, forró, reggae, samba, MPB, diversos grupos percussivos, funk, entre outros), Patrícia lembrou muito da família: “A todo tempo, lembrava-me de meu filho Francisco, de 12 anos, músico e estudioso de violão e percussão erudita, e de meu esposo Baiano, músico percussionista na banda Djong’s Roots, filho de baianos do interior da Bahia. Nosso plano é voltar a Salvador – dessa vez, acompanhada deles, que são músicos maravilhosos e vão amar o lugar”.
Para Patrícia, todos deviam conhecer a capital baiana, rica em tradição, cultura, história e belezas naturais. “Ir a Salvador é aprender sobre a história do Brasil, a história do nosso povo”, diz. E a viagem mãe e filha deu tão certo que, em breve, iremos repetir a dose, com destino a Amazônia. Em nome de mainha e dessa filha que vos escreve, fica a sugestão: que todos os filhos façam ao menos uma viagem com suas mães, fortaleçam seu vínculo afetivo, aprendam, errem, acertem, passem perrengues e vivam experiências incríveis – tudo isso, de preferência, na capital baiana, que é mágica e contagiante.

Passando a tarde em Itapuã; saboreando o acarajé da Sônia;
agradecendo à Rainha do Mar na Casa de Yemanjá, situada no Rio Vermelho.